O Tempo Védico

21 I (artigo - Teologia) O Tempo Védico (5900)Devamrita Swami

As consequências da visão cíclica do tempo, as quatro eras cósmicas, fatalismo, escalas de tempo védicas, datação acadêmica vs. datação escritural.

Diferente do tempo tanto na tradição religiosa judaico-cristã quanto na visão atual da ciência moderna, o tempo védico é cíclico. O que vai volta. O que sobe tem que descer, e vice-versa. O universo védico passa por ciclos repetitivos. Ademais, o cosmo todo em si passa por ciclos recorrentes de criação e destruição. Durante a aniquilação do universo, a energia é conservada, e manifesta-se novamente na próxima criação.

Nosso conhecimento contemporâneo abraça uma versão de mudança e progresso que é linear. A saga do universo procede em uma linha estritamente reta, começando em um único ponto A e terminando em um único ponto B. Obviamente, porque essa concepção moderna de tempo difere imensamente da visão védica, era de se esperar encontrarmos duas abordagens significativamente diferentes para a vida.

O cenário no qual somos admitidos para o mundo do tempo védico é uma grande reunião de sábios próximo dos Himalaias em uma floresta conhecida ainda hoje como Naimisharanya. Da cidade indiana moderna Lucknow, você pode pegar um trem e descer na estação chamada Nimsar. Na adjacência, está a floresta de Naimisharanya. A data aproximada do encontro ali é 3000 a.C., no princípio do que os Vedas se referem como Kali-yuga, ou “Era das Desavenças”, a pior era no ciclo védico de quatro eras.

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Sábios reunidos em Naimisharanya há cerca de 5000 anos.

Olhando para o futuro, os sábios reunidos, como descreve o Srimad-Bhagavatam, sabiam o que se aproximava. Com base em seu conhecimento dos ciclos cósmicos, queriam preparar a si mesmos e à humanidade, motivo pelo qual se reuniram na floresta para um concílio deveras longo. “Como a população pode melhor sobreviver a era por vir, a Era de Ferro, com seu notório foco em máquinas, pessoas similares a máquinas e pensamento mecanicista?”. Em Naimisharanya, os melhores cérebros refletiram sobre essa crise, pelo bem-estar da sociedade.

De acordo com a metodologia védica, os sábios reunidos reconheceram o estudioso e yogi transcendental mais avançado entre eles e submeteram seu julgamento a ele. Enaltecendo publicamente as qualificações desse sábio de destaque, Suta Goswami, revelaram consciência de sua completa ausência de vícios e de como dominava os textos védicos. Em aditamento a seu status como o sadhu mais velho, foi devidamente certificado por seu próprio preceptor na sucessão discipular. Essa bênção significava que Suta Goswami tinha a realização Bhagavan – sabia o que estava além do Brahman impessoal e da Superalma. Os sábios, confiantes de que sua escolha fora de um mestre genuíno da ciência espiritual, incitaram-no a um pronunciamento:

Ó erudito, nesta era de Kali, a Era de Ferro, os homens têm vidas curtas. São irascíveis, preguiçosos, desorientados, desafortunados e, acima de tudo, sempre perturbados. (Srimad-Bhagavatam 1.1.10)

O ciclo védico de yugas descreve a civilização começando em um estado iluminado e avançado, seguido por gradual declínio para o caos e a ignorância. Uma vez que se chega ao fim do ciclo, o ciclo recomeça. A Terra, então, é povoada por pessoas em um estado original de pureza e magnífico conhecimento, e a mesma progressão de eventos se repete.

As eras (yugas) anteriores eram conhecidas, sequencialmente, como Satya-yuga, Treta-yuga e Dvapara-yuga, ou Era de Ouro, Era de Prata e Era de Bronze. Quando a escuridão de Kali-yuga começou a se fazer presente, os sábios preparam-se para o que aconteceria inevitavelmente: o rápido desaparecimento de todas as qualidades mais refinadas da humanidade.

O desenvolvimento espiritual organizado, o bastião dos yugas anteriores, viria abaixo sem tardar, assaltado por instituições sociais que militam contra a autorrealização. Guerras colossais serem iniciadas por desentendimentos ínfimos seria algo rotineiro. Conforme o desenvolvimento econômico e a sensualidade se tornassem o cerne da sociedade, o intelecto e a força física das pessoas se reduziriam, bem como sua expectativa de vida.

O eventual colapso da estrutura familiar e da harmonia social forçaria o indivíduo a confrontar as tempestades de confusão sozinho. Os poderes místicos e físicos – comuns nos yugas anteriores – tornar-se-iam extintos. Seres superiores, que frequentavam a Terra nas outras eras, descontinuariam suas visitas. Todo o conhecimento védico de tecnologia sutil e astral praticamente desapareceria. E o pior de tudo: as conclusões transcendentais dos Vedas seriam obscurecidas. Em resumo, tanto individual quanto coletivamente, perturbações e ansiedades constantes seriam algo presente no dia-a-dia.

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Em Kali-yuga, os seres superiores que frequentavam a Terra descontinuam suas visitas a nós.

