O Fracasso dos Movimentos de Liberação

17 I (artigo - política) O Fracasso dos Movimentos de Liberação (1881)

Hridayananda Dasa Gosvami
(capítulo da obra Veda, Segredos do Oriente)

Quando você não tem conhecimento referente a Deus e à alma, seu esforço pela liberdade termina em cativeiro. Este artigo, originalmente publicado em 1983 na revista Volta ao Supremo, aborda um tópico sempre pertinente em um mundo constantemente esforçando-se pela paz.

A história moderna está repleta de movimentos de liberação. Mesmo a Revolução Estadunidense e a formação da nação estadunidense podem ser vistas como um tipo de movimento de liberação que assinalou o colapso final do colonialismo europeu.

Os estadunidenses, bem como povos de todas as nações, continuam criando movimentos de liberação que buscam libertar negros, mulheres, latinos, homossexuais e outros grupos do domínio social e da exploração econômica de grupos majoritários. Infelizmente, quase todos os movimentos de liberação parecem reforçar em vez de transcender a visão materialista de identidade pessoal e, destarte, carregam involuntariamente dentro de sua ideologia as sementes de mais preconceito, exploração e condicionamento – precisamente as coisas contra o que estão lutando. Isso pode ser explicado da seguinte maneira.

O materialismo moderno, frequentemente sob a rubrica de “ciência”, tende a definir a realidade exclusivamente em termos de matéria e das leis que governam a matéria. O biologista John Maynard Smith, da Universidade de Sussex, declara: “O indivíduo é simplesmente um invento construído pelos genes para garantir a produção de mais genes como eles”. De acordo com Dr. Richard L. Thompson, um matemático da Universidade Estadual de Nova Iorque, em Binghamton, “essa declaração exprime laconicamente o que a ciência moderna tem a dizer em relação ao significado da vida humana”.

Infelizmente, os movimentos modernos de liberação, talvez inconscientemente, parecem aceitar essa definição superficial de vida. Assim, no ato feminista de 17 de novembro de 1980, no pentágono, encontramos a seguinte declaração: “Somos feitas de sangue e ossos, somos feitas de… água”.

É óbvio que não somos sangue, ossos e água, haja vista que sangue, ossos e água são elementos materiais inconscientes que dificilmente marchariam até o pentágono para garantir direitos políticos e econômicos. Somos consciência, em virtude do que temos ciência do sangue, dos ossos, da água e assim por diante que constituem o nosso corpo. Nós seres conscientes marchamos para Washington para exigirmos os nossos direitos. Nós, que somos conscientes, formamos movimentos de liberação porque é da natureza da consciência buscar liberdade.

17 I (artigo - política) O Fracasso dos Movimentos de Liberação (1880)2

Formamos movimentos de liberação porque é da natureza da consciência buscar liberdade.

Se nos identificamos erroneamente como meras máquinas materiais, então, intencional ou desintencionalmente, destruímos a verdadeira base para uma sociedade pacífica e virtuosa: respeito pela identidade espiritual derradeira de todos os seres vivos.

Infelizmente, a maioria dos movimentos de liberação enfatiza nossas diferentes identidades corpóreas em termos de raça, gênero, etnia e até mesmo espécie, em consequência do que intensificam em vez de transcenderem nossa falsa identificação com o corpo material. Através dessa “balcanização” da vida, aprendemos a conceber a vida como uma perpétua batalha entre tipos de corpos.

Como vividamente demonstrado na bizarra história do comunismo, a dita liberação baseada em uma ideologia mundana e divisora tende a exacerbar em vez de melhorar as discórdias do mundo.

Analisemos mais essa síndrome. O corpo material deseja sexo, alimento, abrigo e defesa, enquanto a mente material busca gratificar seu orgulho e sua vaidade imaginando que é melhor do que outros. Uma pessoa apegada ao corpo material e à mente material e por eles controlada buscará gratificar os desejos do corpo e as vaidades da mente. Semelhante indivíduo terá a tendência a ser um explorador ou manipulador do mundo material, sendo levado a buscar prazer pessoal e superioridade, quer como indivíduo, quer através de uma identidade material coletiva, como família, comunidade, nação, ideologia ou mesmo uma religião sectária.

