O Resgate de Govindaji

24 R (artigo - Adoração à Deidade) O Resgate de Govindaji (1800)Jagatguru Swami e Satyaraja Dasa

Um rei devoto usa seu poder e sua opulência real para proteger e glorificar o Senhor Supremo.

Há, certamente, exemplo de muitos reis que fizeram mal uso de suas posições reais. Contudo, também existiram muitos governantes santos.

Embora os monarcas da antiga Índia e seus reinados tenham se tornado lenda, a mera menção de um Marajá ou de um palácio real indiano continua conjurando imagens exóticas e românticas. O luxo de um Maharaja, ou Marajá, era um reflexo de seu poder, e o palácio no qual ele, sua família e seu séquito viviam representava uma índole e maneira de vida que se perdeu.

Atualmente, grande parte das pessoas não é ciente de que os maiores monarcas da antiga Índia eram devotos do Senhor que usaram suas riquezas e sua influência em Seu serviço. De fato, o objetivo primário da classe monárquica da Índia védica era proteger os princípios religiosos. Eles cumpriram esse papel, e as histórias sobre suas atividades são mais atraentes e fascinantes do que os mitos que apareceram ao longo dos séculos.

Uma de tais histórias concerne a Govindaji, uma Deidade da Suprema Personalidade de Deus, Krishna. Devotos do Senhor Krishna têm tradicionalmente O adorado em Sua encarnação de Deidade, que pode ser feita de pedra, madeira, argila ou outros elementos materiais. Uma vez que Krishna é o Senhor Supremo Todo-poderoso, Ele pode aparecer em toda parte, mesmo em uma forma feita de matéria. A Deidade não é um ídolo – uma forma imaginária adorada caprichosamente –, senão que é projetada e adorada de acordo com as diretrizes dadas pela literatura védica.

Krishna também aparece pessoalmente na Terra – como fez há cinco mil anos no distrito de Mathura, na Índia. Tais visitas, todavia, são raras, em virtude do que os devotos sinceros de Krishna aproveitam a oportunidade de adorá-lO em Suas formas de Deidade. Um pouco antes de Krishna desaparecer da Terra, há quase cinco mil anos, um grande devoto chamado Vajra estabeleceu várias Deidades do Senhor, e uma delas é Govindaji. (“Govinda” é um nome de Krishna, que significa “aquele que dá prazer aos sentidos, às vacas e à Terra”, e o sufixo ji demonstra carinho por parte de quem fala o nome, algo como “Govindinha”). Essas Deidades foram amadas e adoradas por muitos séculos.

Então, vieram as invasões mongóis, e todo o norte da Índia se ocupou em guerras. A população fugiu de Mathura – mas apenas depois de colocarem suas amadas Deidades dentro da terra e As enterrarem. As pessoas oraram para que as tropas mongóis não cometessem a ofensa de destruírem as Deidades, e esperavam que as Deidades pudessem, um dia, serem descobertas e novamente adoradas com toda a regalia que Lhes cabe.

Govindaji e outras Deidades de Mathura permaneceram escondidas até o começo do século XVI, durante o tempo de Sri Chaitanya Mahaprabhu. (Sri Chaitanya Mahaprabhu é o próprio Krishna no papel de Seu próprio devoto. Ele apareceu há quinhentos anos na Índia para ensinar amor por Deus através do cantar do mantra Hare Krishna). Naquele tempo, dois dos principais discípulos do Senhor Chaitanya, Srila Rupa Gosvami e Srila Sanatana Gosvami, ocuparam-se em reaver as antigas Deidades de Mathura.

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Retratação do Senhor Chaitanya (ao centro) como inspiração e mestre de Srila Rupa Gosvami e Srila Sanatana Gosvami.

Uma noite, a Deidade de Govindaji, que havia sido instalada por Vajra há milhares de anos, apareceu para Rupa Gosvami em um sonho e lhe revelou onde Ele estava enterrado. Rupa Gosvami, então, escavou Govindaji e pessoalmente se encarregou de Sua adoração regular. Sendo da ordem renunciada, todavia, ele não tinha meios para construir um templo para a sua Deidade adorável.

