A Graça do Gosto Superior

Giridhari 01

Giridhari Dasa

Como Era

Nasci em uma família de pessoas materialmente cultas e bem situadas, mas completamente desprovidas de interesse na vida espiritual. Não somente pai e mãe, mas praticamente todos os membros da família – primos, tios, tias, irmão e avôs – eram ateus. Uma exceção era a minha avó materna, que, me parecia, era firme em suas visitas à igreja católica.

Filho de diplomata brasileiro no exterior, nasci em Praga (da antiga Tchecoslováquia) e, após morar dos três aos nove anos no Brasil, vivi com minha família por oito anos em Londres, na Inglaterra, com direito a acesso a requintadas experiências culturais. Fui educado nos detalhes básicos da cultura clássica, incluindo inúmeras visitas aos principais museus e galerias de arte do mundo, apreciando obras dos grandes artistas dos últimos séculos. Conheci várias cidades históricas e visitei inúmeras catedrais europeias, interessado somente na arquitetura. Também tive acesso a grandes obras literárias, música clássica, etc. Mas sobre vida espiritual e Deus… nada de positivo me foi transmitido.

No campo do desfrute material, fui treinado desde cedo a apreciar comidas finas e, mais tarde, bebidas requintadas. Já adulto, fiquei sabendo que, aos três meses de idade, eu já experimentara caviar da melhor qualidade. Antes de me tornar devoto, eu era conhecedor e apreciador de maltes finos da Escócia, conhaques envelhecidos e caros, cervejas europeias especiais e os melhores champanhes e vinhos. Este foi o programa de vida que me foi incutido: sucesso material, bom comportamento e desfrute sofisticado.

O Caminho Antes dos Primeiros Raios de Luz

Devo ter acumulado algum crédito em vidas anteriores, ajudado algum sadhu, banhado em algum rio sagrado ou pronunciado de alguma forma um nome de Deus, pois, mesmo que muito sutilmente, eu buscava entender a realidade e tentava enxergar qual a melhor forma de viver. Em minha adolescência, esta busca se manifestou pelo processo comum entre os jovens de avaliar qual a melhor carreira profissional. Imaginava algo do tipo “vou ser engenheiro”, aí observava, pensava, refletia e concluía que aquilo não me satisfaria de forma completa. Então, pensava em outra coisa: médico, por exemplo, e, após correr o processo todo novamente, eu concluía que isso também não era suficientemente satisfatório. E assim ficava pensando, analisando, projetando o futuro – mas nada parecia me satisfazer.

Cheguei a cogitar uma carreira de engenharia química, mas, logo no primeiro ano na Brown University (uma prestigiosa universidade nos E.U.A., a mesma que Jayapataka Maharaja cursou), descobri que as disciplinas que mais detestei foram justamente as de química!

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Foto: Brown University

Já na faculdade, sem muito mais tempo para optar por novas carreiras e sem me animar com nenhuma em especial, decidi que o melhor jeito seria simplesmente ganhar dinheiro, tornando-me um executivo ou empresário.

Voltei ao Brasil com 18 anos, falando com sotaque de gringo e com pouquíssima prática no português escrito. Sair de umas das melhores universidades do mundo para encarar a UnB (Universidade de Brasília) foi um choque cultural desanimador, ainda mais com o desafio de ter que fazer trabalhos para a faculdade sem conseguir escrever direito em português!

Neste período, minhas amizades eram com outros filhos de diplomatas brasileiros e, por estarmos em Brasília, filhos de embaixadores estrangeiros. Curiosamente, entre meus amigos estavam os filhos do embaixador do Afeganistão e da Iugoslávia, países que poucos anos depois foram assolados por guerras. Perdi contato com estas pessoas e volta e meia imagino o que pode ter acontecido com eles e suas famílias. No meio desta turma eclética, conheci duas pessoas especialmente fascinantes: a filha do embaixador da Argélia e a filha do embaixador do Egito.

Esta última era dotada da habilidade de ver o futuro lendo grãos de café. Funciona assim: toma-se uma xícara de café no estilo egípcio, que contém o café finamente moído, desemborca-se a xícara e, com base no desenho do pó de café no fundo da xícara, elaboram-se as previsões para o futuro. Logo de cara, ela afirmou que eu não faria carreira na área em que estava estudando, mas que o que eu faria na vida estaria ligado a algo que eu tinha visto e experimentado no meu primeiro ano de faculdade.

