Sistema de Castas: Discriminação Ignorante ou Cooperação Iluminada?

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Chaitanya Charana Dasa

O Corpo Social: Discriminação ou Cooperação?

É importante saber que as escrituras védicas originais não consideram o nascimento – a base da discriminação castista no hinduísmo moderno – como o critério para a classificação social. O Bhagavad-gita (4.13) declara que essa divisão social, conhecida como Varnashrama, era baseada nas qualidades e nas atividades (guna/karma). O Rig Veda (10.90.12) compara a sociedade ao corpo humano. Os brahmanas (pensadores e professores) são comparados à cabeça, os kshatriyas (governantes e protetores) ao ventre, e os shudras (trabalhadores e auxiliadores gerais) aos pés. Em nosso corpo, uma parte pode estar posicionada mais alta do que a outra, mas isso tem o único fim de facilitar sua máxima contribuição ao corpo. Em última instância, todas as partes precisam de nutrição e são necessárias para o apropriado funcionamento corpóreo. Se qualquer parte for negligenciada ou funcionar mal, todo o corpo sofrerá. Similarmente, no corpo social, os brahmanas (determinados por qualidades, e não nascimento) têm a posição mais alta na hierarquia social, mas isso é apenas para garantir a utilização social ideal de suas habilidades intelectuais. Em última instância, toda classe é valorizada por sua contribuição à sociedade. Se alguma classe é explorada ou permanece letárgica, toda a sociedade é afetada negativamente.

Outro ponto de importante entendimento é que as quatro classes sociais, conhecidas como varnas, não são divisões discriminatórias criadas pelos homens. Essencialmente, são quatro tipos de humanos encontrados em toda sociedade humana. A maioria das pessoas exibe qualidades que refletem uma sobreposição dessas categorias, mas uma inclinação ocupacional termina por predominar. É interessante notar que encontramos divisões similares em uma corporação multinacional – pesquisadores, administradores, pessoal do departamento financeiro e os trabalhadores. Essa divisão não é discriminatória, mas justa, pois as pessoas são classificadas não forçosamente, mas segundo suas habilidades.

Algo intrigante é que o filósofo grego Platão, em sua A República, ecoa esses princípios. Embora ele mencione três classes em vez de quatro – os reis filósofos, os guerreiros (chamados de auxiliadores) e os mercadores e trabalhadores juntos como uma só classe –, sua base para classificação é a mesma – propensões naturais. Ele compara os governantes ao ouro, os auxiliadores à prata, e aqueles na terceira classe ao bronze ou ao ferro.

Ocupar as pessoas de acordo com suas naturezas psicológicas tem muitos benefícios:

1. Provê satisfação profissional ao indivíduo e segurança

Nos tempos védicos, pessoas mais velhas e experientes identificavam a inclinação natural de uma criança e treinavam-na de acordo, investindo-a com o poder necessário para ter uma atuação excelente em sua vocação e, destarte, tornar-se emocionalmente satisfeita e economicamente segura.

2. Evita competição desnecessária e maximiza a produtividade social

Quando as pessoas são treinadas de acordo com suas naturezas, todos os membros da sociedade – professores, administradores, comerciantes, artesãos – exercem suas respectivas profissões sem terem que competir uns com os outros e contribuem construtivamente para a sociedade.

Na atualidade, quando certas profissões – direito e medicina, por exemplo – são glamorizadas, todos querem atuar em tais áreas. As consequências são:

• Os estudantes nessas áreas competem de modo intenso, e muitas vezes de modo insano.

• Mesmo estudantes bem-sucedidos temem o desemprego uma vez que há muitos candidatos por vaga de emprego.

• Quando estudantes são instruídos contra suas naturezas, são incapazes de desenvolver a competência esperada em suas profissões, o que acarreta prejuízos de todo tipo e até mesmo caos.

• Escassez de talento em outras áreas gera um declínio da produtividade social como um todo.

3. Satisfazer as necessidades materiais de todos de maneira eficiente e descomplicada.

Comunidades cujos membros se especializam em diferentes esferas podem reciprocar internamente e se tornarem autossuficientes, evitando as complicações consequentes da dependência externa.

Como o Varnashrama Evita a Exploração?

1. Todas as pessoas – independente de sua posição social – eram espiritualmente iguais como servas de Deus

As castas inferiores serviam as castas superiores, mas as castas superiores serviam a Deus – visivelmente. Quando as pessoas viam: “Nossos mestres são tão servos quanto nós, apesar de servirem em um papel diferente”, elas executavam sem hesitação seu papel no corpo social, decidido segundo os talentos que haviam recebido de Deus. Sabendo que todas as condições materiais são transitórias, ao passo que ganhos espirituais são eternos, as pessoas ficavam contentes com o perene enriquecimento espiritual providenciado pelo varsnashrama e transcendiam as diferenças materiais.

