Doença

Doença

Ravindra Svarupa Dasa

Os heróis da minha juventude foram os grandes curadores da humanidade. Embora seja verdade que, naqueles dias, eu podia ser visto com os outros garotos de minha idade prestando homenagem a personalidades como Elvis Presley e jogadores de beisebol como Joe DiMaggio, eu os reverenciava apenas com algumas poucas palavras. Minha verdadeira devoção – talvez um pouco secreta – era reservada a um panteão de grandes pioneiros da medicina, como William Jenner, descobridor da vacina contra a varíola; Robert Koch, que identificou o bacilo da tuberculose; e Ignaz Philipp Semmelweise, que se empenhou em uma campanha para salvar mulheres de infecção de parto ensinando aos médicos como desinfectarem suas mãos. Estudei avidamente as histórias de vida desses salvadores e sonhei em me tornar um deles dando fim à leucemia ou, digamos, à trombose coronária. Em mim, não havia chamado superior a declarar guerra em nome da humanidade contra as doenças e a morte.

Entrei na faculdade de medicina intencionando ser pesquisador, mas, após pouco mais de um ano, abandonei esse objetivo. Não me vi fatalmente desencorajado por meu encontro com estudantes querendo extrair ouro das doenças, senão que foi um livro que destruiu minha vocação e minha fé.

Mirage of Health: Utopia Progress and Biological Change é um estudo pioneiro da histórica médica escrito no começo dos anos cinquenta por um médico chamado Rene Dubos. Sua conclusão me devastou: O progresso em direção a alguma utopia de saúde é uma ilusão. A doença jamais será “conquistada”. A doença é uma parte tão inescapável de nossa condição humana que os remédios de hoje inevitavelmente se tornam os agentes das doenças de amanhã.

Usando uma abundância de evidências histórias, Dubos demonstra como as doenças de que sofremos surgem das complexas dinâmicas sociais, políticas e econômicas de nossa sociedade em particular: conforme a sociedade muda, as nossas doenças mudam junto com a sociedade. Algumas doenças desaparecem, e outras lhes tomam o lugar surgindo do inesgotável manancial da natureza material.

Nas sociedades industriais modernas, como o Dr. Dubos aponta, não mais sofremos e morremos de varíola, tifo, febre tifoide, difteria e outras pragas microbianas do passado. Nós fizemos “progresso”: Sofremos e morremos de câncer, doenças cardíacas coronárias, enfisemas e desordens mentais (com seus concomitantes uso abusivo de drogas e suicídio).

Segundo a análise de Dubos, mesmo meus heróis da juventude, aqueles inabaláveis inimigos dos micróbios mortais, tiveram pouco a ver com o desaparecimento das doenças infecciosas. Tais perturbações retrocederam principalmente pelas reformas sociais e econômicas que decorreram da industrialização. Ao mesmo tempo, esse mesmo processo prenunciava todo um novo conjunto de mazelas. E mesmo essas velhas doenças não estão de modo algum “conquistadas”, Dubos alerta, senão que estão apenas cerceadas (a um preço alto), e podem reentrar na história humana a qualquer momento em que as condições favoreçam.

Eu experimentava conflitos pessoais diante das lições do Dr. Dubos. A medicina em um instante desvalorizou-se catastroficamente diante dos meus olhos. Eu me perguntei por que isso deveria acontecer. Dubos, é claro, jamais alegou que a medicina era inútil, uma perda de tempo. A verdade é que não pode salvar a humanidade, mas pode salvar humanos. Isso podia ser o suficiente, argumentei comigo mesmo. Eu podia continuar vivendo com ideais, embora tais ideais tivessem de ser modestos. Certamente o verdadeiro heroísmo está em fazer humildemente todo pequeno bem que esteja ao alcance, sem a fantasia do herói de Hollywood em tela cinematográfica com uma trilha sonora impactante no fundo. Sejamos realistas: Não existem salvadores da humanidade, porque a humanidade não será salva, e é assim que as coisas são.

Apesar do esforço, não pude reviver nada do meu entusiasmo pela medicina. A verdade dos fatos era que, no meu coração, eu queria muito desesperadamente ser salvo da doença e da morte absolutamente, e eu possuíra uma fé real de que o progresso científico, ao fim de sua labuta, conquistaria isso para todos nós. Agora, entretanto, era para mim uma conclusão superada, que ficaria apenas em meu passado, que, através da natureza e da tecnologia, a natureza seria por fim conquistada, domada e submetida inteiramente ao nosso serviço e viveríamos sem preocupações em um paraíso na Terra criado pelo homem. Embora eu jamais houvesse transformado essa convicção em palavras, inconscientemente isso se tornara a minha verdadeira fé, a minha religião.

