Morte no Dia de um Casamento

27 I (história - Karma e Reencarnação) Morte no Dia de um Casamento (4100)Devamrita Swami

O fotógrafo se ausentar ou o noivo se atrasar são contratempos comuns em casamentos e que geram muita ansiedade e frustração. Contudo, nada se compara à tragédia no dia do casamento da jovem Devaki. Se não pela atuação rápida e inteligente do homem que naquele dia ganhava sua mão, poderia ter sido morta pelo próprio irmão, já com uma espada desembainhada para esse fim. Qual o final dessa história, intercalada pela sabedoria do karma e do eu eterno?

Um membro destacado da realeza védica, de nome Vasudeva, acabara de se casar com Devaki, uma princesa. A nobreza deles não era apenas de nome, senão que ambos eram descendentes altamente qualificados de famílias védicas ligadas às artes marciais e administrativas. Depois da cerimônia de gala do casamento, o novo casal partiu em uma quadriga de modo a entrarem juntos em seu novo lar. Uma comitiva de centenas de quadrigas acompanhada de cavalos, elefantes e criadas rodeava o casal. Todos os veículos e animais transportavam grande quantidade de ouro, porque o abastado pai da noiva conferira-lhe um grande dote.

O sistema védico de casamento ditava que o pai dava à sua filha tantas riquezas quanto possível no dia de seu casamento, já que não herdaria nada dele. As propriedades eram sempre transmitidas aos filhos. As mulheres modernas talvez considerem isso injusto, mas precisamos conhecer mais sobre os costumes védicos antes de julgarmos. Na cultura védica, as mulheres consideravam seus filhos como sua riqueza mais valiosa do que qualquer quantidade de ouro e terras. Obviamente, então, a psicologia delas era de alguma maneira diferente de suas contrapartes modernas.

A noiva, Devaki, e o noivo, Vasudeva, estavam sendo levados por uma quadriga conduzida pelo irmão dela, Kamsa. Tradicionalmente, o irmão da noiva acompanhava sua irmã na viagem até a nova casa dela de modo que ela não se sentisse receosa por estar deixando a proteção da casa de seu pai pela primeira vez.

Conforme a grande procissão régia acompanhava os recém-casados até seu destino, músicos tocavam búzios, clarins, tambores e timbales, os quais tomavam os ares majestosamente. O irmão Kamsa, controlando as rédeas dos cavalos, guiava a quadriga com destreza. Repentinamente, uma voz misteriosa se fez ouvir estrondosamente do céu, dirigida especificamente a Kamsa. “Tolo! Estás conduzindo calmamente a quadriga de tua irmã e de teu novo cunhado. Não obstante, ignoras que o oitavo filho dessa mulher matar-te-ás!”.

Kamsa, embora nascido em uma família védica nobre, acumulou dentro de si todas as terríveis qualidades de um déspota cruel. Ao ouvir o agouro do céu, ele, sem hesitação, soltou as rédeas. Com uma mão, segurou os cabelos de sua irmã, e, com a outra, sacou sua espada a fim de decapitá-la.

Vasudeva, o esposo, era um político extraordinariamente qualificado, um padrão de excelência védica. Embora sua festa de casamento houvesse se transformado instantaneamente em uma completa catástrofe, exibiu grande sensatez, autocontrole, sobriedade e compostura. Imediatamente agindo de forma a pacificar e controlar Kamsa com palavras, falou calmamente com seu cunhado abominável: “Meu caro Kamsa, és o orgulho de tua dinastia. Todos os heróis exaltam a tua fama. Como é possível que um aristocrata como tu mate uma mulher, a própria irmã, no dia de seu casamento?”.

