De Volta ao Caminho

09 I (depoimento - krishnacore[novo]) De Volta ao Caminho (1250)1
Uddhava Dasa
 

Cresci em uma família comum, num bairro suburbano de Santo André, no ABC paulista. Batizado e catequizado na Paróquia da rua de casa, fui “coroinha” nas missas de domingo. As histórias fantásticas de Jonas e Noé despertavam minha imaginação e curiosidade, mas, conforme crescia e meus questionamentos naturais se desenvolviam, logo fui perdendo o interesse nos contos bíblicos. Me afastei da Igreja para entrar na escolinha de futebol, e, a partir de então, religião deixou de fazer parte da minha vida por muitos anos.

Durante toda a minha infância, no período de férias escolares, passava o mês de julho na casa dos meus avós paternos em São Lourenço, MG. Lembro-me da ansiedade que eu sentia quando as férias escolares se aproximavam. Aquele garotinho da cidade se encantava com o ambiente bucólico e fantástico do interior. Cavalos desfilando com seu trote elegante pelas ruas; um rio de água limpa (isso realmente me parecia fantástico); árvores apinhadas de periquitinhos; esconde-esconde e “polícia pega ladrão” no milharal; fogueira; doce de leite; histórias de mulas-sem-cabeça e lobisomens. Tinha até uma “casa mal-assombrada” com uma árvore mangueira gigante, cheia de morcegos.

Meu avô, devido a um alerta médico, havia parado de fumar e mudado seus hábitos alimentares. Ele havia encontrado um restaurante no centro da cidade, próximo ao belo Parque das Águas, chamado “Namastê”. Lá, serviam comida lacto-vegetariana. Meu avô, querendo me ensinar desde cedo que alimentação saudável era importante, sempre me levava lá – e eu adorava! Além da comida deliciosa, o ambiente era muito agradável. Aquele doce aroma de sândalo, o som de instrumentos musicais melodiosos que eu jamais ouvira antes, e aquelas belas pinturas de um jovem azul descansando num bosque com sua namorada, rodeado de vacas, pavões e outros animais silvestres. Também aquela estranha figura de um ser com cabeça de elefante fazia minha imaginação voar longe. Quem seriam aqueles personagens? Meu avô não sabia explicar. Dizia apenas que eram os “deuses dos indianos”.

Minha infância passara e, com ela, as boas memórias também. O restaurante “Namastê” não existia mais. A cidade dos meus avós paternos quase fora destruída por uma enchente que mudou tudo: na cidade e no relacionamento dos meus avós. Agora separados, moravam em casas diferentes e não se falavam muito. Todo o encanto da infância terminara e dava-se início minha juventude.

Passei a visitar mais meus parentes maternos num interior diferente, em Pelotas, RS. Lá, eu também ficava em um sítio, mas era um sítio muito diferente, porque ali funcionava um matadouro. Toda a infância mágica perdera finalmente os resquícios de inocência com as imagens de matança, que meu tio fazia questão de me levar para observar, para “aprender como funciona”.

Depois destas experiências marcantes, passei a recusar carne. Logo meus pais perceberam e, por preocupação médica (ainda existia o “mito da carne”), foram aos poucos me convencendo a voltar a comer. Alguns anos mais tarde, me tornaria vegano e convenceria meus familiares a recusarem carne ou, pelo menos, diminuir seu consumo.

Depois de completar 21 anos, me mudei para a imensa São Paulo. Passei pelas mesmas experiências que muitos jovens de minha geração foram estimulados a adotar como comportamento: álcool, maconha, sexo ilícito e desrespeito às autoridades (pelo simples fato de não aceitar algo como “autoridade”). Entretanto, ao mesmo tempo em que essa confusão tomava conta da minha vida, boas coisas floresceram, como a revolta contra a matança de animais e minha decisão de nunca mais compactuar com a violência animal. Fiz contato com a cena punk straight-edge e me convenci de que o hábito de intoxicação também era destrutivo e violento, assim parei de fazer uso de qualquer tipo de substância entorpecente. Me sentia mais vivo do que nunca, mas, paradoxalmente, deprimido. Alguma coisa parecia estar fora do lugar, e todos os meus esforços para “montar o quebra-cabeça” eram inúteis. Não sabia onde aplicar toda essa energia.

Nesse meio tempo, conheci uma banda que me intrigou: Shelter. Não apenas pela peculiaridade musical, mas pela letra da música “Saranagati” (inspirada nos escritos de Srila Bhaktivinoda Thakura). Logo descobri que se tratava de uma banda Hare Krishna, influenciada pela filosofia clássica indiana da literatura bhagavata. Ouvir Shelter me despertou o interesse de conhecer mais sobre aquelas pessoas que ofereciam alimento vegetariano nas “Verduradas” do Jabaquara, e distribuíam livros na Avenida Paulista.

