Um Devoto do Deus Pessoal

19 (Depoimentos - Como Me Tornei Hare Krishna) Um Devoto do Deus Pessoal (1) (ta)

Purushatraya Swami

“Eu entendi que Srila Prabhupada era realmente meu guru quando, simplesmente por ler a sua poderosa ordem de seguir os quatro princípios reguladores, eu abandonei de uma vez por todas essas práticas. Srila Prabhupada me salvou. Ele me tirou da ignorância, me iluminou com conhecimento e transformou minha vida. Tenho eternamente essa dívida para com ele”.

Lá pelo começo dos anos setenta, eu tive interesse despertado pelas coisas da Índia; notadamente, filosofia, yoga e meditação. Nessa ocasião, ao ler um livro de um famoso swami indiano, tive minha atenção dirigida para dois singulares pontos de leitura. Logo no início, o autor afirmava que existem dois conceitos sobre Deus: impessoal e pessoal. Grande parte do livro girava em torno da realização impessoal de Deus, e o assunto foi exaustivamente tratado. Quanto ao outro aspecto, o pessoal, resumiu-se simplesmente àquela única alusão – nenhuma explicação adicional foi feita. Não obstante, sei lá por qual razão, fiquei curioso por saber o que realmente significaria tal expressão “Deus pessoal”. Não fazia a mínima ideia. Essa curiosidade foi algo inusitado, visto que, nessa fase da minha vida, eu era declaradamente agnóstico e inclinado às ideias impersonalistas. O outro ponto que capturou minha mente foi a enfática afirmação ao final do livro de que ninguém podia atingir a autorrealização por seu próprio esforço – a condição imprescindível é que o candidato tem que encontrar um guru competente e submeter-se a ele. O autor ainda complementou: “Quando o discípulo está preparado, o mestre aparece”. Essa declaração causou-me uma impressão profunda, e, a partir desse momento, esses dois temas – o deus pessoal e o encontro do guru – apareciam de tempos em tempos em minha mente, e eu refletia neles. Como consequência natural, o desejo de encontrar um mestre espiritual se estabeleceu no meu coração, e daí passei a ficar atento para ver se tal desejo se concretizava.

Nessa fase mística de minha vida, eu costumava ler muitos livros sobre yoga, meditação, ocultismo, viagens astrais, vida de místicos e yogis etc. Visitava frequentemente as livrarias especializadas tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo, sempre buscando os melhores livros e as novidades. Visitei, também, diversas sociedades espiritualistas e grupos de yoga, mas, por diferentes motivos, não me senti atraído por nenhum deles. Estive por algum tempo observando, analisando, indagando aqui e ali, com um misto de ceticismo e esperança, mas não tardou muito para constatar que minha chance de encontrar um guru autêntico era, naquelas circunstâncias, bastante reduzida. “Talvez, o melhor seria ir à Índia…”, mas essa era uma hipótese remotíssima naquela hora.

Essa situação provocou uma alteração radical no rumo de minha vida, que então assumiu um caráter mais realístico e pragmático. Agora, a busca do guru, a vida futura e a autorrealização deixariam de ser o foco do meu interesse maior, que, então, reorientou-se para os aspectos mais práticos da vida material. Minha postura agnóstica era reforçada. Estava convicto de que “ninguém pode ter certeza de nada acerca de Deus”.

Em meio às minhas leituras, eu tinha lido uma versão do Bhagavad-gita, cuja tradução não era muito fiel, mas que, de uma forma ou outra, introduziu-me aos conceitos básicos do livro, como karma, reencarnação, modos da natureza etc. Então, eu misturei esses conceitos com uma filosofia totalmente hedonista, baseada exclusivamente no gozo dos sentidos, e a conclusão era mais ou menos assim: “Já que guru e autorrealização são utopias, a coisa mais sensata é tratar de esquecê-los e tentar viver neste mundo material da melhor forma possível, quer dizer, sofrendo o mínimo e desfrutando ao máximo. Conhecendo-se a lei do karma, a pessoa pode construir um futuro recheado de facilidades materiais, como recompensa às atividades piedosas prévias. Da mesma forma, situando-se no modo da bondade (sattva-guna), e evitando-se os modos inferiores (paixão e ignorância), a pessoa pode evitar muitos sofrimentos e ansiedades, e experimentar o mais elevado padrão de felicidade que este mundo pode oferecer. Portanto, embora sempre haja um ou outro tipo de inconvenientes neste mundo, é possível minimizá-los ao máximo, e tratar de desfrutar as boas coisas da vida: sexo, dinheiro, conforto, conhecimento, artes, natureza, esportes, viagens etc.”.