Qualquer um desses três fatores, ordinariamente, seria o bastante para deter um agressor em potencial. As injunções védicas proíbem, em quaisquer circunstâncias, que se ataquem mulheres, idosos, crianças, vacas e brahmanas, os intelectuais védicos estudiosos de tópicos espirituais. Contudo, Kamsa estava pronto para decapitar imediatamente uma mulher – sua própria irmã, a esposa de outrem – no dia auspicioso de seu enlace matrimonial. Kamsa estava exibindo, salientemente, a mentalidade materialista do egoísmo demoníaco:

“Eu vivo, tu morres”. No instante anterior, estava conduzindo afetuosamente sua irmã; no instante seguinte, estava pronto para matá-la. Se a existência de alguém, até mesmo a existência de uma irmã, ameaça a sua própria existência, essa pessoa tem que ser exterminada. Valendo-se de lisonja e racionalidade, Vasudeva esforçou-se a fim de acalmar seu cunhado brutal.

Ó poderoso guerreiro, por que teu medo de morrer é grande o bastante para estares prestes a cometer um ato assim tão horrendo? A morte é certa para todos nós – está embutida em nosso       corpo no momento do nascimento. A cada momento, a cada hora, estás morrendo, desde o instante que nasceste. Se tens vinte anos de idade, isso significa que morreu vinte anos. A investida final pode vir agora ou daqui a cem anos. Ninguém pode evitar a morte. Por que tanto temes a morte?

Vasudeva está apontando que nada pode de fato deter a morte. Podemos partir hoje ou daqui a alguns dias. Consequentemente, por que, para tentarmos futilmente salvar nosso corpo, deveríamos nos enredar em um karma pecaminoso?

Tentando neutralizar os perigos deste mundo, Kamsa estava disposto a destruir sua reputação familiar e sua felicidade em seu próximo nascimento. Os Vedas nos advertem a utilizarmos nosso tempo de duração incerta neste mundo para interrompermos o ciclo de samsara – e não o continuarmos ou o piorarmos. Segundo textos antigos, qualquer um, elevando cientificamente a consciência ao plano espiritual puro, pode solucionar, de maneira real, os verdadeiros problemas da vida.

Depois de recordar Kamsa acerca tanto da inevitável perda do corpo quanto da futilidade de um empenho pecaminoso para evitar a morte, Vasudeva, em seguida, buscou ensinar-lhe uma impactante lição sobre o que chamamos popularmente de “reencarnação” na atualidade. Os professores védicos preferem um termo mais preciso: transmigração da alma.

A morte é o final da estadia da alma em um corpo específico. Tão logo o corpo entra em colapso, a natureza material pega de volta para si os ingredientes. A entidade viva, então, muda-se para outro corpo, concedido pelas leis da natureza de acordo com o karma.

Durante o curso de uma vida, a alma, que vive eternamente, está passando de um corpo a outro. O bom senso védico estimula-nos a ver que os estágios da infância, da juventude e da velhice são uma sequência de diferentes corpos, como os quadrinhos individuais de um rolo de filme. O que chamamos de morte não é nada além de outra mudança para a alma eterna – uma transmigração para mais um corpo novo. Assim como a alma transmigra ao longo de estágios biológicos em uma mesma vida – da infância à juventude – ela passa da morte para o nascimento, aceitando outra vida.

Para a pessoa comum, tudo é misterioso: não apenas como a alma se muda para um novo corpo após a morte, mas também como, na vida atual, a alma habita uma série de corpos. O texto que resumo os Vedas, o Bhagavad-gita, explica a transmigração com a ajuda de uma analogia:

Assim como uma pessoa veste novos trajes, desfazendo-se dos antigos; a alma, de maneira similar, aceita novos corpos materiais, abandonando os velhos e inúteis. (Bhagavad-gita 2.22)

A civilização védica, como apresentada nos textos, reconhecia a existência de leis universais que governam a mudança de corpos à qual a alma se submete. Dirigida por essas almas, a entidade viva recebe automaticamente um novo corpo segundo seus desejos, ambições e atos pretéritos. Viver sob o controle da natureza significa viver sob esses estatutos do samsara – eles controlam a sequência. A partir disso, o processo de mudança corporal procederá automaticamente de acordo com nossas atividades cármicas.

