Quando Sally Recebeu o Swami

Satyaraja Dasa

Ano passado, tive a boa fortuna de conhecer Gopal e Sally Agarwal, um casal de idosos que exerceu um papel significativo na origem da ISKCON. Eles estarão eternamente gravados na memória coletiva dos devotos como dois dos primeiros ocidentais a receberem a misericórdia de Srila Prabhupada. Foram eles que deram a ele, no outono de 1965 – antes mesmo de a ISKCON receber seu nome – abrigo, hospitalidade, amizade e sincero amor. Por um mês, a casa dos Agarwals serviu como o primeiro refúgio de Prabhupada fora da Índia.

Ao longo dos dias que Prabhupada passou no lar dos Agarwals, em Butler, no oeste da Pensilvânia, ele foi se familiarizando com a típica pequena cidade americana. Essa cidade, acomodada entre alguns montes, pouco mudou desde a breve visita de Prabhupada anos atrás.

Ano passado, Nitai Dasa, discípulo de um discípulo de Srila Prabhupada, organizou uma celebração em Butler para comemorar o tempo em que Prabhupada passou ali. De forma muito apropriada, o evento foi organizado no clube Butler Cubs, na rua South Mckean, número 13, na ACM (Associação Cristã de Moços) que serviu de dormitório para Prabhupada nos dias em que ficara com os Agarwals. Além do local significativo, os Agarwals foram os convidados de honra do evento. Sally palestrou para uma audiência de inúmeros devotos da ISKCON, incluindo Radhanatha Swami, Varshana Swami e Chandrashekhara Swami. Dr. Allen Larson foi o mediador da palestra. Dr. Allen – hoje professor aposentado de filosofia da faculdade Slippery Rock, da cidade de Butler – convidou, no ano de 1965, Srila Prabhupada a dar sua primeira palestra em uma faculdade no ocidente.

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Sally.

Um dos pontos altos do evento, ao menos para mim, foi poder falar pessoalmente com Sally e Gopal, um casal fascinante e de bom coração, com lembranças únicas e profundas de Srila Prabhupada. Por muitos meses após o festival, mantivemos contato por telefone e e-mail, e compartilharam comigo maravilhosas histórias do tempo que passaram com meu mestre espiritual. Embora não tenham se tornado devotos, na acepção comum da palavra, Prabhupada purificou suas consciências, mudando para sempre suas vidas e a forma com que percebem o mundo. Um relato detalhado da relação dos Agarwals com o devoto puro de Krishna aparece na obra Srila Prabhupada Lilamrita, de Satsvarupa Dasa Goswami, e este breve artigo se propõe a ser um adendo à obra mencionada.

Que a Missão Tenha Início

Uma semente seca na palma de nossa mão talvez pareça insignificante, mas, dentro dela, há uma árvore em potencial. Algo pequeno a princípio pode culminar em algo muito grandioso. Assim aconteceu que um homem de negócios de Agra – de nome Mathura Prasad Agarwal – ofereceu a um venerável e incomum monge, que o mundo conheceria posteriormente como Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, a casa de seu filho nos Estados Unidos para sua ida ao mundo ocidental. Prabhupada disse a Mathura Prasada que havia sido instruído por seu mestre espiritual a distribuir a mensagem atemporal da consciência de Krishna – a ciência da realização de Deus – por todo o mundo. O piedoso homem de negócios pôde entender por essa afirmação que Prabhupada precisaria de sua ajuda apenas para entrar no país americano. Prabhupada iria, em breve, viajar por todo o mundo e mudar a história da religião ao fundar seu movimento para a consciência de Krishna.

Os membros da ISKCON conhecem bem a história: Após uma árdua viagem de navio, aportando em Boston, e em seguida em Nova Iorque, Prabhupada infiltrou-se no mundo ocidental levando séculos de tradição e a joia preciosa do conhecimento védico para todos aqueles que se permitissem recebê-la. Ele foi obrigado, pela lei americana, a permanecer na casa de seus anfitriões/patrocinadores, a casa de Gopal e Sally, o filho e a nora de Mathura Prasad. Os Agarwals providenciaram a Prabhupada todos os documentos que ele precisava para ficar legalmente nos Estados Unidos. O casal também ofereceu a ele sua casa, em Butler, Pensilvânia, como seu primeiro templo estrangeiro.

Isso foi no ano de 1965, e o casal tinha cerca de 30 anos, sendo casados há seis. Sally, uma mulher branca de Pittsburgh, de orientação religiosa metodista, estava entrando pela primeira vez em contato com a cultura indiana de seu esposo. Ela estava muito empolgada com a ideia de um “swami de verdade” morar em sua casa.

