Vrajabhumi: 25 Anos de Beleza e Devoção

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Bhagavan Dasa

Apresentar uma espiritualidade racional, técnicas práticas de autoaperfeiçoamento e uma sabedoria livre de fanatismo são alguns dos lemas de Vrajabhumi, um projeto bonito, acolhedor e rico em devoção, digno de ser conhecido pelo mundo inteiro.

Para começarmos a contar a história de Vrajabhumi, temos sob o holofote a pessoa de Sérgio, um típico playboy da década de setenta. Trabalhava com advocacia e era assíduo frequentador das noites cariocas. Sua cobertura em Copacabana era um ponto de festas, onde trocava o dia pela noite. Quase subitamente, porém, sua vida mudaria. Ao ler a obra Além do Nascimento e da Morte, de autoria de Srila Prabhupada, acharya-fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, o Sérgio das badalações começou a encarar a vida de outra maneira. Seu apartamento, então, virou um centro de encontro para espiritualistas, e, mais uma vez, os horários se alteraram, só que, desta vez, o seu dia começava bem cedo, de madrugada, para as meditações.

Em 1976, Sérgio foi ao Festival Hare Krishna de Nova Iorque, onde se encontrou pessoalmente com Srila Prabhupada, recebendo sua iniciação e o novo nome: Shatrukotivinasana Dasa (Shatru, para os amigos). Shatru agora queria dedicar-se exclusivamente à espiritualidade e, com as bênçãos do mestre, trocou seu apartamento e carro importado por uma terra em Teresópolis, com a intenção de transformá-la num pedaço do céu espiritual. Com a ideia em seu coração, Shatru pediu pessoalmente a Srila Prabhupada a bondade de dar um nome para aquele novo local de práticas espirituais. Prabhupada fechou seus olhos por um instante e, ainda de olhos cerrados, pronunciou: “Vrajabhumi”. “Nova Vrajabhumi?”, perguntam a Srila Prabhupada, já que muitas comunidades tinham nomes nessa estrutura. Srila Prabhupada disse: “Não. Apenas Vrajabhumi”. Desde então, Shatru se dedicou ao estabelecimento e desenvolvimento dessa comunidade como a obra de sua vida, sua oferenda a Deus.

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Shatrukotivinasana Dasa, idealizador do Ashram Vrajabhumi, diante do primeiro templo da comunidade.

Seu principal objetivo era ter um projeto pioneiro que aliasse turismo, autossuficiência e pregação sofisticada para atingir camadas da população que normalmente não se aproximariam da consciência de Krishna. Desde o começo e ainda hoje, os frequentadores de Vrajabhumi se constituem, em sua maioria, de pessoas de classe média ou classe alta, com formação universitária e interesse por bem-estar e saúde, bem como espiritualidade racional, autoaperfeiçoamento e uma sabedoria livre de fanatismo. “A intenção não é nenhuma forma de elitismo”, aponta Nrisimhananda Dasa, atual presidente de Vrajabhumi, “mas, como sabemos, o ‘plano A’ de Srila Prabhupada no Ocidente era influenciar os líderes da sociedade, os formadores de opinião, porque, como o próprio Krishna diz na Bhagavad-gita, o que eles fizerem será naturalmente seguido pelas demais classes de homens. Tentamos cumprir esse propósito de Prabhupada.”

Shatru foi um homem à frente do seu tempo. Mesmo ainda nos anos 70, foi capaz de antever que a economia típica da ISKCON de então, de devotos vendendo livros nas ruas, talvez não se sustentasse como forma de obtenção de recursos por muito tempo. Ele queria um templo que se mantivesse mesmo sem uma congregação. A forma que encontrou para implementar isso foi se valer do potencial turístico da região onde Vrajabhumi está situada. A apenas 100 quilômetros do Rio de Janeiro, Teresópolis é um destino querido pelos cariocas quando desejam fugir um pouco da agitação dessa grande capital e se recolher em pousadas com um clima de roça e simplicidade.

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Um dos aconchegantes chalés disponíveis na comunidade.

Vrajabhumi possui uma linda casa de hóspedes e chalés muito agradáveis, bem como uma estrutura para realização de retiros e recepção de grupos de yoga. Aqueles que participam dos retiros oferecem doações, o que é a principal fonte de recursos para Vrajabhumi, como foi originalmente planejado por Shatru. Além disso, Vrajabhumi conta com um restaurante lacto-vegetariano e vegano e oferece aulas de yoga, caminhadas pelas belas paisagens da região e diferentes terapias, compondo, assim, um leque de atrativos para o projeto.

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Lalita Gopi, a devota à frente do restaurante de Vrajabhumi.

