Teorias de Epistemologia

Hridayananda Dasa Gosvami

O conhecimento védico inclui vários conceitos de epistemologia, e contribui com algo único: o conhecimento sempre deve produzir algo.

Epistemologia é o questionamento de como você sabe que você sabe, o questionamento do que você considera ser uma maneira válida de conhecer o que você considera conhecível. Isso determinará que tipo de universo é deixado para você. Algo meritório no sistema indiano é que, quando apresentam seus pontos filosóficos, começam declarando sua epistemologia: “Eis o que consideramos serem caminhos válidos para a obtenção de conhecimento.”

Em geral, na academia, você tem todo tipo de pessoas nos estudos de exatas e de humanas que são extremamente ingênuas e ignorantes no que diz respeito a questões epistemológicas. Para conseguir um diploma de Biologia, Física, História, Sânscrito ou qualquer outra coisa, você não tem que cursar uma disciplina de epistemologia. Por causa disso, é comum que façam muitas declarações simplórias.

Li recentemente um livro-texto que consistia em uma pesquisa sobre o hinduísmo. O autor faz declarações como: “A crença em Rama como uma divindade provavelmente começou por causa das seguintes razões históricas…”. A palavra “provavelmente” é utilizada de uma maneira completamente amadora. Em um ambiente filosófico sério, se você diz “provavelmente”, isso tem que indicar algo bastante preciso, algo estatístico, embasado por certa quantidade de informações, entre outras coisas. Porém, de modo geral, quando acadêmicos, sejam de humanas, sejam de ciências exatas, fazem declarações sobre o que provaram ou sobre isso ou sobre aquilo, é frequente que falem destituídos de qualquer treinamento sério em filosofia em geral, para não falar de epistemologia.

A pesquisa acadêmica muitas vezes carece de treinamento sério em filosofia e epistemologia.

Neste, eu gostaria de examinar brevemente o campo epistemológico na atualidade e, então, tecer alguns comentários acerca de como a consciência de Krishna tem ligação com isso.

No Ocidente, encontramos pessoas que, pelo propósito de filosofar ou por ter um interesse sério em questões existenciais particulares, não aceitam cegamente uma autoridade religiosa ou a interpretação de alguém de um livro sagrado ou de um de preceito. Tais pessoas se preocupam em acessar algo certo, em outras palavras, em terem uma crença justificada.

A Necessidade de uma Crença Razoável

Todos nós acreditamos em algo. Krishna diz na Bhagavad-gita (17.3) que sattvanurapa sarvasya sraddha bhavati bharata, isto é, a fé nasce em todos de acordo com a qualidade de sua existência. É extremamente infantil pensar que algumas pessoas têm fé e algumas pessoas têm racionalidade: todos acreditam em algo. Acreditar negativamente, que algo não é o que muitos acreditam ser, também é uma crença. O interesse por epistemologia surge para termos crenças razoáveis.

Segundo a Bhagavad-gita, todos creem em algo. Com epistemologia, podemos ter crenças razoáveis.

Visto que todos acreditam em algo, sob que circunstâncias podemos dizer que uma crença é justificável, que estamos agindo racionalmente por acreditarmos que algo é ou não é? Aqueles que desejaram filosofar sobre isso reconheceram que existe o que chamaram de “trilema”: Sempre que você alega acreditar em algo que é justificável, isso pode terminar em três problemas:

  1. Você pode se ver forçado a regredir infinitamente. Por exemplo, eu alego que a água ferve a 100 graus, então tenho que provar isso, e tenho que provar como sei que a água é pura, e assim por diante. Assim, sempre que você diz algo, tem que justificar isso, e essa justificativa tem que ser justificada, e você é levado por essa regressão ilimitada e, por fim, nada pode ser provado. Esse sistema de regressão não é realmente uma opção cogitável.
  2. Outro problema é que alguém pode cair no raciocínio circular. Um cientista talvez diga que está estudando o mundo e que existe realmente um mundo lá fora que pode ser estudado objetivamente fora de sua mente. Alguém pode perguntar: “Como você sabe que existe um mundo real lá fora?” Ele talvez aponte para uma garrafa e a derrube no chão, o que todos podem ver. Raciocínio circular significa que o próprio ponto que estou tentando provar, assumo como parte do argumento para prová-lo. Porque somente se há um mundo objetivo, fora da minha mente, aquilo ali é uma garrafa de verdade, eu não posso usar isso para provar que existe tal mundo.
  3. A terceira maneira de lidar com isso é apenas dizer que algo é verdade dogmaticamente, como dito em algumas escrituras. Pode-se levantar, nesse momento, o questionamento de se esse ponto em que se parou é arbitrário. Eu posso simplesmente dizer que existe um mundo real lá fora e que, se você não aceitar isso, não conversarei mais com você. A pergunta é se o ponto em que você parou é arbitrário ou se você teve boas razões para parar ali e simplesmente declarar que algo é algo e tornar isso um dado. Em geometria, se não há nenhuma premissa, não há nenhuma geometria. Para começar a discutir geometria, você tem que ter algum pressuposto. Esse reconhecimento de que você tem que começar de algum lugar levou à posição filosófica que tem uma forma clássica e moderna chamada “fundacionalismo”.