O principal sábio, Suta Goswami, qualificara-se excepcionalmente devido a ter-se submetido a seu preceptor. Portanto, os sábios em Naimisharanya sabiam que somente se beneficiariam ao se submeterem igualmente a ele. Deste modo, eles também se qualificaram de modo extraordinário para ensinarem.

Consideramos que nosso encontro contigo, que é tão bondoso, se deu pela vontade da providência, simplesmente para que te pudéssemos aceitar como o capitão do navio para aqueles que desejam cruzar o difícil oceano de Kali, que deteriora todas as boas qualidades dos seres humanos. (Srimad-Bhagavatam 1.1.22)

Eis o processo védico para obtenção de conhecimento mediante a sucessão discipular – uma corrente que se alonga para além do cosmos e chega até o próprio Bhagavan. A injunção védica é achintya khalu te bhava: não há necessidade de perder tempo argumentando ou especulando sobre coisas além da esfera dos sentidos e do intelecto. Apenas encontre uma autoridade qualificada e, pela audição, aprenda o que está além do limitado. Então, ajuste seu estilo de vida segundo o que você ouve para que você possa experienciar o que você ouve. Por esse processo, o aluno de hoje se torna o mestre de amanhã, e, destarte, o conhecimento védico se perpetua.

As Quatro Estações do Universo

O entendimento do ciclo de yugas nos leva mais uma vez aos três modos da natureza. Os quatro milênios védicos são manifestações desses modos. No melhor período, Satya-yuga, também conhecido como Era da Verdade, o modo da bondade predomina: o vício é quase desconhecido. A pior era, Kali-yuga, é o oposto: a virtude é praticamente desconhecida. Na Era das Desavenças, reina o modo da ignorância. Nos dois yugas intermediários, ou a paixão predomina (Treta), ou uma mistura de paixão e ignorância (Dvapara). O vício entra no segundo yuga, espalha-se no terceiro e satura no quarto.

Satya-yuga

A Era da Verdade é a coroa da existência material, o melhor dos tempos. Hoje, a consideraríamos celestial – um paraíso perdido. A visão védica, entretanto, afirma que, apesar de puro e sublime, Satya-yuga ainda está dentro da jurisdição da existência material. Nesta primeira era, a mente de todas as pessoas é descrita como autorrefulgente em clareza e percepção espiritual. A humanidade se deleita no conhecimento e em austeridades espirituais. “O povo de Satya-yuga é, em sua maior parte, autossatisfeito, misericordioso, amigo de todos, pacífico, sóbrio e tolerante. Tem como fonte de prazer seu próprio íntimo, vê todas as coisas igualmente e sempre se esforçam diligentemente pela perfeição espiritual”. (Srimad-Bhagavatam 12.3.19) Em geral, a mente, a inteligência e os sentidos de todos são solidamente fixos em bondade, pelo menos. A maioria da população, entretanto, constitui-se de paramahamsas, isto é, transcendentalistas além do modo da bondade.

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A maioria da população de Satya-yuga constituía-se de paramahamsas.

Nesse tempo, em virtude da inteligência extremamente elevada da humanidade, é dito que a informação védica estava disponível comprimida em um só Veda em vez de proliferadas por muitos textos. De acordo com a tradição védica, conforme o ciclo de yugas progredia, a mesma informação védica compactada expandiu-se em muitos ramos explicativos. Devemos notar, no entanto, que, do ponto de vista védico, essa expansão pragmática não implica a assimilação ou criação de novas doutrinas. Porque estavam em decréscimo os poderes intelectuais da humanidade, precisavam de uma elucidação expansiva. Diante disso, os mesmos códigos védicos concisos foram desenvolvidos, tornando sua compreensão mais fácil para intelectos inferiores.

Treta-yuga

A segunda era encoraja devoção ao que consideraríamos rituais colossais de sacrifício e austeridade extraordinários. Em Treta-yuga, os transcendentalistas já não são mais a maioria numérica, embora seu efeito ainda predomine. A maioria da população se constitui de brahmanas, os intelectuais religiosos. O modo da paixão, não obstante, começa a assumir o controle. Portanto, para acomodar a humanidade, que, em geral, vive sob a influência dos três modos, o sistema social védico completo para desenvolvimento progressivo se revela, e os próprios Vedas começam a se expandir em ramos. As pessoas seguem diligentemente as fórmulas védicas para religiosidade, desenvolvimento econômico e gratificação disciplinada de seus sentidos. Nesse caminho gradual de avanço, entretanto, suas atividades são arruinadas por motivações ulteriores, especialmente pelo desejo por prestígio. Malgrado isso, são livres de excessos de luxúria e ira.

Dvapara-yuga

A terceira era traz consigo glória e aristocracia, com todo o inseparável excesso de paixão. Além de intelectuais religiosos, a população também tem grande número de pessoas na classe marcial e na classe administrativa. O povo devota-se ao estudo védico, bem como à busca por riquezas, fama e poder em grande quantidade. Famílias grandes são comuns, e a humanidade goza da vida em grande estilo ao mesmo tempo em que segue as diretrizes védicas. Porque o modo da ignorância começa a infiltrar-se, Dvapara-yuga tem as qualidades da paixão tingidas por um pouco de ignorância. Ganância, egoísmo, insatisfação, falso orgulho, hipocrisia e inveja são mais prevalentes.

