Star Wars e a Literatura Védica

dia21 (Crítica Literária - Teologia) Star Wars e a Literatura Védica

Madhava Smullen 

Poderia Star Wars ser baseado na literatura védica? A obra “O Jedi no Lótus” tem uma opinião.

Satyaraja Dasa (Steven J. Rosen), um estudioso erudito da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna e escritor popular no meio do yoga e da autorrealização, investiga a conexão entre dois mundos – Star Wars e a tradição hindu. Ou, talvez mais precisamente, Star Wars e a família de tradições religiosas frequentemente designada “hindu”, como o vaishnavismo, shaivismo e shaktismo.

Neste momento, você talvez esteja estranhando essa proposta. “Espere. Você se refere a Star Wars, a série imensamente popular de filmes de ficção científica, criada puramente como entretenimento, e o hinduísmo, uma antiga tradição espiritual que objetiva o desenvolvimento do amor a Deus e a obtenção da liberdade deste mundo material?”

Não esfregue os olhos ou se belisque. Se a fusão dessas duas coisas lhe causa estranhamento, não há nada de errado com você, pois mesmo Satyaraja, antes de escrever seu livro The Jedi in the Lotus [“O Jedi no Lótus”, ainda sem tradução para o português], não era muito familiarizado com a série de filmes e não estava ciente da ligação entre ela e a tradição religiosa da Índia. Assim permaneceu até que Rajiv Malhotra, presidente da organização hindu Infinity Foundation, contatou-o.

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Satyaraja Dasa (Steven J. Rosen), autor de The Jedi in the Lotus.

Malhotra era familiarizado com os muitos livros anteriores de Satyaraja sobre a temática do “hinduísmo” e sua reputação como um estudioso da tradição. Ele, então, convidou-o a documentar as muitas similaridades entre Star Wars e hinduísmo que hindus em toda parte do mundo apontavam-lhe.

Satyaraja aceitou o convite. “Contudo, eu lhe expliquei que eu teria que explicar ao começo do livro que a palavra ‘hinduísmo’ é um nome inapropriado”, ele diz. “Eu disse que ficaria feliz em usar o subtítulo ‘Star Wars and the Hindu Tradition’ [‘Star Wars e a Tradição Hindu’] para atrair o interesse da comunidade hindu, mas meu interesse seria em demonstrar como Star Wars reflete o Sanatana Dharma, a função eterna da alma descrita no vaishnavismo, em vez da tradição hindu que surgiu mais tarde e tem um caráter sectário”.

Como é de sua personalidade, Satyaraja imergiu-se no trabalho, assistindo todos os seis filmes de Star Wars um após o outro e lendo todo livro com que se deparava sobre as séries. Sem demora, ele notou muitos paralelos entre Star Wars e a tradição védica, e inspirou-se.

“Foi empolgante a escrita porque, embora houvesse livros sobre Star Wars a partir da perspectiva cristã, budista e taoista, ninguém escrevera um livro sobre os óbvios paralelos da série com a tradição hindu”, ele diz.

Satyaraja explica que George Lucas, o criador de Star Wars, foi influenciado por Joseph Campbell, o famoso mitólogo, de quem era amigo. George Lucas até mesmo disse: “Não existiria Star Wars sem ele”. O “estoque favorito de mitos” de Campbell, como ele dizia, incluía o Ramayana e o Mahabharata, antigas histórias védicas sobre os avataras de Deus escritas milhares de anos atrás.

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Joseph Campbell, mitólogo e amigo de George Lucas.

Embora nunca tenha mencionado especificamente esses livros, George Lucas disse: “Peguei da ‘mitologia hindu’”. E depois do lançamento do primeiro Star Wars, em 1977, ele afirmou que sua história fora moldada, em parte, pelas ideias descritas no livro de Campbell O Herói de Mil Faces, no qual os principais exemplos do “monomito” – uma espécie de história arquetípica de herói – são tirados das histórias da Índia antiga.

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George Lucas, criador de Star Wars.


No The Jedi in the Lotus, Satyaraja demonstra que essa influência rendeu em Star Wars muitos paralelos surpreendentes com os épicos védicos. Por exemplo, ele compara o enredo da trilogia original de Star Wars com o enredo do Ramayana.