Fundacionalismo

O fundacionalismo, como normalmente entendido na filosofia moderna, parece alegar que um sistema de pensamento, uma crença etc., tem que começar por uma proposição autoevidente.

No fundacionalismo clássico, se reconhece, em geral, que há dois tipos de fundação: uma é racional e não-controversa, contra a qual ninguém pode argumentar, e a outra é empírica, ou seja, é uma condição básica assumir que existe um mundo lá fora para que possamos fazer ciência. O exemplo clássico do tipo racional é os dizeres de Descartes em seu Meditações: “Penso, logo existo”. Isso foi considerado incorrigível: eu não poderia negar para mim mesmo o fato de que estou pensando. Eu posso duvidar que as pessoas existam fora de minha própria mente, mas eu não posso duvidar que eu estou pensando agora, em virtude do que não posso duvidar que eu existo. Isso se tornou a fundação racional dele.

Esse tipo de fundacionalismo é muito limitado porque, primeiramente, limita você ao estudo do mundo empírico e descarta o mundo metafísico, que é onde a diversão de fato começa – coisas metafísicas como justiça, beleza, Deus, alma ou o dia de ontem. E se você parte de coisas que todos aceitam, como o “penso, logo existo”, se todos têm que aceitar isso, os pressupostos têm certa soma de conteúdo, como uma semente. Aristóteles reconheceu isso e deu o exemplo de um exército batendo em retirada: embora saiam do campo de batalha, terão de se posicionar em algum lugar. Ele falou de um ponto de começo autoevidente. Porém, se você aceita esses pontos de começo autoevidentes, supostamente universais, você não pode desenvolver muita coisa. O ponto do fundacionalismo é que você deve estabelecer seus próprios pontos de começo autoevidentes, e todas as outras crenças justificáveis têm que partir deles, pois, se o ponto de começo for muito estreito, você não derivará muita coisa a partir dele.

Ao longo do tempo, a muitos filósofos pareceu que algumas coisas do fundacionalismo são verdadeiras, e outras não. O que eu considero que é verdade é que, com qualquer coisa que você queira filosofar ou raciocinar, você tem que começar de algum ponto. Se alguém regride em um ponto, você tem que se posicionar e dizer: para mim, isso é axioma, uma priori, algo autoevidente. Ao declarar que uma questão é autoevidente, você não precisa fornecer algo para provar isso, de modo que fazer isso interrompe o problema da regressão infinita. O Senhor Chaitanya, o advento do Senhor Krishna há cerca de 500 anos, Se valeu desse tipo de evidência, uma prova em si, o que, em sânscrito, se chama svatah-pramana.

svatah-pramana veda satya yei kaya
‘laksana karile svatah-pramanya-hani haya

“As declarações védicas são autoevidentes. O que quer que seja declarado ali, tem que ser aceito. Se interpretamos de acordo com nossa própria imaginação, a autoridade dos Vedas se perde imediatamente.” (Chaitanya-charitamrita, Madhya-lila 6.137)

Os mestres espirituais usam esse termo “autoevidente”, mas de uma maneira um pouco diferente. Utilizarei o termo fundacionalismo, em caráter mais genérico, com o significado de que é preciso começar com uma proposição, visão de mundo ou texto sagrado autoevidente. Nesse modelo, o Senhor Chaitanya afirma que o corpo de literatura sagrada, o Veda, é autoevidente.