Kali-yuga: A Era das Desavenças

É sobre esta era que há mais descrições disponíveis porque é, de longe, a era em que os princípios védicos ideais são menos seguidos. Vista da perspectiva védica, a Era de Kali é a mais perversa, sendo diametricamente oposta à Era Dourada da Verdade. De acordo com a cronologia védica, estamos no ano 5000 do total de 432.000 anos de Kali-yuga, que destrói inteiramente quaisquer remanentes de boas qualidades na humanidade. “Religião, veracidade, limpeza, tolerância, misericórdia, duração de vida, força física e memória diminuirão todas dia após dia em razão da poderosa influência da Era de Kali”. (Srimad-Bhagavatam 12.2.1) Enquanto, nas eras anteriores, predominavam ou transcendentalistas ou intelectuais religiosos ou estadistas nobres; na Era de Ferro, o que os Vedas consideram a mentalidade de trabalhadores sem estudo ou bárbaros se torna a norma.

As descrições de Kali-yuga são muito mais fartas do que das demais yugas. O que segue é apenas uma breve descrição presente no Srimad-Bhagavatam, Canto 12, capítulo 3. É significativo que os Vedas afirmam que essas descrições são todas predições – profecias compiladas antes do começo de Kali-yuga, cerca de 5000 anos atrás. A expectativa védica para o comportamento pessoal ou social em Kali-yuga é, com efeito, bastante desmotivadora:

Quando há predominância de trapaças, mentiras, indolência, sono, violência, depressão, lamentação, desorientação, medo e pobreza, essa era é Kali, a era do modo da ignorância. Em razão das más qualidades da Era de Kali, os seres humanos se tornaram míopes, desafortunados, glutões, luxuriosos e pobres. As mulheres, tornando-se incastas, irão livremente de um homem a outro. As cidades serão tomadas por ladrões, os Vedas serão contaminados por interpretações especulativas de ateístas, líderes políticos praticamente consumirão os cidadãos, e os ditos sacerdotes e intelectuais serão devotos de seus estômagos e genitais. Em Kali-yuga, os homens serão baixos e controlados pelas mulheres. Rejeitarão seus pais, irmãos e outros parentes, bem como seus amigos, e se darão à companhia exclusivamente das irmãs e dos irmãos da esposa. Assim, sua concepção de amizade se baseará exclusivamente em laços sexuais. Na Era de Kali, a mente das pessoas estará sempre agitada. Emagrecerão devido à fome e aos impostos, e sempre perturbados pelo medo e por secas. Carecerão de vestes, alimento e bebidas adequados; não conseguirão descansar, fazer sexo ou se banhar apropriadamente, e não terão ornamentos para decorar o corpo. De fato, as pessoas em Kali-yuga, gradualmente, começarão a assemelhar-se a criaturas assombradas por fantasmas. Os homens não protegerão mais seus pais idosos, seus filhos ou suas esposas respeitáveis. Inteiramente degradados, interessar-se-ão unicamente em satisfazer seus próprios estômagos e genitais.
(12.3.30 em diante)

Soluções para os Yugas

O ciclo de quatro eras gira ao longo da duração do universo. Deste modo, os mesmos padrões gerais de condições ambientais, políticas, sociais, familiares e individuais se repetem. Outra questão é que cada uma das quatro eras aparece como um pequeno subperíodo nas outras eras. Isso significa, por exemplo, que, mesmo dentro do mar revolto de Kali-yuga, há uma mini-Era de Ouro para aqueles que buscam se beneficiar com os botes salva-vidas oferecidos pelos Vedas. Ou, em Satya-yuga, uma personalidade demoníaca poderosa pode temporariamente criar uma situação de caos.

Próximo do final da atual Era de Kali – o que está previsto para daqui a 427.000 anos –, os textos védicos descrevem que os humanos serão anões de vida curta, e todos os planetas e árvores serão pequenos. Os Vedas serão completamente esquecidos, e até mesmo a religiosidade por ganhos materiais se extinguirá. Governados por ladrões, o povo completamente bárbaro terá como suas escolhas ocupacionais somente mentira, roubo ou violência.

Com o término da Era das Trevas, a população bestial morrerá, e os poucos cidadãos de bondade que restem repovoarão a Terra com filhos extraordinários para reinaugurar Satya-yuga. O conhecimento e a civilização védicos, então, retornarão inteiramente, com o recomeço do ciclo.

Considerando as qualidades e as condições dos tempos, cada era tem sua prescrição própria para a libertação espiritual. Devemos sempre ter em mente que os Vedas não são teóricos e dogmáticos, mas metodológicos e prescritivos. Para cada yuga, os textos védicos recomendam uma técnica principal para a libertação espiritual, conhecida como yuga-dharma – o método espiritual mais apropriado e prática de um yuga em particular. Assim, os Vedas sempre enfatizam a necessidade de um guia védico apropriado para proclamar o caminho espiritual apropriado enunciado nos Vedas para cada era. O guia védico genuíno também demonstra como aplicar esse caminho.