Devido à sua localização estratégica, Vrajabhumi é um local atrativo para retiros de grupos de yoga de toda a região sudeste do Brasil, justamente a maior detentora de influência econômica e cultural no país. Já há algum tempo, vários dos principais núcleos de yoga e grupos holísticos do Brasil têm frequentado Vrajabhumi e tido a oportunidade de serem introduzidos à consciência de Krishna de forma atrativa, coerente e culturalmente justificável.

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Vrajabhumi é um local atrativo para retiros de grupos de yoga.

“Certamente se estabelecer de forma tão sólida dentro de um cenário competitivo como o do yoga, ao mesmo tempo preservando sua identidade como um retiro espiritual, foi o grande desafio histórico de Vrajabhumi”, comenta Nrisimhananda. “Acredito ser muito acertada e sábia a decisão de se manter Vrajabhumi alinhada de forma equidistante dentro do meio do yoga, pois todos acabam entendendo que Vrajabhumi não é seu rival, mas um projeto que pode agregar aos seus grupos.”

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Lilaraja Dasa, residente de Vraja há mais de 30 anos.

Lilaraja Dasa, residente em Vrajabhumi desde 1982 (anos antes até mesmo de sua inauguração oficial com a instalação das Deidades), complementa: “Nós recebemos as pessoas e apresentamos a consciência de Krishna para fazermos amigos – amigos do meio do yoga, de ecologia, do vegetarianismo… Se alguém naturalmente se convence que o conhecimento dos três modos da natureza é algo objetivo e prático, que não podemos ser felizes no mundo material, que Krishna é maravilhoso, isso acontece pelo próprio mérito desse conhecimento. Não precisamos ser proselitistas.”

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Murti de Srila Prabhupada, instalada em 2010.

Há mais de 30 em Vrajabhumi por “completa identificação”, Lilaraja Dasa, à sua maneira despojada, fala mais sobre a proposta de divulgação da consciência de Krishna ali: “Colocamos a pessoa ‘na cara do gol’. Em geral, as pessoas precisam fazer asanas para ficarem com o corpo saudável e poderem se sentar para pensar no Supremo, e fazem pranayama para a mente ficar serena. Vrajabhumi já dá para as pessoas os benefícios de asana e pranayama com suas instalações confortáveis, alimento saudável e santificado e um ambiente paradisíaco, aí basta a pessoa meditar no Supremo, com toda essa facilidade. Está realmente ‘na cara do gol’”.

O começo de Vrajabhumi, é claro, foi mais simples. O belíssimo lago de hoje, com o belíssimo salão/ilha em formato octogonal e totalmente janelado, era apenas “um charco”, e o templo era uma instalação modesta de tijolos e bambus. Lilaraja conta sobre o entusiasmo dos primeiros devotos envolvidos: “Fomos obtendo recursos com muita maratona de distribuição de livros, e fazíamos grandes maratonas de trabalho prático para as construções também”. Lilaraja lembra como pegaram milhares e milhares de pedras da margem de um rio próximo para utilizarem em diversas construções. “Nós cantávamos japa [canto de mantras contados em rosários] às 2 horas da madrugada, então fazíamos a adoração mangala-arati e, antes de o sol nascer, já estávamos trabalhando nas construções que sonhávamos oferecer a Prabhupada.”

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Salão/ilha utilizado para cerimônias de fogo, aulas de yoga e atividades culturais.

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Fachada do templo de Krishna-Balarama.

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Um pouco da beleza de Vrajabhumi à noite.

Em 2001, com ajuda de Chandramukha Swami, junto de alguns outros devotos, como Krishna Mahotsava (esposa de Lilaraja), Jaya Advaita Dasa e Jaya Devaki Devi Dasi, o projeto já tinha todas as características da ideia piloto de Shatru. Nessa época, a estrutura para recepção de hóspedes foi revitalizada e o ashram amplamente divulgado pela pregação de Chandramukha Swami, que recebeu destaque na mídia devido ao seu trabalho musical com Nando Reis, um dos artistas mais influentes do Brasil e que se interessou em gravar uma música com mantras devido a ser fã de George Harisson.

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Chandramukha Swami e outros devotos aparecem no clipe oficial da música Mantra, de Nando Reis, uma das músicas mais tocadas em 2004 na MTV.

Na história de Vrajabhumi, registram-se grandes eventos de repercussão local, nacional e internacional. Ao longo da década de 1990, realizaram-se anualmente “ashrams”, retiros que duravam entre 7 e 15 dias com ensinamentos intensos de bhakti-yoga, com diferentes líderes da ISKCON apresentando sistematicamente variados conteúdos da filosofia vaishnava, junto das práticas rotineiras do templo e conhecimentos acessórios, como ayurveda e astrologia. No total, mais de 1000 pessoas participaram desses eventos, que formaram muitos novos devotos de Krishna.