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Capa do livro original, em inglês.


Em Star Wars, a princesa Leia é raptada e mantida presa por um tirano maligno, Darth Vader. Seu pedido desesperado de socorro é levado por uma misteriosa entidade não humana – o android R2-D2 – ao jovem herói Luke Skywalker. O herói, então, vai ao resgate da princesa, auxiliado por uma criatura devotada e nobre que é meio-homem, meio-animal, Chewbacca, natural de outro planeta.

Ao final da trilogia original de Star Wars, Luke, ajudado pelo místico cavaleiro Jedi de nome Obi-Wan Kenobi e legiões de soldados ursos antropomórficos, trava uma grande guerra. Darth Vader e seu império nefasto são derrotados, a princesa retorna em segurança, e a paz e a retidão são restabelecidas.

Em paralelo, no Ramayana, a princesa Sita também é raptada e mantida prisioneira do demônio Ravana. Seu pedido de socorro é levado por uma misteriosa entidade não humana – o abutre falante de nome Jatayu – ao jovem herói Rama. Rama, então, vai ao resgate da princesa, auxiliado por uma criatura devotada e nobre que é meio homem, meio animal, o homem-macaco Hanuman, natural de outro planeta.

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Rama, com a ajuda de Hanuman e outros homens-macacos, indo livrar Sita da custódia de Ravana.

Rama também trava uma guerra para resgatar Sita, liderando um exército de vanaras (ursos e macacos que têm características antropomórficas), e, finalmente, livra-a do domínio de Ravana. Com as forças do submundo derrotadas, o reinado de Rama, de verdade e retidão, se faz soberano.

Leia um resumo do Ramayana aqui: goo.gl/JfbAJB

Satyaraja diz que George Lucas não exatamente nega todas essas similaridades, mas é muito cauto em relação a revelar suas influências. Enigmaticamente, ele disse: “Estou contando um velho mito de uma maneira nova”.

Existem muitos outros paralelos entre Star Wars e a cultura védica. A relação entre Yoda e Luke é muito similar ao tradicional relacionamento guru/discípulo, e Satyaraja diz que as instruções que Yoda apresenta são “quase literalmente tiradas do Bhagavad-gita”, o antigo guia espiritual falado pelo Senhor Krishna a Arjuna.

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As instruções que Yoda apresenta são “quase literalmente tiradas do Bhagavad-gita”.

“Yoda ensina autocontrole a Luke, e a importância de restringir os sentidos”, ele explica. “Todo Jedi, Yoda diz, tem que superar o desejo e a ira. Similarmente, no Bhagavad-gita, está escrito: ‘Quando a morte chega, o sujeito tem de ser capaz de tolerar os ímpetos dos sentidos materiais e superar a força do desejo e da ira. Se alguém o faz, estará bem situado’”.

Yoda também descreve “a Força” como a fonte da força dos Jedis, e, de fato, a fonte de todas as habilidades. Krishna Se descreve da mesma forma no Bhagavad-gita: “Eu sou a habilidade no homem. Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e desejo. De tudo o que material e espiritual, saiba por certo que Eu sou a origem e a dissolução”.

A Força também é descrita como um tipo de divindade que é energia pura – ela penetra e permeia tudo que existe, e mantém a galáxia unida. Isso é similar ao Brahman, a manifestação impessoal de Deus. O aspecto pessoal da Força é destacado em O Retorno do Jedi, no qual Yoda nos diz que a Força é seu “aliado” e faz alusão ao “amor da Força”. Isso aponta para Bhagavan, Deus, haja vista que uma energia estritamente impessoal não pode comportar atributos como “amor” e “aliança”. E Yoda também fala sobre a importância de nos harmonizarmos com nosso próprio eu superior, descrevendo em essência o terceiro aspecto de Deus descrito nos Vedas: Paramatma.

Leia mais sobre Brahman, Paramatma e Bhagavan aqui: goo.gl/c6nFln

Além disso, a forma nobre da arte da guerra imbuída de ética e espiritualidade ensinada por Yoda aos cavaleiros Jedis é tal qual aquela dos nobres guerreiros kshatriyas dos antigos tempos védicos. Assim como Yoda ensina os Jedis a serem não agressivos porém valentes, Dronacharya, no Mahabharata, treina os heróis Pandavas para serem protetores honrados dos inocentes.

