O Milagre Macmillan

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Satyaraja Dasa

Não foi nem o famoso poeta Allen Ginsberg nem um devoto com experiência no mundo editorial que conseguiu uma editora para publicar pela primeira vez o Bhagavad-gita Como Ele É. Krishna escolheu fazer Seu milagre de uma maneira mais imprevisível e empolgante.

A Bhagavad-gita era importante para Srila Prabhupada. Ele via essa obra como o livro perfeito para comunicar a mensagem da consciência de Krishna, dado que ele consiste nas palavras do próprio Krishna e em Suas interações com Seu amado devoto. Em 1939, apenas sete anos depois que Prabhupada havia sido iniciado por seu mestre espiritual, ele escreveu em inglês uma extensa introdução ao livro, antevendo sua tradução integral e comentários, que apareceram logo depois que começou sua missão no ocidente.

Quando Prabhupada chegou a Nova Iorque em 1965, ele priorizou o seu trabalho na Bhagavad-gita. Na Índia, ele já havia completado uma tradução, que se estendia por mais de mil páginas, mas ela foi roubada. Em março de 1966, Prabhupada estava se ajustando à vida no mundo ocidental quando um evento lhe trouxe grande perda: sua máquina de escrever, seu gravador e diversos livros seus foram roubados. Contudo, ele era resiliente e estava determinado a terminar seu trabalho. Em 1967, ele terminou o novo manuscrito, novamente perfazendo mais de mil páginas, e decidiu conseguir uma editora grande e renomada para que sua mensagem fosse ouvida por todo o mundo.

Nesse período, Allen Ginsberg, famoso poeta da Geração Beat, visitava o templo de Nova Iorque, e ele desfrutava de uma relação amigável com Srila Prabhupada. Uma vez que Ginsberg era um autor com experiência de publicação, Prabhupada pediu a ele que mostrasse o manuscrito a seus contatos, o que Ginsberg fez. Eles, no entanto, não deram muita atenção, afirmando que o livro tinha pouco apelo comercial.

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Allen Ginsberg, famoso poeta da Geração Beat, tentou facilitar a publicação do Bhagavad-gita Como Ele, porém não teve sucesso.

Prabhupada, então, deu o manuscrito a Rayarama Dasa, um discípulo antigo com alguma experiência no mundo editorial. Rayarama também foi malsucedido em seu empenho, com seus contatos mostrando hesitação basicamente pela mesma razão dos de Ginsberg.

E o Milagre Tem Início 

Entra Brahmananda Dasa (Bruce Scharf), um dos primeiros discípulos de Prabhupada. Como se tivesse acontecido ontem, ele relata a história vividamente, embora ela tenha, de fato, acontecido há muitas décadas.

“Eu não sabia nada sobre publicação”, ele admite. “Mas Prabhupada colocou o manuscrito em minhas mãos e disse: ‘Você tem que fazer isto ser publicado’. Assim, eu sabia o que tinha de ser feito”.

O que ele não sabia era como fazê-lo. Se Ginsberg e Rayarama não eram capazes de fazer o livro ser publicado, como ele seria?

“Eu comprei dois ou três livros sobre o processo de publicação e estava prestes a fazer um curso sobre o assunto na Universidade de Nova Iorque – eu simplesmente não sabia o que fazer. Contudo, Prabhupada queria que eu fizesse seu livro ser publicado, e fim de conversa”.

Por volta desse período, os devotos haviam lançado o álbum “Happening”, uma coletânea de músicas devocionais cantadas por Prabhupada com acompanhamento instrumental. Eles haviam colocado um anúncio da coletânea musical no jornal Village Voice e estavam recebendo pedidos de várias partes da Costa Oeste.

Um de tais pedidos veio da parte alta de Manhattan, relativamente próximo à pequena lojinha que servia de templo para Prabhupada e seus primeiros discípulos. Brahmananda levou a carta até seu mestre.

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Srila Prabhupada e Brahmananda.

“Veja, Swamiji [como Prabhupada era chamado à época]. É um pedido da Macmillan. Eles são uma daquelas grandes editoras mundiais”.

Prabhupada olhou deliberadamente dentro dos olhos de seu discípulo e lhe deu as seguintes diretrizes: “Não envie este pedido por correio como fazemos com os outros. Ao invés disso, leve a coletânea até os escritórios da Macmillan e a entregue nas mãos da pessoa que nos enviou a carta”.

Brahmananda concordou com a cabeça, ciente de que Krishna o estava usando como instrumento.

“Quando você entregar o álbum”, Prabhupada continuou, “diga a eles que você é discípulo de um guru da Índia e que ele traduziu a Bhagavad-gita. Eles irão publicar, não se preocupe”.

Brahmananda estava impressionado. Prabhupada parecia muito confiante. Não havia dúvidas de que o livro seria publicado – e pela Macmillan! Ninguém poderia fazer melhor do que isso!

Nadando no Espesso Oceano de Néctar 

No dia seguinte, trajando terno e gravata, Brahmananda colocou-se a caminho do arranha-céu da Macmillan na terceira avenida 866, no final da 52ª rua. Com expectativas tão grandes quanto aquele edifício, ele se desapontou ao descobrir que o pedido do álbum partira de um simples funcionário do departamento de correspondências.

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Arranha-céu que, à época, abrigava a sede da Macmillan.

“Isto nada tem a ver com a editora – foi só um funcionário que se interessa por mantras e meditação”.

Então, Brahmananda cumpriu seu dever de entregar o álbum, mas já havia abandonado praticamente toda a esperança de que a Bhagavad-gita de seu instrutor fosse publicada. Foi então que, no meio de uma daquelas breves conversas sociais, um jovem executivo apareceu em cena desejoso de pegar sua correspondência. O funcionário o apresentou a Brahmananda.