Então, o que eu considero verdade em relação ao fundacionalismo é que temos que começar de algum lugar; o que não é necessariamente verdade é que a única fundação aceitável sejam as observações empíricas e não-controversas, ou princípios racionais autoevidentemente construídos muito estreitamente. Então, as pessoas começaram a notar isso e, quando filosofaram, perceberam que a maneira como nós conhecemos as coisas e passamos a entendê-las não é necessariamente por meio desse tipo de lógica proposicional, como por meio da proposição de que todos os homens são mortais e, se Sócrates é um homem, Sócrates é mortal. Há também variadas compreensões de diferentes pontos sobre o mundo. Sabemos que algo é certo ou errado, sabemos que algo é belo, sabemos que amamos alguém, sabemos que existe um Deus, sabemos que somos uma alma. Então, há certas coisas que você realmente sabe e que não podem ser reduzidas a essas provas proposicionais estreitas.

Há algumas alternativas epistemológicas ao fundacionalismo. São apresentadas como posições “anti-fundacionais”, mas acho que caíram em uma armadilha, pois todas essas epistemologias alternativas começam de algum lugar. Acho que há uma espécie de fundacionalismo universal, em que todos começam de algum lugar, mas o que as posições alternativas querem é sair da caixinha apertada do empiricismo ou alegação racional autoevidente, ou, no período moderno, algumas vezes eles rejeitaram a ideia de o empiricismo ser justificável.

Coerentismo

Dentre as muitas alternativas, uma se chama “coerentismo”, que começa com crenças justificáveis para alegar que você sabe algo. Você tem que ter uma crença que seja apropriadamente básica, o que significa que ela é a fundação. Você pode começar dali e, então, derivar dali outras crenças justificáveis. As crenças justificáveis são todas apoiadas por outras crenças, mas não se gera um conjunto infinito de crenças, porque a cadeia de apoio de evidências entre as crenças não tem permissão para se mover em círculo. Eu falei sobre raciocínio circular, a ideia de que a própria coisa que você está tentando provar, você usa como um argumento.

O coerentismo é uma espécie de abordagem holística. Gostaria de comparar isso à Gita. Krishna faz algumas declarações na Gita. Por exemplo, no verso 4.39, ele diz que sraddhaval labhate jnanam tat-parah: “Aquele que tem fé obtém conhecimento.” Então, diz no verso 17.2-3, que já citei, que todos têm fé, mas, com base na qualidade de sua existência nos modos da natureza, você tem um certo tipo de fé. E todos, é claro, estão nos modos da natureza. Krishna diz que nada neste mundo material está livre desses modos. Esses três modos da natureza conduzem a um tipo particular de fé. (Srad-dha significa “colocar seu coração em um lugar”, e é esse termo que estamos traduzindo por “fé”.) Então, com base em sua posição nos modos, há certo tipo de fé, e esse tri-guna-jna. Krishna explica:

sarva-bhutesu yenaikam
bhavam avyayam iksate
avibhaktam vibhaktesu
taj jnanam vidhi sattvikam

“Você deve compreender que está no modo da bondade aquele conhecimento com o qual se percebe uma só natureza espiritual indivisa em todas as entidades vivas, embora elas se apresentem sob inúmeras formas.” (Bhagavad-gita 18.20)

prthaktvena tu taj jnanam
nana-bhavan prthag-vidhan
vetti sarvesu bhutesu
taj jnanam viddhi rajasam

“O conhecimento com o qual se vê que em cada corpo diferente há um tipo diferente de entidade viva, você deve entender que está no modo da paixão.” (Bhagavad-gita 18.21)

yat tu kritsna-vad ekasmin
karye saktam ahaitukam
atattvartha-vad alpa
m ca
tat tamasam udah
ritam

E o conhecimento pelo qual alguém se apega a um tipo específico de trabalho como se fosse tudo o que existe, sem conhecimento da verdade, e que é muito escasso, diz-se que está no modo da ignorância.