Para a Era de Ouro, Satya-yuga, o yuga-dharma é a meditação. É dito que o povo tem a vida longa o bastante e a atmosfera santificada o suficiente para que a meditação produza seus benefícios derradeiros. As histórias védicas descrevem pessoas dedicando os primeiros 60.000 anos de sua vida em casa e, então, os últimos 40.000 anos sozinhas nos Himalaias, onde dominavam o sistema de yoga de meditação em Brahman, Paramatma e Bhagavan.

Em Treta-yuga, sacrifícios monumentais são as principais formas de livramento espiritual. Esses esforços descomunais exigiam um poder executivo no governo excepcionalmente íntegro e poderoso. Somente líderes desse calibre eram capazes de reunir todos os muitos recursos necessários. Ademais, era comum que fossem indispensáveis sacerdotes qualificados e intelectuais religiosos para a perfeita condução dos rituais. A ausência de um mero ingrediente ou um erro processual tornaria inútil todo o grandioso evento.

Dvapara-yuga, a Era de Bronze, enfatiza templos magníficos, onde formas autorizadas de Deidades de Bhagavan recebiam serviços majestosos por parte do povo.

Em Kali-yuga, no entanto, devido à inexistência de longevidade, bom governo, sacerdotes qualificados e amplos recursos naturais, a única glorificação congregacional do Supremo Bhagavan prescrita é através do som.

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Em Kali-yuga, o processo prescrito para a iluminação é a adoração sonora ao Senhor Supremo.

Qualquer resultado que era obtido em Satya-yuga pela meditação em Vishnu, em Treta-yuga pela realização de sacrifícios, e em Dvapara-yuga pelo serviço aos pés de lótus do Senhor, pode ser obtido em Kali-yuga simplesmente por se cantar o maha-mantra Hare Krishna. (Srimad-Bhagavatam 12.3.52)

Datando Kali-yuga

O horário é a meia-noite. O dia é 18 de fevereiro de 3102 a.C. Sua localização é o subcontinente indiano. Os sete planetas, incluindo o Sol e a Lua, são invisíveis, porque estão alinhados em uma direção do outro lado da Terra. De acordo com os textos astronômicos suplementares dos Vedas, conhecidos como jyotish-shastras, esse raro alinhamento planetário e a data específica de seu acontecimento marcaram o começo de Kali-yuga. As escrituras védicas registram que, nos anos imediatamente precedentes a esse ponto decisivo e crucial, Bhagavan Krishna findou Sua estadia na Terra, e, logo após essa data, a cultura védica global desapareceu. Assim, qualquer pesquisa contemporânea para verificar esse alinhamento planetário esclareceria muito a versão védica da história antiga. O Srimad-Bhagavatam (1.3.43) faz menção a esse tempo que se perdeu:

Este Bhagavata Purana [Srimad-Bhagavatam] é tão brilhante quanto o Sol, e surgiu logo após a partida do Senhor Krishna para Sua própria morada, acompanhado pela religião, pelo conhecimento e assim por diante. Aqueles que perderam sua visão devido à densa escuridão da ignorância na Era de Kali iluminar-se-ão com este Purana.

Naturalmente, a visão mainstream dos acadêmicos ocidentais é que a data para Kali-yuga e seus sintomas preditos são invenções da imensa imaginação mítica e poética dos Vedas. Computadores e softwares, entretanto, estão vindo ao resgate da integridade védica. Programas astronômicos de computador recebem as coordenadas e as datas que fornecemos e, então, exibem aproximações do céu como nossos ancestrais remotos viam-no. Hoje, estão sendo feitos cálculos que endossam fortemente a retratação védica dos céus em 3102 a.C.

Um matemático norte-americano, Dr. Richard Thompson, especialista em teoria da probabilidade e mecânica estatística, devotou-se a analisar a cosmologia védica antiga. Parte de sua investigação centrou-se na datação de Kali-yuga de acordo com a astronomia védica. Desde os primeiros dias do Império Britânico na Índia, os tradicionalistas védicos sofreram vendo como os indólogos modernos descartaram essa data, junto da antiguidade do Gita e dos Puranas. O cientista Thompson, que estudou na Universidade Cornell e fez pesquisas pela Cambridge, escreveu em seu livro Vedic Cosmography and Astronomy:

Sugeriríamos que a datação do começo de Kali-yuga em 3102 a.C. baseia-se em relatos históricos fatuais e que a tradição de um alinhamento incomum dos planetas nesse momento também é uma questão de fato histórico. A opinião dos acadêmicos modernos é que a época de Kali-yuga foi inventada durante o começo do período medieval. Segundo essa hipótese, os astrônomos indianos usaram a astronomia grega para determinar que um alinhamento planetário próximo ocorrera em 3102 a.C. Depois de fazerem os laboriosos cálculos necessários para descobrir isso, inventaram a era fictícia de Kali-yuga e convenceram todo o subcontinente da Índia de que essa era estava em vigor há 3000 anos. Subsequentemente, variados Puranas foram escritos em consonância com essa cronologia, e o povo por toda a Índia se convenceu de que essas obras realmente tinham milhares de anos de idade.

