Batendo na Porta do Céu

Prana-vallabha Devi Dasi Bhakti-sastri

aham sarvasya prabhavo mattah sarvam pravartate
“Eu sou a fonte de tudo o que existe. Tudo emana de Mim”. (Bhagavad-gita 10.8)

Krsnas tu bhagavan svayam (Srimad-Bhagavatam 1.3.28): Krishna é bhagavan, o que significa que Ele possui todas as qualidades exponencialmente. Nós, como Suas partículas fragmentárias, possuímos um fragmento dessas qualidades, inclusive a musicalidade.

 Krishna respira música através de Sua flauta.

 Há pessoas que podem não apresentar essas qualidades aparentemente, devido a algum bloqueio adquirido ao longo de suas multimilenares existências. Outras pessoas, sem tais obstruções, nelas as qualidades emanam abundantemente. Em Chandramukha Swami, dentre outras qualidades, eloquência e musicalidade fluem como jorro d’água em tempos normais (sem crise ambiental).

Ritmo, melodia e harmonia, em suas produções musicais, são os mais variados, dos mais tradicionais, dentro do universo de canções vaishnavas compostas pelos acaryas, até os mais populares. Chandramukha Swami fica à vontade em todos os compassos, dos mais simples aos compostos, bem como nas diversas variações melódicas, tudo com harmonia apurada, intensidade e timbre muito agradáveis. Isso acontece também, e de modo muito apurado, no último dos seus CDs lançados, onde se desenrola um fluir de puro maha-mantra, ora em vibrações mais calmas, ora mais dinâmicas, levando o ouvinte ao puro deleite transcendental.

Knocking on Heaven’s Door

Alguns acharam a porta, outros não.

Neste último CD, Chandramukha Swami canta o maha-mantra com a melodia de um “hit parade” da década de 70, intitulado “Knocking on Heaven’s Door”. A canção foi um marco na carreira do cantor e compositor de Minnesota, E.U.A., Bob Dylan, que, em 2004, foi eleito por uma revista americana como o segundo melhor artista de todos os tempos, ficando atrás apenas dos Beatles, tendo sido lançada em 1973 e inserida na trilha sonora do filme “Pat Garrett & Billy the Kid”.

Bob Dylan emergiu no cenário artístico-musical nos anos 60, junto com o movimento da contracultura – um ideário altercador proposto pela juventude contra os valores da sociedade norte-americana –, pari passu com o vultoso crescimento dos meios de comunicação em massa, que propiciou a extensão do movimento a todos os países, pelo menos os ocidentais.

A contestação dessa juventude, cuja expressão mais proeminente foi a dos hippies, pode ser sintetizada da seguinte maneira: Que sociedade é essa que prega a igualdade, mas segrega e discrimina? Que enriquece a custa da exploração de países pobres e que joga bombas napalm no Vietnã e mata famílias e crianças indefesas? Recusar o serviço militar nos Estados Unidos é crime inafiançável. Os jovens, então, bandeavam-se para comunidades rurais alternativas. Usavam brim e sandálias, em vez de terno, gravata e sapato social. Em vez do cabelo cortado rente como um militar, deixavam o cabelo longo, barba crescida. Repudiavam a sociedade urbana e industrial e adotavam a convivência comunitária, às vezes rural, preferindo a atividade artesanal com a qual produziam pequenas peças, como brincos, pulseiras e colares, para a sobrevivência básica. Em vez de álcool e tabaco, marca registrada da sociedade tradicional, aderiram à maconha, a ácidos e a anfetaminas. Foram responsáveis pela propagação generalizada da prática do amor livre, em contraposição ao casamento tradicional, e da cultura do rock, com melodia e harmonia simples, batidas fortes e letras pungentes.

Como ideário, muitos consideram como berço da contracultura já o existencialismo de Sartre, na década de 40, com o pessimismo do pós-guerra, defesa da liberdade, num movimento filosófico mais restrito. Este movimento se aquece e se amplia na década de 50, entre artistas, escritores, poetas, jovens intelectuais que contestavam o consumismo da economia do pós-guerra. Era a Beat Generation, ou Beatniks, quando se destacaram nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs. Já na década de 60, o movimento se expande e toma corpo, em termos de atitude e comportamento de grande parte da juventude, e é aproveitado pelos artistas mais populares, fazendo ponte com a população em geral. Isso é possível devido ao já mencionado desenvolvimento dos meios de comunicação de massas, com o aprimoramento dos equipamentos de gravação e divulgação, quando a música popular podia ser levada ao público gravada pelo próprio compositor, ainda que ele não tivesse a voz educada, o timbre adequado, a afinação antes exigida, e, nesse clima de protesto e derrubada das convenções, o timbre exótico, rascante, era mais apreciado para disseminar as manifestações de protesto. Esse foi o ambiente propício para o surgimento de Bob Dylan, que começou a gravar no estilo folk de protesto.

Eles sabiam o que não queriam. Porém, o direcionamento para onde iam era caótico. Levantavam a bandeira de “paz e amor” pretendidos, mas vagueavam perdidos e sem rumo, em meio a intoxicação, promiscuidade nos relacionamentos, carência de limpeza, debatendo-se num mar revolto de rebeldia e perplexidade, num condicionamento em que ficava difícil encontrar “a porta do céu” (the heaven’s door).

Em meio à década de 60, já entrando na segunda metade, chega aos Estados Unidos um embaixador de uma cultura que, embora abominando os abusos e desvios da sociedade moderna, não degringola com os valores humanos atemporais; ao contrário, ensina e estimula o cultivo destes. Uma cultura de busca da paz verdadeira, do amor puro – o que seria o ideário dos hippies, porém orientado para o rumo certo.

