O Bhagavad-gita Como Ele É

O Bhagavad-gita Como Ele É

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

O Bhagavad-gītā também é conhecido como Gītopaniad. Ele é a essência do conhecimento védico e um dos mais importantes Upaniads da literatura védica. É claro que, em inglês, há muitos comentários ao Bhagavad-gītā, e pode-se perguntar qual a necessidade de outro. A presente edição pode ser explicada da seguinte maneira. Recentemente, uma senhora americana pediu-me que lhe recomendasse uma tradução do Bhagavad-gītā em inglês. É evidente que nos Estados Unidos existem muitas edições do Bhagavad-gītā disponíveis em inglês, porém, ao que me consta, não só nos Estados Unidos, mas também na Índia, nenhuma delas pode a rigor ser chamada de autorizada porque em cada uma delas o comentador expressa suas próprias opiniões e não toca no verdadeiro espírito do Bhagavad-gītā.

O espírito do Bhagavad-gītā é mencionado no próprio Bhagavad-gītā. Por exemplo, se quisermos tomar determinado remédio, temos de seguir as instruções contidas na bula. Não podemos tomar o remédio de acordo com nosso próprio capricho ou seguindo a instrução de um amigo. Devemos tomá-lo conforme as instruções da bula ou do médico. De modo semelhante, o Bhagavad-gītā deve ser recebido ou aceito conforme as instruções de seu próprio orador. O orador do Bhagavad-gītā é o Senhor Śrī Kṛṣṇa. Em cada página do Bhagavad-gītā, Ele é mencionado como a Suprema Personalidade de Deus, Bhagavān. Evidentemente, a palavra bhagavān às vezes refere-se a alguma pessoa ou semideus poderoso, e certamente aqui bhagavān designa o Senhor Śrī Kṛṣṇa como uma grande personalidade, porém, devemos ao mesmo tempo saber que o Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus, como é confirmado por todos os grandes ācāryas (mestres espirituais), tais como Śaṅkarācārya, Rāmānujācārya, Madhvācārya, Nimbārka Svāmī, Śrī Caitanya Mahāprabhu e muitos outros que são autoridades no conhecimento védico da Índia. No Bhagavad-gītā, o próprio Senhor também Se estabelece como a Suprema Personalidade de Deus, e é com esta conotação que O descrevem o Brahma-sahitāe todos os Purāas, especialmente o Śrīmad-Bhāgavatam, conhecido como o Bhāgavata Purāa (kṛṣṇas tu bhagavān svayam). Portanto, devemos aceitar o Bhagavad-gītā como ele é transmitido pela própria Personalidade de Deus.

No Quarto Capítulo do Gītā (4.1-3), o Senhor diz:

ima vivasvate yoga
proktav
ān aham avyayam
vivasv
ān manave prāha
manur ik
vākave bravīt

eva paramparā-prāptam
ima
rājarayo vidu
sa k
āleneha mahatā
yogo na
ṣṭa parantapa

sa evāya mayā te dya
yoga
prokta purātana
bhakto
si me sakhā ceti
rahasya
hy etad uttamam

Aqui, o Senhor informa a Arjuna que este sistema de yoga do Bhagavad-gītā, foi primeiramente falado ao deus do Sol, e o deus do Sol explicou-o a Manu, e Manu explicou-o a Ikṣvāku, e assim este sistema de yoga foi transmitido através da sucessão discipular, um orador após outro. Porém, com o decorrer do tempo, esta cadeia de mestres se perdeu. Como consequência, o Senhor veio ensinar esta ciência novamente, desta vez a Arjuna, no Campo de Batalha de Kurukṣetra.