Como isso foi uma religião? Religião e ciência, como fé e conhecimento, são supostamente opostos. De alguma forma, contudo, a ciência se tornara para mim uma religião, o “cientismo”, uma ardente fé de que o progresso na ciência e na tecnologia aprimorará tanto o homem e o seu domínio sobre a natureza que, por fim, a Terra será liberta de todos os males. Essa religião foi, e ainda é, a verdadeira fé de muitos, o motor espiritual que move e motiva seus esforços.

De onde eu herdara essa religião? Eu não me curvara diante de nenhum altar, não recitara nenhum credo, não cantara nenhum hino, não fizera nenhum ritual. Contudo, essa religião dispensa edificações e cerimônias especiais. Como a verdadeira religião dos Estados Unidos, é completamente tecida no pano da vida. Eu a absorvera o tempo todo de meus pais e professores e amigos, do clube de escoteiros, dos museus, dos parques temáticos, das revistas, dos livros. Eu imergi-me em assistir programas televisivos com esse conteúdo, e também permiti entrarem em meu imaginário os slogans de grandes laboratórios e as biografias de meus heróis da medicina

A fé que se formou nos Estados Unidos era uma criação do dito Iluminismo do século XVIII. Ávido por expandir o sucesso de Newton em descrever a natureza de forma racional e matemática, um círculo social de pensadores europeus batalhou para destronar a religião e a moralidade tradicional e substituí-las pela ciência empírica e a razão natural como os guias válidos para a atividade humana.

Os cristãos pouco esclarecidos e supersticiosos acreditavam em um milênio futuro, reino de Deus na Terra que começaria com a profetizada segunda vinda de Cristo e duraria mil anos. Essa crença tinha de ficar para trás. Contudo, os sábios do Iluminismo substituíram tal crença por sua própria fé secularizada, seu milênio artificial: progresso estável na ciência e razão iluminista gradualmente colocarão o mundo natural e humano totalmente sob o controle racional e científico. A natureza e a sociedade serão consumadamente moldáveis. Livre da seca e das enchentes, da pobreza e do crime, da doença e até mesmo da morte, o homem terá estabelecido na Terra o reino de Deus sem Deus.

Essa era a minha fé, e eu a tinha perdido. A ciência não nos salvaria – não havia nenhum “progresso”. Assim foi minha forte reação ao livro Mirage of Health.

Nos anos que se seguiram desde a leitura do livro, passei a reconhecer a peleja por libertação da natureza material, a peleja contra a doença e a morte, como profunda e essencialmente humana – uma peleja que não podemos evitar. Mesmo que talvez não estejamos cientes disso, trata-se de algo que dirige e molda a nossa vida. Por essa razão, mesmo a cultura popular é sobre coisas sérias. Não é algo sem sentido as pessoas descreverem Joe DiMaggio como um “imortal” do beisebol ou quererem acreditar que Elvis Presley poderia não ter morrido. Operando com mais sofisticação, os pensadores iluministas colocaram-se contra a religião, mas tudo o que fizeram foi substituir a salvação através de Cristo pela salvação através da ciência. Não puderam se ver livres do desejo pela transcendência, a avidez por ir além dos limites da natureza e alcançar a vida eterna.

No íntimo, somos todos transcendentalistas. O problema é que a maioria de nós somos tolos cujos vários planos para a liberação estão fadados ao insucesso desde o princípio. Persistimos na adoração de ídolos e deuses que fracassam. Engendramos projetos para a salvação que apenas ampliam nosso emaranhamento. A natureza pode aplainar cidades com um puxão de tapete e pode engolir litorais com ondas gigantes, mas, ainda assim, embarcamos em uma guerra quixotesca com a esperança de conquistá-la. É como um formigueiro considerar-se uma “civilização avançada e complexa”. Ou considere isto: sobrevivência é o impulso primário da vida, e, por milhões de anos, todos os organismos batalharam pela sobrevivência, exatamente como fazemos agora. Consideremos, então, as estatísticas. Onde estão os vencedores? Em toda a história, alguém sobreviveu? A taxa de morte é de cem por cento. É algo predestinado, mas não somos capazes de aceitar.

Temos que ser transcendentalistas, mas o que nos faz investir e reinvestir em planos néscios e impráticos? Peço permissão para sugerir um motivo. Na raiz de nossa tolice, está uma insistência estúpida de tentar acionar uma autocontradição, tornar real um absurdo: Queremos transcender a natureza material, nos livrarmos dela, ao mesmo tempo em que queremos continuar a desfrutá-la e explorá-la.