Sentia-me completamente confiante e otimista com essa nova perspectiva para a minha vida. Tinha considerado o capítulo da busca espiritual como definitivamente encerrado. Não queria saber mais dos meus livros, os quais, antes, eu tanto apreciara. Estava cansado desse tipo de livro com um pedante linguajar esotérico e pseudo-espiritual. Toda aquela auréola de misticismo agora se tornara algo aborrecedor, tanto que doei toda a minha biblioteca. “Agora é pé no chão”, pensava eu, cheio de novos planos na cabeça.

Passado algum tempo, eu ia descendo a Rua Augusta, em São Paulo, e fui abordado por uma jovem vestida de sári indiano. Ela me ofereceu um pequeno livro. Era meu primeiro contato com um Hare Krishna. Já tinha visto algo, por alto, em alguma revista ou jornal sobre o envolvimento de certos Beatles com eles, John Lennon cantando o mantra Hare Krishna em protestos contra a sociedade, a peça Hair – nada mais do que isso. Simplesmente por curiosidade, comprei, sem hesitar, o livro, e segui em frente.

Ao chegar em casa, dei uma folheada e, descompromissadamente, comecei a lê-lo, movido pela mera curiosidade de saber o que os Hare Krishnas pensavam. O título era bem sugestivo – Além do Nascimento e da Morte. Falava que nós não somos este corpo, explicava diferentes tipos de yoga e como obter a libertação deste mundo. O livro era bastante técnico e citava constantemente o Bhagavad-gita. A certa altura da leitura, eu li a expressão “Krishna, a Suprema Personalidade de Deus”. Instantaneamente, me deu um “click” na memória e veio à mente aquela velha dúvida que eu nunca solucionara: o que vem a ser “Deus pessoal”? Tinha, afinal, encontrado uma pista. Senti certa emoção com a descoberta e redobrei minha atenção na leitura. O autor, Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, dava muitas informações sobre o Deus pessoal, Sri Krishna – Sua forma, Sua morada transcendental e o relacionamento com Ele através de bhakti, a devoção.

Ao terminar o pequeno livro, eu estava satisfeito, e tive uma boa impressão dos Hare Krishnas. Na última página, havia um convite sugestivo para um festival dominical. Embora todos os domingos eu pensasse em visitar o templo Hare Krishna, nunca cheguei a fazê-lo, pois era distante, e, por preguiça, eu sempre adiava para o domingo seguinte. “Além do mais”, reafirmava eu, “não estou mais interessado nesses assuntos espirituais”.

Para reforçar minha decisão de mudar radicalmente minha vida, agora com motivações exclusivamente materiais, resolvi me transferir de volta à minha cidade natal, Rio de Janeiro. A leitura do livro dos Hare Krishnas, e o desejo surgido em visitar o templo, eram uma ameaça ao processo de tornar-me um materialista. Melhor, pois, seria a mudança radical e, então, recomeçar tudo dentro do novo estilo de vida.

Chegando ao Rio, ocorreu uma sucessão de coincidências que, de acordo com a terminologia Hare Krishna, são típicos exemplos dos chamados “arranjos de Krishna”. Para não alongar muito a história, darei somente alguns “flashes” do que se passou.