Como relatado por Sally, os Agarwals receberam a primeira carta de Prabhupada no começo de setembro, e ele anexara uma foto sua para que pudessem reconhecê-lo quando chegasse.

“Através daquela foto”, conta Sally, “meu esposo o encontrou em Pittsburgh, quando ele chegava da cidade de Nova Iorque. Gopal havia contratado os serviços da empresa Traveler’s Aid para levá-lo até a Pensilvânia. Aí encontramos com ele. Era quase meia-noite quando ele chegou a Butler, e, coitadinho, ele estava exausto por causa das constantes viagens, e o único lugar que tínhamos para que ele descansasse era o nosso sofá da sala”.

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Gopal.

Não havia muita alternativa. A residência dos Agarwals, um pequeno sobrado, tinha alguns poucos cômodos no primeiro andar e dois quartos no andar de cima, que eram ocupados por seus dois filhos, Kamla Kumari (uma garotinha de três anos) e Brij Kumar (o filho recém-nascido do casal). Após a partida de Prabhupada, tiveram outros dois filhos, Indu e Maya, nascidos em 1969 e 1971 respectivamente.

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Prabhupada brinca com o pequeno Brij Kumar.

Como o apartamento dos Agarwals era um tanto pequeno – e porque não queriam que Prabhupada ficasse confinado àquele desconfortável sofá, noite após noite – decidiram que seria melhor que ele ficasse em um quarto da ACM. Ele passaria a manhã, tarde e noite com eles e iria para a ACM apenas quando quisesse dormir. A associação ficava a alguns metros da casa dos Agarwals, no clube Butler Cubs, onde realizamos o evento.

Em uma conversa recente com Sally, ela me contou um pouco sobre as semanas que passou com Prabhupada:

Ele era muito gentil, solícito e educado. Eu sentia como se ele fosse pai do Gopal – era como se houvesse um avô na casa, sabe? Ele brincava com a Kamla e com o Brij. Ele adorava as crianças, mesmo quando Brij mordeu suas sandálias! Ele apenas ria, e tratava tudo com bom humor. Algumas vezes, ele nos falava sobre sua missão, mas ele sempre respeitava minha formação como metodista – nunca tentava nos converter ou impor-nos suas crenças. Ele não falava nada sobre iniciar um movimento ou algo do tipo; mas era muito sério quanto à distribuição de seus livros. Ele os trouxera da Índia, e via a missão da sua vida como sendo revelar para o ocidente o conhecimento que ele tinha. Nós nos apaixonamos por sua sinceridade, erudição e carisma. Eu chorei quando ele teve de sair de Butler.

Sally também gosta muito de mencionar que sua filha, quando ainda era criança, foi a primeira ocidental a detectar a santidade de Prabhupada: “Uma vez, quando Kamla tinha apenas três anos de idade, ao ver o Swamiji nas vestes de um homem santo, ela o chamou de ‘Swami Jesus’. Ele apenas sorriu e disse: ‘E uma criancinha os guiará’”.

Um Swami em Butler

Alguns dias após a chegada de Prabhupada, Sally procurou todos os jornais locais e, pouco depois, um artigo apareceu no jornal Butler Eagle: “Com Inglês Fluente, Devoto do Culto Hindu Explica o Compromisso da Visita ao Ocidente”. Um fotógrafo viera ao apartamento dos Agarwals e tirara um foto de Srila Prabhupada sentado na sala de estar, segurando um volume do Srimad-Bhagavatam aberto. A manchete anunciava: “Embaixador da Bhakti-yoga”. O artigo começava:

Um homem moreno claro, usando desbotados roupões alaranjados e com sapatos brancos próprios para se tomar banho, saltou de um carro compacto ontem e entrou na ACM de Butler para comparecer a uma reunião. Ele é A.C. Bhaktivedanta Swamiji, um mensageiro da Índia para os povos ocidentais.

O artigo citava Prabhupada como se segue:

“Minha missão é reviver nas pessoas a consciência de Deus”, diz o Swamiji. “Deus é o Pai de todos os seres vivos, em milhares de diferentes formas”, explica ele. “A vida humana é uma fase de perfeição na evolução; se não assimilamos a mensagem, retrocedemos no processo”. Se os americanos derem mais atenção à vida espiritual, serão muito mais felizes, ele diz.

