Roubando Manteiga

Roubando ManteigaKavi Karnapura
(da obra Ananda Vrindavana Champu)

Os passatempos de Krishna de engatinhar e beber o leite do seio de Sua mãe gradualmente terminaram e logo Ele estava andando de um lado a outro sobre Seus pezinhos de lótus e começando a roubar manteiga. Seria possível existir alguém que não experimentasse ilimitada bem-aventurança quando o Senhor, que é a fonte de toda bem-aventurança, atuava Seus passatempos infantis?

Um dia, quando ninguém estava olhando, Krishna deu início a Seus passatempos de roubar manteiga fresca. Surpreso ao ver Seu reflexo em uma pilastra revestida de joias, Ele sentiu um calafrio de medo e disse: “Querido irmão, não conte para a mamãe. Vou separar um pouco de manteiga para você também e você pode comer coMigo”. Observando seu travesso filho de um lugar escondido, mãe Yashoda ouviu aquelas doces palavras faladas à maneira de uma criancinha e experimentou grande deleite. Então, ela inocentemente apareceu diante de Krishna e Balarama.
Apontando para Seu reflexo refulgente, Krishna disse: “Mamãe, esse menino guloso veio aqui hoje para roubar sua manteiga. Eu o proibi, mas ele não Me ouviu, e quando Eu fiquei bravo com ele, ele também ficou bravo coMigo. Mas Eu não sou guloso para querer manteiga”.

Um dia, enquanto Yashoda estava fora de casa ocupada em atividades domésticas, Krishna, dentro da casa, roubou manteiga novamente. Quando Yashoda retornou, ela disse alto: “Querido Krishna, onde Você está e o que Você está fazendo?”. Ouvindo-a, Krishna ficou temeroso e parou de roubar manteiga. Pensando parado por um instante, Ele respondeu: “Mãe, Minha mão começou a queimar com a refulgência brilhante de Minhas pulseiras de rubis, então enfiei a mão neste pote de manteiga para parar de doer”. Agradada pelas palavras espertas de seu filho, Yashoda disse: “Meu bezerrinho, por favor, sente-Se em meu colo. Meu amado, mostre-me as queimaduras em Sua mão”. Yashoda, então, beijou a mão de Krishna e consolou-O dizendo: “Ah… Ah… Olhe só como Sua mão se queimou. Deixe-me remover estas pulseiras de rubis”.

Um dia, quando flagrado, Krishna chorou e esfregou Seus olhos com as palmas de Suas mãos, similares a botões de flores. Com a voz embargada, proferiu frases incompreensíveis. Embora outras vezes Yashoda houvesse ralhado com Krishna por roubar manteiga, desta vez ela enxugou as lágrimas em Seus olhos com a barra de seu sári. Enquanto acariciava Krishna amorosamente, ela disse: “Lala, todo o nosso estoque de manteiga, na verdade, pertence unicamente a Você”.
Uma noite, os agradáveis raios da Lua cheia iluminaram o pátio da casa de Nanda. Yashoda sentou-se ali conversando com algumas das gopis mais velhas conforme Krishna brincava perto delas olhando para a Lua. Furtivamente chegando por trás de Yashoda, Krishna removeu o véu que cobria a cabeça de Sua mãe, afrouxou sua trança e cutucou suas costas com Suas mãos de lótus macias como manteiga querendo chamar-lhe a atenção. Sua voz não saía em meio a Seu choro intenso, o que fez o coração de Yashoda se derreter em amor materno. Yashoda, então, indicou com um olhar que suas amigas deveriam dar a Krishna o que Ele quisesse.

