O Dever do Governo e as Cinco Moradas de Kali

05 SI (história - política) O Dever do Governo e as Cinco Moradas de Kali (1470)1

Suta Gosvami
(excerto do capítulo 17 do primeiro canto do Srimad-Bhagavatam)

Após chegar àquele lugar, Maharaja Parikshit observou que um homem de casta baixa estava vestido como um rei e batia em uma vaca e em um touro com uma maça, como se eles não tivessem dono. O touro era tão branco quanto uma flor de lótus branca. Ele estava aterrorizado com o shudra que nele batia, e estava com tanto medo que, em pé sobre uma só perna, tremia e urinava. Embora a vaca seja benéfica porque dela podemos retirar os princípios religiosos, agora ela ficara pobre e sem nenhum bezer­ro. Suas pernas estavam sendo espancadas pelo shudra. Havia lágrimas em seus olhos e ela estava fraca e aflita. Ela ansiava ter alguma grama do campo para comer. Maharaja Parikshit, bem equipado com arco e flechas, sentado numa quadriga decorada com lavores dourados em relevo, falou­ ao shudra com uma voz profunda, que ressoava como o trovão.

“Oh! Quem és tu? Pareces forte, mas ousas matar aque­les que são indefesos e estão sob minha proteção! Por tuas vestes, passas por um homem divino, um rei, mas, por teus feitos, estás te opondo aos princípios dos kshatriyas duas vezes nascidos. Ó homem sem caráter, tu ousas bater numa vaca inocente porque o Senhor Krishna e Arjuna, o portador do arco Gandiva, estão fora de vista? Uma vez que estás batendo em um animal inocente em um lugar isolado, és considerado culpado e, portanto, mereces ser morto”.

Então, Maharaja Parikshit perguntou ao touro: “Oh! Quem és tu? És um touro tão branco como uma flor de lótus branca, ou és um semideus? Perdeste três de tuas pernas e estás movendo-te sobre uma só. Acaso és algum semideus causando-nos pesar sob a forma de um touro? Agora, pela primeira vez em um reino bem protegido pelos braços dos reis da dinastia Kuru, eu vejo-te aflito com lágrimas nos olhos. Até este momento, ninguém na Terra jamais derramou lágrimas devido à negligência real. Ó filho de Surabhi, agora já não precisas lamentar-te. Não há necessidade de temeres este shudra de classe inferior. Ó mãe vaca, enquanto eu estiver vivendo como governante e subjugador de todos os homens invejosos, não há motivo para chorares. Tudo ficará bem contigo. Ó casta mãe Terra, o bom nome do rei, sua duração de vida e bom renascimento extinguem-se quando toda espécie de seres vivos são aterrorizados por canalhas em seu reino. Com certeza o dever primordial do rei é subjugar primeiramente os sofrimentos daqueles que sofrem. Portanto, devo matar este mais miserável entre os homens, porque ele é violento contra outros seres vivos”.

Maharaja Parikshit dirigiu-se repetidamente ao touro e interrogou-o da seguinte maneira: “Ó filho de Surabhi, quem cortou três de tuas pernas? Nos estados de reis que obedecem às leis da Suprema Personalidade de Deus, Krishna, não há ninguém tão infeliz como tu. Ó touro, tu és inofensivo e completamente honesto, logo desejo todo o bem a ti. Por favor, dize-me quem é o perpetrador dessas mutilações, que caluniam a reputação dos filhos de Pritha. Qualquer pessoa que faça seres vivos inofensivos sofrerem deve temer-me em toda e qualquer parte do mundo. Refreando os canalhas desonestos, beneficiamos automaticamente os ino­fensivos. Um ser vivo arrogante que cometa ofensas ao torturar aqueles que são inofensivos será diretamente eliminado por mim, mesmo que seja um cidadão do céu, com armadura e ornatos. O dever supremo do rei governante é dar toda a proteção às pessoas que cumprem a lei e castigar aqueles que se extraviam das prescrições das escrituras em ocasiões ordinárias, quando não há emergência”.

A personalidade da religião disse: “Essas palavras que acabaste de falar condizem com um membro da dinastia Pandava. Cativado pelas qualidades devocionais dos Pandavas, mesmo o Senhor Krishna, a Personalidade de Deus, executou os deveres de um men­sageiro. Ó maior entre os seres humanos, é muito difícil determinar o canalha particular que tem causado nossos sofrimentos, porque estamos confusos ante todas as diferentes opiniões de filósofos teóricos. Alguns filósofos, que negam toda espécie de dualidades, declaram que a própria pessoa é responsável por sua felicidade ou aflições pessoais. Outros dizem que poderes sobre-humanos são responsáveis, enquanto outros ainda dizem que a atividade é responsável, e os materialistas grosseiros afirmam que a natureza é a causa última. Há também certos pensadores que acreditam que ninguém pode descobrir a causa da aflição através da argumentação, nem conhecê-la pela imaginação, nem expressá-la por palavras. Ó sábio entre os reis, julga por ti mesmo, pensando em tudo isso com tua própria inteligência”.

