A Libertação do Fantasma Dhundhukari

Green Bamboo

Suta Gosvami

Um dia, depois que Atma Deva fora para a floresta, Dhundhukari espancou sua mãe severamente, exigiu suas riquezas e ameaçou queimá-la. Extremamente perturbada e temerosa de seu filho, Dhundhuli, certa noite, fugiu de casa, atirou-se em um poço e afogou-se. O santo Gokarna, que não se perturbava com felicidade ou aflição e não considerava ninguém seu amigo ou inimigo, saiu em peregrinação.

Dhundhukari permaneceu morando na casa com cinco prostitutas e constantemente se preocupava em relação a como acumular riquezas para a gratificação dos sentidos. Em virtude disso, perdeu toda a sua inteligência e, destarte, ocupava-se em atividades cruéis e abomináveis.

Um dia, as prostitutas exigiram que ele lhes desse vários ornamentos. Dhundhukari, completamente cegado pela luxúria e esquecido da morte, saiu para satisfazer o desejo delas a qualquer custo. Em sua determinação em agradá-las, roubou riquezas e utilizou-as para comprar belas vestes e joias.

Depois de receberem as vestes e ornamentos roubados, as prostitutas, certa noite, começaram a considerar: “Dhundhukari está sempre roubando e, no devido tempo, certamente será pego pelo rei, que confiscará sua riqueza e o enforcará. É melhor que nós mesmas o matemos, peguemos sua riqueza para nós e nos mudemos para um lugar distante”.

Pensando dessa maneira, uma noite, enquanto Dhundhukari dormia, amarraram-no com cordas, colocaram uma forca em torno de seu pescoço e tentaram estrangulá-lo. Ele, no entanto, não morria facilmente, o que deixou as prostitutas ansiosas. Elas, então, buscaram lenha acesa e forçaram-na para dentro de sua boca. A lenha queimou-o até a morte, após o que elas enterraram seu cadáver.

Ninguém pôde entender o que acontecera com Dhundhukari. Quando indagadas, as prostitutas diziam que ele viajara para longe a fim de ampliar sua renda e retornaria após um ano.

Uma pessoa inteligente jamais deve acreditar em uma mulher incasta. Qualquer homem tolo que deposite sua fé em semelhantes mulheres sofrerá como Dhundhukari. A voz de uma mulher incasta é tão doce quanto néctar a um homem luxurioso. Na verdade, o coração dela é tão afiado quanto uma navalha. Mulheres incastas não amam ninguém – valorizam unicamente riquezas. As prostitutas, que haviam experimentado muitos amantes, levaram então toda a riqueza de Dhundhukari e desapareceram.

Devido a seus delitos, Dhundhukari obteve um corpo de fantasma e permaneceu dentro de um redemoinho errando aqui e ali sofrendo com fome e sede e lamentando seu infortúnio. Ele não encontrava refúgio em lugar algum. Após algum tempo, as novas da morte de Dhundhukari chegaram a Gokarna, em virtude do que ele foi a Gaya para realizar as cerimônias fúnebres de sraddha, considerando seu irmão desamparado.

Posteriormente, conforme viajava pelos lugares sagrados, Gokarna chegou à sua cidade natal e, escondendo-se de todos, foi para sua antiga casa passar a noite. O fantasma de Dhundhukari observou Gokarna retornar, motivo pelo qual assumiu várias formas aterradoras e apareceu diante dele. Algumas vezes, ele assumia a forma de uma ovelha assustadora, então um elefante, ou um búfalo, ou uma forma similar a Indra ou similar ao fogo. Finalmente, apareceu como um ser humano. Vendo isso, Gokarna pôde entender que era certamente um fantasma quem fazia aquilo. Com coragem e paciência, ele falou: “Quem é você? Por que você está exibindo todas essas formas medonhas? Como você caiu nessa condição? Diga-me claramente: você é um fantasma, um gnomo ou um demônio?”.

Quando Gokarna dirigiu-lhe as perguntas, o fantasma começou a chorar alto. Ele não conseguia falar, em consequência do que gesticulava. Gokarna espirrou água no fantasma, o que o aliviou de reações pecaminosas o bastante para que pudesse falar.

“Sou eu, seu irmão Dhundhukari”, o fantasma disse. “Por causa de meus delitos, caí de meu nascimento respeitável como brahmana. Em virtude de completa ignorância, matei muitas pessoas. Não é possível contar os meus pecados. Viciei-me em cinco prostitutas que, por fim, mataram-me, e, como resultado, estou sofrendo as reações de minhas más atividades com a obtenção deste corpo de fantasma. De algum modo, pela vontade do Senhor, estou sobrevivendo agora apenas de ar. Meu querido irmão, você é um oceano de misericórdia. De algum modo, por favor, liberte-me desta forma fantasmagórica”.

