A Morte da Bruxa Putana

23 R (história - Krishna) A Morte da Bruxa Putana (2604) (bg) (ta)A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

Como uma espada em um estojo enfeitado era Putana: linda por fora, mortal por dentro.

Enquanto voltava para casa, Nanda Maharaja ponderou sobre o aviso de Vasudeva de que poderia haver alguma perturbação em Gokula. Com certeza o aviso era de amigo e verdadeiro. Por essa razão, Nanda pensou: “Há alguma verdade nisso”. Destarte, devido ao medo, ele abrigou-se na Suprema Personalidade de Deus. É muito natural para um devoto em perigo pensar em Krishna, porque ele não tem qualquer outra proteção. Quando uma criança está em perigo, ela busca a proteção de seu pai ou de sua mãe. De modo semelhante, um devoto está sempre sob a proteção da Suprema Personalidade de Deus, mas, quando vê algum perigo específico, ele lembra-se rapidamente do Senhor.

Depois de consultar seus ministros demoníacos, Kamsa instruiu uma bruxa chamada Putana a matar todas as crianças nas cidades, aldeias e campos de pastagem. Putana conhecia a magia negra de matar criancinhas por métodos horríveis e pecaminosos. Porém, essas bruxas só podem praticar sua magia negra onde não se canta nem se ouve o santo nome de Krishna.

É dito que, onde quer que se cante o santo nome de Krishna, mesmo com negligência, todos os maus elementos – bruxas, fantasmas e calamidades perigosas – desaparecem imediatamente. Com certeza isso acontece onde se canta o santo nome de Krishna com seriedade, especialmente em Vrindavana na época em que o Senhor Supremo estava pessoalmente presente. Portanto, as dúvidas de Nanda Maharaja baseavam-se em sua afeição por Krishna, pois, de fato, não havia perigo nas atividades de Putana, apesar de ela ser tão poderosa.

Essas bruxas são chamadas khechari, que significa que elas podem voar no céu. Essa magia negra da bruxaria ainda é praticada por algumas mulheres na região do extremo noroeste da Índia. Elas podem transferir-se de um lugar para outro montadas no galho de uma árvore arrancada. Putana conhecia essa bruxaria, daí ser chamada no Bhagavatam de khechari.

Putana entrou sem permissão na área de Gokula, o local de residência de Nanda Maharaja. Ela parecia muito bonita, com quadris erguidos, seios bem volumosos, brincos, flores no cabelo. Vestida como uma bela mulher, entrou na casa de mãe Yashoda. Ela parecia especialmente bela devido à sua cintura fina. A todos lançava olhares muito atraentes e mostrava um rosto sorridente, razões pelas quais todos os habitantes de Vrindavana ficaram cativados. As inocentes vaqueirinhas pensaram que ela era a deusa da fortuna que aparecera em Vrindavana com uma flor de lótus na mão. Parecia-lhes que ela viera ver pessoalmente Krishna, que é seu esposo.

Por causa de sua extraordinária beleza, ninguém impediu seus movimentos, motivo pelo qual ela entrou livremente na casa de Nanda Maharaja. Putana, a assassina de muitas e muitas crianças, encontrou o bebê Krishna deitado numa pequena cama e logo pôde perceber que o menino escondia Seus incomparáveis poderes. Putana pensou: “Este bebê é tão poderoso que pode destruir imediatamente todo o universo”.

É bastante significativo o que Putana pensou. A Suprema Personalidade de Deus, Krishna, situa-Se no coração de todas as pessoas. Diz-se no Bhagavad-gita que Ele dá às pessoas a inteligência necessária e também causa seu esquecimento. Putana de imediato teve consciência de que a criança que ela observava na casa de Nanda Maharaja era o próprio Deus, a Pessoa Suprema. Ele estava deitado ali como um bebezinho, mas isso não queria dizer que Ele fosse menos poderoso. A teoria materialista de que a adoração a Deus é antropomórfica não é correta. Nenhum ser vivo pode tornar-se Deus por se dedicar à meditação e à austeridade. Deus é sempre Deus. Krishna como bebê é tão completo como Ele é quando jovem em pleno desenvolvimento. A teoria mayavada sustenta que a entidade viva antes era Deus, mas agora foi vencida pela influência de maya. Dizem que agora ela não é Deus por causa disso, mas que, quando for retirada a influência de maya, ela voltará a ser Deus. Essa teoria não pode ser aplicada às minúsculas entidades vivas. As entidades vivas são partes integrantes diminutas da Suprema Personalidade de Deus; são partículas ou fagulhas diminutas do fogo supremo, mas não são o fogo original, ou Krishna. Krishna é a Suprema Personalidade de Deus, mesmo no momento de Seu nascimento na casa de Vasudeva e Devaki.