Com grande respeito e afeição, as gopis com muito entusiasmo pegaram Krishna e perguntaram: “Querido, o que Você quer? Você quer um pouco de khira?”. Krishna respondeu: “Não! Não!”. “Você quer um pouco de iogurte cremoso e espesso?”. Krishna respondeu: “Não! Não!”. “Você quer um pouco de queijo?”. Mais uma vez, Krishna disse: “Não! Não! Quero manteiga condensada recentemente batida”. As gopis disseram, então: “Não Se lamente, nem fique bravo com Sua mãe. O que Você quer dizer com ‘manteiga condensada’?”. Apontando para a Lua cheia com Seu pequeno indicador, Krishna respondeu: “Eu quero aquela manteiga condensada recentemente batida!”. As gopis mais velhas disseram: “Bezerrinho, não confunda a Lua com uma grande bola de manteiga. Trata-se de um cisne real deslizando por sobre o lago do céu”. Krishna disse: “Então, Me deem o cisne para Eu brincar com ele. Peguem o cisne rápido, antes que ele chegue à margem do lago”. Muito ansioso, Krishna chutava Suas pernas e gritava muito alto: “Me dá! Me dá!”.

Enquanto Krishna mostrava Seu comportamento infantil, algumas outras gopis disseram: “Ó amado, elas mentiram para Você. O que Você vê não é um cisne real, mas a Lua pendurada no céu, e se chama Chandra”. Krishna disse: “Então, Me dá esse Chandra! Eu quero muito o Chandra para poder brincar com ele! Quero agora! Me dá!”.

Yashoda colocou seu filho choroso no colo e confortou-O: “Querido, na verdade, é sim manteiga condensada recentemente batida. Definitivamente, não é nem um cisne nem a Lua. Independente disso, jamais poderia dar essa manteiga a Você. Veja bem como, por acaso ou por arranjo da Providência, há manchas venenosas nessa bola. Embora pareça muito saborosa, ninguém neste mundo pode comê-la”. Então, Krishna disse: “Mãe, mãe, por que ela tem essas manchas de veneno? E o que é veneno?”.

Vendo uma mudança de humor em Krishna, mãe Yashoda O abraçou e falou em uma voz gentil e doce. “Ouça com atenção queridíssimo filho. Há um oceano de leite chamado Kshira-sagara”. Krishna: “Mãe, por favor, Me fale mais sobre isso. Quantas vacas fizeram esse oceano?”. Yashoda: “Querido, o oceano de leite não foi feito por vacas”. Krishna: “Mãe, você está mentindo para Mim. Como pode haver leite sem vacas?”. Yashoda: “Aquele que deu às vacas a habilidade de produzirem leite também pode fazer leite mesmo sem vacas”. Krishna: “Quem é esse?”. Yashoda: “Ele é o Senhor, a causa da criação. Ele é Bhagavan. Ele é imóvel e onipresente. Embora Ele esteja em toda parte, não posso mostrá-lO a Você”. Krishna: “Bem, mãe, você está Me dizendo a verdade?”. Yashoda: “Muito tempo atrás, os semideuses e os demônios tiveram um conflito. A fim de favorecer os semideuses e desorientar os demônios, o Senhor bateu o oceano de leite. A montanha Mandara serviu de mão de pilão, e Vasuki, o rei das serpentes, ofereceu seu corpo para ser a corda”. Krishna: “Mãe, eles bateram como fazem as vaqueirinhas?”. Yashoda: “Sim, meu filho. A batedura do Kshira-sagara produziu um veneno chamado kalakuta”. Krishna: “Mãe, como bater leite pode produzir veneno? Apenas cobras têm veneno”. Yashoda: “Amado da minha vida, Mahadeva bebeu esse veneno, mas as cobras beberam as gotas do veneno que caíram de sua boca. Como resultado, agora as cobras têm veneno. O veneno surgindo desse leite também é energia do Senhor”. Krishna: “Sim, mãe, isso certamente é verdade”. Yashoda: “Querido, essa manteiga condensada que Você está vendo no céu é produzida desse Kshira-sagara. A Lua é manchada por causa dos remanentes desse veneno. Veja bem… Consegue ver? Portanto, não tente comer essa manteiga. Em vez disso, coma, por favor, a manteiga que bati recentemente”.

Depois de ouvir essa descrição, Krishna deu conSigo sonolento, em virtude do que mãe Yashoda O colocou para descansar em uma opulenta cama dourada com um colchão macio, fofo e mais branco do que cânfora em pó.