Alguém poderia perguntar por que alguém até mesmo pensaria em pesquisar por alinhamentos astronômicos em um período de milhares de anos no passado e, então, redefinir a história de toda uma civilização com base em um alinhamento descoberto em particular. Parece mais plausível supor que a história de Kali-yuga é genuína, que o alinhamento que ocorreu no seu começo é uma questão de memória histórica e que os Puranas realmente foram escritos antes do começo desta era.1

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Dr. Richard Thompson.

Simpatizantes dos Vedas se entristecem observando que muitos acadêmicos contemporâneos acusam indiretamente de fraude essa cultura. A educação ocidental tradicional afirma que o conhecimento de Kali-yuga foi criado durante os primeiros séculos da era cristã, fortalecido pela astronomia apropriada dos gregos e, por fim, projetado no passado em muitos milhares de anos. Desta maneira, o mundo ocidental fica com o entendimento de que os Puranas são fábulas de ilusão de grande escala. Pesquisadores modernos de mente mais aberta escrutinaram a qualidade das predições em si e notaram que sua profundidade, seu conteúdo e sua precisão em muito superam tanto nossos adivinhadores medievais e modernos, como Nostradamus e Edgar Cayce.

A pesquisa de vinte anos de A. Seidenberg, matemático e historiador da ciência, talvez encha de júbilo o coração dos partidários dos Vedas. A obra de Seidenberg busca demonstrar como os matemáticos védicos precederam até mesmo os matemáticos egípcios e babilônios, para não falar dos desenvolvimentos posteriores dos gregos. Os textos matemáticos egípcios são aceitos como anteriores a 2000 a.C., em virtude do que seus antecedentes védicos, os sulba-sutras, têm que ser ainda mais antigos. Agora que acadêmicos de formação científica estão começando a considerar seriamente todos os departamentos da ciência védica, podemos esperar saber em breve se a astronomia védica veio em grande atraso, aguardando pelos gregos, enquanto seus matemáticos voavam alto e à frente antes da era de Pitágoras.

Um número considerável de vezes, a literatura védica menciona avistamentos astronômicos de equinócios e solstícios aparentemente correspondentes há muitos milênios. São necessárias mais pesquisas, entretanto, para satisfazer à crítica acadêmica. O problema não é computação astronômica, mas interpretação do contexto sânscrito. Em geral, até muito recentemente, acadêmicos ignoraram essas referências enfadonhas como “anomalias” ou, ainda pior, “invenções”.

Escalas de Tempo Védicas

O sistema védico dos quatro yugas apresenta a duração das eras como 4, 3, 2 e 1 vezes um intervalo de 432.000 anos. Isso significa que a primeira era, Satya-yuga, dura 1.728.000 de anos; a segunda, Treta-yuga, dura 1.296.000 milhões de anos; a terceira, Dvapara-yuga, dura 864.000 anos, ao passo que a atual Era de Ferro, Kali-yuga, dura 432.000 anos. Obviamente, esse sistema tem pouca afinidade com nossas atuais teorias da história humana.

A versão védica contradiz nossas concepções atuais sobre não apenas a antiguidade humana, mas também sobre a longevidade humana. No auge dos tempos, em Satya-yuga, a duração de vida é apontada como sendo de 100.000 anos. Então, torna-se dez vezes menor ao longo de cada uma das eras sucessivas. Deste modo, na próxima era, a duração de vida se torna 10.000 anos. Na seguinte, torna-se 1000. Finalmente, na era presente, Kali-yuga, declara-se que a idade máxima é de 100 anos, reduzindo para 50 próximo do fim.

Um bom background para mergulharmos nos tempos védicos é um conhecimento geral das concepções de tempos antigos e também uma aparente correlação entre os textos judaico-cristãos e a ciência moderna. Quando examinamos as concepções das sociedades mediterrâneas precedendo a ascensão da civilização europeia, vemos que, evidentemente, o povo do mundo mediterrâneo antigo tinha uma visão marcadamente diferente do passado humano. Acreditavam que a história humana estendia-se muito mais no passado do que as datas que o homem moderno está disposto a aceitar.

Por exemplo, o historiador babilônio Beroso (aprox. 290 a.C.) apresentou o conhecimento de uma antiguidade remota. Sua crônica, embora tenha deixado apenas fragmentos, transmitiu a história e a cultura da Babilônia para os gregos antigos. Berosus especificou 432.000 anos como o período reinado pelos reis babilônios antes do Dilúvio.2

Leitores familiarizados com a Bíblia talvez notem que, embora fale de um tempo comparativamente muito pequeno para a existência humana, retrata personalidades vivendo próximo de 1000 anos. Entre dez das pessoas que mais viveram antes do Dilúvio, você encontrará uma média de duração de vida de 912 anos. Após o Dilúvio, a longevidade gradualmente reduz até os 110 anos de Josué.

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A Bíblia descreve que Matusalém, personagem que viveu antes do dilúvio, morreu com 969 anos.