09 I (depoimento - krishnacore[novo]) De Volta ao Caminho (1250)2

“Perfection of Desire”, álbum da banda Shelter que traz a música Saranagati,
inspirada nos escritos de Srila Bhaktivinoda Thakura.

Ganhei de presente de uma amiga um livrinho: Vida Simples, Pensamento Elevado. Terminei a leitura em um dia, no caminho de ida e volta do trabalho. Me lembro com certo humor de ter discordado inúmeras vezes de Srila Prabhupada, o autor. Eu pensava: “Isso é impossível!”. Mas o meu interesse só aumentava – mais e mais. Decidi no mesmo dia: “Preciso encontrar um templo”.

09 I (depoimento - krishnacore[novo]) De Volta ao Caminho (1250)3

Livro Vida Simples Pensamento Elevado, de A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada.

No sábado dessa mesma semana, procurei um devoto na Av. Paulista (infelizmente não me lembro do seu nome), comprei o livreto Valores da Liberdade, tomei coragem e perguntei: “Onde posso encontrar um templo?”. Ele me falou sobre o templo de Franco da Rocha e insistiu, de maneira bastante apaixonada, para que eu voltasse com ele. Mas eu desconfiei (os devotos ainda me pareciam muito estranhos). Perguntei se não havia um templo mais próximo, então ele me falou sobre o Adi Templo, que ficava no bairro Paraíso e fazia festivais para o público geral aos domingos. Parecia perfeito! Fiz uma doação e voltei lendo o livreto com bastante empolgação.

No domingo, me dirigi ao templo com um amigo às 16 horas. Logo que cheguei em frente ao templo, me despertou um sentimento bastante nostálgico. Talvez pelo aroma de sândalo, que me lembrou do restaurante “Namastê”… Não sei ao certo.

Fui recebido pelo prabhu Mahaguru, que me levou até a sala do templo, onde o prabhu Nandakumara respondia algumas perguntas aos visitantes em frente à murti de Srila Prabhupada (que me impressionou bastante). Meu amigo se chateou logo, e voltou antes que começasse a palestra, mas eu fiquei. Não me lembro ao certo do conteúdo da palestra, mas o sentimento de estar lá era muito bom.

Quando o altar se abriu, pareceu que toda a mágica da minha infância havia despertado no meu coração. Aquele “Deus menino” de pele azulada, descansando com sua namoradinha num bosque, rodeado por animais silvestres, que ilustrava as paredes do restaurante em que meu avô me levara na infância estava ali, diante de mim, e todos dançavam e cantavam com muita emoção.

Desde esse dia, passei a visitar o templo regularmente. Fiz amizade com grandes almas, que me instruíram no caminho aberto por Srila Prabhupada. Fui apresentado àquele que mais tarde se tornaria meu diksha-guru, e que me encantaria com seu projeto nas montanhas de Paraty (Purushatraya Swami), e fui convidado a participar até mesmo de uma banda de Krishnacore. Gravamos um CD juntos, viajamos pelo país fazendo novos amigos e levando um pouco de Krishna para as pessoas.

09 I (depoimento - krishnacore[novo]) De Volta ao Caminho (1250)4

Uddhava Dasa em sua cerimônia de iniciação, na comunidade Hare Krishna de Paraty, RJ.

09 I (depoimento - krishnacore[novo]) De Volta ao Caminho (1250)5

Uddhava Dasa cantando em sua banda de Krishnacore, Levante, ainda em atuação.

Conforme minha necessidade de conhecimento e educação iam aumentando, me inscrevi no programa de Dhanvantari Swami e participei do Seminário de Filosofia e Teologia no ano de 2010, onde nossa turma foi abençoada com a chegada e instalação de Sri Sri Maha Gaura-Nitai.

09 I (depoimento - krishnacore[novo]) De Volta ao Caminho (1250)6

Cerimônia de instalação de Sri Sri Maha Gaura-Nitai, no Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna,
em Campina Grande, PB. Uddhava Dasa aparece sentado à esquerda, de camisa vinho.

Tive experiências fantásticas desde o dia em que entrei em contato com o movimento. Pode ter sido por causa de uma música, ou por causa de um restaurante lacto-vegetariano, não sei ao certo, mas sei que estou de volta ao curso do caminho em que parecia ter me perdido.

.

Leia outros depoimentos aqui.

.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s