A maneira como Krishna usa a palavra jnana aqui é um pouco similar à expressão “visão de mundo”, uma percepção total da natureza da realidade. Então, com base na posição que você tem nos modos da natureza, você verá a realidade de determinada forma. O modo da ignorância é realmente baixo: você basicamente vai para o trabalho todos os dias e não consegue se dar conta de nada. No modo da paixão, você vê o prthag-bhava, as diferenças – diferentes raças, diferentes gêneros, diferentes países, diferentes povos. A diferença é fundamental nessa visão, de modo que se trata de uma percepção física. No modo da bondade, o sujeito enxerga a unidade espiritual entre todas as coisas, o que Krishna chama de ekam bhavam avyayam, “um único estado de existência, que é imperecível”. Isso é sattvika-jnana, o nível do modo da bondade, no qual a pessoa chega a um entendimento metafísico verdadeiro.

A ideia do coerentismo como epistemologia é que você vê o mundo de uma certa maneira, e existem todos esses diferentes fatos que você conhece, isto é, você tem diferentes relacionamentos, você sabe distinguir amor de luxúria, você experimenta estados superiores de consciência, beleza, justiça e amor… Tudo isso dá suporte um ao outro. Não é uma lógica proposicional circular, em que A dá suporte a B, e B dá suporte a C. É realmente um sistema holístico, com suporte mútuo, onde todos os diferentes fatos ao redor do mundo – físicos e metafísicos – contribuem para um entendimento único e unificado.

Existem dois tipos de coerentismo. Um diz que, mediante esse teste de coerência, você chega à verdade. Outro sistema diz que é justificável você acreditar em algo. Pode ser uma crença justificada, mas talvez não seja verdade.

Existem objeções ao coerentismo – naturalmente, já que há objeções para tudo neste mundo. Uma das objeções poderíamos chamar de “isolamento da oposição”. Betram Russel disse que você tem toda sorte de pessoas diferentes que têm o que, para elas, é um sistema de crença justificável, mas há muitos grupos com o mesmo pensamento sobre seu sistema de crença, que é diferente, de maneira que podem ser mutuamente excludentes. Alguém poderia acreditar coerentemente que algo é e não é algo ao mesmo tempo.

Há também um posicionamento chamado “correspondência”, o qual diz que o nosso conhecimento tem que corresponder a um estado real e objetivo no mundo externo. Não basta dizer que faz sentido para mim. O movimento New Age diz coisas como: “Se funciona para você, se faz bem para você, está certo”. É uma espécie de “coerentismo ocidental pop do bem-estar”. Os defensores do coerentismo diriam: “Não é o bastante que algo seja internamente consistente; ele tem que lidar com a realidade”.

A física newtoniana, em certos pontos, não foi coerente com certos atributos no universo que as pessoas descobriram. Então, o pressuposto é que a realidade, em última instância, é coerente. Existe uma realidade única e unificada, e tudo se encaixa. Então, se você carrega consigo uma visão de mundo particular no modo da paixão, essa visão, de acordo com a Bhagavad-gita, será agressiva, ambiciosa, orgulhosa ou egoísta. Por fim, não será coerente com noções superiores de virtude, autorrealização etc. Então, as pessoas podem carregar visões religiosas que sejam incoerentes com seu egoísmo. Você obtém certo tipo de hipocrisia, incoerente com o nível moral da religião. A ideia é que, em última instância, a fundação subjacente é que a realidade é coerente, em razão do que as pessoas se elevarão a um estado superior de consciência pela mera demanda da coerência. De acordo com a Bhagavad-gita, existe conhecimento no modo da ignorância, no modo da paixão e no modo da bondade. Tudo isso são visões de mundo que fazem sentido para a pessoa que as experimenta, mas são diferentes níveis, do mais baixo, a ignorância, até o mais alto, a bondade. Assim, você se move progressivamente para estados superiores de coerência, e as demandas deste mundo, como realidade, se impõem a você, e são elas que movem você aos estados mais elevados de coerência e sabedoria.

Na Bhagavad-gita (5.16), Krishna diz:

jnanena tu tad ajnanam
yesam nasitam atmanah
tesam aditya-vaj jnanam
prakasayati tat param

“Quando, porém, a pessoa é iluminada com o conhecimento pelo qual a ignorância é destruída, então, seu conhecimento revela tudo, assim como o Sol ilumina tudo durante o dia”.

Krishna fala sobre aditya-vat jnanam, o conhecimento, ou a percepção, que é como o sol. Se pensarmos no sol nascendo, tudo se ilumina ao mesmo tempo. Se você nunca viu o sol antes, isso também afeta a qualidade de tudo que você percebe. Isso é coerência, em resumo.