2. As classes sociais mais poderosas tinham que ser as mais renunciadas

Era compulsório às castas superior – os brahmanas e kshatriyas – renunciarem o mundo por volta dos cinquenta anos e centrarem-se por completo na autorrealização espiritual. Isso não apenas assegurava que seriam exitosos na conquista da meta espiritual da vida, mas também impedia que se tornassem exploradores. Assim, o sistema varnashrama engenhosamente harmonizava e integrava a igualdade espiritual absoluta de todas as pessoas com suas diferenças materiais relativas. Gerald Heard, em seu livro Man, the Master chama o varnashrama de “democracia orgânica”. Ele diz: “No governo das pessoas que se organizaram em uma relação viva, e não mecânica; no qual, em vez de todos os homens serem rotulados como iguais, o que é uma mentira, todos os homens foram conhecidos como de igual valor, não poderia haver outro resultado senão nós encontrarmos a posição na qual nossa contribuição potencial podia ser dada e nosso crescimento essencial ser assim buscado”.

Mark Tully, o correspondente da BBC em Nova Délhi, explica a superioridade do varnashrama em comparação ao sistema social aparentemente igualitário da atualidade em seu livro No Full Stops in India: “A alienação de muitos jovens no Ocidente e o isolamento na velhice mostram o sofrimento que o igualitarismo inflige sobre aqueles que não vencem, a superficialidade de um igualitarismo que, em princípio, significa oportunidades iguais para todos vencerem e, então, ignora os inevitáveis perdedores. Por tudo isso, a elite da Índia se tornou tão hipnotizada pelo igualitarismo que são incapazes de ver algo positivo na única instituição que de fato fornece um senso de identidade e dignidade àqueles privados desde o nascimento da oportunidade de competir em pé de igualdade: casta”.

O Direito Inato Arruinou Tudo

A ideia da casta por nascimento – o veneno do castismo hindu – é decisivamente não-védico. Os textos védicos abundam em exemplos de pessoas qualificadas, mesmo se de nascimento baixo, sendo elevadas a posições respeitáveis na sociedade.

O Chandogya Upanishad narra como Gautama Rsi declarou que o filho de uma criada, Satyakama Jabali, era um brahmana porque o garoto era veraz sem qualquer hesitação – o indicativo de um verdadeiro brahmana. Ademais, Suta Gosvami, Kanaka, Kanchipurna, Tukarama, Thiruvalluvar, Sura Dasa e Haridasa Thakura foram todos reverenciados como santos, embora de nascimento baixo.

Platão adiciona uma interessante dimensão à sua classificação social: pais de ouro tenderão a ter filhos de ouro, assim como pais de prata naturalmente terão filhos de prata, e o mesmo para pais de bronze ou ferro. No varnashrama, similarmente, a ocupação de uma pessoa frequentemente acontecia de ser o varna do seu nascimento – parcialmente devido à criação da infância e o treinamento. Uma criança nascida em uma família brahmana em geral se tornava um brahmana qualificado, e o mesmo se aplicava às crianças nascidas em outros varnas. Consequentemente, o varna, em geral, era determinado pelo nascimento, mas o mesmo somente podia ser retido mediante a conduta. Assim, se o filho de um brahmana não desenvolvesse as qualidades bramânicas, ele não mais seria aceito como um brahmana, mas como um brahma-bandhu, “o parente desqualificado de um brahmana”. No caminho inverso, se o filho de um shudra exibisse as qualidades bramânicas, seria aceito como um brahmana. Platão também recomenda essa flexibilidade. Se um de ferro tem um filho de ouro, Platão diz, temos que reconhecer que um filho de ouro nascido de um pai de ferro, por exemplo, é, na verdade, de ouro – a hereditariedade deve ser desconsiderada em favor de sua qualidade natural.

Então, como se originou a perversão amplamente difundida na Índia da casta por nascimento? Nos tempos medievais, um círculo social de brahma-bandhus, desejosos de reter os privilégios bramânicos sem desenvolverem o caráter exigido, começaram a defender que a casta era decidida pelo nascimento e era imutável. Posteriormente, utilizaram sua influência social para privar as castas inferiores do acesso às práticas de autorrealização. E assim começou a infeliz história do castismo discriminatório. Divulgadores genuínos dos ensinamentos védicos repudiam categoricamente esse sistema de castas por nascimento, declarando-o não-védico e dando-lhe o nome de asuri varnashrama, “sistema demoniacamente concebido”.