O historiador judeu Flávio Josefo (primeiro século d.C.) citou muitas obras históricas para apoiar sua argumentação de que a duração de vida de 1000 anos era um fato na antiguidade. O fato de nenhum dos livros que ele cita ainda existirem talvez indique que nosso conhecimento do passado distante ainda é bastante recortado. É provável que podemos concluir seguramente que há muito que não sabemos.

Agora, tenho por testemunhas daquilo que eu disse todos aqueles que escreveram Antiguidades, tanto entre os gregos quanto entre os bárbaros, pois mesmo Maneton, que escreveu a história egípcia, e Beroso, que coletou os monumentos caldeios, e Mochus, e Histeu, e, além desses, Hierônimo, o egípcio, e aqueles que compuseram a história fenícia, concordam com o que eu aqui digo. Também Hesíodo e Hecateu, Helanicus e Acusilau, além de Éforo e Nicolau, relatam que os povos antigos viviam mil anos: mas, quanto a essa questão, deixemos que cada um olhe para ela como considerar apropriado.3

Os egípcios, babilônios e assírios antigos têm seus indicadores apontando para um passado distante e perdido. Mais referências serão dadas no próximo capítulo, que versa sobre astronomia antiga. Não obstante, a cronologia védica é muito mais expansiva e sofisticada. Ela excede até mesmo o ciclo total de quatro yugas, que dura 4,32 bilhões de anos. Os textos declaram que 1000 rotações do ciclo de yugas formam o que é chamado de “um dia de Brahma”. Conhecido em sânscrito como um “kalpa”, cada dia de Brahma tem uma noite correspondente com a mesma duração de 4,32 bilhões de anos. Quando a cortina da noite de Brahma cai, o conteúdo de quase todo o universo se arruína – quase todos os planetas são devastados. Então, com a alvorada de um novo dia de Brahma, os planetas devastados manifestam-se novamente com suas formas de vida apropriadas.

Cada dia de Brahma pode ser dividido em quatorze períodos chamados manvantaras. Um manvantara dura 71 ciclos de yuga. Antes e depois de cada um dos manvantaras, há uma junção conhecida como sandhya, que dura 1.728.000 anos. Cada um desses sandhyas, ou “costuras de ligação”, tem sua própria devastação parcial e reaparecimento da vida.

Revisemos rapidamente: um conjunto de 71 ciclos de yuga de 4,32 bilhões de anos forma um manvantara. Cada manvantara, que dura 306,72 milhões de anos, combina-se em um conjunto de 14 para formar um kalpa, um dia de Brahma. Esse dia dura 4,32 bilhões de anos. A noite tem a mesma duração.

Incrivelmente, a escala de tempo védica não termina aí. Pegando 36.000 kalpas, dias de Brahma, e mais 36.000 noites – cada dia e noite com a duração de 4,32 bilhões de anos –, você tem o que é chamado de “a vida de Brahma”. Esse período completo de Brahma, que inclui muitas devastações parciais e restabelecimentos, é a verdadeira medida védica da duração cósmica. O total vertiginoso é 311,04 trilhões de anos.

Onde estamos agora, de acordo com essa duração de tempo colossal? Mesmo em meio a um período de tempo tão insondável, a estrutura de tempo védica nos permite certa autolocalização. Pelo menos dentro de um kalpa – um dia de Brahma, de 4,32 bilhões de anos –, podemos apontar onde estamos. Estamos no ano 5000 da Era de Kali, dentro do vigésimo oitavo ciclo de yuga, durante o sétimo período manvantara do atual dia de Brahma, que está em torno do meio-dia. Isso significa, de acordo com a cosmologia védica, que o aparecimento da vida na atual Terra tem a idade de 2,3 bilhões de anos. Curiosamente, os paleontólogos da atualidade defendem que os organismos vivos indiscutivelmente mais antigos que já encontraram têm aproximadamente essa idade. Algas fósseis, como aquelas da Formação Gunflint, no Canadá, são tidas como tendo essa idade.

O tempo cíclico não é peculiar à cultura védica. Os gregos antigos viam o cosmos dessa maneira, embora acolhessem outras concepções também. Podemos dizer seguramente que muitos de seus pensadores mais destacados propunham ciclos de tempo bastante similares àqueles descritos nos Vedas. Por exemplo, Os Trabalhos e os Dias, de Hesíodo, apresenta uma série de eras comparáveis aos yugas védicos. Ele lista os períodos de ouro, prata, bronze e heroico, nos quais o sucessor é sempre pior do que o antecessor. Empédocles, em Sobre a Natureza, refere-se a ciclos no tempo cósmico; os diálogos de Platão descrevem tempos rotatórios e destruições catastróficas recorrentes da civilização humana, e os escritos de Aristóteles, em muitas partes, afirmam que as artes e as ciências manifestaram-se muitas vezes no passado.

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Os gregos antigos também tinham consigo o conceito de tempo cíclico.

Todavia, quando a cultura judaico-cristã envolveu a Europa, outra visão de tempo assumiu o controle. Com um forte rompimento em relação às cosmologias védica e grega, o conceito que agora se tornava preeminente retratava uma única progressão do universo – de um começo a um fim. A criação, o surgimento dos humanos, a salvação e o dia do julgamento final acontecem apenas uma vez, assim como os indivíduos vivem apenas uma vez. Os primeiros Pais da Igreja, apesar de manterem uma apreciação geral pelo pensamento grego, acusaram a visão cíclica do mundo de ser pagã.