Vasudeva urgiu seu cunhado a considerar inteiramente a lei do karma. Ele queria incutir em Kamsa que, se fosse adiante com o assassinato hediondo de uma mulher, o corpo que ele obteria em sua vida seguinte seria certamente ainda mais condicionado a misérias e ignorância. Podemos ver que Vasudeva, um membro da elite governante védica, era absolutamente destro na arte de administrar desastres. Em meio àquela calamidade eminente, aplicou com sobriedade sua inteligência e sua sabedoria para abortar uma ruína quase concretizada. Agora, apresentará a Kamsa uma explicação gráfica da transmigração da alma.

Quando caminhamos, baixamos o pé dianteiro e, quando certos de nossa passada, erguemos o pé traseiro. Similarmente, a alma se muda para um novo corpo e abandona o anterior. Nunca notaste como lagartas em uma planta cuidadosamente se transferem uma folha a outra? De igual modo, a entidade viva muda de corpo tão logo o karma do corpo atual se esgota. Seu novo karma lhe aguarda na forma de outro corpo.

Vasudeva está enfatizando a Kamsa que a transmigração da alma não se dá pelo acaso. As leis da natureza orquestram todo o processo. Os textos védicos declaram que todo ato humano recebe uma entre duas classificações – ou ressoa com as leis universais que emanam do Supremo ou as violam. Diferente de criaturas estúpidas em outras espécies, o ser humano tem inteligência o bastante para, livremente, aceitar ou rejeitar os estatutos cósmicos que governam a expressão da consciência.

Essa liberdade de ação acarreta responsabilidade pelos efeitos. A profunda realidade que os Vedas nos revelam é que a dádiva da consciência desenvolvida traz, junto dela, a obrigação de responder por si. Essa responsabilidade de consciência se manifesta aos nossos olhos como o corpo – a materialização grosseira de nossas ações e reações.

A ciência védica da transmigração nos diz que, no corpo humano atual, estamos experienciando as reações dos atos de nossa vida passada. A partir dessa perspectiva, “corpo” significa a corporificação das reações da atividade cármica passada. Enquanto isso, estamos ocupados agindo mais uma vez da mesma maneira. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que recebemos nosso karma passado, estamos produzindo um novo karma, que nos saudará no nosso próximo nascimento. Quando a alma se muda do corpo morto para o corpo novo, está, na verdade, mudando-se de um campo seco de reações cármicas gastas para um campo viçoso e com reações prontas para serem colhidas.

Vasudeva, como um grande exemplo da classe marcial e administrativa da sociedade védica, por certo conhecia a complexidade do samsara, o ciclo de nascimentos e mortes. De outro modo, como poderia governar e proteger o povo? Esperava-se que Kamsa conhecesse esses princípios também, mas ele destruíra sua inteligência mediante uma vida de hedonismo. Julgando que ele era uma lei para si mesmo, considerava justificável fazer tudo o que fosse necessário para progredir com sua gratificação sensorial imediata ou protegê-la. Portanto, Vasudeva continuou sua valente instrução com o intento de salvar tanto sua esposa quanto Kamsa do horror iminente.

Algumas vezes, durante o dia, perdemo-nos em devaneios ou contemplações. Criamos essas situações mentais através do que vimos ou ouvimos. Absortos em pensamentos, entregamos nossa consciência a essas visões, completamente esquecidos de nosso corpo e circunstâncias atuais. Semelhantemente, nós, à noite, perdemos em sonhos o nosso corpo desperto. Enquanto dormimos, vemo-nos agindo em muitíssimos novos corpos de variadas maneiras exóticas. Todos os corpos, tanto dos sonhos que sonhamos acordados quanto dos sonhos noturnos, são criações da mente. Nosso estado de consciência é o segredo da transmigração da alma.