Esse primeiro estágio de liberação é entender que não sou um saco de moléculas ou uma máquina corpórea, mas sim consciência pura. O Bhagavad-gita nos ensina nossa identidade espiritual e fornece o seguinte exemplo para ilustrar nossa existência além do corpo material: nesta vida, primeiramente temos o corpo de um bebê, após o que temos um corpo de criança, então de adolescente e, por fim, de adulto. Embora o corpo substitua seus componentes físicos a cada sete anos, formando nesse período uma nova entidade física, permanecemos a mesma pessoa. Essa pessoa contínua é o eu, ou a alma.

Deste modo, livro-me da ilusão de ser uma biomáquina, a ilusão de que minha existência como uma pessoa consciente não é, em última instância, real, dado que pode ser reduzida a entidades impessoais inconscientes, como átomos e moléculas. Livro-me dos desejos exploradores e autocentrados que contaminam o corpo e a mente materiais. Isso é verdadeira liberação.

Pessoas libertas podem satisfazer suas necessidades espirituais e materiais básicas sem buscar, mental ou fisicamente, utilizar outras pessoas como instrumentos dessa satisfação. Assim, a alma liberta satisfaz o imperativo categórico de Kant de que tratemos cada pessoa como um fim em si, e não como um meio para os nossos fins.

Uma pessoa liberta vê todas as criaturas terrestres – aquelas em corpos de seres humanos, animais terrestres, pássaros, peixes, insetos, plantas etc. – como entidades espirituais eternas temporariamente envoltas em diversas coberturas materiais. Deste modo, uma pessoa liberta vê que toda entidade viva é espiritualmente igual a si e é digna de respeito e cuidado. Uma alma liberta não vê nenhuma criatura, inclusive aquelas em corpos animais, como meros objetos de consumo cruel ou manipulação. Uma pessoa liberta se opõe à inexplicável brutalidade do abatedouro e à devastação generalizada da Terra para a gratificação humana egoísta e desnecessária.

Como devemos proceder de forma prática para obter tal estado de consciência? Primeiramente, devemos nos livrar da ilusão de que somos máquinas materiais. Em seguida, devemos nos livrar dos desejos egoístas que poluem o corpo e a mente materiais. E, finalmente, devemos nos livrar do equívoco de que nos destinamos a sermos senhores da Terra. A Terra não pertence aos seres humanos, nem individual, nem coletivamente. Pertence a Deus. A experiência de Deus está imediatamente disponível a qualquer pessoa que cante Seu santo nome.

A exploração sistemática da Terra, dos corpos alheios ou mesmo do próprio corpo constitui grave irresponsabilidade e duplicidade uma vez que não temos qualquer evidência de que este mundo, ou mesmo nossos corpos, pertençam, em última instância, a nós. Ao chegarmos a uma nação em particular, nosso dever é entender as leis que governam aquele lugar. Similarmente, o conhecimento das leis que governam o universo é uma preocupação primordial a todo ser humano. Seria absurdo e autodestrutivo deixar de lado tais questões.

Se nos dedicamos à felicidade corpórea, sem compreendermos a alma e Deus, estamos irracionalmente presumindo duas coisas: (1) Presumimos que o corpo, e não a consciência, ou a alma, é nossa verdadeira identidade, digno de nossa preocupação maior senão exclusiva. Presumimos que somos o corpo e que talvez tenhamos uma alma, em vez de entendermos que somos consciência, ou eu ou alma, e que estamos vivendo em um corpo. (2) Presumimos que, se Deus existe, Ele não é um participante das questões humanas ou o controlador das mesmas, motivo pelo qual a satisfação de semelhante Deus é irrelevante ou desnecessária ao aprimoramento progressivo da condição humana. Implícita nesse entendimento errôneo está a conjetura de que os seres humanos têm o potencial para controlarem os assuntos da Terra e até mesmo de outros mundos. Isso deixa subentendido o direito de propriedade dos humanos sobre a Terra e possivelmente de outros planetas, um conceito repleto de intenções egoístas e destituído de exatidão objetiva.