Epistemologia Reformada

Outra alternativa ou tentativa de refinar o fundacionalismo clássico e moderno é um movimento chamado “epistemologia reformada”. Esse sistema se baseia nos ensinamentos de Calvino, que, no espírito de seu tempo, fez “coisas nobres” como perseguir violentamente quem se opunha à sua teologia. A epistemologia reformada é apresentada por certo grupo de epistemologistas modernos muito proeminentes, que dizem que a crença em Deus é apropriadamente básica e, portanto, justificada. Por exemplo, muito embora não possamos “provar isso”, todos nós aceitamos que a mente dos outros existe. Nossa crença básica, portanto, é que outras pessoas possuem mentes, que são conscientes de uma maneira análoga a como nós somos conscientes. Nós não podemos provar tal coisa, de modo que podemos aceitar, da mesma maneira, que a mente de Deus existe. Basicamente, a epistemologia reformada foi um tipo de movimento de direitos civis epistemológico.

O sistema universitário no mundo ocidental e todas as academias começaram como um empreendimento religioso, e, gradualmente, houve essa revolução e se tornaram seculares, mais ou menos como um adolescente que quer se diferenciar dos pais e quer fazer o oposto do que os pais dizem para ele fazer – foi assim a guerra entre conhecimento secular e religião. Um dos resultados disso foi quando, no século 18, os intelectuais fizeram todos esses salões em Paris e Londres para discutirem suas ideias. Os maiores pensadores do meio e do fim do século 18 não estavam nas universidades, mas, sim, nesses salões. A razão para isso é que mesmo após 100 anos depois de Newton, as universidades ainda ensinavam Ptolomeu, e havia um tipo de conservadorismo fanático na academia, o qual vemos ainda hoje. Então, muito embora haja um interesse muito grande no mundo por todo tipo de questões metafísicas, as universidades tendem a ser muito restritivas.

Então, a epistemologia reformada foi, como eu disse, uma espécie de movimento de direitos civis, dizendo que temos que prover para o conhecimento espiritual os mesmos padrões epistemológicos que provemos aos outros tipos de conhecimento. O principal ponto defendido é que, se a mente é algo metafísico e é justificável dizer que outras mentes existem, também é básico alguém dizer que a mente de Deus existe.

Fiabilismo

Outro desafio ao fundacionalismo clássico ou moderno é o fiabilismo, que pode ser expresso, de modo grosseiro, como segue:

Conhece-se x (x representa qualquer proposição; por exemplo, que o céu é azul) se e somente se x for verdade, e o sujeito tem que chegar à crença de x através de algum processo confiável.

Aqui está a ideia: Quando eu digo que “sei algo”, como “sei que o céu é azul”, quais são as condições ou circunstâncias que têm de estar presentes a fim de que essa nossa declaração seja válida?

O fiabilismo fornece a resposta. Três condições têm que ser atendidas para alguém alegar apropriadamente que conhece algo.

  1. Algo é de fato real (por exemplo, o céu é realmente azul), e
  2. Eu acredito que o céu é azul, e
  3. Cheguei a essa crença por meio de um processo confiável.

Se todas as 3 condições são atendidas, é uma maneira válida ou correta para eu dizer que sei que o céu é azul.

Por exemplo, se eu digo que o céu é azul porque também acredito que um imenso gafanhoto roxo saltou para fora da minha televisão e me disse que o céu é azul, eu cheguei a essa crença, apesar de verdadeira, por um método que não é confiável.

Por outro lado, se eu acredito que o céu é azul porque meus olhos são fisiologicamente saudáveis, e sou emocionalmente estável, e olhei para o céu e vi que ele é azul, e eu não estava drogado, etc., etc. – nesse caso, acredito que o céu é azul por meio de um método confiável.

Obviamente, a consciência de Krishna também possui elementos de fiabilismo porque, para nós, Srila Prabhupada e Krishna são confiáveis.

Inatismo

Há mais uma doutrina filosófica que é muito importante para nós, chamada “inatismo”.

O inatismo defende que a mente nasce com ideias e saberes, em vez de a mente ser uma “folha em branco” no nascimento, como os primeiros empiristas, como John Locke, alegavam. Esse sistema afirma, portanto, que nem todo conhecimento é obtido a partir de experiência e dos sentidos.