A explicação de Vasudeva está progredindo do físico para o mental. Nos dois versos anteriores, ele enfatizou a realidade física da morte e da mudança corpórea. Agora, elucida-nos brilhantemente quanto à mente em trabalhos – o mecanismo da transmigração. Valendo-se do conhecido, Vasudeva nos está ensinando algo desconhecido. Nossa mente tem a habilidade de absorver por completo a nossa atenção, até mesmo a ponto de fazer-nos deixar de estarmos cônscios fisicamente. Se pensarmos cuidadosamente sobre essa tendência, poderemos, então, apreciar a informação védica de que, a partir da mente, desenvolvem-se diferentes fisiologias, diferentes corpos.
Todos nós temos a experiência de nos encantarmos por uma fascinação mental em particular. Mesmo durante o dia, podemos nos entregar tão fortemente a um pensamento ou a uma memória que nos esquecemos de nosso corpo físico e do que está ao redor do mesmo. À noite, essa amnésia, como poderíamos chamá-la, é ainda mais evidente. Durante um sonho, parceiros sexualmente atrativos nos envolvem; tigres nos engolem. Enquanto isso se desenrola, estamos por inteiro esquecidos de nosso corpo, que dorme sobre a cama. Assim, nossa experiência diária, tanto durante o dia quanto ao longo da noite, demonstra facilmente o poder inerente da mente. Ela pode nos levar a lugares, transformar circunstâncias e ignorar o corpo físico, ou até mesmo sobrepujá-lo.

O que talvez seja mais difícil para nós compreendermos é o ponto védico de que essa mesma potência ou velocidade da mente transporta a alma da morte de um corpo para o nascimento em um corpo novo. De dentro do chapéu mágico da mente, surge um novo corpo físico que não existia antes. A literatura védica nos deixa claro que a atividade da mente no momento da morte é o indicador do próximo nascimento.

A natureza da mente é a oscilação – ela avança e, então, recua. Impelida por caprichos ou deliberações, a mente muda. Portanto, o corpo muda. Segundo nossas inclinações mentais à hora da morte, a natureza material oferece outro corpo. Em outras palavras, no samsara, novos corpos se desenvolvem segundo os movimentos de nossa mente. De outro modo, a alma poderia permanecer livre de coberturas materiais – em seu corpo original, o corpo espiritual.

O que Vasudeva está explicando é que, assim como o corpo muda, a mente também muda. Os Vedas dizem que os movimentos da mente são três: pensar, sentir e desejar. Adotando a perspectiva védica de categorizar a mente como um sentido, provavelmente nos será mais fácil vermos seu modus operandi: como ela considera as coisas, sente-as e, então, deseja-as, incitando o corpo, com o golpe de suas esporas, para a ação física.

Aceitação e rejeição é outra maneira védica de considerar a atividade sensorial da mente. Todos nós temos a experiência de a mente agarrar-se a uma ideia ou situação e, posteriormente, debater-se querendo distância dessa mesmíssima coisa. Dia e noite, a mente opera constantemente deste modo: agarrar algo e soltá-lo para que se vá. De igual modo, Vasudeva nos diz, a alma, através da mente, aceita novos corpos e rejeita os antigos.

Os gostos da consciência, os trânsitos mentais, criam verdadeiramente corpos materiais grosseiros em diferentes vidas. Mais uma vez, se podemos começar a discernir a velocidade e a intensidade da mente, podemos começar a compreender a apresentação védica do samsara.

Algumas vezes, corpos luminosos no céu se refletem em líquidos. Quando o líquido se move, o reflexo se move, flexionando-se em diferentes formas. Por exemplo, a Lua projeta seu reflexo sobre uma poça d’água, e o vento sopra a água. Conforme a Lua refletida se move com a água, assume várias formas, ora mais circulares, ora oblongas. Embora a água sob o poder do vento, com sua Lua deformada, possa fazer-nos pensar que a Lua no céu também está distorcida, esse não é o caso. Em virtude disso, imploro-te: recorda tua identidade espiritual, pura e original. Não te contorças demoniacamente pelos repentinos vendavais da energia material. A influência ilusória dessa energia manifesta-se como o corpo e a mente externos.