Essa foi a resposta que descobri. Depois da minha crise de fé, estudei filosofia e religião por anos, o que foi, na verdade, uma busca por transcendentalistas bem-sucedidos. E eu pensei que os havia finalmente encontrado no centro vital das grandes tradições espirituais do mundo. Apesar de suas diferenças de cultura e estilo, pareciam unânimes neste ponto: concordavam que, para sermos exitosos na transcendência, temos que nos livrar da mentalidade de desfrute e exploração. Todos eles reconheciam o empenho sistemático para obter domínio sobre a própria mente e os sentidos, para extinguir os desejos materiais, como o empenho necessário para a verdadeira salvação ou liberação do espírito. Tais transcendentalistas bem-sucedidos compreendiam muito bem que a natureza material nos ata e controla precisamente através de nosso desejo de desfrutá-la e explorá-la. Esse desejo, portanto, é nossa doença maior. Curados dessa doença, nos livraremos definitivamente de toda doença e da morte.

Oito anos depois que o Dr. Dubos destruiu minha fé no progresso material, Srila Prabhupada me iniciou no caminho de bhakti-yoga, o serviço devocional transcendental. Atraí-me pela maneira magistral como Srila Prabhupada expunha o que ele chamava de “o avanço ilusório da civilização”. Na rua, um devoto de Krishna me entregara um panfleto contendo estas palavras de Prabhupada simples porém impressionantes: “Estamos tentando explorar os recursos da natureza material, mas, na verdade, estamos ficando cada mais enredados em suas complexidades. Por conseguinte, embora estejamos ocupados em uma dura batalha para dominar a natureza, estamos cada vez mais dependentes dela. Essa batalha ilusória contra a natureza material pode ser interrompida definitivamente através do reavivamento de nossa consciência de Krishna”. Srila Prabhupada não tinha feito a pesquisa de um Dr. Dubos, mas, de alguma maneira, ele tinha entendido tudo. Sua clareza me embasbacou.

Atacando os ídolos do progresso científico e outras religiões sucedâneas, Srila Prabhupada não fazia concessões enquanto apresentava a verdade de que, se queremos transcender, temos que nos livrar dos desejos materiais. Ele foi o único transcendentalista contemporâneo que encontrei que não oferecia uma religão enganadora, uma acomodação de ambições materiais para obtenção de popularidade barata entre tolos.

Meus heróis continuam sendo os salvadores que declararam guerra em nome da humanidade contra as doenças e a morte: Srila Prabhupada, Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura, Srila Rupa Gosvami, Thakura Haridasa, Madhvacarya, Narada Muni e muitos outros do meu panteão. Tais heróis venceram a guerra contra a morte porque dominaram a verdadeira ciência da transcendência e a entregaram à humanidade.

Entrementes, atribuo ao Dr. Dubos uma boa dose de presciência. Os eventos revelam que ele estava medonhamente certo. Enquanto os pesquisadores em laboratórios de última geração tecnológica fervorosamente buscavam uma “munição mágica” para matar o câncer, uma novíssima praga surgiu, surpreendendo quase todos. Estudos predizem que a AIDS, Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, terá matado cerca de 400 milhões de pessoas até 2050. Como filmes de terror que surgem em sequências ainda mais assustadoras, algumas doenças “fora de moda” começam a estrelar retornos espetaculares: uma nova versão do bacilo de Koch, resistente a drogas, ameaça se tornar uma epidemia de tuberculose na América do Norte, onde um remake do micróbio da febre escarlate está envolvido em um surto de casos fatais de septicemia. Pediatras reportam um crescimento estável de crianças com bronquite e asma crônicas, aparentemente o resultado da poluição. Com efeito, uma família de novas doenças do sistema imunológico, todas aparentemente relacionadas a substâncias no meio ambiente criadas pelo homem, levaram ao estabelecimento de uma nova especialidade médica chamada “ecologia clínica” ou “ecologia médica”. Alguns estudos mostram que, nas nações industriais, até cinquenta por cento de todas as doenças são “iatrogênicas”, isto é, “causadas pelos médicos”.

Em Pittsburgh, alguns anos atrás, registrou-se o primeiro caso de um homem que sobreviveu com um transplante de fígado de babuíno, o qual ainda estava em bom estado durante a autópsia setenta e um dias depois do transplante. Especialistas estão planejando fazendas onde animais geneticamente modificados serão safras de órgãos para uso em humanos; engenheiros de biomedicina estão projetando partes do corpo em plástico farmacêutico e microchips. Eles prometem a imortalidade antes do começo do século XXII.

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Leia outros depoimentos aqui.

Uma resposta

  1. luciane abreu

    True. Me sinto assim também. Sou pediatra, mas hoje sigo um caminho mais bonito, fazendo exatamente assim, em fazer humildemente todo pequeno bem que esteja ao alcance. Prabhupada ki jay!

    27 de junho de 2013 às 12:04 PM

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