Por pedido de Prabhupada, Gopal tornou sua casa mais ou menos pública todas as noites das seis às nove horas. A família convidava amigos e vizinhos para ouvirem “o Swami” falar sobre a exótica Índia, e sobre filosofia védica e misticismo. Os Agarwals conheciam muitos intelectuais, e diversas pessoas vinham, até mesmo de cidades vizinhas, para ouvir as palavras do Swami.

Palestrar para um grande número de pessoas estava claramente entre seus múltiplos talentos. Mas aquela era apenas sua persona formal. Os Agarwals viam, também, seu lado mais íntimo, que era curioso e amigável, caseiro e afetuoso. Gopal nos conta, por exemplo, como Prabhupada preparava-lhes o almoço diariamente, demonstrando como preparar a refeição no autêntico estilo vaishnava.

Ele tinha a curiosidade e o interesse de uma criança, diz Sally: “Ele ficava fascinado com as máquinas de lavar, com a secadora, com o aspirador de pó e com os legumes congelados no freezer. Parece que essas coisas não eram comuns na Índia, e ele falava sobre elas por horas e horas. Ele sempre falava sobre os avanços tecnológicos e como eles podem ser usados no serviço a Deus”.

Algumas vezes, a presença de Prabhupada na casa dos Agarwals trazia situações diferentes. Sally conta a história de quando ele lavava suas roupas no banheiro do segundo andar.

Nossa! Eu não sabia desde o começo, mas ele lavava suas duas peças de roupa todas as noites. Imagine! Ele tinha apenas duas roupas de monge naquela época, e todos os dias ele as lavava. Ele ficava lavando sua roupa na pia lá de cima, encharcando o assoalho do banheiro por um longo tempo – slop, slop, slop. Gopal teve, um dia, que ir lá em cima e explicar para ele que não se pode fazer isso na América – é preciso ser cuidadoso com a água. Na Índia, o chão é de cimento, terra ou lama, por isso não importa se você o encharca. Mas, no nosso país, quando o banheiro é no segundo andar, isso definitivamente importa! Então ele passou a colocar suas duas peças de roupa para secarem na grama, do lado de fora do nosso condomínio – o que era uma visão um tanto curiosa para a vizinhança.

É claro que não carregam nada como má lembrança. Sally e Gopal apreciam profundamente o fato de terem tido a oportunidade de receber o Swami, bem como vários visitantes da comunidade de Butler. Sally, como registra o Lilamrita, relembra sobre sua experiência pessoal com ele:

Ele foi o hóspede menos trabalhoso que tive em minha vida, porque, quando eu não podia passar o meu tempo com ele, ele cantava, e eu sabia que ele estava perfeitamente feliz. Quando não podíamos conversar, ele cantava. Ele era tão tranquilo – eu via que ele nunca se aborrecia. Nunca senti qualquer tensão ou constrangimento com sua presença. Ele era tão calmo que, quando eu tinha que tomar conta das crianças, ele apenas cantava. Era o máximo. Quando eu tinha coisas para fazer, ele se alegrava apenas cantando. Foi um hóspede excelente. Quando vinham, as pessoas fumavam cigarro, mas ele dizia: “Não se preocupe. Não tem problema”. Era o que ele dizia. “Não tem problema”. Porque sabia que éramos diferentes. Eu não fumava diante dele. Sabia que não devia fumar diante do pai do Gopal, logo achei que devia tratá-lo do mesmo jeito. Ele não causava problema para ninguém.

A Primeira Aula Vaishnava do Ocidente

Prabhupada palestrou para vários grupos na comunidade de Butler, inclusive o Lions Club, do qual recebeu um documento oficial que trazia: “Expressamos através deste que A.C. Bhaktivedanta Swami foi um convidado de honra do Lions Club de Butler, e, por apreciação e reconhecimento da relevância dos serviços por ele oferecidos, o Lions oferece-lhe este certificado”.

Ele também palestrou na ACM e no seminário/escola St. Fidelis, na cidade vizinha de Herman.

O professor Allen Larsen, o então coordenador do departamento de filosofia da Faculdade Slippery Rock State, também convidou Prabhupada para que palestrasse. Cem estudantes de três de suas turmas compareceram. Prabhupada apareceu perante eles com sua refulgência de outro mundo e com sua indumentária vaishnava completa – algo incomum no ocidente, e mais ainda em Butler. Ele sentou-se e cantou o ­maha-mantra Hare Krishna. Então, levantou-se e deu sua aula – uma aula formal, mas simples, para um público que nunca ouvira falar sobre a consciência de Krishna – e, por fim, respondeu as perguntas da audiência.