Anos mais tarde, quando me tornei Hare, lembrei-me destas previsões e me veio à memória que, de fato, estive em algum tipo de programa védico no meu primeiro ano de faculdade. Não me lembro exatamente qual a vinculação com a cultura védica, mas recordo-me de um templo, canto de mantras e incenso. Penso que na época isto não deva ter me atraído muito, pois não voltei. Mas esta, e outras previsões que ela fez, mostraram-se corretas no futuro.

A filha do embaixador da Argélia era uma mulher piedosa e inteligente, sendo a primeira pessoa com quem pude ter “papos filosóficos” abertamente. Antes de sair do Brasil, ela me presenteou com o que seria meu primeiro “livro de autorrealização”: o “The Tao of Pooh”. Apesar do título curioso, o livro descreve o caminho do taoísmo de maneira simples e agradável. Sua leitura não chegou a provocar nenhuma mudança significativa em minha vida, mas certamente contribuiu para elevar, ao menos um pouquinho, minha consciência.

Vem a Misericórdia

Ainda na faculdade, consegui um trabalho no setor que lidava com embaixadas de uma concessionária da Chevrolet. Por ser filho de diplomata e fluente em inglês, tinha as qualificações necessárias para o trabalho. Era tudo de bom para um rapaz de 20 anos: um escritório próprio, secretária e um carro da empresa (tudo bem que era um Chevettinho) com combustível pago! Esforço zero – esperava uma ligação desta ou daquela embaixada, via qual carro que queriam e fazia a venda! Moleza!

Um belo dia, recebi um pedido incomum: ir à oficina para dar assistência ao pessoal da Embaixada da Índia. Nunca antes, ou depois, recebi um pedido semelhante. Ao chegar à oficina, encontrei a pessoa que iria mudar minha vida: Sriman Mahavira Prabhu. Lá estava ele, trocando o pneu de uma Mercedes do embaixador. Não havia qualquer razão útil para minha presença lá, pois Mahavira falava português fluentemente e trocar um pneu não é algo exatamente complexo. Mas foi assim que Krishna organizou uma forma de derramar sobre mim Sua misericórdia. Sob este pretexto da troca do pneu, Mahavira e eu estabelecemos uma profunda amizade logo no primeiro contato.

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Foto: Mahavira Dasa, devoto pioneiro do Movimento Hare Krsna.

Quem conhece Mahavira Prabhu sabe que ele tem um coração gigante. É uma pessoa muito doce, carismática, humilde e amorosa. Em suma, é impossível não gostar dele. Discípulo de Srila Prabhupada, ingressou no movimento no início dos anos 70. Mahavira teve bastante contato com Srila Prabhupada, tendo sido inclusive presidente do Templo de Vrindávana, na época em que Prabhupada esteve por lá.

Mesmo nunca tendo viajado antes ao Brasil, Mahavira recebeu de Prabhupada a ordem de vir pregar no Brasil, auxiliando Srila Hridayananda Dasa Goswami Acharyadeva. Casou-se com Jaya Gouri Devi Dasi, uma brasileira também discípula de Srila Prabhupada. Em sua missão, Mahavira foi uma potência: como braço direito de Acharyadeva, rodou o Brasil abrindo templos em várias regiões. Mahavira Prabhu foi uma pessoa chave na abertura do primeiro templo de São Paulo, a BBT do Brasil e a impressão da primeira versão da revista Volta ao Supremo em português. Ele também foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento de Nova Gokula. Acho que não seria exagero dizer que milhares de pessoas se tornaram devotos de Krishna diretamente como resultado de seus esforços missionários.

Krishna sabia que meu caso era grave, por isso enviou-me nada menos que um “grande herói” – tradução do nome Mahavira – para me salvar de minha vida mundana e ateísta. O caso era tão sério que Mahavira nem sequer pregou para mim. Em nossas conversas não falávamos sobre Krishna: ele apenas tornou-se meu amigo. Uma importante lição para todos aqueles que tentam ser missionários.

Krishna traçou-me um caminho fora dos padrões usuais. Quando me foi oferecido um trabalho com um empresário enigmático conhecido de meu pai, não mais aguentando a chatice do curso de economia na UnB, aproveitei para largar a faculdade. Como meu único interesse material naquela época era tentar ganhar um bom dinheiro, ao ter a oportunidade de tornar-me executivo sem terminar a faculdade, não hesitei.

O trabalho envolvia contatos com multinacionais interessadas em vender seus bens e serviços para o Governo Federal, logo o inglês e a bagagem cultural que eu tinha foram valorizados. Apesar de ter que passar longas horas no escritório, eu tinha bastante tempo livre em minha sala particular (eram somente o empresário, uma secretária, um motorista e eu).

