A Misericórdia dos Devotos

A Misericórdia dos Devotos 1

Yamunacharya Dasa

Eu conheci o Movimento Hare Krishna no ano de 1981, em Natal, através da minha tia, mataji Avatara Devi Dasi. Ela havia chegado recentemente do Rio de Janeiro e trazia consigo todo o espírito missionário que os devotos pioneiros possuíam nos primeiros dias de nosso movimento. Quanto a mim, eu tinha 19 anos e estava vivendo um momento de muitas descobertas, pois buscava de várias formas respostas às questões existenciais que sempre me assediaram desde cedo.

Tudo começou quando fiz uma visita à sua casa. Foi lá onde tive o primeiro encontro com a consciência de Krishna. O ambiente estava impregnado de misticismo: incenso, mantras e imagens de Krishna, e a mataji Avatara usava uma roupa bastante exótica para minha realidade de jovem provinciano. Então, tive a oportunidade de ouvir através dela sobre nossa filosofia e honrar uma gostosa prasada feita com muito carinho. Depois de algumas horas de associação, fui embora sem expectativas de voltar.

Não recordo quanto tempo tardei para reencontrá-la, mas, embalado pela curiosidade de saber mais, fiz outra visita junto com um amigo que também era sedento por conhecimento espiritual. Disse-lhe: Vamos à casa da minha tia; podemos ouvir algo que pode nos ajudar a encontrar respostas aos nossos questionamentos.

Passamos o dia com ela. Fizemos guirlandas para o altar, lemos o Bhagavad-gita, comemos prasada, ouvimos e cantamos o maha-mantra etc. Tivemos a oportunidade de fazer o que é essencial para alguém que está dando os primeiros passos na consciência de Krishna.

Depois deste encontro, fiquei frequentando a casa dela com mais assiduidade, lendo os livros de Srila Prabhupada e logo comecei a experimentar o cantar dos santos nomes na japa. Meu amigo tomou outro rumo. Eu, porém, decidi que queria conhecer o templo e outros devotos.

O ano de 1981 também foi a época em que prestei vestibular para o curso de arquitetura. Ao receber a informação de que só iniciaria o curso no segundo semestre do ano seguinte, resolvi passar uns meses no templo do Rio de Janeiro para conhecer mais de perto os devotos e a consciência de Krishna. Mataji Avatara tinha um ótimo apartamento em Copacabana e disse que eu podia ficar lá com o meu tio caso houvesse necessidade. Desta forma, me preparei para fazer minha primeira grande viagem sozinho.

O momento não podia ser melhor. O templo acabara de se mudar do bairro de Jacarepaguá para a Tijuca, na ladeira da cascata, e despontava como um dos melhores do Brasil na distribuição de livros. O templo era liderado pelo prabhu Loka-saksi, o presidente à época, e prabhu Candramukha, um brahmana brahmacari muito entusiasta que liderava o sankirtana.

A Misericórdia dos Devotos 2Foto: Loka-saksi Dasa, pioneiro do Movimento Hare Krishna no Brasil.

Como era tradicional para um bhakta recém-chegado, lavei muita panela, cortei legumes e verduras, lavei o templo, embalei muito incenso para sankirtana e curti bastante a atmosfera impregnada pelo humor transcendental da pregação. Foram momentos que marcaram minha vida e me fizeram tomar a decisão definitiva de abandonar tudo e ingressar no caminho espiritual vaishnava.

Neste período, conheci meu mestre espiritual Hridayananda Dasa Gosvami por ocasião da iniciação de sannyasa de prabhu Paramgati, prabhu Isvara e prabhu Guru Prasada realizada no Rio de Janeiro, no hotel Atlântico Sul.

Acho que minha permanência no Rio durou apenas três ou quatro meses, após o que voltei a Natal a fim de resolver algumas pendências na faculdade e consultar minha família sobre minha decisão.

No entanto, logo quando retornei, tive a oportunidade de conhecer o templo de Recife que estava sendo dirigido, na época, por prabhu Dhanvantari. Ele havia chegado recentemente de Salvador e estava muito animado com o seu serviço.

O templo situava-se em uma mansão na Av. Sete de Setembro. Era uma casa de primeiro andar cercada por varandas coloniais e por um grande pomar de mangueiras e outras árvores frutíferas. O caminho que nos levava desde o portão de entrada até a varanda que dava para o interior do prédio era margeado por palmeiras coloniais em ambos os lados. Um templo dos sonhos.

Fui muito bem recebido pelos devotos e em especial por prabhu Dhanvantari. Após tomarem conhecimento da minha decisão de me dedicar completamente à vida espiritual e de ir morar em um templo da ISKCON, eles me convidaram para residir em Recife. Assim, confirmei que esta era minha predileção devido à proximidade com Natal, mas que antes teria de resolver umas pendências com minha família e faculdade.

Foi muito difícil explicar para minha mãe e para todos os meus irmãos que iria deixar a universidade para ingressar em uma religião desconhecida e muito exótica – alvo de críticas e de constantes escândalos nos noticiários nacionais. Sou o sexto de sete filhos, todos formados e bem educados, isto é, minha família era bastante tradicional e caseira. Ninguém havia, até aquele momento, saído de casa para se aventurar pelo mundo, e eu, o mais caseiro, talvez o mais tímido, aquele menino calado e quieto, estava decidido a fazer o impensável: deixar sua casa, sua mãe, seus irmãos, deixar seu futuro profissional, para ser um monge Hare Krishna.

Só depois de muitas explicações e, principalmente, por verem minha determinação e teimosia, todos entenderam que não havia jeito de eu voltar atrás, e terminaram por concordar, apesar do descontentamento de alguns e das lágrimas da minha mãe. Enfim, arrumei minha mala e fui prontinho, com dothi e tudo, residir no templo de Recife. Acho que era meados de 1982.

Dhanvantari Swami me revelou mais tarde que criou uma biblioteca no templo, coisa que não existia, a fim de que eu tomasse conta e me envolvesse com uma atividade que ele considerava mais adequada para mim. Quer dizer, nada de lavar panelas. No entanto, logo tomei as ruas para fazer sankirtana, pois me incomodava ficar no templo ouvindo sobre sankirtana e vendo todos os devotos saindo para distribuir os livros de Srila Prabhupada enquanto eu ficava limpando a poeira dos livros e cuidando de uma biblioteca que ninguém usava.

O prabhu Hari Cakra me apresentou o campo de sankirtana e me ensinou os primeiros passos para distribuir os livros de forma adequada. Depois de alguns dias, pela misericórdia dele, eu já estava plenamente inserido no movimento de sankirtana do Senhor Caitanya entregando o conhecimento transcendental às almas de Kali-yuga.

Desta forma, unicamente pelas bênçãos dos vaishnavas, fui aceito e permaneço no Movimento de Sankirtana tentando de alguma forma ser útil e, ao mesmo tempo, buscando o abrigo definitivo dos pés de lótus dos servos resolutos do Senhor Supremo.

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2 Respostas

  1. Hare Krishna! Exemplos assim nos deixam mais e mais entusiasmados a servir Krishna e a ter confiança de que o Senhor reciproca o amor devotado a Ele sem demora! Haribol!

    7 de abril de 2013 às 9:48 PM

  2. Gopa Kumara Dasa

    Sim, os devotos são uma benção pra toda a humanidade, e assim sempre me sinto tambem grato por tudo o que aprendi até hoje. Jaya Goura Hari!

    De seu sempre servo,
    Gopa Kumara Dasa

    8 de abril de 2013 às 9:37 PM

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