Ele diz a Arjuna que está lhe contando este segredo supremo porque Arjuna é Seu devoto e amigo. Isto significa que o Bhagavad-gītā é um tratado destinado especialmente ao devoto do Senhor. Existem três classes de transcendentalistas, o jñānī, o yogī e o bhakta, ou seja, o impersonalista, o meditador e o devoto. Aqui, o Senhor diz claramente a Arjuna que está fazendo dele o primeiro recebedor de um novo paramparā (sucessão discipular) porque a sucessão antiga se havia rompido. Portanto, foi o desejo do Senhor de estabelecer um outro paramparā que seguisse na mesma linha de pensamento que o deus do Sol transmitira no passado, e foi Seu desejo que este ensinamento fosse distribuído por Arjuna. Ele queria que Arjuna se tornasse uma autoridade versada no Bhagavad-gītā. Assim vemos que o Bhagavad-gītā foi ensinado a Arjuna somente porque Arjuna era um devoto do Senhor, um discípulo direto de Kṛṣṇa e Seu amigo íntimo. Por isso, o Bhagavad-gītā é compreendido melhor por alguém com qualidades semelhantes às de Arjuna. Quer dizer, ele deve ser um devoto que cultive uma relação direta com o Senhor. Logo que a pessoa se torna um devoto do Senhor, ela desenvolve um relacionamento direto com o Senhor. Este é um assunto muito complexo, mas em resumo o devoto tem uma relação com a Suprema Personalidade de Deus em uma destas cinco diferentes maneiras: 1. Podemos ser um devoto em estado passivo; 2. Podemos ser um devoto em estado ativo; 3. Podemos ser um devoto em amizade; 4. Podemos ser um devoto como pai e mãe; 5. Podemos ser um devoto como amante conjugal.

Arjuna relacionava-se com o Senhor como amigo. É claro que há um abismo de diferença entre esta amizade e a amizade encontrada no mundo material. Esta amizade transcendental não é para qualquer um. É evidente que todos temos uma relação específica com o Senhor, e esta relação é instigada com a execução perfeita do serviço devocional. No nosso atual estado de vida, não apenas esquecemo-nos do Senhor Supremo, mas também esquecemo-nos de nossa relação eterna com Ele. Cada ser vivo, dentre os muitos, muitos bilhões e trilhões de seres vivos, tem uma relação específica com o Senhor eternamente. Isto se chama svarūpa. Pelo processo do serviço devocional, pode-se reviver esta svarūpa, e esta etapa chama-se svarūpa-siddhi — perfeição da nossa posição constitucional. Arjuna era um devoto, e seu relacionamento com o Senhor Supremo era em amizade.

Devemos notar como Arjuna aceitou este Bhagavad-gītā. Sua maneira de aceitar é mencionada no Décimo Capítulo (10.12-14):

arjuna uvāca
para
brahma para dhāma
pavitra
parama bhavān
puru
aśāśvata divyam
ādi-devam aja vibhum

āhus tvām ṛṣaya sarve
devar
ir nāradas tathā
asito devalo vyāsa

svaya
caiva bravīi me

sarvam etad ta manye
yan m
ā vadasi keśava
na hi te bhagavan vyakti

vidur dev
ā na dānavā

“Arjuna disse: Você é a Suprema Personalidade de Deus, a morada suprema, o mais puro, a Verdade Absoluta. Você é a pessoa original, eterna e transcendental, o não-nascido, o maior. Todos os grandes sábios, tais como Nārada, Asita, Devala e Vyāsa, confirmam esta verdade referente a Você, e Você mesmo acaba de revelá-la para mim. Ó Kṛṣṇa, aceito totalmente como verdade tudo o que Você me disse. Nem os semideuses, nem os demônios, ó Senhor, podem compreender Sua personalidade.”

Após ouvir a Suprema Personalidade de Deus falar o Bhagavad-gītā, Arjuna aceitou Kṛṣṇa como para brahma, o Brahman Supremo. Todo ser vivo é Brahman, mas o ser vivo supremo, ou a Suprema Personalidade de Deus, é o Brahman Supremo. Para dhāma quer dizer que Ele é o supremo repouso ou a suprema morada de tudo; pavitram quer dizer que Ele é puro, sem mácula de contaminação material; puruam quer dizer que Ele é o desfrutador supremo; śāśvatam, original; divyam, transcendental; ādi-devam, a Suprema Personalidade de Deus; ajam, o não-nascido; e vibhum, o maior.