Espiritualidade É a Solução

O propósito último do varnashrama original, conhecido como daivi varnashrama, o sistema divinamente organizado, não tinha por objetivo apenas uma organização social material, mas também a elevação espiritual sistemática. Como almas eternas, amados filhos e servos de Deus, Krishna, podemos obter felicidade eterna apenas no serviço devocional a Ele. Esse amor divino e abnegado permite que vivamos tão felizes quanto possível neste mundo e, por fim, transportemo-nos para a nossa morada original, o mundo espiritual, onde vivemos em eterno êxtase, reciprocando amor com Krishna. O varnashrama oferece o melhor trampolim para nos catapultar para a nossa herança espiritual. O cultivo de espiritualidade genuína – consciência de Krishna – e o retorno ao mundo espiritual é a única solução verdadeira para todos os problemas, inclusive o nascimento, a velhice, a doença e a morte, bem como a discriminação.

Não há dúvidas de que, neste mundo, a discriminação deve ser evitada preventivamente e também remediada. Contudo, o varnashrama é a sua causa? Embora o conceito de pessoas intocáveis e similares injustiças hindus sejam retratadas na mídia mundial como o horror maior da humanidade, grupos raciais como os índios americanos e os aborígenes australianos nas sociedades modernas foram tratados de modo pior do que os intocáveis – foram isolados, amontoados em lugares inóspitos, onde tudo o que podiam fazer era atrofiar e desaparecer. Diga-se de passagem, a Índia é um dos poucos senão o único país cuja história jamais foi maculada por escravidão, apesar da tentativa dos ingleses de colocarem isso no Mahabharata e outras obras através de traduções deliberadamente deturpadoras.

Muitos países hoje testemunham o fenômeno da xenofobia. E a discriminação – se posso usar a palavra – baseada no poder econômico é onipresente na atual economia de consumo.

O que causa a discriminação? Quase sempre o materialismo. Quando as pessoas imaginam que coisas materiais – riquezas e confortos, poder e prestígio, posições e posses – são o único caminho para a felicidade, elas tentam obter tais coisas por quaisquer meios. Como vivemos em um mundo de limitados recursos e ilimitados desejos, abundância para um causa escassez para o outro. Quando os poderosos se orientam materialmente, eles invadem a cota dos fracos, acarretando injustiças sociais. De acordo com tempo, lugar e circunstâncias, o compromisso materialista se mascara na forma de racionalizações raciais, nacionalísticas, religiosas e, é claro, castistas.

O antídoto ao materialismo é a espiritualidade, que provê satisfação interna e cura à mentalidade de exploração. E o varnashrama é a melhor ordem social para fomentar a iluminação espiritual e a experiência. Portanto, enquanto nos esforçarmos para remover a catarata do castismo, certifiquemo-nos de que não arranquemos o olho da sabedoria espiritual védica. Nestes tempos em que o mundo inteiro está reconhecendo o valor da sabedoria multimilenar da Índia na forma de yoga, meditação, vastu-shastra e canto dos santos nomes de Deus, não rejeitemos os profundos e universais ensinamentos espirituais da antiga Índia enquanto corrigimos os males sociais do hinduísmo.

Vindo para o Presente

Em última instância, se o materialismo que gerou a discriminação não for solucionado, outras medidas não terão o efeito esperado. A reserva de cotas para Outras Classes Atrasadas, por exemplo, pode gerar uma discriminação inversa contra as castas superiores. Srila Prabhupada, o fundador da ISKCON, apontou: “Sem o despertar da consciência divina no indivíduo, não há utilidade em clamar por paz mundial”. Portanto, Srila Prabhupada declarou que sua missão ao ir para o Ocidente era “encontrar brahmanas”. Longe de querer reviver o demoníaco e pervertido sistema de castas por nascimento, queria revitalizar o corpo social moderno provendo-lhe a cabeça que lhe falta. Ele queria criar, entre os ditos ocidentais de nascimento baixo, bem como de qualquer outra parte do mundo, uma classe de verdadeiros intelectuais espirituais através de educação, cultura e treinamento. Centenas de tais intelectuais espiritualmente reformados estão agindo como pioneiros em uma revivificação espiritual não-sectária por todo o mundo. Quando tais líderes devotados e desapegados guiarem a sociedade, seus exemplos, palavras e políticas erradicarão a ganância material que causa todas as injustiças. Por conseguinte, praticar e compartilhar a consciência de Krishna constitui o igualitarismo em sua forma mais pura, potente e prática – a solução para todas as formas de discriminação.

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2 Respostas

  1. Anananta

    Muito bom artigo! Gostei! Esclarecedor e oportuno.

    17 de agosto de 2013 às 9:27 PM

  2. Mariana

    Queria agradecer pelo artigo e dizer que esclareceu muitas dúvidas minhas e desmascarou conceitos errados que eu tinha. Vai ser muito útil para a apresentação de um trabalho meu. Espero abrir a mente dos meus colegas ocidentais para outras visões além da relação preconceituosa castas-discriminação.

    12 de maio de 2015 às 7:42 PM

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