Vyasa-Puja, A Adoração ao Mestre Espiritual

Vyasa-puja 01

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Alguém de fora talvez veja a festividade do Vyasa-puja e pense: “Por que uma pessoa está sendo adorada como Deus?”. Pode haver alguma dúvida, mas esta é a etiqueta. Esta cerimônia se chama Vyasa-puja, “adoração a Vyasa”, que é o autor original da literatura védica e uma encarnação de Narayana. Ele nos deu todo o conhecimento védico. Ele recebeu o conhecimento de Narada, que o recebeu de Brahma, que o recebeu, por sua vez, de Krsna. Desta maneira, pela sucessão discipular, obtemos conhecimento transcendental.

Antes de Vyasadeva, antes de aproximadamente cinco mil anos atrás, não havia necessidade de literatura escrita, dado que a memória das pessoas era grande o bastante para se lembrarem por toda a vida de qualquer coisa que ouvissem do mestre espiritual. Nesta era, de nome Kali-yuga, no entanto, estamos reduzindo a nossa força corpórea, o nosso poder de memorização, nossos sentimentos de compaixão pelos outros, nossa duração de vida, nossas propensões religiosas e assim por diante. Todos vocês podem compreender isso com muita facilidade: Antigamente, se alguém fosse atacado por outro homem, muitas pessoas vinham ajudá-lo: “Por que este homem está sendo atacado?”. No momento presente, se um homem é atacado, os transeuntes não se importarão com isso, porque eles perderam sua misericórdia. Alguém em jejum talvez morra de fome, mas não nos importaremos. Antigamente, no entanto, existia compaixão por outras entidades vivas, mesmo pelas formigas.

Maharaja Pariksit, à guisa de exemplo, enquanto excursionava por seu reino, viu que um homem estava tentando matar uma vaca. Tão logo Pariksit Maharaja viu aquilo, ele sacou sua espada e perguntou: “Quem é você que está matando uma vaca em meu reino?”. Cabe ao rei, ou ao governo, dar proteção a todos, não apenas ao ser humano e não aos animais. Porque estamos em Kali-yuga, o governo discrimina entre dois cidadãos. O termo “cidadão”, entretanto, indica alguém que nasceu em determinado território, de modo que isso inclui as árvores e os animais aquáticos, por exemplo, pois eles também nascem em um território. As moscas, os répteis, as cobras, os pássaros, as bestas, os seres humanos – todos nascem em um território. Tomemos como exemplo o território norte-americano: Por que o governo deveria dar proteção a uma classe de entidades vivas rejeitando outras? Isto significa que as pessoas perderam sua compaixão pelos demais, o que sintomatiza Kali-yuga. Antigamente, antes da era de Kali, sequer uma formiga seria morta desnecessariamente. Há muitos casos em que um caçador estava tirando proveito da matança de animais e, quando se tornou devoto, não estava disposto a matar nem mesmo uma formiga.

O movimento da consciência de Krsna é tão bom que ele torna a pessoa perfeita em tudo: perfeita em conhecimento, perfeita em força, perfeita em duração de vida – tudo. Precisamos de muitíssimas coisas, e o processo de como tornar a vida perfeita está vindo de Krsna, a origem de tudo. Portanto, o conhecimento da perfeição também está vindo dEle, e Krsna advém periodicamente, a cada muitos milhões e milhões de anos. Ele advém uma vez ao dia de Brahma, o que é muito difícil de calcular. Sahasra-yuga-paryantam ahar yad brahmano viduh (Bhagavad-gita 8.17): Um dia de Brahma possui cerca de 433 milhões de nossos anos. Então, Krsna vem a este mundo uma vez ao dia de Brahma, o referido período de 433 milhões de anos. Por quê? Para dar conhecimento perfeito sobre a vida, sobre como um ser humano deve viver a fim de tornar sua vida perfeita. Assim, o Bhagavad-gita está disponível, tendo sido falado por Krsna neste milênio, neste dia.

Este conhecimento perfeito vem de Deus, ou Krsna, e é distribuído pelo sistema parampara, ou sucessão discipular. Dá-se o exemplo da mangueira: No topo da mangueira, existe uma fruta muito madura, e essa fruta tem que ser saboreada, mas, se eu deixo a fruta cair lá de cima, ela será arruinada. Ela, portanto, é passada de mão em mão até chegar embaixo. Similarmente, todo o processo védico de conhecimento se dá através da obtenção do conhecimento a partir da autoridade, o qual desce através da sucessão discipular.