Na manhã seguinte, Yashoda levou manteiga, iogurte e outros comestíveis para o quarto de Krishna. Afagando muito amorosamente Seu corpo, ela disse: “Acorde! Você parece fraco devido a não ter comigo suficientemente ontem. Deus nos livre disso”. Depois que Krishna acordara, Yashoda lavou a boca dEle com água aromatizada. Então, ela ofereceu-Lhe um prato de ouro cheio de manteiga, iogurte e outras delícias enquanto dizia: “Amado filho, pegue tudo o que Você queira”.
Krishna respondeu: “Mãe, não comerei nada que você trouxe para Mim. Na noite passada, você mentiu para Mim e Me colocou para dormir, e senti-Me muito perturbado devido à fome”. Yashoda disse: “Krishna, se Você foi dormir, quem roubou a manteiga?”. Krishna respondeu: “Mãe, quando roubei manteiga? Você está mentindo”. Com Seus charmosos passatempos transcendentais, Krishna continuamente cativava o coração de mãe Yashoda.

Certa vez, as vaqueirinhas de Vraja conversavam entre si: “Krishna leva boa fortuna aonde quer que Ele vá, e Sua presença torna gloriosa a vida de todos. Quem neste mundo não se maravilha vendo os passatempos frívolos e divertidos da infância de Krishna? Quem poderia deixar de apreciar essas atividades joviais?”.

Em vez de ficarem tristes ou nervosas, elas sentiam a mais grandiosa felicidade quando Krishna quebrava seus potes de barro e roubava sua manteiga. Apesar disso, as donas de casa de Vrindavana fingiram estar zangadas e queixaram-se com Yashoda sobre os roubos de Krishna. Em um humor que era uma mistura de amor e risos, as vaqueirinhas alertaram Yashoda: “Ó rainha de Vrindavana, você, no futuro, sofrerá por causa dos atos travessos de seu filho. Embora seu filho ainda seja um brotinho com folhas macias, já está perturbando toda a criação. Mas seja cuidadosa, pois, no futuro, quando esse broto macio crescer e se tornar uma árvore cheia de folhas e galhos, Ele trará grande dor a você. Agora as aventuras de seu garoto estão apenas começando, mas, por natureza, estão sempre crescendo. O comportamento traquinas de seu filho logo destruirá toda a nossa vila. Não temos ideia de qual travessura Ele fará em seguida. Se alguém tenta censurá-lO, Ele simplesmente sorri com doçura, e essa pessoa imediatamente se esquece de toda a sua ira. Se mantemos nossa manteiga em um armazém escuro, Ele Se vale de Sua refulgência natural para facilmente encontrar o nosso estoque e roubá-lo. Contudo, em vez de Ele mesmo comer a manteiga, Ele Se diverte dando-a para os macacos comerem. Quando os macacos ficam cheios e se recusam a comer mais, Krishna quebra os potes, derramando a manteiga pelo chão”.

“Para pegar os potes que estão fora de seu alcance”, continuaram, “Ele empilha várias mesas, sobe nelas e estende Seus braços para alcançar os potes. Krishna está sempre roubando a nossa manteiga e o nosso iogurte. Se alguém tenta pegá-lO, Ele de imediato derruba a comida no chão e foge rapidamente. Se, por acaso, uma dona de casa o captura, Krishna vira o pulso dela e corre. Então, de uma distância segura, Ele grita para a mulher: ‘Hei! Fique aí onde está! Se você se aproximar, vou causar ainda mais problemas importunando seus bebês para fazê-los chorar’. Se alguém diz: ‘Hei, seu ladrãozinho, pare aí!’, Krishna fica bravo e responde gritando: ‘Você é a ladra! Esta casa é Minha e tudo nesta casa Me pertence’”.

“Pela manhã”, disseram ainda, “abrimos uma camada fresca de argila sobre a parede externa de nossas casas e fazemos belos desenhos sobre a argila com pedra calcária em pó. Então, seu filho Krishna vem e estraga tudo atirando sujeira por toda a nossa casa. Na sua frente, Krishna é muito quieto e bem comportado, mas, quando Ele entra em nossas casas, Ele age frivolamente, rouba nossa comida, diz palavras desagradáveis e Se torna muito irado e voraz”.