“Este é James O’Shea Wade, nosso editor-chefe”.

Brahmananda viu que aquele era o momento.

“Eu sou discípulo de um guru da Índia”, ele disse tentado repetir precisamente as palavras de Prabhupada. “Ele traduziu a Bhagavad-gita”.

“O quê?”, Wade respondeu incrédulo. “Nós acabamos de publicar uma linha completa de livros espirituais, e estávamos procurando por uma Bhagavad-gita para completar a coleção”.

Brahmananda ficou boquiaberto. Embora sem palavra, ele contemplou a potência das palavras de Prabhupada: “Eles irão publicá-lo, não se preocupe”.

Wade, então, quebrou o deselegante silêncio.

“Traga os manuscritos amanhã”, ele disse, “e nós iremos publicá-lo, no susto”.

Brahmananda correu de volta à lojinha e contou a Prabhupada as novidades. À sua maneira inimitável, Prabhupada agiu sem demonstrar surpresa, como se ele soubesse por antecedência tudo o que acontecia.

Corroboração de Primeira Mão

Agora, serão estas as memórias de um discípulo excessivamente empolgado, uma exagerada nota de rodapé na história da ISKCON? Eu decidi descobrir.

Eu encontrei James Wade e ele confirmou os eventos em questão. Ele se lembrava do incidente com uma clareza surpreendente, dando suporte à história de Brahmananda e oferecendo um adendo.

“Eu me lembro vividamente da agitação causada em nosso sério e tedioso escritório no dia em que o Swami veio nos visitar acompanhado por seus seguidores em vestes alaranjadas”.

Aparentemente, Prabhupada levou pessoalmente o manuscrito na Macmillan no dia seguinte à visita de Brahmananda.

Wade compartilhou comigo seus pensamentos sobre a espiritualidade de Prabhupada.

“Eu me lembro do Swami como sendo uma figura muito imponente e notável, com uma poderosa aura espiritual. Seu perfil nunca havia sido visto anteriormente nos escritórios da Macmillan. Naquela época, também publicamos as obras de Alan Watts e John Bleibtreu, que estavam envolvidos com o movimento comunitário e espiritual chamado Arica. A Macmillan tinha a tradição de publicar livros sobre espiritualidade e religião naquele tempo. Acho que essa fase terminou pouco depois que deixei a Macmillan para me tornar o editor-chefe da agora extinta World Publishing Company. Mas o Swami era especial. Isso era claro”.

Pedi a Wade que falasse mais sobre o encontro fatídico.

“Nosso escritório era um tanto austero, com a fria decoração moderna. Eu me lembro de ter ficado um pouco apreensivo se o Swami se sentiria confortável naquele ambiente alienígena, mas ele se revelou um homem que estava em paz e em casa em qualquer lugar que estivesse. Eu me lembro dele como um homem muito alto, fisicamente imponente. Mas, obviamente, ele não era alto, sendo até bastante baixo e nada intimidador. Ele era silencioso, modesto e rodeado por uma espécie de quietude, um sentimento de paz que era – como posso dizer – bem-vindo. Não posso pensar em uma palavra mais precisa. Ele estava no mundo e, ao mesmo tempo, não estava. Ele sabia que nós vivemos em uma espécie de mundo com uma ciência ilusória, que nos ensina das partículas subatômicas e mecânica quântica até a teoria das supercordas. Eu lembro que ele queria que o Bhagavad-gita Como Ele É tivesse o máximo de exposição possível nos Estados Unidos. Coisas como o Movimento Hare Krishna, como me lembro, estavam nos primeiros estágios. Diferente do que acontece hoje, espiritualidades alternativas, como o zen ou o budismo tibetano, por exemplo, não haviam chegado nem perto da mente e do espírito das pessoas”.

James Wade foi editor-chefe da Macmillan de 1965 a 1969. Porém, em seus poucos anos ali atuante, ele fez história ao publicar uma edição da Bhagavad-gita de um devoto puro. A versão reduzida veio primeiro, em 1968, e, em consequência das sementes plantadas por James Wade, a Macmillan publicou a versão integral do Bhagavad-gita Como Ele É de Srila Prabhupada em 1972.

Uma Tradução com Poder Espiritual 

A tradução e os comentários de Srila Prabhupada não são apenas seus; eles trazem a clara compreensão de seus predecessores na sucessão discipular. Por isso, chamou sua edição de “Como Ele É”. O nome audaciosamente anuncia a seus leitores que não se trata de mais uma interpretação, mas, sim, da mensagem original do locutor primário do livro: Krishna, a Suprema Personalidade de Deus. Coerentemente, a Bhagavad-gita de Prabhupada foi a primeira edição em língua inglesa a levar os leitores para a consciência de Krishna, a torná-los devotos e devotas de Krishna, o que é o propósito do livro (vide o verso 18.65 da obra).

A Bhagavad-gita de Prabhupada tornou-se a edição mais importante do mundo moderno, frequentemente superando a venda tanto de traduções populares quanto acadêmicas. Aclamada por milhões de leitores em quase cem línguas diferentes, como polonês, japonês, alemão, azerbaidjano, dinamarquês, croata, e numerosas línguas indianas, a tradução da Bhagavad-gita de Srila Prabhupada é um fenômeno. Ele pode ser encontrado em residências, livrarias, bibliotecas e instituições acadêmicas ao redor de todo o mundo.

A história do encontro de Prabhupada com a Macmillan mostra que James Wade, então editor-chefe da editora, atuou como um instrumento nas mãos de Krishna, que já havia assinado o contrato.

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