Krsna transmite o conhecimento perfeito a Brahma, o qual, em seguida, transmite-o a Narada, o qual, por sua vez, o transmite a Vyasa. Vyasa, então, compartilha o conhecimento com Madhvacarya. Madhvacarya transmite o conhecimento à sua sucessão discipular e, posteriormente, a Madhavendra Puri. Isvara Puri é então aquele a receber o conhecimento de Madhavendra Puri. Isvara Puri, então, entrega o conhecimento a Caitanya Mahaprabhu, o Senhor Caitanya, o qual entrega o mesmo conhecimento aos Seus discípulos imediatos, os seis Gosvamis. Os seis Gosvamis entregam o conhecimento a Srinivasa Acarya e Jiva Gosvami. Em seguida, a sucessão discipular prossegue com Kaviraja Gosvami, Visvanatha Cakravarti, Jagannatha dasa Babaji, Bhaktivinoda Thakura, Gaura Kisora dasa Babaji Maharaja e, por fim, meu mestre espiritual, Bhaktisiddhanta Sarasvati. E nós, neste momento, estamos distribuindo o mesmo conhecimento, sem nada inventarmos.

Como poderíamos inventar algo? Conhecimento perfeito significa, obviamente, que ele tem de vir de alguém perfeito, o que não somos. Nenhum de nós é perfeito, porquanto, em nossa vida condicionada, temos quatro defeitos. O primeiro defeito é que cometemos erros. Nenhum de nós que está sentado aqui pode alegar que não cometeu algum erro na vida. Trata-se de algo tão natural que temos o ditado: “Errar é humano”. Na Índia, por exemplo, mesmo uma personalidade grandiosa como Mahatma Gandhi cometeu muitíssimos erros, logo cometer erros não é incomum, mas algo a que se sujeita todo indivíduo.

O segundo defeito é que o indivíduo se ilude, o que significa aceitar uma coisa por outra coisa. Todos nós, por exemplo, aceitamos este corpo como o nosso eu, mas, na verdade, não somos o corpo. Neste conceito corpóreo de vida, repousa todo o problema do mundo. Eu estou pensando que sou indiano, você está pensando que é americano, ele está pensando que é cachorro, ele está pensando que é gato – tudo devido a este conceito corpóreo de vida. Isto se define como ilusão porque não somos este corpo. No momento da morte, podemos compreender isto, porque, embora o corpo esteja presente, o parente está chorando: “Oh, meu filho se foi”, ou “Meu pai se foi”. Para onde ele foi? Se ele é o corpo e o corpo está presente, por que está dizendo que seu parente partiu? Após a morte, podemos compreender: “Meu pai ou meu filho não era o corpo, mas algo diferente”.

O terceiro defeito é que todos estão na dinâmica de quererem enganar os outros. Suponham que somos empresários e estamos fazendo algum acordo. Enquanto eu estou tentando fazer o acordo para o meu benefício, você está tentando fazer o acordo para o seu benefício. Eu penso: “Enganei essa pessoa, porque sou deveras inteligente”. A propensão a enganar, portanto, está presente, mesmo se escondemos. Mesmo marido e mulher enganam um ao outro. Algumas vezes, mesmo pai e filho enganam um ao outro, para não dizer de outras relações.

Por fim, o quarto defeito é que todos os nossos sentidos são imperfeitos. Temos muito orgulho de ver, em razão do que todos dizem: “Você pode me mostrar? Quero ver”. E o que você é capaz de ver? Qual é o seu poder de visão? À noite, se não há luz, você não consegue enxergar. Qual é, então, a utilidade de sua visão? Se há uma parede, por exemplo, você não pode ver o que está além da parede. Embora possamos ver diariamente o Sol, nós o vemos como sendo um pequeno disco, embora, na verdade, ele seja muito maior do que este planeta Terra. Similarmente, não podemos ver o que está situado a uma distância muito grande. Nós sequer podemos ver nossas pálpebras, a despeito das mesmas, com efeito, ficarem junto aos olhos. Deste modo, se estudarmos todos os nossos sentidos, concluiremos que são imperfeitos.