Então, alguém pode dizer que, como Kṛṣṇa era seu amigo, Arjuna dizia-Lhe tudo isso para lisonjeá-lO, porém, com a intenção de dissipar este tipo de dúvida das mentes dos leitores do Bhagavad-gītā, Arjuna substancia tais exaltações no verso seguinte, quando diz que Kṛṣṇa é aceito como a Suprema Personalidade de Deus não só por ele, mas por autoridades como os sábios Nārada, Asita, Devala e Vyāsadeva. Estas grandes personalidades distribuem o conhecimento védico tal como é aceito por todos os ācāryas. Por isso, Arjuna diz a Kṛṣṇa que aceita como inteiramente perfeito tudo o que Ele fala. Sarvam etad ta manye: “Aceito como verdade tudo o que Você diz”. Arjuna também diz que a personalidade do Senhor é muito difícil de entender, e que Ele não pode ser conhecido nem mesmo pelos grandes semideuses. Isto significa que o Senhor não pode ser conhecido nem mesmo por personalidades superiores aos seres humanos. Então, como pode um ser humano compreender o Senhor Śrī Kṛṣṇa sem tornar-se Seu devoto?

Portanto, o Bhagavad-gītā deve ser recebido num espírito de devoção. Ninguém deve pensar que é igual a Kṛṣṇa, tampouco se deve pensar que Kṛṣṇa é uma personalidade comum ou quiçá uma personalidade grandiosa. O Senhor Śrī Kṛṣṇa é a Suprema Personalidade de Deus. Assim, de acordo com as afirmações do Bhagavad-gītā ou as declarações de Arjuna, para alguém que esteja tentando compreender o Bhagavad-gītā, deve-se ao menos em teoria aceitar Śrī Kṛṣṇa como a Suprema Personalidade de Deus, e com este espírito submisso poderemos então compreender o Bhagavad-gītā. Quem não lê o Bhagavad-gītā num espírito submisso terá muita dificuldade em compreender o Bhagavad-gītā, porque ele é um grande mistério.

O que exatamente é o Bhagavad-gītā? O Bhagavad-gītā propõe-se a livrar a humanidade da ignorância contida na existência material. Cada um de nós anda às voltas com tantos obstáculos, assim como Arjuna tinha diante de si esta dificuldade de lutar na Batalha de Kurukṣetra. Arjuna rendeu-se a Śrī Kṛṣṇa, e em consequência este Bhagavad-gītā foi falado. Não só Arjuna, mas cada um de nós, vive cheio de ansiedades devido à nossa existência material. Nossa própria existência está na atmosfera da não-existência. De fato, não estamos destinados às ameaças da não-existência. Nossa existência é eterna. Mas de um jeito ou de outro fomos postos em asat. Asat refere-se àquilo que não existe.

Dentre tantos seres humanos que estão sofrendo, poucos são os que realmente perguntam sobre sua posição, sobre quem são, por que estão nesta posição ingrata e assim por diante. Se a pessoa não despertar para esta plataforma na qual ela quer saber o porquê de seu sofrimento, se não se der conta de que não quer sofrer, mas sim encontrar uma solução para todo este sofrimento, ela não deve então ser considerada um ser humano perfeito. A raça humana começa quando este tipo de indagação desperta na mente. No Brahma-sūtra, esta indagação chama-se brahma-jijñāsā. Athāto brahma-jijñāsā. Toda atividade do ser humano deve ser considerada um fracasso a não ser que ele indague sobre a natureza do Absoluto. Portanto, aqueles que perguntam porque estão sofrendo, de onde vieram e para onde irão após a morte são estudantes qualificados para entender o Bhagavad-gītā. O estudante sincero deve também ter profundo respeito pela Suprema Personalidade de Deus. Arjuna era este tipo de estudante.

O Senhor Kṛṣṇa advém especificamente para restabelecer o verdadeiro propósito da vida sempre que este propósito é esquecido por nós. Mesmo assim, dentre os muitos e muitos seres humanos que despertam, talvez haja um que realmente procure compreender sua posição, e para ele é falado este Bhagavad-gītā. De fato, todos estamos sendo engolidos pelo tigre da ignorância, mas o Senhor tem muita misericórdia das entidades vivas, especialmente dos seres humanos. Foi por isso que Ele falou o Bhagavad-gītā, fazendo do Seu amigo Arjuna Seu aluno.