Algumas pessoas, na atualidade, gostam de dizer que todos nós, coletivamente, somos o universo. Através de nós, dizem, o universo está experienciando a si mesmo. Conforme aprendemos e crescemos, o universo evolui rumo à perfeição. A clássica apresentação védica de Vasudeva a Kamsa claramente rejeita essa fantasia. Sua metáfora profunda informa enfaticamente a Kamsa que não pertencemos de modo algum a esta atmosfera material – seja nossa cidade natal, nossa nação, nosso planeta ou universo. Equivocadamente, pensamos: “Sou humano; este é o meu bairro. Sou australiano, ou americano, uma parte do planeta Terra. Ademais, pertenço ao universo”.

A Lua, brilhando no céu, não pertence à água – com efeito, apenas seu reflexo está ali. Similarmente, Vasudeva quer apontar que nós, como almas espirituais puras, temos uma existência espiritual original, apesar de termos nos esquecido dela. Em vez de vivermos em nossa glória espiritual natural, absorvemo-nos em uma identidade ilusória, em uma personalidade que é um mero reflexo no reino temporário da natureza material.

Encantados pelas águas do cosmo material, águas estas sempre a correrem por novas direções, pensamos que também mudamos e variamos – identificamo-nos com as transformações da existência material. Como resultado, quando os ventos da mudança material sopram, e isso certamente ocorrerá, mudamos de forma – mudamos de corpo, de família e de planeta. Malgrado isso, toda essa comoção cósmica no oceano do samsara nada tem a ver com a pessoa verdadeira, a alma espiritual, eternamente situada além de toda contaminação material.

Vasudeva fornece-nos uma lúcida retratação de como a alma parece assumir várias posições no cosmo. Ele perseverou diligentemente em seu esforço filosófico com o intento de impedir que seu cunhado matasse sua própria irmã. Se Kamsa fosse capaz de compreender as imensas consequências de se submeter aos ventos agitadores da natureza material, poderia evitar turbulências piores nos nascimentos porvindouros.

Por conseguinte, uma vez que o karma malicioso e mordaz produz um corpo que experiencia muito sofrimento na próxima vida, como pode ser de teu interesse pessoal violar a lei universal do karma? Pensando em teu próprio benefício, não deverias invejar ninguém, haja vista que uma pessoa invejosa tem sempre que viver com medo de represálias nesta vida ou na vida seguinte.

A civilização védica, sobre a qual lemos, considera que a ignorância da lei não é um fator a eximir alguém de culpa. O corpo humano traz consigo uma consciência avançada, o que nos dá a responsabilidade de conhecermos os estatutos cósmicos. Devemos ou aprendê-los nós mesmos ou encontrarmos alguém que os conheça. Esse fardo de conhecer ou encontrar alguém que conheça recai sobre todo ser humano. Talvez possamos nos simpatizar com o padrão védico caso nos lembremos de que, quando viajantes chegam a um país estrangeiro, espera-se que saibam as leis de trânsito antes de dirigirem. Com efeito, espera-se que um estrangeiro se conforme com todas as leis de onde visita. Da perspectiva védica, a ação humana sem completo conhecimento existencial ou acesso ao completo conhecimento existencial é burlesca.

O governo decreta uma pena, mas um transgressor pode escapar da detenção. Além disso, algumas vezes, uma pessoa inocente pode ter que responder a acusações criminais. A lei universal, como apresentada nos textos védicos, não sofre tais aplicações falíveis, pois as autoridades que a aplicam, é dito, são muito mais poderosas do que os seres humanos.

Vasudeva concluiu seus ensinamentos emergenciais com um apelo à misericórdia no coração de Kamsa:

Tua irmã mais nova, a pobre Devaki, é como tua própria filha. Ela merece tua afeição; não tua espada. Sabemos que és misericordioso. Por favor, poupa-lhe a vida.

Tragicamente, Kamsa não deu ouvidos à eloquência de Vasudeva. Nenhuma boa instrução, filosofia ou culpa o refrearia. Como um homem poderoso não ligado a nenhuma autoridade divina, Kamsa não poderia se importar menos com quaisquer efeitos de karma nesta vida ou na seguinte. Utilizando sua percepção sensorial limitada, calculara de pronto: “Uma voz do céu informou-me que o oitavo filho de minha irmã matar-me-á. Agindo com decisão, hei de matá-la imediatamente, eliminando com destreza quaisquer problemas futuros. Essa é a realidade. Não vejo nenhuma outra realidade, logo não me importo com nada mais”.