Gokarna respondeu: “Querido irmão, estou muito surpreso. Realizei devidamente oblações para você em Gaya e é embasbacante que você ainda não tenha sido liberto dessa forma fantasmagórica. Se você não pode ser liberto pela feitura de sacrifício em Gaya, não sei o que fazer. Diga-me qual é a solução”.

O fantasma disse: “Não posso ser liberto desta condição sequer pela realização de centenas de sraddhas em Gaya. Você tem que pensar em alguma prática mais poderosa”.

Gokarna, abismado diante do que ouvira, disse: “Se você não pode ser liberto por centenas de sraddhas em Gaya, sua liberação é praticamente impossível. De qualquer forma, não tema. Permaneça aqui e pensarei em algum procedimento para libertar você”.

O fantasma se foi, e Gokarna passou a noite refletindo profundamente, porém não descobriu uma solução. Na manhã seguinte, muitas pessoas, incluindo estudiosos, sábios, conhecedores dos Vedas e iogues foram vê-lo, e ele explicou-lhes o incidente da noite anterior. Todos eles consultaram suas escrituras particulares, mas não puderam sugerir um meio adequado para libertar Dhundhukari. Eles finalmente decidiram seguir o que quer que Surya-narayana, o deus Sol, ordenasse. Pelo poder de sua penitência acumulada, Gokarna deteve os movimentos do deus Sol e orou: “Ó Senhor, és a testemunha de todo o universo. Ofereço-te minhas reverências. Por favor, sê misericordioso e dize-me o processo pelo qual é possível libertar Dhundhukari”.

O deus Sol respondeu: “Somente uma coisa pode ser feita para libertá-lo – a recitação do Srimad-Bhagavatam por uma semana”.

A assembleia ouviu a declaração do deus Sol e concordou que esse simples processo deveria ser executado. Assim, espalhou-se a notícia de que Gokarna realizaria o Saptaha Yajna, a recitação do Srimad-Bhagavatam em sete dias. Das vilas próximas, muitas pessoas aleijadas, cegas, idosas e menos inteligentes chegaram, todas com o desejo de se livrarem de seus pecados. Tão grande era a multidão que se ajuntou que até mesmo os deuses ficaram surpresos. Gokarna assentou-se no vyasasana e começou a recitar os passatempos do Senhor Krishna tal como descritos no Bhagavatam. Nesse momento, o fantasma também chegou e procurou por um lugar para se sentar. Porque ele tinha um corpo etéreo, ele não podia se sentar em um ambiente externo, motivo pelo qual entrou em um bambu que tinha sete nós e então começou a ouvir o Srimad-Bhagavatam.

Depois que Gokarna apontou um brahmana vaishnava como o líder da assembleia, ele, em uma voz clara, começou a recitar o Srimad-Bhagavatam a partir do primeiro canto. Naquela noite, durante uma pausa no katha, algo maravilhoso aconteceu. As pessoas na assembleia notaram que um dos nós do bambu estalou e se rompeu. Ao fim de cada dia, um nó se rompia, e, no sétimo dia, quando a recitação estava concluída, todos os nós haviam se rompido, e Dhundhukari estava liberto da forma fantasmagórica. Ele obteve um corpo divino, que era negro como nuvens de chuva. Ele trajava vestes amarelas, uma guirlanda de Tulasi estava ao redor de seu pescoço, uma coroa adornava sua cabeça e belos brincos balançavam em suas orelhas.

Ele imediatamente ofereceu reverências a Gokarna e disse: “Meu querido irmão, por sua misericórdia, fui liberto do corpo de fantasma. A cerimônia de Saptaha é tão gloriosa que pode destruir formas fantasmagóricas e elevar o indivíduo à morada do Senhor Krishna. Quando uma pessoa começa a ouvir o Saptaha, os pecados tremem de medo antevendo que o bhagavata-katha os reduzirá a cinzas. Da mesma forma que o fogo queima um galho ou uma árvore, o Saptaha queima todos os pecados, quer grandes, quer pequenos, cometidos com o corpo, a mente e a fala”.

Os eruditos na assembleia de semideuses disseram que a vida daqueles que não ouvem o Srimad-Bhagavatam é absolutamente imprestável. Continuou Dhundhukari: “Qual a utilidade de tornar forte e musculoso este corpo temporário? Se o sujeito não ouve o Srimad-Bhagavatam, não há nenhum ganho oriundo deste corpo dito belo. Este corpo é sustentado por ossos, que são como pilares, e é amarrado por nervos e veias. Ele é coberto por pele e é cheio de carne, e toda parte tem mau cheiro, não sendo o corpo nada além de um pote de fezes e urina. Na velhice, ele é a causa de lamentação e miséria. Com efeito, é a residência de doenças, e mantê-lo é um grande fardo. O mesmo é continuamente assaltado por desejos que jamais podem ser satisfeitos. Todo poro é repleto de defeitos, e ele pode ser destruído em um instante. Quando enterrado, é comido pelos vermes; caso descartado a céu aberto, é comido por abutres e transformado em fezes; se queimando, se torna cinzas. Com efeito, esses são os únicos destinos possíveis ao corpo. Quem é o indivíduo são que não utilizará o corpo temporário para obter um benefício permanente? Visto que o alimento que é preparado pela manhã está decomposto à noite, como este corpo pode ser considerado eterno se é nutrido por elementos que se decompõem?”.