Krishna Me Socorre

Pouco depois tive a oportunidade de indicar Mahavira para um posto em uma empresa de táxi aéreo recém-adquirida pelo empresário para quem eu trabalhava. Com isto, podíamos passar horas e mais horas juntos, conversando. Falávamos sobre tudo, mas, ainda sim, Mahavira não pregava para mim abertamente.

Um belo dia, ele me disse que estava vindo a Brasília uma pessoa incrível, a qual eu tinha de conhecer. Um gênio de inteligência fora do comum, uma pessoa brilhante e maravilhosa – Srila Acharyadeva! Krishna lançava a jogada estratégica para dar um “xeque-mate” na minha ignorância e acabar com minha vida material. Lá fui eu então não somente para um darshan, mas para um almoço particular – Acharyadeva, Mahavira e eu – no templo de Brasília. Isto ocorreu no início da década de 90.

Algum tempo depois, Jaya Gouri presenteou minha então esposa com um exemplar do Bhagavad-gita Como Ele É. Desnecessário dizer que não dei bola alguma para o livro, pois para mim tudo ligado a Deus, escrituras e tal ainda eram tolices.

Pouco depois, Mahavira voltou para os E.U.A., indo morar em Alachua, Flórida, mas a semente de bhakti já havia sido plantada, necessitando apenas de tempo para, regada pela misericórdia de Krishna, dar frutos.

Como meu emprego continuava me proporcionando boas horas sozinho, eu passava meu tempo filosofando internamente, pensando na vida e seu significado. Ainda ateu, buscava entender a vida analisando-a por todos os ângulos (mais tarde aprendi que isso se chama “especulação mental”). Como Prabhupada alerta em seus livros, nada de concreto resultou disso, mas creio que a crescente sede pela verdade e a fracassada tentativa de encontrá-la na matéria me serviram bem. Um belo dia, Paramatma finalmente convenceu-me a pegar o Bhagavad-gita que jazia ignorado há um ou dois anos lá em casa. Li uma vez e deixei de lado, mas sem dúvida este foi o início do fim da minha vida como eu a conhecia.

Algum tempo depois, um desejo ardente surgiu em meu coração, na forma de um chamado muito intenso para ler o Gita novamente. Algo difícil de explicar, mas é assim que me lembro da sensação. Eu resisti, esperando por um momento adequado, como se eu previsse que algo momentoso aconteceria. Foi quando uma das empresas com quem trabalhava convidou-me para trabalhar diretamente com eles, representando-os no Brasil. Era um emprego em que eu podia trabalhar em casa, o que me deu tempo suficiente para devorar o Gita.

Nesta segunda leitura, tudo explodiu em meu coração. Foi como uma supernova de realização espiritual. Foi como ter as vendas dos meus olhos arrancadas em pleno sol a pique. Foi o equivalente cognitivo de ser atropelado por um trem.

Minha vida virou de cabeça para baixo. Percebi então o quanto eu estava na direção errada por ter ignorado Deus por toda a minha vida. Logo entendi que eu tinha de mudar meu estilo de vida, meu propósito, meus objetivos.

Meu lado cético não morreria tão cedo, mas a sede pela Verdade era profunda em mim. Com muito tempo livre graças a meu novo trabalho, eu passava de cinco a seis horas por dia lendo. Li todos os livros de Srila Prabhupada. Em seis meses, li o Srimad-Bhagavatam completo, de capa a capa, e, em seguida, li o Caitanya-caritamrta completo. Depois, comecei a ler tudo novamente! Na quarta leitura do Bhagavad-gita Como Ele É, finalmente estava compreendo melhor o texto.

Mapa em Mãos, Agora ao Caminho

Com uma visão clara sobre o que era a vida, quem eu era, onde estava e aonde tinha que chegar, enfim comecei a trilhar o caminho da consciência de Krishna.

Gradualmente mudei minha dieta, tornando-me vegetariano aos poucos. Famoso pela minha “picanha ao maçarico”, fui diminuindo o tamanho do animal: cortei a carne vermelha, depois o porco, depois o frango, depois o peixe e, por último, o ovo. Eu, que tinha meu barzinho de casa repleto de bebidas finas e caras, deixei tudo de lado e gradualmente parei de beber. E, mais importante, finalmente comecei a praticar a meditação mântrica, japa. Resisti longamente à ideia de meditar e cantar os santos nomes de Deus, mas após ler os livros de Srila Prabhupada, não mais pude evitar esta exigência constante dos gurus e me rendi à prática.

Tive a oportunidade de receber devotos em casa, incluindo o próprio Srila Acharyadeva, em uma visita subsequente a Brasília. Lembro-me também de ter recebido Purushatraya Maharaja e o músico espanhol Atmarama, dentre outros.