Desta maneira, as mulher de Vrindavana, fingindo estarem irritadas, apresentaram queixas contra Krishna. Na verdade, contudo, as jubilosas travessuras de Krishna enchiam todos de prazer. Quando acusado pelas gopis, Krishna fingiu inocência e derramou lágrimas falsas. Embora censurável por Seus atos imorais de roubar e ofender os residentes da vila de várias formas, Krishna tentou diminuir Seus erros falando muito docemente. Respondendo às acusações das gopis, Krishna disse: “Mãe, nenhuma dessas mulheres tem afeição no coração. Elas não estão dizendo uma única palavra veraz. Na verdade, são todas mentirosas, e rejeitaram sua dignidade humana. Sempre que vejo essas mulheres ou seus filhos, sinto-Me completamente feliz. Por causa da afeição natural que tenho por elas, regularmente visito suas casas todas as manhãs quando o Sol nasce”.

“Mamãe”, continuou, “ciente de Minhas intenções, você pode facilmente entender que elas estão dizendo mentiras deliberadamente. Você não deve acreditar nem um pouco nelas. Mãe, uma vez que você é Minha superior adorável, de agora em diante não mais visitarei Meus amigos”. Dizendo isso, Krishna soluçou e chorou. Yashoda, a rainha de Vraja, colocou Krishna em seu colo e sorriu discretamente para as gopis de modo a esconder sua disposição verdadeira. Então, apenas para agradar Krishna, Yashoda disse: “Todas vocês gopis estão dizendo mentiras. Apenas Krishna está dizendo a verdade. Dado que Ele é apenas um menininho inocente, como poderia ter feito as coisas que dizem? Acho que vocês já ralharam com meu filho o bastante”.

Depois de dizer isso, Yashoda dirigiu-se às gopis. Então, como um gesto de amizade, Rohini aplicou tilaka em suas testas e enviou-as para casa. Depois que as gopis haviam ido embora, Yashoda, que é perita nas regras de etiqueta, falou com Krishna: “Meu filho, por ganância, Você agiu de muitas maneiras inapropriadas nas casas de nossas amigas. Embora em Sua casa esse comportamento seja aceitável, na casa de outros é totalmente impróprio. Lindinho, esses Seus atos não são nada bons. De agora em diante, apenas fique aqui e brinque”.

Após instruir seu filho, Yashoda acariciou-O amorosamente. Logo em seguida, chegou Nanda, o rei de Vraja, que iluminou a sala com seus sentimentos positivos. Nanda falou palavras agradáveis para encorajar e apaziguar seu filho encantador. “Vatsa, venha sentar-Se em meu colo”. Deixando o colo de Yashoda, subiu no colo de Nanda e envolveu o pescoço de Seu pai com um abraço. Então, Krishna disse suavemente: “Por que a mamãe está me censurando por causa de nada?”.

Nanda perguntou: “O que aconteceu?”.

Aquele fabuloso garotinho de inteligência oceânica respondeu: “Mãe, agora conte a verdade sobre o que aconteceu”.

Mãe Yashoda recontou os atos impróprios de Krishna repetindo as palavras proferidas pelas gopis.

Apontando para a rainha Yashoda, Nanda disse: “Meu filho não tem defeitos. Ele não faz nada de errado. Eu sempre O vejo se comportando muito bem. Ficando do lado daqueles que caçoaram dEle e do lado daqueles que têm inveja da joia que é meu filho, você acusou injustamente o meu filho e, portanto, deve ser colocada de castigo”.

Escondendo seu verdadeiro humor por trás dessas palavras, Nanda censurou Yashoda e confortou seu filho: “Amado filho, apenas fique no meu colo; não vá a nenhum outro lugar”. Embora houvesse dado atenção às palavras de Seu pai, Krishna imediatamente saltou de seu colo, como uma criança imprevisível, e rapidamente subiu no colo de Yashoda.

Vendo isso, tanto Nanda quanto Yashoda riram com muita satisfação.

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