O impera­dor Parikshit, ao ouvir a personalidade da Religião falar, ficou plenamente satisfeito e, sem erro ou remorso, respondeu: “Ó tu que estás na forma de um touro, tu conheces a verdade da religião, e estás falando de acordo com o princípio de que o destino prescrito para o perpetrador de atos irreligiosos também é prescrito para aquele que identifica o perpetrador. Sem dúvida, não és outro senão a personalidade da Religião. Conclui-se, desse modo, que as energias do Senhor são inconcebíveis. Ninguém pode avaliá-las através da especulação mental, ou do malabarismo de palavras. Na era de Satya, a era da veracidade, tuas quatro pernas estavam esta­belecidas pelos quatro princípios de austeridade, limpeza, mise­ricórdia e veracidade. Mas parece que três de tuas pernas estão quebradas devido ao predomínio da irreligião, sob a forma do orgulho, luxúria por mulheres e intoxicação. Agora permaneces de pé sobre uma só perna, que é tua veracidade, e, de alguma forma, andas a mancar. Mas a desavença personificada, Kali, prosperando através de fraudes, também está tentando destruir essa última perna. O fardo da Terra foi certamente diminuído pela Personalidade de Deus e também por outros. Quando Ele esteve presente como uma encarnação, todo o bem foi realizado por causa de Suas auspiciosas pegadas. Agora ela, a casta mãe Terra, estando desafortunadamente abandonada pela Personalidade de Deus, lamenta-se por seu futuro com lágrimas nos olhos, pois agora ela está sendo governada e explo­rada por homens de classe inferior que se fazem passar por governantes”.

Maharaja Parikshit, que podia lutar sozinho contra mil inimigos, assim apaziguou a personalidade da Religião e a Terra. Então, ele pegou sua espada afiada para matar a personalidade de Kali, que é a causa de toda irreligião. Quando a personalidade de Kali entendeu que o rei desejava matá-lo, abandonou imediatamente a roupa de rei e, compe­lido pelo medo, rendeu-se completamente a ele, prostrando sua cabeça. Maharaja Parikshit, que era qualificado para aceitar rendição e digno de ser celebrado na história, não matou o pobre Kali ren­dido e caído, mas sorriu compassivamente, pois ele era bondoso com os pobres.

Então, o rei disse o seguinte: “Nós herdamos a fama de Arjuna, logo, uma vez que te rendeste de mãos juntas, não precisas temer por tua vida. Mas não podes permanecer em meu reino, pois és amigo da irreligião. Se a personalidade de Kali, a irreligião, recebe permissão de agir como homem-deus ou líder executivo, certamente abunda­rão princípios irreligiosos como cobiça, falsidade, roubo, descortesia, adultério, infortúnio, trapaça, desavença e vaidade. Portanto, ó amigo da irreligião, tu não mereces permanecer em um lugar onde os peritos realizam sacrifícios de acordo com a verdade e os princípios religiosos para a satisfação da Suprema Personalidade de Deus. Em todas as cerimônias sacrificatórias, embora às vezes se adore um semideus, o Senhor Supremo, a Personalidade de Deus, é que é adorado porque Ele é a Superalma de todos, e existe dentro e fora, tal qual o ar. Assim, é unicamente Ele quem concede todo o bem-estar ao adorador”.

A personalidade de Kali, sendo assim ordenada por Maharaja Parikshit, começou a tremer de medo. Vendo o rei diante dele como Yamaraja, pronto para matá-lo, Kali falou ao rei da seguinte maneira: “Ó majestade, mesmo que eu possa viver em toda e qualquer parte sob tua ordem, verei somente a ti com arco e flechas aonde quer que eu olhe. Portanto, ó líder entre os protetores da religião, por favor, estabelece para mim algum lugar onde eu possa viver permanentemente sob a proteção de teu governo”.

Maharaja Parikshit, sendo assim solicitado pela personalidade de Kali, deu-lhe permissão de residir em lu­gares onde se realizassem jogos, se consumissem bebidas e acontecessem prostituição e abate de animais. A personalidade de Kali pediu algo mais, e, por causa de seu pedido, o rei deu-lhe permissão de viver onde houvesse ouro, porque onde quer que haja ouro também há falsidade, intoxicação, luxúria, inveja e inimizade. Assim, a personalidade de Kali, de acordo com as orientações de Maharaja Parikshit, o filho de Uttara, recebeu permissão de viver naqueles cinco lugares. Portanto, qualquer pessoa que deseje o bem-estar progressivo, especialmente os reis, religiosos, líderes públicos, brahmanas e sannyasis, não deve jamais entrar em contato com os quatro princípios irreligiosos acima mencionados.

.

Se gostou deste material, talvez também goste destes: Estratégias Espirituais para a Era de Ferro, Kali-yuga, A Última Era do Ciclo Cósmico.

.

Anúncios

Uma resposta

  1. Obs.: Não confundir Kali-yuga com a Deusa Kali!!!

    16 de novembro de 2014 às 4:15 PM

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s