Com a queda de Roma no século V d.C., os não-cristãos atribuíram a calamidade ao fato de o povo ter abandonado seus deuses pagãos. Santo Agostinho, escrevendo entre 413 e 426 d.C., produziu dez volumes para redirecionar o entendimento pertinente à queda de Roma. Seu majestoso tratado A Cidade de Deus anunciou que a história trouxera deliberadamente o colapso de Roma a fim de dar início a uma nova civilização cristã.

Nas mãos de Agostinho, o tempo sempre estava indo para algum lugar. Seguia um caminho linear, em uma direção específica estabelecida pela vontade de Deus. O processo era irreversível, e o caminho era preestabelecido. Cada civilização superara as civilizações predecessoras, e a humanidade, destarte, movia-se sempre para frente e ao alto. O piedoso pesquisador observava que, através dessa marcha linear de progresso, descortinava-se o plano divino para a redenção cristã.

A marcha do tempo de Agostinho rumo a uma meta predeterminada influenciou o pensamento ocidental por mais de 1500 anos. Sua visão do tempo – escapando de desafios sérios por 1300 anos – até hoje permanece um pilar frequentemente inconsciente de nossa herança cultural ocidental. As ideias modernas de história e progresso vantajoso, sejam marxistas, sejam empíricas, devem seu surgimento ao trabalho antigo de Agostinho.

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Santo Agostinho. Pintura atribuída a Jesuíno do Monte Carmelo.

Acadêmicos compartilham de outras conjeturas judaico-cristãs predominantes. Antropólogos e arqueólogos mainstream acreditam que a civilização humana é um fenômeno recente e que seu aparecimento mais antigo se deu no Oriente Médio. Um decano moderno de indologia, D. D. Kosambi, ao mesmo tempo que açoitava a descrição védica de uma civilização avançada, exibiu ostensivamente a noção linear familiar:

Em nenhum lugar existe alguma evidência encontrada de uma era de ouro perdida, um estado de glória imaculada. O homem não progrediu uniforme e estavelmente, mas progrediu, sim, no geral, de um animal razoavelmente ineficiente para uma criatura fabricadora e utilizadora de ferramentas que dominou todo o planeta através de seus números e pelas variadas formas de suas atividades, e agora precisa apenas aprender a controlar-se.4

Tendo em mente o legado cosmológico da estrutura judaico-cristã, é realmente provocador ver os mesmos conceitos na ciência moderna mainstream, do que a exoticidade quântica se exime. Conquanto secularizada, desnudada de qualquer mão divina, a mesma visão parece prevalecer: nosso universo é uma ocorrência única, os humanos surgiram uma vez, apenas neste planeta, e a futura evolução da espécie humana é tão única que é imprevisível, embora grandes aperfeiçoamentos estejam garantidos. Apesar dos grandes esforços dos cientistas por abandonar os confinamentos da religião judaico-cristã, as mesmas noções se infiltram inconscientemente em suas teorias?

Fatalismo e os Vedas

Uma concepção equivocada popular é que a inevitabilidade e a predeterminação dominam a cultura védica, suprimindo a capacidade humana de iniciativa, criatividade e busca por oportunidades. Muitos pensam que os ciclos védicos compartilham do fatalismo associado às cosmologias babilônia, egípcia e maia. Stanley Jaki, um padre beneditino com doutorado tanto em física quanto em teologia, fez um estudo amplo sobre o tempo em cosmologias antigas. Ele compara os ciclos védicos a um moinho posto em rotação pelo andar de um animal, que transfixa o povo em um estupor de resignação e impotência. Portanto, ele opina, a marca da cultura védica é o desespero e o desânimo.5

Jaki conta a história de um povo maia, os itzás, cujos líderes informaram a dois missionários espanhóis que, em uma data específica, dali a oito anos, um tempo de calamidades recairia sobre a tribo. Os missionários informaram devotadamente os conquistadores. Exatamente na data predestinada, um pequeno contingente de soldados espanhóis apareceu. Os itzás, embora bem armados e numericamente superiores, imediatamente se renderam, sem apresentar qualquer oposição. É dito que essa mansidão em face de adversidades predeterminadas estorvam todas as culturas cíclicas.

Nada poderia ser mais distante da verdade védica. Os Vedas enfatizam a importância de executarmos os deveres sociais, familiares e ocupacionais prescritos a nós sob quaisquer circunstâncias, quer a maré esteja favorável, quer não. Através dessa determinação resoluta em face das sortes inconstantes da vida, espera-se o desenvolvimento de um caráter forte e de uma base moral determinada. Consequentemente, a sociedade se tornará uma unidade com princípios elevados que pode, por fim, elevar-se à plataforma do conhecimento transcendental.