“Neste mundo material, as pessoas podem muito rapidamente alcançar os pés de lótus do Senhor mediante a audição do Bhagavatam em sete dias. Este é o único meio pelo qual é possível o indivíduo se livrar dos defeitos do nascimento humano. Aqueles que não ouvem bhagavata-katha são como bolhas na água, ou como mosquitos, que nascem apenas para morrerem inutilmente. Se o bhagavata-katha pode romper os nós de um bambu, por que não poderia romper os nós no coração? Por ouvir o Srimad-Bhagavatam, as dúvidas são removidas, o karma se afrouxa e a pessoa se vê liberta dos nós no coração. O bhagavata-katha é como um local de peregrinação que livra o sujeito de todas as impurezas. Os eruditos declaram que, quando o Bhagavatam se torna fixo no coração, está definida a liberação da pessoa”.

Conforme Dhundhukari assim falava, o céu tornou-se refulgente, e um aeroplano de Vaikuntha apareceu transportando associados do Senhor. Diante de toda a assembleia, Dhundhukari embarcou no aeroplano.

Gokarna apresentou uma pergunta: “Ó queridos associados do Senhor, há, nesta assembleia, muitas pessoas de coração puro, e todas elas ouviram o Bhagavatam ao longo de sete dias. Por que esse aeroplano veio exclusivamente para Dhundhukari? Por que outros não obtiveram o mesmo resultado?”.

Os servos do Senhor disseram: “Ó Gokarna, a diferença está na qualidade da audição deles. Embora seja verdade que todos ouviram a recitação, não meditaram com a mesma qualidade, daí os resultados do serviço devocional serem diferentes. O fantasma jejuou por sete dias e ouviu o Bhagavatam com sua mente completamente fixa e atenta. O conhecimento que não é estável é inútil. Da mesma forma, se alguém não ouve com atenção ou se nutre dúvidas ou deixa sua mente vaguear, ele não obterá o benefício do canto de seu mantra. Uma cidade sem devotos de Vishnu, sraddha oferecido a pessoas desqualificadas, caridade dada a brahmanas de comportamento ruim e desconhecedores dos Vedas são todos inúteis. Fé nas palavras do mestre espiritual, humildade, controle dos defeitos da mente e audição atenta do bhagavata-katha garantem o resultado completo. Se alguém ouve o Bhagavatam com atenção, certamente alcança Vaikuntha. Ó Gokarna, no que diz respeito a você, o Senhor virá pessoalmente buscá-lo a fim de o levar para Goloka”. Depois destas palavras, os associados do Senhor, cantando juntos o nome de Hari, ascenderam a Vaikuntha.

No mês de Sravana, Gokarna novamente realizou o sacrifício da leitura do Srimad-Bhagavatam em sete dias e aquelas pessoas ouviram. Ao fim do sacrifício, o Senhor apareceu em um aeroplano repleto de devotos. De todas as direções, podia-se ouvir: “Todas as glórias! Todas as glórias!”, e as pessoas prestavam reverências. O Senhor tocou Seu búzio chamado Panchajanya e abraçou Gokarna. Em um instante, conferiu a todos que haviam ouvido o Srimad-Bhagavatam um corpo exatamente como o Seu. Todos eles obtiveram um corpo enegrecido e usavam vestes amarelas, elmos e brincos. Pela misericórdia de Gokarna, todas as entidades vivas naquela vila, incluindo os cães e os comedores de cães, embarcaram naquele dirigível. Foram levados para onde apenas os devotos vão: a morada do Senhor.

Deste modo, o Senhor Krishna, estando muito contente com Seu katha, levou Gokarna consigo para o Goloka Dhama, que é absolutamente querido aos vaqueiros. No passado, o Senhor Ramachandra levou todos os residentes de Ayodhya para Sua morada, Saketa. Da mesma forma, o Senhor Krishna levou todos para Goloka Dhama, morada esta que não é alcançada sequer pelos grandes yogis, pelo deus Sol, deus Lua ou mesmo seres perfeitos, mas alcançada unicamente através da audição do Srimad-Bhagavatam. O que podemos dizer sobre o estupendo resultado que se logra ouvindo a recitação do Srimad-Bhagavatam ao longo de sete dias? Mesmo aqueles que ouviram um trecho da história de Gokarna não mais renascem. Aquele destino que não é alcançável por aqueles que vivem de ar, de água ou folhas secas, executando longas penitências ou praticando yoga, é facilmente alcançado simplesmente pela audição do Srimad-Bhagavatam em sete dias.

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