Em outras palavras, você pode dizer como sabe algo mesmo sem ter uma proposição autoevidente ou uma prova empírica. E se realmente houver conhecimento dentro de nós? Esse é o debate entre natureza e cultivo. Basicamente, o direito monárquico divino e o fútil sistema europeu que era basicamente um sistema de castas hereditário se justificavam, antes da revolução francesa, dizendo, tal qual na Índia moderna, que foi Deus quem colocou você na casta em que você nasceu. Então, se você se rebela contra sua casta, se você se esforça muito por ascensão social, você, na verdade, está se rebelando contra Deus. A ideia por trás disso é que a natureza, a maneira como você nasce, é tudo.

Há uma reação igual e contrária a isso que diz que a natureza não é nada, o cultivo é tudo. Seu nascimento é completamente irrelevante, tudo é uma folha em branco e tudo que você é como adulto é simplesmente o que a sociedade escreveu nessa folha em branco. Essa é a justificativa da educação pública: “Dar a todos o nível básico, dar a todos a mesma oportunidade, e todos chegarão no mesmo lugar”.

Agora, a dialética se voltou para o meio termo, em que se trata de uma combinação de natureza e cultivo, mas, nesse meio termo, a parte da natureza que sobreviveu é que temos um determinado tipo de conhecimento: existem verdades éticas. As pessoas que não são instruídas em relação a filosofia e ética, simplesmente sentem que algo é justo.

Aqui está uma lista de coisas que são consideradas inatas: algumas convicções ou verdades éticas, a noção de causalidade (que Hume desafiou), noções de bem e mal, certas verdades lógico-matemáticas, noções metafísicas concernentes a objetos como Deus e almas (certas pessoas que nasceram e cresceram em ambientes muitos ateístas têm experiências religiosas e se sentem chamadas por Deus, sentem que são almas.)

Há toda uma história de que Descartes teria dito que o conhecimento acerca de Deus é inato a todos, como produto de fé, e há também o Mênon, um dos diálogos de Platão, no qual ele fala sobre “lembrar conhecimento”.

Krishna, na Bhagavad-gita (6.43), fala sobre paurva-dehikam jnanam, como um yogi caído recobra esse conhecimento de um paurva deham, um corpo anterior. Em seguida, Krishna fala diretamente sobre conhecimento oriundo de um corpo anterior, em decorrência de práticas anteriores de yoga, purvabhyasena tenaiva (Bhagavad-gita 6.44).

E no Srimad-Bhagavatam (4.28.53), Krishna vem como um brahmana para falar com a rainha Vaidarbhi, que fora Puranjana anteriormente. À rainha, Ele diz:

api smarasi catmanam
avijnata-sakham sakhe
hitva mam padam anvicchan
bhauma-bhoga-rato gatah

“Você se lembra de Mim, a Alma, minha amiga? Tu me rejeitaste e vieste a este mundo material”.

No Chaitanya-charitamrita (2.22.107), o Senhor Chaitanya diz, nitya-siddha krsna-prema: “O amor puro por Krishna está presente eternamente”. Isso significa que, em todos os tempos, o amor está sempre ali estabelecido no coração das entidades vivas. O Senhor Chaitanya ensina: “Não é algo a ser obtido de outra fonte. Quando o coração se purifica mediante audição e canto, esse amor naturalmente se desperta”.

Como eu disse, o inatismo é muito importante na filosofia Hare Krishna.

Existe outro tipo de inatismo, que se chama “nativismo”. Trata-se de uma posição ateísta com base em genética e diferentes tipos de psicologia. Os nativistas dizem: “Sim, é verdade que temos certas ideias dentro de nós, mas isso é genético. Não é porque Deus as colocou em nós ou por causa de uma vida anterior. É possível explicar genética e fisiologicamente.”

O Caráter Abarcador da Consciência de Krishna

Então, a conclusão a que eu quero chegar é que, se você analisar a consciência de Krishna, ela realmente abarca todas essas diferentes teorias epistemológicas. A consciência de Krishna as integra de uma maneira muito natural, fazendo uma contribuição muito poderosa ao informar que seu nível de consciência ou compreensão se baseia na qualidade de sua existência. Nós, portanto, podemos apresentar argumentos muito fortes.