Sendo um companheiro do Senhor Kṛṣṇa, Arjuna estava acima de toda a ignorância, mas no Campo de Batalha de Kurukṣetra, Arjuna foi posto em ignorância só para perguntar ao Senhor Kṛṣṇa sobre os problemas da vida, para que o Senhor pudesse explicá-los para o benefício das futuras gerações de seres humanos e assim traçar o plano de vida. A humanidade assim poderá agir de acordo com estes princípios e aperfeiçoar a missão da vida humana.

O assunto do Bhagavad-gītā envolve a compreensão de cinco verdades básicas. Em primeiro lugar, explica-se a ciência de Deus e também a posição constitucional das entidades vivas, as jīvas. Existe o īśvara, que significa o controlador, e há as jīvas, as entidades vivas que são controladas. Se uma entidade viva diz que não é controlada mas sim, livre, então ela é doida. O ser vivo é controlado em todos os aspectos, pelo menos em sua vida condicionada. O Bhagavad-gītā então, descreve o īśvara, o controlador supremo, e as jīvas, as entidades vivas controladas. Também discute prakti (a natureza material) e o tempo (a duração da existência de todo o Universo, ou da manifestação da natureza material) e karma (atividades). A manifestação cósmica está cheia de diferentes atividades. Todas as entidades vivas estão ocupadas em diversas atividades. Através do Bhagavad-gītā, devemos aprender o que é Deus, o que são as entidades vivas, o que é prakti, o que é a manifestação cósmica, como ela é controlada pelo tempo, e quais são as atividades das entidades vivas.

Dentre os cinco tópicos básicos, inseridos no Bhagavad-gītā, fica comprovado que a Divindade Suprema, ou Kṛṣṇa, ou Brahman, ou o controlador supremo, ou Paramātmā — você pode usar o nome que lhe aprouver — é de todos o maior. Os seres vivos têm as mesmas qualidades do controlador supremo. Por exemplo, o Senhor tem o controle dos assuntos universais da natureza material, como será explicado nos capítulos posteriores do Bhagavad-gītā. A natureza material não é independente. Ela age sob a direção do Senhor Supremo. Como o Senhor Kṛṣṇa diz, mayādhyakea prakti sūyate sa-carācaram: “Esta natureza material funciona sob Minha direção”. Quando vemos fenômenos maravilhosos acontecendo na natureza cósmica, devemos saber que, por trás desta manifestação cósmica, há um controlador. Nada poderia manifestar-se se não houvesse controle. É infantilidade não levar em conta a presença do controlador. Por exemplo, uma criança pode achar que um automóvel seja realmente maravilhoso, capaz de correr sem ser puxado por um cavalo ou um outro animal, mas um adulto são, sabe sobre a engenharia mecânica do automóvel. Ele sempre sabe que por trás da máquina há um homem, um motorista. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o motorista sob cuja direção tudo funciona. Como veremos nos capítulos ulteriores, o fato é que as jīvas, ou entidades vivas, foram aceitas pelo Senhor como Suas partes integrantes. Uma partícula de ouro também é ouro, uma gota d’água do oceano também é salgada, e da mesma maneira, nós, as entidades vivas, sendo partes integrantes do controlador supremo, īśvara, ou Bhagavān, Senhor Śrī Kṛṣṇa, temos em quantidade diminuta todas as qualidades do Senhor Supremo porque somos īśvaras diminutos, īśvaras subordinados. Estamos tentando controlar a natureza, e atualmente estamos tentando controlar o espaço, os planetas, e temos esta tendência de controlar, porque ela existe em Kṛṣṇa. Porém, embora tenhamos a tendência de dominar a natureza material, devemos saber que não somos o controlador supremo. Isto é explicado no Bhagavad-gītā.

O que é a natureza material? Este ponto também é explicado no Gītā como prakti inferior, natureza inferior. Menciona-se que a entidade viva é prakti superior. A prakti, inferior ou superior, está sempre sob controle. A prakti é feminina, e é controlada pelo Senhor, assim como as atividades da esposa são controladas pelo marido. A prakti é sempre subordinada, predominada pelo Senhor, que é o predominador. As entidades vivas e a natureza material são predominadas, e estão controladas pelo Senhor Supremo. Segundo o Gītā, as entidades vivas, embora partes integrantes do Senhor Supremo, devem ser consideradas prakti. Isto é claramente mencionado no Sétimo Capítulo do Bhagavad-gītā. Apareyam itas tv anyā prakti viddhi me parām/ jīva-bhūtām: “Esta natureza material é Minha prakti inferior, porém, além desta há outra prakti jīva-bhūtām, a entidade viva”.