Krishna mostrou a natureza de um bebezinho e fechou os olhos, como se quisesse evitar o rosto de Putana. Esse fechar de olhos é interpretado e estudado de diferentes maneiras pelos devotos. Alguns dizem que Krishna fechou os olhos porque não queria ver o rosto de Putana, que matara tantas crianças e agora viera matá-lO. Outros dizem que Putana hesitou porque uma coisa extraordinária estava sendo ditada para ela interiormente, e, para lhe dar segurança, Krishna fechou os olhos de modo que ela não se assustasse.

Outros ainda interpretam desta maneira: Krishna apareceu para matar os demônios e dar proteção aos devotos, como diz o Bhagavad-gita, paritranaya sadhunam vinashaya cha duskritam. O primeiro demônio a ser morto foi uma mulher. De acordo com as regras védicas, é estritamente proibido matar mulheres, brahmanas, vacas ou crianças. Krishna fora obrigado a matar a demônia Putana e, porque matar uma mulher é proibido conforme o shastra védico, Ele não podia deixar de fechar os olhos.

Outra interpretação é que Krishna fechou os olhos porque achava que Putana era Sua ama de leite. Putana aproximou-se de Krishna só para oferecer seu seio para que o Senhor o sugasse. Krishna é tão misericordioso que, embora soubesse que Putana estava ali para matá-lO, Ele a tomou por Sua ama de leite, ou mãe.

Há sete espécies de mães segundo o preceito védico: a mãe verdadeira, a esposa de um professor ou do mestre espiritual, a esposa do rei, a esposa de um brahmana, a vaca, a ama e a mãe Terra. Pelo fato de Putana ter vindo tomar Krishna no colo e oferecer-Lhe o leite de seu seio para mamar, ela foi aceita por Krishna como uma de Suas mães.

Considera-se esta como outra razão para Krishna ter fechado os olhos: Ele tinha de matar uma ama de leite ou mãe. Sua ação de matar Sua mãe ou ama, no entanto, não era diferente de Seu amor por Sua mãe verdadeira ou por Sua mãe adotiva, Yashoda. Através da informação védica, sabemos ainda que Putana também foi tratada como mãe e recebeu a mesma facilidade que Yashoda. Assim como Yashoda recebeu a libertação do mundo material, Putana também foi liberta.

Quando o bebê Krishna fechou os olhos, Putana pegou-O no colo. Ela não sabia que estava segurando a morte personificada. Se alguém confunde uma cobra com uma corda, ela morre. Igualmente, Putana matara muitas crianças antes de encontrar Krishna, mas agora ela estava aceitando a cobra que em breve a mataria.

Quando Putana pegou Krishna no colo, Yashoda e Rohini estavam presentes, mas não a impediram porque Putana estava muito bem vestida e mostrava afeição materna por Krishna. Elas não puderam entender que Putana era uma espada num estojo enfeitado. Putana passara um veneno muito poderoso em seus seios e, logo depois de pegar o bebê no colo, colocou o bico do peito na boca dEle. Ela esperava que, tão logo Ele sugasse seu peito, morreria. Entretanto, o bebê Krishna foi muito rápido e, pegando o bico com raiva, sugou o leite-veneno juntamente com o ar vital da demônia. Em outras palavras, Krishna sugou ao mesmo tempo o leite do peito dela e matou-a sugando-lhe a vida.