Rupa Gosvami era renomado como um grande filósofo e uma autoridade no campo da literatura védica. Assim, ele era frequentemente requisitado à corte do imperador Akbar, que era apaixonado por discussões religiosas e filosóficas. Rupa Gosvami havia escrito muitos livros sobre a ciência da consciência de Krishna, e seus escritos, que personificavam a essência de todo o conhecimento espiritual, intrigavam Akbar. O imperador era um leitor ávido das grandes escrituras do mundo, e Rupa Gosvami, afinal, era perito nos Vedas, as escrituras mais abrangentes e honradas de todas naquele tempo.

Akbar tinha um amigo querido chamado Man Singh. Como um general do exército imperial, Man Singh executou muitas tarefas árduas, obtendo, por fim, o posto de rei de Amir. Como Akbar, Man Singh era fascinado por Rupa Gosvami e, uma vez, foi até Vrindavana para se encontrar com o grande santo. Ao encontrar-se com Rupa Gosvami, Man Singh se convenceu do caráter elevado do rapaz. Desejoso de servir àquele homem genuinamente santo, decidiu financiar a construção de um magnífico templo em Vrindavana para a Deidade Govindaji. Por cinco anos inteiros, muitas centenas de homens trabalharam com grande atenção, construindo um dos mais estonteantes templos do mundo.

O templo tinha quatro andares, com um altar de mármore, prata e ouro. Uma escultura de flor de lótus pesando muitas toneladas decorava o salão principal, onde os peregrinos se amontoavam diariamente para ver a Deidade. Assim, Govindaji passou novamente a ser adorado com grande opulência e devoção. Assim se sucedeu até o começo do século XVIII.

Aurangzeb, um dos últimos na linha de soberanos mongóis, foi um tirano e inimigo declarado da cultura védica. Ele saqueou muito da Índia, destruindo muitos belos templos juntamente com suas Deidades. Durante o tempo do infame império de Aurangzeb, o neto de Man Singh, Jai Singh II, ascendeu ao trono de Amir com a idade de apenas treze anos. Passando para a idade adulta, rapidamente dominou as artes da engenharia, arquitetura, planejamento urbano, matemática e astronomia. E como seu pai e seu avô, ele era um devoto do Senhor Krishna. Embora ele expandisse sua patronagem a todas as comunidades de forma equânime, os devotos de Krishna desfrutavam de seu favor especial, porque ele entendia que os devotos estavam ocupados na essência da espiritualidade autêntica.

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Pintura de Aurangzeb contemporânea ao soberano mongol. Autor desconhecido.

Uma noite, quando já envelhecido, Aurangzeb sentou-se em sua varando. Desfrutando a noite clara e o céu estrelado, notou uma estrela estacionária. Ao inquirir de seu servo sobre a estrela, ele descobriu que a tal estrela estacionária era, de fato, o fogo em cima do templo de Govindaji, em Vrindavana, a cerca de 150 quilômetros dali. Incapaz de controlar sua ira e sua inveja, Aurangzeb jurou apagar o brilho daquela estrela desconcertante.

Naquele mesmo dia, Jai Singh II, então com dezenove anos, visitou a corte real de Agra. Quando ele soube que Aurangzeb estava indo destruir o templo de Govindaji, o templo que seu avô havia construído para Rupa Gosvami, ele ficou dominado por desgosto e raiva. Jai Singh imediatamente colocou-se rumo a Vrindavana com um plano para salvar Govindaji. Ele sabia que não seria capaz de salvar o templo, mas ele poderia, ao menos, resgatar a Deidade.

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Pintura de Jai Singh II, do acervo do Museu Britânico, pintada em torno de 1725.

Chegando a Vrindavana, Jai Singh alertou a população, que logo evacuou a cidade. Em seguida, Jai Singh cuidadosamente removeu Govindaji de Seu esplendoroso templo e, com muito cuidado para não cruzar com as tropas de Aurangzeb, transportou Govindaji para sua muito bem fortificada capital nas colinas do deserto do Rajastão.