É claro, alguns podem dizer que os paralelos apontados em The Jedi in the Lotus são meras coincidências. Talvez isso seja produto do exercício a que os praticantes da tradição vaishnava estão acostumados: tentar conectar tudo a Krishna. E algumas das similaridades descritas por Satyaraja parecem, sim, “forçosas” – por exemplo, seu comentário de que “o nome Yoda é próximo do termo sânscrito yuddha, que significa ‘guerra’”. Ou sua empolgação quanto ao fato de que, como estudante em um filme, Luke Skywalker exibe uma cabeça raspada e um shikha, um tufo de cabelo similar ao utilizado por devotos de Krishna e que os indica como “servos do guru”.

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Anakin Skywalker quando padawan (aprendiz Jedi).

O próprio Satyaraja admite que monges em tradições chinesas e japonesas também têm esse corte de cabelo. E ele não teme dizer que muitos dos paralelos que ele aponta provavelmente são coincidências. Todavia, ele está convencido de que muitos deles são mais do que isso.
“No posfácio do livro, digo que agora que o leitor considerou todos os paralelos que eu trouxe, ele pode decidir por si mesmo se são coincidência ou se realmente há cruzamentos o bastante para termos como evidente que Lucas foi influenciado pelos textos védicos”, ele explica. “Eu, como alguém que pesquisou isso meticulosamente, estou convencido, sem sombras de dúvida, que ele foi”.

Apoiando a declaração de Satyaraja no prefácio de The Jedi in the Lotus está Jonathan Young Ph.D., psicólogo e curador fundador do Joseph Campbell Archives. Próximo tanto de Campbell quanto de Lucas, Young diz que o livro “revela como a sabedoria da Índia permeia os filmes de Star Wars” e “nos leva para dentro das histórias dos Jedis para documentar os profundos ensinamentos orientais que George Lucas transmite nas séries”.

Independe de você compartilhar ou não da convicção de Satyaraja de que Star Wars foi influenciado pelos textos védicos, não há dúvidas de que The Jedi in the Lotus é um texto bem composto e fascinante.

Em entrevista à revista Times, George Lucas disse: “Coloquei a Força no filme para tentar despertar certo tipo de espiritualidade nos jovens”. É exatamente essa abertura que Satyaraja tenta explorar: “A série Star Wars é capaz de fazer as pessoas se abrirem à ideia de que existe algo além da superfície. E eu aponto meus leitores para os textos antigos e para as religiões que se originaram a partir deles para obterem o ponto crucial da espiritualidade”.

É bastante possível que The Jedi in the Lotus possa prover a base para milhares de pessoas se aprofundarem na espiritualidade oriental. Em 2001, mais de 70.000 pessoas na Austrália, 53.000 na Nova Zelândia e quase 40.000 no Reino Unido declararam em seus respectivos census que são seguidores da fé Jedi, a “religião” criada pelos filmes Star Wars. Embora se acredite que alguns disseram isso apenas para fazer uma brincadeira com o census ou como um ato de protesto contra o mesmo, existem muitos adeptos genuínos da fé Jedi.

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Adeptos do jediísmo.


Star Wars pode ser uma história ficcional criada para entretenimento, mas os princípios de um Jedi são princípios que qualquer um pode apreciar”, diz Satyaraja, “e eles são muito similares àqueles descritos por Krishna no Bhagavad-gita como pertencentes a um transcendentalista: ‘Aquele que não tem a mente perturbada mesmo em meio às três classes de misérias ou que não tem a mente tomada de regozijo quando há felicidade, e que é livre de apego, medo e ira, chama-se um sábio de mente estável’”.

Satyaraja conclui: “Espero que, pela leitura de The Jedi in the Lotus ou pela leitura desta matéria, os fãs de Star Wars sintam-se encorajados a investigar a literatura védica para conhecer ainda mais e encontrem uma descrição de um Jedi ainda mais detalhada do que encontrada nos próprios filmes”.

The Jedi in the Lotus: Star Wars and the Hindu Tradition foi lançado em inglês em 2010. Adquira-o aqui: www.arktos.com. Sua publicação em português é estudada pela editora Relighare (relighare-e.com.br), sem previsão.

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