Na verdade, Deus existe, e Suas leis governam o universo. A violação das leis de Deus perturba o mundo inteiro direta e indiretamente, assim como um crime comum, além de sua vítima específica, enfraquece todo o sistema de coexistência pacífica e é, destarte, socialmente indesejável por parte de todos os cidadãos. A violação das leis de Deus viola a sociedade em geral. A violação das leis de Deus, que são instituídas para a felicidade universal e florescimento de todas as almas, viola a ordem cósmica. Nós recebemos sem retribuir – o ato mais básico de injustiça.

Por outro lado, se Deus não cria o nosso corpo, e se não existe uma alma divina em seu interior, então o controle ou manipulação de outros é meramente um evento biofísico sem consequências, significado ou valores morais absolutos. Nesse pressuposto, a moralidade e a justiça são meras invenções de entidades farisaicas que estão meramente expressando os ditames de seus genes ou talvez suas fantasias pessoais de uma ordem moral objetiva.

Em tal realidade destituída de Deus e de alma, tentativas por parte de povos ou classes sociais para libertarem-se da opressão ou para conseguirem justiça seriam meros testes de força política para gratificação pessoal, uma brincadeira movida pelo darwinismo social sem qualquer significado derradeiro além dos caprichos humanos.

Se alegamos que Deus é inútil ou inexistente porque milhões de pessoas inocentes sofrem diante dos olhos do Deus todo-poderoso, aceitamos o conceito primitivo de que a alma é criada na presente vida e, por conseguinte, não pode ser culpada por seu sofrimento quando bebê, criança ou adulto visto que a alma sofredora não tem quaisquer atividades anteriores a este nascimento. O conceito de criação da alma, ou de única chance de salvação, exacerbou grandemente o dito “problema do mal”, em resposta ao que alguns teólogos foram levados a declarar que o sofrimento de inocentes é um mistério religioso inescrutável. Isso naturalmente enfraquece a esperança de encontrar uma explicação espiritual racional para a vida. A noção védica – e, com efeito, também a noção budista – de karma e reencarnação de acordo com princípios morais justos oferece uma abordagem mais racional para esse problema teológico constante.

Nós seres vivos residimos em nosso corpo como uma alma consciente eterna. Percebemos apenas nosso corpo e os corpos de outros, em virtude do que cometemos o equívoco de nos vermos como entidades materiais cujo verdadeiro lar é este mundo material. Nós, então, buscamos explorar o corpo para a gratificação egoísta em vez de o ocuparmos a serviço de Deus. Assim, as almas ignorantes, gananciosas e competitivas deste mundo se enredam em infindáveis conflitos e misérias.

A verdadeira tirania é a tirania da ilusão – a ilusão que encobre nossa natureza espiritual eterna. Uma alma consciente de Krishna trabalha pela justiça neste mundo com base na igualdade espiritual de tudo o que vive. Verdadeira liberação exige remover o eu consciente do ciclo de nascimento, morte, doença e velhice. A liberação que ignora nossa vida permanente, nossa felicidade última e nossa sabedoria suprema não é nada senão uma sombra da verdadeira liberdade.

Um mundo de poucos grandes exploradores ou um mundo de muitos pequenos exploradores produzirá a mesma confusão e o mesmo conflito. É burlesco procurar a paz em um mundo cheio de bilhões de deuses que competem entre si. A avidez por explorar a matéria por gratificação corpórea ou mental e, então, gratificar o falso ego é como um germe. Enquanto uma única célula desse germe permaneça na mente do sujeito, ela por fim crescerá e minará nossos esforços para o auferimento da liberação.

Muitos movimentos de liberação direta ou indiretamente, consciente ou inconscientemente, anulam a própria base do respeito entre todas as criaturas: reconhecer a santidade de todas as formas de vida. Fazem isso aderindo a um conceito material grosseiro de vida e ignorando a fonte transcendental de existência, aquela entidade consciente suprema que sozinha é a autoridade para estabelecer um imperativo irrefutável de um tratado social livre de exploração.

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2 Respostas

  1. Lucy Von Beust

    Sempre coerente, pois Krishna é a verdade.

    6 de maio de 2016 às 9:49 AM

  2. Pingback: Artigos e Palestras | Volta ao Supremo | Página oficial

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