E para solidificar de vez minha devoção, Acharyadeva convidou-me para passar algumas semanas com ele nos E.U.A. Hesitei, mas Advaitacandra Prabhu, que me apoiou neste início de vida espiritual, convenceu-me de que eu não podia recusar um convite desses.

Pouco depois, em 1996, fui iniciado por Srila Acharyadeva. Após isso, nunca mais parei. Logo Krishna fez arranjos para me dar ainda mais liberdade, de forma que eu pudesse me engajar nos trabalhos missionários em tempo integral, o que faço até hoje.

Recebi a graça de Krishna e Srila Prabhupada e adquiri o gosto superior da consciência de Krishna. Hoje sigo firme, como um entusiástico peregrino, na estrada de volta ao Lar, de volta ao Supremo.

Visite o site de Giridhari Dasa:

27 (depoimento) Giridhari (bg, ilustrado) (2300) 4

Leia outros depoimentos aqui.

10 Respostas

  1. Edinete Mello

    Giridhari, é linda a sua história de como você chegou à consciência de Krishna. Emocionante. Puxa, Krishna lhe mandou logo Srila Acharyadeva. Ah… não teria como não se render. Parabéns! Você é um grande devoto. Eu, pessoalmente, o vejo escrevendo mais livros sobre autorrealização na consciência de Krishna. Hari bol!!!! Bn. Edinete.

    28 de janeiro de 2013 às 8:19 PM

    • Obrigado, Edinete! Que Krishna continue lhe abençoando.

      29 de janeiro de 2013 às 10:45 AM

  2. Williane Nunes Leao

    Giridhari, bom dia com chuva de bençãos! Quando na Fazenda Paraíso dos Pandavas, você se dirigiu a mim como pertencente à aristocracia, talvez porque você me viu no seu espelho. Amei o seu texto e como, de forma clara, você tece o seu caminho. O meu caminho, Giridhari, ainda não está bem delineado porque titubeio. Não na crença divina, mas na minha atuação na vida. De certa forma, fico tranquila porque, tendo fé no que em mim é imortal, creio que meu caminho se descortinará na hora que a Consciência Divina achar que eu esteja pronta.

    O meu terreno aqui em MG, no qual eu te disse que gostaria de criar um espaço de luz e de paz para muitos seres se beneficiarem, vendi nestes dias, porque tive um prejuízo ao ajudar uma pessoa. Na verdade, acredito eu, tive muita vontade de conversar com você naquele retiro, me abrir, mas achei que o momento não era conveniente.

    Não adoto carne de boi, frango e porco na minha alimentação, mas ainda faço uso de ovos e peixe.

    Foi e será muito significativa pra mim a leitura deste texto. Agradecida, Williane

    29 de janeiro de 2013 às 6:50 AM

    • Williane, Hare Krishna! Para mim ficou muito claro sua seriedade e determinação para o avanço espiritual. Vejo que este é seu foco mesmo e razão principal de sua vida. Siga com afinco, firme, sempre pedindo as bençãos de Krishna. Espero que volte para o Paraíso e, desta vez, fique à vontade para conversar mais comigo.

      29 de janeiro de 2013 às 10:47 AM

  3. Anônimo

    Hare Krishna! Parabéns por sua vida, Giridhari Das, e por seu testemunho para ser lido! Uma benção celeste quem é resgatado por um caminho tão verdadeiro e iluminado como é o que lhe resgatou e aumentou o valor da sua vida. Isso não é para todos,sabe? Sei que não é fácil para muitos. Felicidades!

    29 de janeiro de 2013 às 6:07 PM

    • Obrigado! Tenho certeza que é para todos, mas, infelizmente, nem todos sabem disso. Nós mesmos dificultamos tudo, pois temos medo de evoluir, medo de mudar.

      30 de janeiro de 2013 às 6:31 AM

  4. Fanuel

    Simplesmente demais! Foi apenas necessário chegar o momento para você retomar o que vinha fazendo na vida passada tão bem! Emocionante.

    30 de janeiro de 2013 às 6:10 PM

    • Oi, Fanuel, Hare Krishna! Misericórdia mesmo! : )

      30 de janeiro de 2013 às 8:57 PM

  5. marina ávila

    Parabéns pela linda história de amor com Krishna!!! Hare Krishna!!!

    8 de fevereiro de 2013 às 12:12 PM

  6. Gabi Rodrigues

    Sempre sou tocada por uma emoção muito forte quando leio seus textos. Impossível conter… Obrigada por dividir com todos suas vivências! Hari bol!!

    9 de fevereiro de 2013 às 2:34 PM

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