Quando Aurangzeb e seu exército chegaram ao templo de Govindaji, Aurangzeb ficou furioso ao ver que a Deidade havia ido embora e que os cidadãos haviam sido alertados de seu ataque. Ainda assim, com centenas de elefantes de guerra e milhares de homens, começou a destruir o majestoso templo de Govindaji, andar por andar, até que restou apenas um. De repente, o solo de Vrindavana começou a tremer violentamente. Os homens de Aurangzeb ficaram aterrorizados com aquele terremoto e fugiram dali temendo por suas vidas – para nunca mais voltar.

Embora Aurangzeb desejasse matar Jai Singh por ter arruinado seus planos, ele já estava velho e confrontava problemas mais urgentes dentro de seu império. Ele morreu no sul da Índia pouco tempo depois.

Com a rápida queda do império mongol após Aurangzeb, a reputação de Jai Singh como um governador justo, honrado e poderoso cresceu. Com a idade de quarenta anos, ele visionou uma nova e imensa cidade, com o Senhor Govindaji no centro, residindo em um templo belíssimo. E com o trabalho de cinquenta e cinco mil homens trabalhando por contínuos quinze anos, o sonho começava a se tornar realidade. Jai Singh, deste modo, criou sua Jaipur (Cidade [pur] da Vitória [jai]), dedicada ao Senhor Govindaji.

A cidade de Jaipur foi projetada de acordo com o Silpa-shastra, o ramo dos Vedas que lida com arquitetura e design. E embora elaborada no começo do século XVIII, a cidade continua funcional e apreciada por sua construção magistral. A cidade foi arranjada em uma rede de amplas avenidas conectadas a ruas menores, todas focando o palácio em seu centro. O templo de Govindaji ficava em um belo jardim ao lado do palácio, e, quando as portas do templo eram abertas, Jai Singh podia ver sua adorável Deidade a partir de seus aposentos reais. Prédios do governo e mercados livres rodeavam o palácio e o templo centrais, e um muro de 16 metros de altura cercava toda a cidade. Com Deus em seu centro, Jaipur era a cidade ideal, e é hoje a capital do Rajastão.

Pela história de Govindaji, podemos ver como o Senhor Krishna dá a Seus devotos oportunidades de servi-lO de maneiras magníficas. O avô de Jai Singh, Man Singh, foi capaz, pela misericórdia do Senhor, de construir um magnífico templo para Govindaji. E embora o templo tenha sido parcialmente destruído posteriormente, Jai Singh teve a oportunidade de resgatar e proteger Govindaji e, mais tarde, de construir uma cidade inteira para Ele. Assim, os devotos são sempre firmes em seus propósitos, vendo até mesmo situações perigosas como uma oportunidade oferecida pelo Senhor para prestar serviço amoroso.

Um Presente para a ISKCON

Em 1972, quando Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Svami Prabhupada, o acharya-fundador da ISKCON (Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna), viajou para Jaipur com alguns de seus discípulos ocidentais, Govindaji continuava sendo adorado por milhares de devotos, e Srila Prabhupada e seus seguidores ficaram felizes vendo isso. Houve, assim, uma admiração afetuosa mútua entre os moradores de Jaipur e os devotos da ISKCON, pois ambos eram adoradores do Senhor Govinda, ou Krishna, a Suprema Personalidade de Deus.

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As Deidades presenteadas à ISKCON pela rainha de Jaipur, Maharani Gayatri Devi.

Assim como os discípulos americanos e europeus de Srila Prabhupada estavam emocionados por ver a lenda viva da consciência de Krishna de Jaipur, a rainha de Jaipur, Maharani Gayatri Devi, estava emocionada contemplando a devoção de Srila Prabhupada e de seus seguidores. Para demonstrar sua apreciação, ela ofereceu a Srila Prabhupada um par de grandes Deidades de mármore de Radha e Krishna, similares às Deidades originais de Radha-Govindaji. Srila Prabhupada aceitou as Deidades e imediatamente As colocou em um navio rumo ao seu centro da ISKCON em Nova Iorque. As Deidades, ele disse, seriam conhecidas como Radha-Govinda.

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