Assim que cheguei, fui visitar um velho amigo e ele me mostrou um livro que tinha ganhado e lhe era muito querido. Tratava-se da versão em inglês do Bhagavad-gita Como Ele É, de Srila Prabhupada. Fiquei encantado com o sânscrito e as ilustrações. No dia seguinte, tive que ir ao centro da cidade, e, passando em frente a uma tradicional livraria especializada em assuntos espiritualistas, na sobreloja de um prédio, seguindo meu velho hábito, subi para somente “dar uma olhada”. Assim que entrei, o dono veio ao meu encontro com um grosso livro de capa preta. “Este livro chegou justo hoje”, disse ele, “é o Bhagavad-gita dos Hare Krishnas, agora em português”. Foi uma incrível surpresa, e, então, sem pestanejar, adquiri o livro. No terceiro dia, minha mãe comentou que “umas pessoas estranhas” estavam de mudança para uma casa na mesma rua, um pouco abaixo. Já podemos adivinhar: era o primeiro templo Hare Krishna definitivamente instalado no Rio de Janeiro. Telefonei, então, ao meu amigo e contei-lhe as novidades. Ele sugeriu que poderíamos visitar os Hare Krishnas e propor-lhes a troca do seu Bhagavad-gita em inglês por um em português. Combinamos para o próximo dia, à tarde.

Na hora combinada, chegamos à espaçosa casa dos Hare Krishnas. Estava tudo vazio, sem qualquer mobília, e ninguém se encontrava no andar térreo. O único toque característico era um suave aroma de incenso no ar. Subimos ao primeiro andar, olhando de quarto em quarto, até que, no último, encontramos dois Hare Krishnas sentados em almofadas no chão junto a uma mesa pequenina. A proposta da troca do Bhagavad-gita foi prontamente atendida, e o Hare Krishna mais graduado, um jovem swami americano, falando um fluente espanhol adaptado ao português, começou a discorrer sobre a filosofia da consciência de Krishna. Fiquei cativado pelo discurso, mas, “para não dar o braço a torcer”, eu lancei algumas perguntas desafiadoras usando alguns chavões impersonalistas que vinham à cabeça. Contudo, meus argumentos foram literalmente massacrados pela lógica superior da filosofia personalista. O interessante é que, apesar de estar sendo flagrantemente derrotado, minha inteligência se deliciava ao contemplar minha derrota diante de conclusões tão sábias. De tudo o que foi tratado nessa longa e dinâmica conversa, o tema que mais me impressionou foi a descrição dada pelo swami americano sobre seu guru indiano, o fundador do Hare Krishna, Srila Prabhupada.

Ele enfatizava que esta filosofia não tinha sido recentemente inventada, mas era, na verdade, o conhecimento original da humanidade, que chegava até nós através de uma corrente de mestres espirituais. Por causa da transmissão em genuína sucessão, o conhecimento original não tinha sido adulterado, e, agora, Srila Prabhupada, o contemporâneo guru dessa linha, era o autêntico representante do Senhor Krishna, e ele estava apresentando a mensagem do Bhagavad-gita em sua verdadeira essência.

Estas palavras entravam como um furacão pelos meus ouvidos, e, dentro de minha mente, eu tinha um turbilhão de ideias. A magnífica personalidade de Srila Prabhupada foi, assim, descrita em seus múltiplos aspectos, em grande eloquência. A sensação mais forte que sentia depois daquele encontro era que alguém como eu, que esteve por anos procurando um guru autêntico, teve, afinal, sua busca coroada de êxito.

Qualquer um pode imaginar a confusão que se formou na minha cabeça. Depois de me frustrar com uma tentativa de vida espiritual, eu havia filosoficamente optado pela vida materialista. Quando tal decisão tinha sido consolidada e agora um plano prático estava sendo desencadeado, esta volta aos velhos temas causava uma grande interferência, criava conflitos e me distraía do objetivo.

Durante os dias que se seguiram, maya me apresentou oportunidades de sucesso material que nunca tivera antes. Durante um pouco mais de um mês após este encontro com os Hare Krishnas, eu estive completamente ocupado em um serviço que me daria um considerável retorno financeiro. Por ter uma data limite estabelecida em contrato, eu tinha meu tempo completamente tomado, até mesmo aos domingos, de forma que evitei ir ao templo e até mesmo pensar em qualquer tema espiritual.

Finalmente, ao concluir a tarefa, tinha tempo para relaxar – mas foi impossível. Todos aqueles pensamentos voltavam com toda força à minha cabeça, que estava a ponto de estourar, de tanto conflito. Estava em uma encruzilhada e teria que decidir entre dois caminhos: vida material ou vida espiritual. De um lado, a paixão de ganhar dinheiro e desfrutar das delícias da vida; do outro, a rara oportunidade de me associar com um devoto puro, praticar renúncia e austeridade e dedicar-me a um processo autêntico de autorrealização.