A própria natureza material é constituída por três qualidades: o modo da bondade, o modo da paixão e o modo da ignorância. Acima destes modos, há o tempo eterno, e através da combinação destes modos da natureza e sob o controle e jurisdição do tempo eterno, existem as atividades que são chamadas karma. Essas atividades vêm sendo realizadas desde tempos imemoriais, e sofremos ou gozamos dos frutos de nossas atividades. Por exemplo, suponha que eu seja um homem de negócios e tenha usado minha inteligência trabalhando arduamente para conseguir um grande saldo bancário. Então, sou o desfrutador. Mas digamos então que eu tenha perdido todo o dinheiro nos negócios; então, sou o sofredor. Do mesmo modo, em cada esfera da vida gozamos ou sofremos os resultados de nosso trabalho. Isto se chama karma.

Īśvara (o Senhor Supremo), jīva (a entidade viva), prakti (a natureza), kāla (o tempo eterno) e karma (atividades) são todos explicados no Bhagavad-gītā. Destes cinco, o Senhor, as entidades vivas, a natureza material e o tempo, são eternos. A manifestação de prakti pode ser temporária, mas não é falsa. Certos filósofos dizem que a manifestação da natureza é falsa, porém, segundo a filosofia do Bhagavad-gītā ou segundo a filosofia dos vaiṣṇavas, não é bem assim. A manifestação do mundo não é aceita como falsa; é aceita como real, embora temporária. É comparada a uma nuvem que passa no céu, ou à vinda da estação das chuvas, a qual nutre os grãos. Logo que termina a estação das chuvas e logo que a nuvem vai-se embora, todas as plantações que foram nutridas pela chuva definharão. Do mesmo modo, esta manifestação material acontece num certo intervalo, permanece por algum tempo e então desaparece. Esta é a função da prakti. Mas este ciclo ocorre eternamente. Portanto, a prakti é eterna; ela não é falsa. O Senhor refere-Se a ela como “Minha prakti. Esta natureza material é a energia separada do Senhor Supremo, e de maneira semelhante, as entidades vivas também são energia do Senhor Supremo, embora não sejam separadas, mas eternamente relacionadas com Ele. Então o Senhor, a entidade viva, a natureza material e o tempo estão todos inter-relacionados e são eternos. Entretanto, o outro item, karma, não é eterno. De fato, os efeitos do karma podem ser bem antigos. Desde tempos imemoriais, estamos sofrendo ou desfrutando os resultados de nossas atividades, mas podemos modificar os resultados do nosso karma, ou de nossas atividades, e esta modificação depende da perfeição de nosso conhecimento. Estamos ocupados em várias atividades. Evidentemente, não sabemos que tipo de atividades devemos adotar para aliviarmo-nos das ações e reações de todas essas atividades, mas isto também se explica no Bhagavad-gītā.

A posição do īśvara,o Senhor Supremo, é uma de consciência suprema. As jīvas, ou entidades vivas, sendo partes integrantes do Senhor Supremo, também são conscientes. A entidade viva e a natureza material são explicadas como prakti, a energia do Senhor Supremo, porém uma delas, a jīva, é consciente. A outra prakti não é consciente. Esta é a diferença. Logo, a jīva-prakti é chamada superior porque a jīva tem consciência semelhante à do Senhor. Entretanto, a consciência do Senhor é suprema, e ninguém deve ficar argumentando que a jīva, a entidade viva, também é supremamente consciente. Em fase alguma de sua perfeição pode o ser vivo ser supremamente consciente, e a teoria segundo a qual ele pode atingir este ponto é uma teoria desorientadora. Ele pode ser consciente, mas nunca perfeita ou supremamente consciente.