Kamsa era uma aberração na civilização védica. Estremecemo-nos ao pensar em quão próximos à norma da sociedade atual estão seu julgamento e sua conduta. Vasudeva, conquanto excepcionalmente sábio, também era pragmático. Vendo a determinação inabalável de Kamsa para consumar seu ato abominável, pensou em outra abordagem que pudesse parar seu cunhado demoníaco.

Podemos notar como o conhecimento védico de felicidade e aflição predestinados não enfraqueceram a intensidade dos esforços emergenciais de Vasudeva. Com absoluta dedicação, executou seu dever e tentou salvar a mulher com quem acabara de contrair núpcias, esgotando todos os meios. Na cultura védica, o dever é o mais importante, e não a predestinação. Os Vedas nos informam que, enquanto tenhamos inteligência e força, temos que tentar evitar o perigo. Então, se, apesar de nosso esforço completo e meticuloso, sucumbirmos ao desastre, não há falta em nós.

Como qualquer cultura sóbria, a cultura védica se preocupa com a inteligente evitação de todas as calamidades incidentais comuns na vida. Na cultura védica, entretanto, há algo mais. Vasudeva podia tomar medidas para evitar a morte iminente de sua esposa, e podia, ao mesmo tempo, tomar medidas contar o samsara em si. Em outras palavras, tinha conhecimento para confrontar e conquistar a existência material, com seu ciclo de repetidos nascimentos e mortes.

Ele pensou consigo: “Primeiramente, devo salvar minha esposa, Devaki. Quem pode dizer? No futuro, talvez haja filhos, talvez não. Ou pode ser que o filho de fato mate Kamsa, como a voz predisse. Portanto, farei o necessário para lidar com a ameaça imediata. Prometerei entregar a Kamsa toda criança recém-nascida que acaso tenhamos, para que ele faça o que bem entenda, caso poupe Devaki agora. Ele talvez tente matá-la mais uma vez posteriormente, mas que alternativa me resta?”.

Cuidadosamente arquitetando sua última tentativa, dentro do limite de sua inteligência, Vasudeva, apesar de tomado de ansiedade, fixou um sorriso em sua face e falou muito respeitosamente com o desavergonhado Kamsa.

Meu cunhado querido e sóbrio, que perigo tua irmã pode realmente representar a ti? A profecia que ouviste disse que a morte será decorrente dos filhos dela, e não dela. Talvez tenhamos filhos, talvez não tenhamos. Todavia, se tivermos, permite-me prometer-te que levarei todos até tua pessoa, para que te livres deles. Tu, destarte, nada tens a temer.

Vasudeva era um político tão santo que até mesmo um homem malévolo e mentiroso como Kamsa teve fé em suas palavras. Aceitando a proposta liberal de Vasudeva, concordou em, por ora, interromper sua investida contra Devaki. Vasudeva louvou sua decisão, após o que os recém-casados foram para sua casa.