Krishna é tão misericordioso que, pelo fato de a demônia Putana ter vindo oferecer-Lhe o leite de seu peito, Ele satisfez o desejo dela e aceitou sua atividade como maternal. Porém, para que ela não cometesse mais atividades perversas, Ele a matou imediatamente. Por ter sido morta por Krishna, a demônia obteve a libertação. Quando Krishna sugou seu ar vital, Putana caiu ao chão, estendeu os braços e pernas e começou a gritar: “Ó criança, deixe-me, deixe-me!”. Ela gritava muito alto, e suava tanto que todo o seu corpo ficou molhado.

Ao morrer gritando, houve uma tremenda vibração na terra e no céu, nos planetas superiores e inferiores, e em todas as direções as pessoas pensaram que raios estavam caindo. Assim acabou o pesadelo da bruxa Putana, que naquele momento assumiu sua verdadeira aparência de grande demônia. Abrindo sua boca feroz e estendendo seus braços e pernas por toda parte, Putana caiu exatamente como Vritrasura quando atingido pelo raio de Indra.

Seus longos cabelos espalharam-se por todo o seu corpo, o qual, caído, estendia-se por quase vinte quilômetros, tendo despedaçado todas as árvores. Todos se admiraram ao ver aquele corpo gigantesco. Seus dentes pareciam caminhos arados, e suas narinas, cavernas de montanha. Seus seios pareciam pequenas colinas, e seu cabelo, um vasto matagal avermelhado. As órbitas de seus olhos eram como poços profundos, e suas duas coxas eram como as margens de um rio. Suas mãos eram como duas pontes de sólida construção, e seu abdome parecia um lago seco. Todos os pastores e pastoras ficaram assustados e maravilhados ao verem aquilo, e o som tumultuoso de sua queda vibrou fortemente em seus cérebros e ouvidos, fazendo seus corações dispararem.

Quando as pastoras viram o pequeno Krishna brincando sem medo no colo da enorme Putana, elas foram correndo e O pegaram. Mãe Yashoda, Rohini e outras gopis mais velhas executaram imediatamente os rituais auspiciosos segurando o rabo de uma vaca e circungirando o corpo dEle. A criança foi completamente lavada com urina de vaca, e a poeira levantada pelos cascos das vacas foi jogada em todo o Seu corpo. Tudo isso foi feito apenas para poupar o pequeno Krishna de futuros acidentes inauspiciosos.

Esse incidente dá uma clara indicação de o quanto a vaca é importante para a família, a sociedade e os seres vivos em geral. O corpo transcendental de Krishna não precisava de proteção, mas, para nos instruir sobre a importância da vaca, o Senhor foi untado com excremento de vaca, lavado com urina de vaca e borrifado com a poeira levantada pelo caminhar das vacas.

Depois desse processo purificatório, as gopis, chefiadas por mãe Yashoda e Rohini, cantaram doze nomes de Vishnu para dar ao corpo de Krishna plena proteção contra todas as más influências. Mãe Yashoda estava firmemente convencida de que devia proteger seu filho de diferentes espécies de maus espíritos e fantasmas, que fazem com que as pessoas esqueçam a própria existência e perturbam o ar vital e os sentidos. Às vezes, eles aparecem em sonhos e causam muita perturbação; outras vezes, aparecem como velhas e sugam o sangue das criancinhas. Contudo, todos esses fantasmas e maus espíritos são incapazes de permanecer onde se canta o santo nome de Deus. Mãe Yashoda estava firmemente convencida do preceito védico sobre a importância das vacas e do santo nome de Vishnu. Por isso, ela buscou toda a proteção nas vacas e no nome de Vishnu simplesmente para proteger seu filho Krishna. Ela recitou todos os santos nomes de Vishnu para que Ele salvasse a criança.

A cultura védica tirou partido de cuidar das vacas e de cantar o santo nome de Vishnu desde o início da história, e pessoas que ainda seguem os caminhos védicos, especialmente os pais de família, mantêm algumas vacas e adoram a Deidade do Senhor Vishnu que está instalada em sua casa. Aqueles que querem avançar em consciência de Krishna devem aprender com este passatempo a também se interessar por vacas e pelo santo nome de Vishnu.