A distinção entre a jīva e o īśvara será explicada no Décimo Terceiro Capítulo do Bhagavad-gītā. O Senhor é ketra-jña, consciente, assim como o ser vivo, mas o ser vivo é consciente de seu corpo particular, ao passo que o Senhor é consciente de todos os corpos. Porque Ele vive no coração de cada ser vivo, o Senhor é consciente das atividades psíquicas de cada uma das jīvas. É bom não nos esquecermos disto. Explica-se também que o Paramātmā, a Suprema Personalidade de Deus, vive nos corações de todos como īśvara, o controlador, e que Ele dá instruções para a entidade viva agir de modo a satisfazer seus anseios. A entidade viva esquece-se dos atos que deve executar. Em primeiro lugar, ela resolve agir de certa maneira, e então enreda-se nas ações e reações de seu próprio karma. Após abandonar um corpo, ela ingressa em outro corpo, assim como vestimos e tiramos roupas. Ao passar por esta migração, a alma sofre as ações e reações de suas atividades passadas. Essas atividades podem mudar quando o ser vivo está no modo da bondade, em seu juízo perfeito, e compreende que espécie de atividades deve adotar. Se tomar esta atitude, então todas as ações e reações de suas atividades passadas poderão ser modificadas. Consequentemente, o karma não é eterno. Por isso, afirmamos que, dos cinco itens (īśvara, jīva, prakti, tempo e karma), quatro são eternos, mas o karma não é eterno.

O supremo consciente īśvara assemelha-Se à entidade viva no seguinte aspecto: tanto a consciência do Senhor quanto a da entidade viva são transcendentais. Não pense que a consciência surge através da associação com a matéria. Esta ideia é errada. A teoria que sugere que a consciência se desenvolve segundo a combinação de certas circunstâncias materiais não é aceita no Bhagavad-gītā. O reflexo da consciência pode parecer deturpado ao ser encoberto por circunstâncias materiais, assim como a luz refletida através de um vidro colorido aparentemente assume certa cor, mas a consciência do Senhor não é afetada materialmente. O Senhor Kṛṣṇa diz: mayādhyakea prakti. Quando Ele vem ao universo material, Sua consciência não é afetada materialmente. Se ela sofresse essa influência, Ele não teria condições de falar de assuntos transcendentais como aqueles que Ele transmite no Bhagavad-gītā. Nada pode dizer sobre o mundo transcendental quem não está livre de uma consciência materialmente contaminada. Portanto, o Senhor não está sob a contaminação material. Todavia, no momento atual, nossa consciência está materialmente contaminada. O Bhagavad-gītā ensina que temos de purificar esta consciência materialmente contaminada. Em consciência pura, nossas ações serão ajustadas à vontade do īśvara, e isso nos fará felizes. Não é que tenhamos de parar com todas as atividades. Ao contrário, nossas atividades devem ser purificadas, e atividades purificadas chamam-se bhakti. Atividades em bhakti parecem atividades comuns, mas a diferença é que elas não são contaminadas. Uma pessoa ignorante vai ver o devoto agindo ou trabalhando como um homem comum, mas essa pessoa que tem um pobre fundo de conhecimento não sabe que as atividades do devoto ou as do Senhor não são contaminadas pela consciência ou pela matéria impuras. Elas são transcendentais aos três modos da natureza. Devemos saber, porém, que neste momento nossa consciência está contaminada.

Quando estamos sob contaminação material, chamamo-nos condicionados. A consciência falsa manifesta-se naquele que se julga um produto da natureza material. Isto é chamado falso ego. Quem está absorto em pensar em conceitos corpóreos não pode compreender sua situação. O Bhagavad-gītā foi falado para que todos possam livrar-se da concepção de vida corpórea, e Arjuna colocou-se nesta posição para que o Senhor pudesse lhe fornecer esta informação. Devemos nos livrar da concepção de vida corpórea; esta é a atividade preliminar para quem deseja ser transcendentalista. A pessoa que quer tornar-se livre, que quer tornar-se liberada, deve primeiramente aprender que ela não é este corpo material. Mukti, ou liberação, significa estar livre da consciência material. Também no Śrīmad-Bhāgavatam é dada a definição de liberação. Muktir hitvānyathā-rūpa svarūpea vyavasthiti: mukti significa liberação do estado de consciência contaminada deste mundo material, e situar-se em consciência pura. Todas as instruções do Bhagavad-gītā servem para despertar esta consciência pura, e por isso encontramos na última etapa de instruções do Gītā, Kṛṣṇa perguntando a Arjuna se ele está agora em consciência purificada. Consciência purificada significa agir de acordo com as instruções do Senhor. Esta é a essência do significado de consciência purificada. A consciência existe porque somos partes integrantes do Senhor, mas temos a tendência de nos deixarmos afetar pelos modos inferiores. Porém o Senhor, sendo o Supremo, nunca é afetado. Esta é a diferença entre o Senhor Supremo e as pequeninas almas individuais.

