O Dilema dos Jovens

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Purushatraya Swami

Já houve um tempo em que velhice era sinal de sabedoria. Os jovens recorriam aos anciãos para receberem conselhos, pois viam neles uma experiência sólida acumulada pelos anos vividos. Havia respeito e até veneração. Mas e hoje? Será que não se fazem mais velhos como antigamente? Esse deve ser um sinal dos tempos…

Os velhos que me perdoem, mas tenho que dizer algumas verdades duras. Aos jovens, preparem-se, pois não é hora de adular ninguém, mas cair na realidade.

O fato é que se formou um profundo abismo entre as gerações. A maioria das pessoas da terceira idade parou no tempo e não consegue acompanhar a cabeça dos jovens. Posso falar com experiência própria, pois já conquistei o direito de viajar de graça nos ônibus urbanos e o privilégio de entrar na fila preferencial no caixa dos bancos, e sei que é difícil acompanhar o “pique” da rapaziada. Mas, mesmo assim, sem exagero de se passar por um velhinho avançado, é dever dos mais velhos contribuir para que os jovens tenham um presente e um futuro melhor e mais produtivo.

A maioria dos velhos se abstém de dar essa contribuição aos mais jovens, pois ficaram defasados com o tempo presente e não têm nada para contribuir. Assim, é comum escutarmos: “Porque no meu tempo…”. Quando se fala assim, sabemos que se perdeu o “trem” da história e que sua consciência ficou identificada completamente com a senilidade de seu corpo velho.

Essa identificação da alma com o corpo é um problema filosófico e psíquico sério. É muito difícil se desvencilhar desse conceito. É, inclusive, considerado como a essência da ignorância pelo conhecimento dos Vedas.

Um problema sério da velhice é a tendência à acomodação e à falta de perspectiva na vida. Dias atrás, uma senhora confidenciou-me: “Depois que se aposentou, meu marido acorda às dez da manhã, nem troca o pijama, toma um cafezinho, acende um cigarro, deita-se no sofá e liga a televisão. Todos os dias!”. Trata-se de um morto vivo. Vida improdutiva. Que exemplo essa pessoa passa para os filhos!

A coisa mais comum em todos os lugares em que passamos é ver, nas praças das cidades, um monte de aposentados desocupados jogando carteado ou dominó. Dia após dia, a mesma rotina. Dá dó de ver. Uma falta total do que fazer. Uma vida pobre, inútil e sem propósito.

Muitos idosos têm problemas sérios de saúde devido a anos de maus hábitos alimentares e estilos de vida viciosos. Em geral, as pessoas são conscientes de que a dieta alimentar que têm adotado por anos a fio é a causadora direta de sua doença, mas elas insistem em não mudar seus hábitos. “É o bife de cada dia”. Não conseguem mudar; não querem mudar. Perderam a capacidade de exercer a vontade sobre si mesmas. São totalmente condicionadas, como os cães de Pavlov. Vivem na esperança de que as pílulas receitadas pelos seus médicos, que geralmente estão nas mesmas condições que seus pacientes, vão lhes trazer saúde e alívio. Em geral, tornam-se hipocondríacos.

A consequência de uma vida insalubre é o sofrimento. A esses, só resta então se lamentar. A lamentação passa a ser a rotina de muitos idosos. Meditam profundamente em seu próprio sofrimento. Um sofrimento principalmente no nível mental. Quando encontramos um desses sofredores profissionais, temos que ouvir um longo relato de doenças, com todas as minúcias, pois a mesma história já foi repetida antes pelo menos uma dúzia de vezes. Em suma, existe uma carência total de satisfação e de realizações em suas vidas. Só frustração e sensação de derrota. Nesse estado, quem é capaz de inspirar e aconselhar alguém?

Em geral, todo velhinho ou toda velhinha parece uma pessoa boazinha. Muitos têm realmente bom coração e são desprovidos de malícia. Obviamente, todos têm os seus defeitinhos e manias, como todo mundo tem. Levam suas vidinhas domésticas e se contentam com o conforto da mediocridade.

A vida medíocre é uma vidinha que nem é muito boa nem muito ruim. Não se pode exigir nada especial de um medíocre. Na mediocridade não se tem a responsabilidade de se mostrar como um exemplo para os mais jovens. Nem são convocados para missões que exigem empenho e certo risco. Contentam-se com seu entretenimento doméstico, sua TV NET de oitenta canais e assim vão se definhando pacificamente. Livros? Ninguém mais os lê. Com a tevê, você não precisa pensar… Os jovens presenciam essas cenas dentro de suas casas.

A inaptidão para orientarem seus filhos faz com que os pais deleguem essa responsabilidade para a escola e o governo. Nem a escola nem o governo se preocupam em dar aos jovens o embasamento moral e espiritual necessário para ter uma vida virtuosa e chegar a uma velhice digna. A escola preocupa-se exclusivamente com a formação profissional imediatista, e o governo, em fazer da pessoa um bom consumidor e um bom pagador de impostos.

E como ficam os jovens diante disso tudo? Coitado deles, digo eu. A maioria está completamente desorientada e desprotegida. A condição de ser um jovem hoje em dia é muito precária e vulnerável. A pouca idade e a falta de experiência do jovem não lhe permite administrar apropriadamente sua vida. Isso é natural nessa idade. Eles necessitam de orientação e bons conselhos dos mais velhos. Definitivamente, a velhice não pode ser sinônimo de fracasso e derrota. Deve sim ser a reserva moral da sociedade e o manancial de sabedoria e realizações profundas.

O que acontece na prática é que, quando os jovens olham para os mais velhos e veem um estado de marasmo, alienação, decrepitude e acomodação, o pensamento que naturalmente vem à mente deles é: “O negócio é aproveitar e desfrutar da vida ao máximo agora, pois daqui a algum tempo ficarei assim como eles. Não posso perder essa chance”. Então, mergulham em todo tipo de excessos: nas drogas, no álcool, nas baladas, nas raves, na degradação, nos esportes radicais, nas noites em claro etc.

A maioria se estraga logo, pois o corpo não aguenta tal “tranco”. Muitos se degradam com as más companhias. Em outros, a vida acaba em tragédia. Nosso país é campeão em jovens mutilados por todo tipo de acidentes. Aqueles que “botaram pra quebrar” e chegaram à terceira idade acabam inevitavelmente numa situação mais crítica e bem pior do que aquela de seus pais! Completamente degradados de corpo e mente. E esse ciclo tende a se perpetuar nas próximas gerações. Onde estão os pais para darem bons exemplos? Estão perdidos também. A situação é crítica. Coitado deles…

Aos idosos que não se enquadram no modelo descrito acima e aos jovens que não se degradaram e não se massificaram com os modismos fúteis e com os engodos dessa sociedade desorientada e caótica, “tiro meu chapéu” em respeito e admiração.

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