As gopis mais velhas de Vrindavana estavam tão absortas em seu amor por Krishna que queriam salvá-lO, embora não houvesse necessidade disso, pois Ele já Se protegera. Elas não podiam compreender que Krishna era a Suprema Personalidade de Deus fazendo o papel de uma criança. Depois de realizar as formalidades para proteger a criança, mãe Yashoda pegou Krishna e deixou-O sugar seu seio. Visto que o menino estava protegido pelo vishnu-mantra, mãe Yashoda sentiu que Ele estava a salvo. Neste meio tempo, todos os vaqueiros que tinham ido a Mathura pagar impostos voltaram para casa e ficaram assombrados ao verem o gigantesco cadáver de Putana.

Nanda Maharaja lembrou-se da profecia de Vasudeva e considerou-o um grande sábio e um yogi místico. Se não os fosse, como poderia predizer um incidente que aconteceu durante sua ausência de Vrindavana?

Depois disso, todos os moradores de Vraja cortaram em pedaços o corpo gigantesco de Putana e o empilharam com madeira para queimar. Quando todos os membros do corpo de Putana estavam queimando, a fumaça que emanava da fogueira criava o bom aroma do aguru. Esse aroma devia-se ao fato de ela ter sido morta por Krishna. Isso significa que a demônia Putana fora purificada de todas as suas atividades pecaminosas e obtivera um corpo celeste. Eis um exemplo de como a Suprema Personalidade de Deus é por inteiro bondade: Putana veio para matar Krishna, mas, porque Ele sugou seu leite, ela purificou-se imediatamente, e seu cadáver adquiriu uma qualidade transcendental. Seu único empenho era matar criancinhas; ela gostava muito de sangue. Contudo, apesar de ter invejado Krishna, ela alcançou a salvação porque deu seu leite para Ele beber. Então, o que se pode dizer de outras pessoas, que prestam serviço a Krishna com grande amor e devoção e que têm afeição maternal por Ele apesar de Ele ser a Suprema Personalidade de Deus e a Superalma de todos os seres vivos?

Desta forma, conclui-se que até mesmo um pouco de energia gasta no serviço do Senhor confere à pessoa um imenso lucro transcendental. Explica-se isto no Bhagavad-gita: svalpam apy asya dharmasya. O serviço devocional em consciência de Krishna é tão sublime que mesmo um pequeno serviço a Krishna, estando consciente do fato ou não, propicia à pessoa o benefício mais elevado.

O sistema de adorar Krishna oferecendo flores de uma árvore também é benéfico para a entidade viva confinada à existência corporal daquela árvore. Quando se oferecem flores e frutas a Krishna, a árvore que as produziu também recebe muito benefício indiretamente. O processo de archana, ou processo de adoração, é benéfico para todos.

Krishna é digno da adoração de grandes semideuses como Brahma ou o Senhor Shiva, e Putana foi tão afortunada que Krishna brincou em seu colo como uma criancinha. Os pés de lótus de Krishna, que são adorados por grandes sábios e devotos, foram colocados sobre o corpo de Putana. As pessoas adoram Krishna e oferecem-Lhe comida, mas Krishna naturalmente sugou o leite do corpo de Putana. Os devotos, portanto, oram que, se Putana recebeu tanto benefício pela simples oferenda de algo como inimiga, quem pode calcular o benefício de adorar Krishna com amor e afeição? Destarte, deve-se adorar Krishna pela simples razão de que grandes benefícios aguardam o adorador.

Quando todos os habitantes de Vrindavana sentiram o bom aroma da fumaça da queima de Putana, eles se perguntaram: “De onde é que vem este aroma agradável?”. E, enquanto conversavam, compreenderam que era a fumaça do fogo que queimava o corpo de Putana. Eles gostavam muito de Krishna e, logo que ouviram que a demônia Putana fora morta por Krishna, ofereceram bênçãos à criancinha devido à afeição que Lhe tinham. Depois que Putana queimou, Nanda Maharaja foi para casa e imediatamente pegou a criança no colo e começou a cheirar Sua cabeça. Dessa maneira, ele ficou bastante satisfeito por seu filho ter sido salvo daquela grande calamidade.

Srila Shukadeva Gosvami abençoou que com certeza alcançarão o favor de Govinda todas as pessoas que ouçam a narração de como Putana foi morta por Krishna.

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