O professor Larsen lembrou que o programa durou cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos. Na nossa celebração em Bultler, no ano anterior, ele lembraria:

A primeira vez em que o vi, ele me disse que havia vindo aos Estados Unidos para traduzir as escrituras védicas, e, até onde eu sabia, isso era tudo o que ele viera fazer aqui. Nós conversamos um pouco no campus. Era um dia bonito, e ele puxou suas pernas para cima e se sentou no que vocês chamam de postura de lótus. Olhando o campus, ele disse que as árvores deveriam ser frutíferas. Elas não eram – traziam apenas flores, apenas para enfeitar, e eu concordei com ele.

Durante o intervalo entre nossas conversas, ele usava suas contas para recitar uma oração a Krishna, mas ele apenas a suspirava, e eu não podia ouvi-la. Embora eu tenha esquecido muitos dos detalhes de nossa conversa, ali ficou claro para mim que ele era um homem santo. Isso simplesmente emanava de seus poros. Sua tranquilidade e serenidade foram o que me levaram a pensar sobre sua santidade pela primeira vez. Eu nunca poderia imaginar que aquele homem silencioso se tornaria líder de um significativo movimento religioso aqui e no resto do mundo. Por todos esses anos, a lembrança daquele homem santo sempre me acompanha.

As palestras na Pensilvânia foram um laboratório de experimentos para Prabhupada. Ali, Sua Divina Graça teve seu primeiro indicador de como os americanos receberiam sua mensagem. A América parecia promissora. Sally e seu esposo encorajam o Swami a repetir essa fórmula de palestra em todo lugar que fosse, e o professor Larsen demonstrou grande satisfação por ter recebido em sua faculdade um genuíno sadhu indiano.

A Expansão do Movimento

Após um mês, Prabhupada deixou a pequena casa de Gopal e Sally, e a semente de sua missão havia sido plantada no solo americano. Enquanto lá, ganhou experiência com a audiência do país. Ele viu que as pessoas tinham interesse em seus livros e em sua mensagem, e também viu que podia ser gentil com pessoas de outra língua. Sally, em especial, “passou a adorar o Swami”, como ela diz.

Em Nova Iorque, ele batalhou por pelo menos seis meses, tendo de tolerar o doloroso inverno nova-iorquino, o roubo de suas poucas posses, e os problemas de conviver com um colega de quarto drogado. Mas seu intenso desejo de iniciar uma revolução espiritual logo daria frutos.

Ele manteve contato com Sally e Gopal através de carta por um longo tempo – especialmente com Sally, uma vez que ela era a mais empolgada, sempre disposta a conversar e a compartilhar experiências pessoais. As correspondências de Prabhupada para Sally são um registro importante, e é muito bonito ver nessas cartas como Prabhupada se preocupava com ela.

Em maio de 1966, Srila Prabhupada, com a ajuda de dois seguidores, alugou uma loja no Lower East Side, Nova Iorque, que era anteriormente uma loja de presentes e lembranças chamada Matchless Gifts [Presentes Inigualáveis]. Os primeiros visitantes do novo centro de Srila Prabhupada ficavam intrigados com o nome profético. Em julho de 1966, ele fundou oficialmente sua instituição: a ISKCON.

Sally também gosta muito de contar como é divertido ser “celebridade” por ter sido um dos primeiros contatos de Prabhupada no ocidente:

“O tempo que a gente passou com o Swami abriu minha mente”, ela diz, “porque estou aberta para aquele tipo de coisa. Quero dizer, é muito divertido. Maya, minha filha, estava no aeroporto de Dallas alguns anos atrás quando foi abordada por um devoto Hare Krishna vendendo livros e pedindo por alguma doação. E claro que ela disse que era filha da Sally Agarwal – você pode imaginar a reação do devoto. Em outra ocasião, eu e Maya estávamos em Madri e havia um grupo Hare Krishna cantando perto de nós. Mas dessa vez nós não falamos quem éramos – nós não queríamos causar nenhuma comoção. Mas é sempre divertido; é sempre divertido”.

Como o famoso e influente empresário do marketing Bruce Barton disse: “Às vezes, quando penso sobre as grandiosas consequências que têm pequenos atos, eu me inclino a acreditar que não existem pequenos atos”. O gesto piedoso de Mathura Prasad para com o mais proeminente representante do Senhor Krishna, e a subsequente gentileza expressa por Gopal e Sally em Butler, certamente não são “pequenos atos”, pois a consequência desses graciosos atos provou-se monumental.

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25 05

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