Em suma, os sentidos de vocês são imperfeitos, vocês enganam-se, iludem-se e cometem erros. Em semelhante condição, como vocês podem apresentar um conhecimento perfeito? Nós, destarte, não aceitamos nenhum conhecimento de uma personalidade imperfeita. Se temos este conhecimento perfeito, qual é a utilidade da outra categoria de conhecimento? Mera teorização. Nós, contudo, não queremos teoria, senão que queremos saber o fato – isto é conhecimento perfeito. Assim, o conhecimento perfeito pode vir apenas de Deus, e daquele que distribui esse conhecimento exatamente como Deus disse.

Imaginemos que um estafeta vá até você e lhe entregue cem dólares enviados por um amigo seu. O estafeta não está dando esses cem dólares. Seu amigo lhe enviou cem dólares, e o afazer do estafeta é entregar essa centena de dólares como ela é, sem qualquer mudança, ou seja, sem subtrair e sem adicionar sequer um dólar. A honestidade e a perfeição dele repousam em ele lhe entregar esses cem dólares que foram enviados por seu amigo. Ele pode ser imperfeito de muitíssimas outras maneiras, mas, quando ele cumpre seu afazer perfeitamente, ele é perfeito. Este nosso Vyasa-puja lembra-nos de que recebemos conhecimento perfeito de Krsna através da agência do mestre espiritual.

Um dia ao ano, no aniversário do mestre espiritual, é-lhe oferecido respeito, porque, uma vez que ele está entregando o mesmo conhecimento que desce pela sucessão discipular sem qualquer mudança, ele é o representante de Vyasa. Essa festividade chama-se Vyasa-puja. O mestre espiritual recebe toda honra, toda contribuição, mas em nome da Suprema Personalidade de Deus, não para a sua pessoa. Na Índia, por exemplo, quando havia o regime britânico, havia o vice-rei, um representante do rei. Naturalmente, quando o vice-rei comparecia a alguma reunião, muitíssimas pessoas costumavam presenteá-lo com joias valiosas como forma de honrá-lo. A lei, não obstante, era que o vice-rei não podia tocar sequer em uma única das joias ou das contribuições, senão que tudo ia para o tesouro real. O vice-rei podia aceitar em nome do rei toda a contribuição, mas ela ia para o rei. Analogamente, neste dia de Vyasa-puja, qualquer honra, contribuição e sentimentos sendo oferecidos ao mestre espiritual são encaminhados a Deus. Recebemos o conhecimento de maneira descendente, e o respeito é entregue de maneira ascendente. O processo é que, assim como o mestre espiritual é o professor do estudante, ele tem que ensinar o discípulo a como enviar de volta seu respeito e contribuição a Deus, o que se chama Vyasa-puja.

Por que o mestre espiritual é respeitado como tão bom quanto Deus? Saksad-dharitvena samasta-sastraih (Gurv-astaka 7). Samasta-sastraih significa “em toda a literatura védica”, e saksad-dharitvena significa “declara-se que o mestre espiritual é tão bom quanto Deus”. Embora seja aceito como tão bom quanto Deus, o mestre espiritual jamais é Deus. Os mayavadis pensam que o mestre espiritual também é Deus, mas nós vaisnavas rejeitamos essa teoria, pois como um homem poderia se tornar Deus? Isso é impossível. Contudo, porque ele é o representante de Deus, ele é honrado como Deus.

Se um homem possui um filho querido ou um cãozinho de estimação e alguém dá tapinhas nas costas de seu filho e do cãozinho, o homem fica agradado. O mestre espiritual, de modo similar, é um servo muito confidencial de Deus – o cãozinho de estimação de Deus, kintu prabhor yah priya eva tasya (idem). Portanto, se você for capaz de agradar o mestre espiritual, Deus ficará agradado, yasya prasadad bhagavat-prasadah (Gurv-astaka 8), tal qual um homem fica automaticamente satisfeito ao ver seu filho sendo agradado. Pode-se agradar uma criança com balas de dois centavos, ao passo que, para agradar o homem adulto, talvez sejam necessários milhares de dólares. Deste modo, pode-se deixar o adulto satisfeito meramente dando balinhas para o filho dele.

Assim, esta é a posição de um mestre espiritual. Não entendam equivocadamente: “O mestre espiritual está sentado muito confortavelmente e está recebendo toda honra e toda contribuição”. Isto é necessário apenas para ensinar a todos como respeitar o representante de Deus. Esta é a parte essencial do Vyasa-puja.

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