O que é esta consciência? Esta consciência é “Eu sou”. Então, quem sou eu? Em consciência contaminada, “Eu sou” quer dizer “Eu sou o senhor de tudo o que me circunda. Eu sou o desfrutador”. O mundo prossegue porque cada ser vivo julga ser o senhor e criador do mundo material. A consciência material tem duas divisões psíquicas. Uma delas defende a ideia de que eu sou o criador, e a outra que eu sou o desfrutador. Mas na verdade, o Senhor Supremo é tanto o criador quanto o desfrutador, e a entidade viva, sendo parte integrante do Senhor Supremo, não é o criador nem o desfrutador, mas um cooperador. Ela foi criada para ser desfrutada. Por exemplo, a peça de uma máquina coopera com a máquina toda; uma parte do corpo coopera com todo o corpo. As mãos, pernas, olhos e assim por diante são todos partes do corpo, mas na verdade não são os desfrutadores. O desfrutador é o estômago. As pernas se locomovem, as mãos fornecem alimento, os dentes mastigam, e todas as partes do corpo estão ocupadas em satisfazer o estômago porque o estômago é o fator principal de nutrição na organização do corpo. Portanto, tudo é dado ao estômago. Nutre-se uma árvore regando-lhe a raiz, e nutre-se o corpo alimentando o estômago, pois para que o corpo se mantenha em estado saudável, as partes do corpo devem cooperar para alimentar o estômago. De modo semelhante, o Senhor Supremo é o desfrutador e o criador, e nós, como seres vivos subordinados, devemos procurar colaborar em satisfazê-lO. Esta cooperação acabará nos ajudando, assim como o alimento recebido pelo estômago ajudará todas as outras partes do corpo. Será um problema se os dedos da mão pensarem que devem tomar o alimento em vez de dá-lo ao estômago. A figura central da criação e do desfrute é o Senhor Supremo, e as entidades vivas cooperam com Ele. Cooperando, elas desfrutam. A relação é também como a do amo e do servo. Se o amo está plenamente satisfeito, então o servo também fica satisfeito. Da mesma maneira, deve-se procurar satisfazer o Senhor Supremo, embora nas entidades vivas também exista a tendência de tornar-se o criador e a tendência de desfrutar o mundo material, porque estas tendências existem no Senhor Supremo, que criou o mundo cósmico manifesto.

Verificaremos, portanto, neste Bhagavad-gītā que o todo completo é formado pelo controlador supremo, pelas entidades vivas controladas, pela manifestação cósmica, pelo tempo eterno e pelo karma, ou atividades, todos os quais são explicados neste texto. Tomados em conjunto, todos eles formam o todo completo, e o todo completo é chamado de Suprema Verdade Absoluta. O todo completo e a Verdade Absoluta completa são a Personalidade de Deus completa, Śrī Kṛṣṇa. Todas as manifestações devem-se à Suas diferentes energias. Ele é o todo completo.