O aparecimento impermanente de felicidade e aflição, e seu desaparecimento no devido curso do tempo, são como o aparecimento e o desaparecimento das estações de inverno e verão. Surgem da percepção sensorial, e a pessoa tem que aprender a tolerá-los sem se perturbar. Aquele que não se perturba com a felicidade e a com a aflição, sendo estável em ambas, é certamente qualificado para a libertação. (Bhagavad-gita 2.14–15)

No tocante ao dito efeito mesmerizador do tempo védico sobre o espírito humano, talvez queiramos ser um pouco mais caridosos em admitir que não há nenhum mal em consultar uma boa previsão do tempo. A apresentação védica de Kali-yuga tem o objetivo de ser apenas isso. Uma abordagem modesta e sóbria ao mundo dos ciclos de yuga seria ver o quanto as predições de Kali-yuga são de fato visíveis no mundo de hoje.

21 I (artigo - Teologia) O Tempo Védico (5900)9

O cumprimento do dever é um elemento marcante na cultura védica.

Quando as pessoas ouvem que há previsão de chuva, carregam um guarda-chuva, mas, independente da chuva, seguem energeticamente com suas obrigações. Ter conhecimento prévio de circunstâncias iminentes muito provavelmente amplia sua efetividade em vez de reduzi-la. Os Vedas declaram em alto e bom som que nossa felicidade e nossa aflição nesta vida já são pré-formatados no instante do nascimento. Independente do destino, entretanto, somos solicitados a executar os deveres prescritos nos textos védicos. O ponto crucial dessa metafísica é que a próxima vida não está pré-formatada. É dito que suportamos o fardo do passado enquanto caminhamos para um futuro não traçado. A próxima vida é moldada de acordo com nossas escolhas atuais.

As pessoas mais inteligentes são aconselhadas a transcenderem por completo a lei de ação e reação, piedade e impiedade, céu e inferno. Eis o maior tesouro dos Vedas. Em outras palavras, a cultura védica não faz de nós o asno no giro moinho. Ao contrário, oferece-nos a venturosa chave de algo imensuravelmente superior. Os videntes védicos querem que compreendamos que esta existência material como um todo é mortal – seja cíclica ou linear, seja celestial ou miserável. A inteireza da existência material é o fatigante e sombrio moinho de tração animal. Contudo, talvez por desconhecermos algo melhor, protestamos quando a existência material é desvalorizada.

Na pior das hipóteses, os recém-chegados ao mundo védico deveriam contemplar as profundas oportunidades que abundam na cultura védica: uma pessoa diligente pode transcender a existência material, até mesmo no corpo atual. E os menos laboriosos entre matriculam-se em um curso de elevação gradual, que demanda algumas vidas – ou mesmo muitas vidas, se necessário – até a obtenção da meta última. Aconselha-se aos cérebros mais avançados na sociedade que trabalhem incessantemente por esse ápice, muito além dos surgimentos temporários de felicidade e aflição.

Pessoas que são de fato inteligentes e que têm inclinação filosófica devem se esforçar somente por aquela rara posição transcendental que não pode ser lograda vagueando para o alto e para baixo entre o planeta mais elevado e o planeta mais baixo no universo. Qualquer felicidade material disponível podemos obter pela força do tempo, assim como obtemos sofrimentos apesar de não os desejarmos. Visto que esses não são auferidos por consciência espiritual, não devemos nos esforçar por eles. (Srimad-Bhagavatam 1.5.18)

Se concordarmos exclusivamente com o fisicalismo, o mundo de matéria e suas reações, a mensagem védica talvez nos pareça desanimadora – está enfraquecendo a única experiência que conhecemos. Ao estimarmos a perspectiva védica, no entanto, vimos a vida de peleja com a felicidade material e com a aflição como desanimadora e sem solução também. Dado que a verdadeira felicidade e a verdadeira liberdade estão disponíveis apenas no plano espiritual, somos incitados a trabalhar vigorosamente para alcançar esse objetivo supremo.

Referências

  1. Richard Thompson, Vedic Cosmography and Astronomy (Los Angeles: The Bhaktivedanta Book Trust, 1990), p. 21.
  2. J. D. North, “Chronology and the Age of the World”, em Cosmology, History and Theology, ed. Wolfgang Yourgrau e A. D. Breck (Nova Iorque: Plenum Press, 1977), p. 315.
  3. D. W. Patten e P. A. Patten, “A Comprehensive Theory on Aging, Gigantism and Longevity”, em Catastrophism and Ancient History, vol. 2, parte 1 (agosto de 1979), p. 29.
  4. D. D. Kosambi, The Culture and Civilization of Ancient India (Londres: Routledge e Kegan Paul, 1965), p. 28.
  5. Stanley Jaki, “The History of Science and the Idea of an Oscillating Universe”, em Cosmology, History and Theology.

Todo o conteúdo das publicações de Volta ao Supremo é de inteira responsabilidade de seus respectivos autores.

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3 Respostas

  1. Gokula-Taruni dd

    Texto maravilhoso!

    29 de janeiro de 2015 às 8:45 AM

  2. Pingback: Artigos e Palestras | Volta ao Supremo | Página oficial

  3. Glauber

    Nuca entendi tanto a cosmologia védica como descrita nesse texto! Excelente! Caiu como uma luva pra entender a decadência social que estamos vivendo.

    15 de setembro de 2017 às 12:13 AM

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