Realmente acredito que, se olharmos para o panorama epistemológico, acho que podemos apresentar uma argumentação convincente – não fanática, não dogmática, mas realmente convincente de que a consciência de Krishna incorpora e integra, da maneira mais poderosa, todas essas diferentes abordagens epistemológicas, todas as quais contribuem com algo. E, em última instância, temos em nosso favor o argumento de Santo Anselmo, cujo argumento ontológico é que Deus é o ser após o qual nenhum ser mais grandioso pode ser concebido. Rupa Goswami ecoa esse argumento, de uma maneira um pouco diferente, no Bhakti-rasamrita-sindhu, ao dizer que, caso analisemos Krishna e Vishnu, basicamente o conceito mais grandioso de Deus é o mais verdadeiro, porque Deus é infinitamente grandioso. Se o conhecimento védico é a fonte a partir da qual você pode obter mais conhecimento, esse é o conceito mais grandioso.

O Conhecimento e Seus Produtos

Além desse elemento de completa inclusão dos vários conceitos, o conhecimento védico é especial por sempre produzir algo.

Quando fiz um curso de história da filosofia índica, na UCLA, o professor disse que os pensadores ocidentais frequentemente criticam a filosofia indiana dizendo que ela não é realmente neutra, já que sempre tem por meta moksha, a libertação. Eu considero isso muito positivo, pois me parece que a essência da religião é que você tem que produzir algo. Se você tem uma teoria científica que não produz nada – que não lhe confere nenhum controle sobre a natureza, que não lhe dá nenhum poder de previsão, que não é nem mesmo explicadora, é apenas algo na sua cabeça – é algo inferior.

Krishna diz na Bhagavad-gita (4.36) que o conhecimento supera o sofrimento:

api ced asi papebhyah
sarvebhyah papa-krt-tamah
sarvam jnana-plavenaiva
vrjinam santarisyasi

“Mesmo se fores o maior dos pecadores, se estiveres na jangada do conhecimento, cruzarás todos os sofrimentos e problemas deste mundo”.

Krishna também diz que o conhecimento queima nosso pecado:

yathaidhamsi samiddho ’gnir
bhasma-sat kurute ’rjuna
jnanagnih sarva-karmani
bhasma-sat kurute tatha

“Assim como o fogo ardente transforma a lenha em cinzas, ó Arjuna, do mesmo modo, o fogo do conhecimento reduz a cinzas todas as reações às atividades materiais”. (Bhagavad-gita 4.37)

No verso seguinte, Krishna diz que o conhecimento nos purifica:

na hi jnanena sadrsam
pavitram iha vidyate
tat svayam yoga-samsiddhah
kalenatmani vindati

“Neste mundo, não há nada tão sublime e puro como o conhecimento transcendental. Este conhecimento é o fruto maduro de todo o misticismo. E aquele que se familiarizou com a prática do serviço devocional desfruta deste conhecimento dentro de si no devido tempo”.

No verso 7.19, Krishna diz que o conhecimento acerca de Krishna leva a Krishna:

jnanavan mam prapadyate
vasudeva sarvam iti

“Aquele que tem verdadeiro conhecimento rende-se a Mim, sabendo que sou a causa de todas as causas e de tudo o que existe”.

Também no verso 10.10, Ele diz:

dadami buddhi-yogam tam
yena mam upayanti te

“Eu dou a compreensão pela qual eles podem vir a Mim”.

No verso 15.19, diz:

yo mam evam asammudho
janati purusottamam
sa sarva-vid bhajati mam
sarva-bhavena bharata

“Quem quer que Me conheça como a Suprema Personalidade de Deus, sem duvidar, é o conhecedor de tudo. Ele, portanto, se ocupa no serviço devocional pleno a Mim, ó filho de Bharata”.

Então, há todos esses resultados. O conhecimento produz um tipo diferente de comportamento, um tipo diferente de percepção – não é mera teoria. Não se trata meramente de um argumento bem desenvolvido, mas de algo que realmente transforma a vida, eleva você a um estado de existência diferente. E acho que manter essa exigência como um dos critérios para o conhecimento força o conhecimento a produzir, a fazer acontecer. De fato, força o conhecimento a ser científico em um sentido de realmente ser capaz de trazer efeitos transformadores para o mundo. Acho que isso se amarra à epistemologia. Uma boa teoria de conhecimento exige que o conhecimento seja produtivo de maneiras significativas.

Leia também: Além das Verdades Relativas | O Bhagavad-gita Além da Especulação.

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