Explica-se também no Gītā que o Brahman impessoal também está subordinado à Pessoa Suprema completa (brahmao hi pratiṣṭhāham). O Brahma-sūtra explica mais explicitamente que o Brahman é como os raios do sol. O Brahman impessoal são os raios brilhantes da Suprema Personalidade de Deus. O Brahman impessoal é uma compreensão incompleta do todo absoluto, como também o é a concepção do Paramātmā. No Décimo Quinto Capítulo, fica claro que a Suprema Personalidade de Deus, Puruṣottama, está acima tanto do Brahman impessoal quanto da compreensão parcial acerca do Paramātmā. A Suprema Personalidade de Deus é chamada sac-cid-ānanda-vigraha. O Brahma-sahitācomeça da seguintemaneira: īśvara parama kṛṣṇa sac-cid-ānanda-vigraha/ anādir ādir govinda sarva-kāraa-kāraam. “Govinda, Kṛṣṇa, é a causa de todas as causas. Ele é a causa primordial, e Ele é a própria forma de eternidade, conhecimento e bem-aventurança.” A compreensão acerca do Brahman impessoal é a percepção de Seu aspecto sat (eternidade). A percepção Paramātmā é a compreensão acerca de sat-cit (conhecimento eterno). Mas entender a Personalidade de Deus, Kṛṣṇa, é entender todas as características transcendentais: sat, cit e ānanda (eternidade, conhecimento e bem-aventurança) na vigraha (forma) completa.

Pessoas menos inteligentes consideram a Verdade Suprema como impessoal, mas Ele é uma pessoa transcendental, e todos os textos védicos confirmam isto. Nityo nityānā cetanaś cetanānām. (Kaha Upaniad 2.2.13) Assim como todos nós somos seres vivos individuais e temos nossa individualidade, a Suprema Verdade Absoluta é também, em última análise, uma pessoa, e compreender a Personalidade de Deus é compreender todas as características transcendentais que existem em Sua forma completa. O todo completo não é amorfo. Se Ele é amorfo ou se Lhe falta algo, então, Ele não pode ser o todo completo. O todo completo deve ter tudo o que existe dentro e fora de nossa experiência, caso contrário, ele não poderia ser completo.

O todo completo, a Personalidade de Deus, tem potências imensas (parāsya śaktir vividhaiva śrūyate). No Bhagavad-gītā, também se explica como Kṛṣṇa age através de diferentes potências. Este mundo fenomenal ou mundo material em que nos encontramos também já é em si mesmo completo. Isto porque, segundo a filosofia sākhya, os vinte e quatro elementos que compreendem a manifestação temporária do universo material estão inteiramente ajustados para produzir recursos completos que são necessários para a manutenção e subsistência deste Universo. Não há nada impertinente, nem tampouco falta algo. O tempo de permanência desta manifestação é fixado pela energia do todo supremo, e expirado o tempo, estas manifestações temporárias serão aniquiladas, seguindo à risca o perfeito arranjo estabelecido pelo completo. Existem todas as condições favoráveis para que as pequenas unidades completas que são as entidades vivas, possam compreender o completo, e temos experiência de várias partes do incompleto devido ao conhecimento incompleto acerca do completo. Assim, o Bhagavad-gītā contém o conhecimento completo da sabedoria védica.

Este artigo é um excerto da introdução da obra O Bhagavad-gita Como Ele É. Leia a introdução completa aqui.

 

Adquira o Bhagavad-gita Como Ele É, de A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada:

22 Guerra, Paz e Rendição a Deus2

20. Gītādhyānam3

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4 Respostas

  1. Queria saber se o livro Bhagavad-gita tem algum custo.

    24 de maio de 2013 às 1:34 AM

    • Hare Krishna, amigo Mozair!

      O Bhagavad-gita pode ser lido integralmente, em português e sem qualquer custo no seguinte link: http://vedabase.com/pt-br/bg

      O senhor também pode comprar diferentes versões impressas do Bhagavad-gita impresso nesta loja eletrônica completamente confiável: http://www.sankirtana.com.br

      Esperamos que os links sejam úteis.

      Hare Krishna!

      27 de maio de 2013 às 1:13 PM

  2. elisa

    Hare Krsna!

    Esta versão disponibilizada no link http://vedabase.com/pt-br/bg é de A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada¿
    Vi que lá tem os comentários nos versos, estes são os feitos por Prabhupada¿
    Estou procurando o Baghavad Gita como Ele é traduzido por Prabhupada, mas para leitura on line…

    Agradeço a atenção!

    Abraços!

    25 de julho de 2013 às 5:58 PM

    • Hare Krishna, Elisa! A versão disponível no link referido é sim de A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Aproveite bem a leitura! Qualquer ajuda que precise, estamos à disposição.

      Abraços!

      26 de julho de 2013 às 10:39 AM

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