Referências

  1. Albert Schweitzer, Indian Thought and Its Development, trad. Mrs. Charles E. B. Russell (Boston: Beacon Press, 1936), p. 1.
  2. Dean Shields, “A Cross-Cultural Study of Beliefs in Out-of-the-Body Experiences”, Journal of the Society for Psychical Research 49 (1978): 697–741.
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  4. Celia Green, Out-of-the-Body Experiences (Oxford: Institute of Psychophysical Research, 1968).
  5. Michael B. Sabom, Recollections of Death (Nova Iorque: Harper & Row, 1982), p. 184.
  6. Bruce Greyson e Charles P. Flynn, The Near-Death Experience (Chicago: Charles C. Thomas, 1984), como citado em Stanislov Grof, The Adventure of Self-Discovery (Albany, Nova Iorque: SUNY Press, 1988), p. 71–72.
  7. Kenneth Ring e Sharon Cooper, Mindsight: Near-Death and Out-of-Body Experiences in the Blind (Palo Alto, CA: William James Center for Consciousness Studies, 1999).
  8. David Eisenberg, com Thomas Lee Wright, Encounters with Qi (Nova Iorque: Penguin, 1987), p. 79–87.
  9. Frank Edwards, “People Who Saw without Eyes”, em Strange People (Londres: Pan Books, 1970).
  10. A. Ivanov, “Soviet Experiments in Eyeless Vision”, International Journal of Parapsychology 6 (1964); A. Rosenfeld, “Seeing Colors with the Fingers”, Life, 12 de junho de 1964.
  11. Confessions of St. Augustine 1, trad. Edward B. Pusey, Harvard Classics (Nova Iorque: P. F. Collier, 1909), p. 9.
  12. Geddes MacGregor, Reincarnation in Christianity (Londres: Quest Books, 1978), p. 56.
  13. Ibid., p. 57–58.
  14. Catholic Encyclopedia, 1913 ed., 4, p. 308–9. Vide também 11, p. 311.
  15. Orígenes, trad. B. W. Butterworth, On First Principles 1, cap. 8 (Nova Iorque: Harper & Row, 1966), p. 73.
  16. Catholic Encyclopedia 11, p. 311.
  17. Vide Frederick Spencer, The Future Life: A New Interpretation of the Christian Doctrine (Londres: Hamish Hamilton, 1935). O capítulo 11 contém referências a uma carta do cardeal Mercier a um professor católico polonês, Wincenty Lutoslawski, que ensinava uma forma de reencarnacionismo que ele preferia chamar de palingenesia. O cardeal belga reconheceu que a crença em preexistência e reencarnação nunca foi oficialmente condenada pela Igreja Católica.
  18. Hans Küng, Eternal Life? (Garden City, Nova Iorque: Doubleday & Company, 1984), p. 59.
  19. Ibid.
  20. Gallup e Proctor, Adventures in Immortality, p. 487.
  21. H. N. Banerjee, em Americans Who Have Been Reincarnated (Nova Iorque: Macmillan Publishing Company, 1980), p. 195, apresenta um estudo feito por James Parejko, um professor de filosofia da Universidade Estadual de Chicago, o qual revela que 93 de 100 voluntários hipnotizados produziram possíveis conhecimentos de uma vida passada. Joel Whitton encontrou indicações em todos os seus hipnotizados..
  22. Para o trabalho de Whitton, vide Joel L. Whitton e Joe Fischer, Life Between Life (Nova Iorque: Doubleday, 1986), p. 116–27.
  23. “Entrevista: Brian L. Weiss, M.D.”, Venture Inward 6, n. 4 (julho/agosto de 1990): 17–18.
  24. Para o trabalho de Stevenson, vide Ian Stevenson, Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (Charlottesville, VA: University Press of Virginia, 1974); Cases of the Reincarnation Type, 4 vols. (Charlottesville, VA: University Press of Virginia, 1974); e Children Who Remember Their Past Lives (Charlottesville, VA: University Press of Virginia, 1987).
  25. O último trabalho de Stevenson é Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects, 2 vols. (Westport, CT: Praeger Publishers, 1997); sua versão condensada é Where Reincarnation and Biology Intersect.
  26. Ian Stevenson, “Some Questions Related to Cases of the Reincarnation Type”, Journal of the American Society for Psychical Research (outubro de 1974): 407.
  27. Journal of the American Medical Association, 1º de dezembro de 1975, como citado em Cranston e Williams, Reincarnation, p. x.
  28. Décimo canto, cap. 1. Vide Srimad-Bhagavatam (Bhagavata Purana) de A. C. Bhaktivedanta Swami para o episódio completo, com comentários amplos e lúcidos.
  29. Norman Cousins, “Belief Becomes Biology”, Advances 6, n. 3 (1989): 20–29.

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