Em meio a essa turbulência mental, fui a São Paulo passar o fim de semana com meus amigos para tentar me distrair e esquecer meu dilema. Acontece que agora eu começava a perceber a real face de maya. Podia ver a grande ilusão que as pessoas estavam vivendo, alimentando esperanças de felicidade neste mundo. Podia distinguir a mediocridade e degradação de suas vidas e a realidade deste mundo, vendo que estavam imersos em total ignorância. Tinha ido para desfrutar, mas voltei arrasado. Ainda tentei outra possibilidade, que me sorriu como se fosse aquilo que eu realmente precisava naquele momento. Imediatamente rumei para Saquarema, onde tinha também uns amigos. Saquarema é o paraíso dos surfistas: belas praias, natureza, vida descontraída, gente jovem e feliz. Apesar de tudo, me sentia deslocado. Pude claramente compreender que todos aqueles jovens estavam simplesmente desperdiçando suas valiosas vidas com coisas inúteis e temporárias. Não aguentei mais do que dois dias.

Voltando para casa, peguei o Bhagavad-gita e me tranquei no quarto. Por uma semana, eu só saí para tomar as refeições, e só parei após ler o livro de ponta a ponta. Ao final, após muita reflexão, já não tinha mais dúvidas quanto ao real objetivo da vida. Meu arrogante agnosticismo e impersonalismo estavam agora agonizantes – bastava somente um ‘tiro de misericórdia’. O Senhor Krishna tinha Se tornado o Senhor da minha vida, e Srila Prabhupada tornou-se o intermediário entre Ele e eu.

Eu entendi que Srila Prabhupada era realmente meu guru quando, simplesmente por ler a sua poderosa ordem de seguir os quatro princípios reguladores, eu abandonei de uma vez por todas estas práticas: (1) comer carne, peixe e ovos, (2) intoxicação, (3) sexo sem objetivo de procriação e (4) jogos de azar. Srila Prabhupada me salvou. Ele me tirou da ignorância, me iluminou com conhecimento e transformou minha vida. Tenho eternamente essa dívida para com ele.

A decisão de me render a Krishna e dedicar minha vida à missão de meu guru foi, sobretudo, racional. Após meditar bastante sobre o assunto, eu concluí: “Devido a uma inclinação natural à vida espiritual, eu tinha desejado sinceramente encontrar um guru, e agora, pela graça de Krishna, acabo de encontrar. Se não aproveito esta oportunidade, certamente irei me arrepender no futuro, e detesto a ideia de me tornar uma pessoa frustrada. Dessa forma, renuncio meus planos materialistas”. Pensando dessa forma, eu apaziguei minha mente e tive a força necessária para renunciar o mundo material.

Após várias semanas ausente, eu visitei o templo, e o devoto encarregado me sugeriu passar o fim de semana ajudando na preparação de um grande festival que ocorreria no domingo seguinte. Pintei a sala do templo de manhã e à noite, e, no domingo pela manhã, fizemos muitos arranjos decorativos usando principalmente bananeiras e folhas de manga. Eu não tinha absolutamente nenhuma ideia do que aconteceria algumas horas mais tarde. O festival foi algo nunca visto, nem imaginado por mim. Tratava-se da instalação das belíssimas Deidades de Sri Sri Gaura-Nitai.

Durante o banho das Deidades, abhishekha, eu me dei conta de que estava cantando e dançando completamente em êxtase. Nunca tinha sentido uma emoção como aquela. O banquete, prasada, que se seguiu me levou a pensar que já não estava mais neste mundo. Ninguém sabia, mas, naquela hora, eu já era um krishna-bhakta e um discípulo de Srila Prabhupada.

No dia seguinte, eu fui até minha casa, coloquei um par de roupas numa sacola de viagem e avisei minha mãe que, qualquer coisa, ela podia me procurar naquela casa das “pessoas estranhas”.

Ia descendo a curta distância entre minha casa e o templo Hare Krishna, e me sentia leve como uma pluma e imensamente feliz.

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Uma resposta

  1. raul borges

    Hare Krishna
    Gostaria de compartilhar minha felicidade ña introducao da consciencia de Krishna nesta nova “vida”

    26 de agosto de 2015 às 1:03 PM

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