Embora numerosos demais para apontarmos todos, Vrajabhumi já sediou encontros dos trustees da BBT, encontros do órgão administrativo máximo do Brasil, encerramentos de maratonas de sankirtana, recitações de 7 dias do Srimad-Bhagavatam, congressos com temas como “Cuidado aos Devotos”, “O Pensamento Vaishnava”, curso completo Bhakti-shastri em 1 ano, Vaishnava Vedanta Yoga (curso pioneiro de formação de instrutores de yoga), retiros de japa, estudo avançado de O Néctar da Devoção e muitos outros.

“Noites de Vraja”, uma noite agradável no templo da capital do Rio, com shows de artistas famosos no Brasil, como a banda 14 Bis e o saxofonista Léo Gandelman, acompanhada de elegante jantar servido por garçons, cerimônias de fogo e palestras, foi outro evento de sucesso promovido por Vrajabhumi, ainda que fora de suas instalações.

Vrajabhumi, assim, atrai de forma amigável simpatizantes e espiritualistas em geral ao mesmo tempo em que auxilia com estudo aprofundado os devotos de Krishna e enche de orgulho os líderes influentes do movimento Hare Krishna. Jayadvaita Swami, discípulo de Srila Prabhupada e editor da Bhaktivedanta Book Trust, impressionou-se com Vrajabhumi e comentou que “Vrajabhumi tem um público numeroso e do melhor nível.” Madhusevita Prabhu, devoto italiano também guru na ISKCON, achou marcante a integração natural entre os devotos e o público geral nos kirtanas e palestras. Harishauri, famoso secretário e biógrafo de Srila Prabhupada, fez questão de ver cada um dos quartos e chalés de Vrajabhumi, conhecer a grande variedade de árvores, ver os animais silvestres que comem nas mãos dos devotos e tantas outras maravilhas de Vrajabhumi que lhe encheram os olhos.

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Algo marcante nos kirtanas de Vrajabhumi é a integração natural e espontânea entre devotos e visitantes.

No centro de tudo isso, é claro, estão Krishna-Balarama, as Deidades instaladas no altar em 1991, completando neste ano de 2016, no dia 20 de agosto, 25 anos de instalação. Quando era responsável por um projeto rural que se iniciava no estado de Minas Gerais, Chandramukha Swami adquiriu as Deidades de Krishna-Balarama para o mesmo, mas as Deidades tinham outros planos. Chandramukha Swami, pouco depois de adquiri-las, tornou-se presidente da ISKCON Rio de Janeiro e inaugurou oficialmente o Ashram Vrajabhumi, instalando ali o par dourado de Deidades. Durante o Festival de Balarama de 2009, para tornar o altar ainda mais atrativo, foram instaladas as lindíssimas Deidades de mármore negro e mármore branco de Krishna-Balarama.

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Instalação das Deidades originais.

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As cativantes Deidades de mármore.

Com uma trajetória tão magnífica, há muito para comemorar, e as festas serão à altura. O festival de Vrajabhumi, em comemoração dos seus 25 anos, acontecerá entre os dias 19 e 21 de agosto, sendo que o ápice será no dia 20, quando haverá, além da programação tradicional do templo, um parikrama (peregrinação), o ritual do banho das Deidades, celebrações também pelos 50 anos da ISKCON, um banquete gratuito com 108 preparações e uma variedade de atrações culturais, culminando no show de Chandramukha Swami e da banda Krishna Bandhu. Grandes líderes do Movimento Hare Krishna na América Latina estarão presentes, como Dhanvantari Swami, Chandramukha Swami, Keshava Swami e Param Gati Maharaja, e, possivelmente, Purushatraya Swami e Yamunacharya Goswami. Nomes famosos do yoga também estarão circulando pelo evento.

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Chandramukha Swami, líder espiritual mais atuante em Vrajabhumi.

Quando perguntamos a Nrisimhananda qual momento das festividades acreditaria ser o ápice, respondeu incerto: “Difícil definir um, mas acredito que, quando os devotos que tornaram Vrajabhumi realidade se unirem para contar seus passatempos, vamos ter um momento muito especial.”

Nrisimhananda falou um pouco sobre os planos para o futuro: “Hoje pensamos em expandir os limites de Vrajabhumi para abarcar hospedagens fora de retiros, fornecer cursos de filosofia védica em tempo integral e ter um diálogo maior com as atividades culturais da Região Serrana”. Vrajabhumi também pretender oferecer, em caráter inovador, uma formação completa de kshatriya, treinando devotos e pessoas de bom caráter para atividades de liderança e artes marciais segundo o exemplo dos reis-sábios descritos na literatura védica. Nessa mesma linha, iniciará um programa de “escoteiros vaishnavas”, para crianças a partir 7 anos.

Com passado, presente e futuro aos pés de lótus de Srila Prabhupada, Vrajabhumi é um projeto bonito, acolhedor e rico em devoção, digno de ser conhecido pelo mundo inteiro.

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