Srila Prabhupada na Tompkins Square Park.

Srila Prabhupada, descendente de uma linhagem de mestres espirituais autênticos, apresenta, solitariamente a princípio, o canto de Hare Krishna na Tompkins Square Park (Nova Iorque) e atrai a audiência e o interesse dessa juventude buscadora, e alguns deles, ao reconhecer a sinceridade em suas atitudes, a genuinidade, a autoridade no conhecimento apresentado por Srila Prabhupada, aceitam-no como seu mestre, corrigindo as discrepâncias que os levavam a outra porta que não à do céu.

Um Evento Inusitado

Em 1967, na costa oeste dos Estados Unidos, na cidade de São Francisco, local considerado na época o quartel central (the hub) do movimento hippie, os discípulos de Prabhupada organizam um evento no Avalon Ballroom, com a participação das principais bandas de rock da cidade e a presença de líderes Beatniks, tais como Allen Ginsberg, Timothy Leary e Augustus Owsley Stanley III. Janis Joplin cantava com a banda Big Brother & The Holding Company. Srila Prabhupada é convidado pelos discípulos para participar e, apesar da objeção dos discípulos de Nova Iorque, temendo pela imagem de seu mestre, Srila Prabhupada aceita participar do evento. Depois de ser apresentado pelo poeta Allen Ginsberg, Prabhupada faz a multidão presente cantar e dançar o maha-mantra por horas, e deixa o ambiente da forma que entrou, com sua simplicidade imponente.

A partir dos primeiros centros, Nova Iorque e São Francisco, a missão de Srila Prabhupada continua a se espalhar pelo mundo: Los Angeles, Seattle, Montreal, Santa Fé, New Mexico. De 1969 a 1973, centros, templos e comunidades rurais foram abertos na Europa, Canadá, América do Sul, México, África e Índia, espalhando a oportunidade de se bater na porta certa; bater na porta do céu (knocking on heaven’s door).

Enquanto isso, em 1973, a canção de Bob Dylan “Knocking on Heaven’s Door” entra no cenário do cancioneiro popular, numa fase em que o cantor e compositor volta-se para criações mais pessoais e introspectivas, como se tivesse um insight: “Comece a revolução dentro de si mesmo”. A letra diz algo assim: “Mãe, este distintivo, tire de mim, não quero isto, não mais; está ficando escuro, escuro demais, é como se estivesse batendo na porta do céu. Bate, bate, bate na porta do céu. Mãe, ponha minhas armas no chão. Não posso mais dispará-las; aquela longa nuvem negra está descendo, sinto como se estivesse batendo na porta do céu. Bate, bate, bate na porta do céu”.

Novas versões foram gravadas nos anos seguintes por vários grandes nomes da música pop, com destaque para: Guns N’ Roses, Eric Clapton, Bon Jovi, Bob Marley, Avril Lavigne, Aerosmith, The Sisters of Mercy, Bryan Ferry, U2, Babyface, Nazareth, Bruce Springsteen, Pink Floyd, Zé Ramalho, Beau Jacques, Roger Waters, Randy Crawford, Heaven, The Lost Dogs, The Alarm, Rick Devin, Warren Zevon.

A Versão Inspirada de Chandramukha Swami

Srila Prabhupada foi o agente a quem foi dado o poder de tornar realidade a profecia do próprio Senhor e de Seus seguidores:

“Em todas as cidades e vilas, o cantar de Meu nome será ouvido”. (Chaitanya-bhagavata, Antya-khanda 4.126)

“Tomando a afiada espada do canto congregacional do santo nome, hei de arrancar e destruir a mentalidade demoníaca nos corações das almas condicionadas. Se algumas pessoas escaparem e, abandonando os princípios religiosos, forem para países distantes, então, Meu general (senapati bhakta) aparecerá para persegui-los e distribuir a consciência de Krishna”. (Sri Chaitanya Mangala, Sutra-khanda 12.564-565)

“Oh, quando chegará o dia em que afortunados ingleses, franceses, russos, alemães e americanos tomarão estandartes, mrdangas e karatalas e farão kirtana pelas ruas e cidades?”. (Srila Bhaktivinoda Thakura, revista Sajjana-tosani, 1885)

A missão de Srila Prabhupada se tornou vitoriosa e continua, através de seus discípulos de primeira, segunda, terceira geração…

De acordo com os ensinamentos de Srila Prabhupada, seus discípulos usam a energia de Krishna, como os avanços tecnológicos disponíveis e os modernos meios de comunicação, a serviço de Krishna. Eles usam a pregação oral; a composição, edição e distribuição de livros; as produções musicais para propagação do processo predito nas escrituras como o mais eficaz para esta era.

Chandramukha Swami é dotado pela graça de Krishna de modo a fazer frente a todos esses meios para o seu trabalho de pregação, inclusive produzindo CDs, nos quais também atua como cantor solista e músico instrumentista, bem como nos arranjos em parceria. Para os arranjos e para a execução de alguns instrumentos, o Swami se faz sempre acompanhar de muito bons músicos. Este último CD, “Knocking on Heaven’s Door: 60 Minutos de Puro Maha-mantra”, é um primor em todos esses departamentos.

Não há como nomear cada faixa deste CD de vibrações as mais elevadas. Como o Swami diz na contracapa: “Com exceção da primeira faixa – em que fazemos uma invocação a Sri Chaitanya Mahaprabhu, o avatar de Krishna que apareceu misericordiosamente na atual era de Kali para distribuir Seus próprios santos nomes – são mais nove faixas de puro maha-mantra executadas com uma grande variedade de melodias”.

Na inspirada versão de Chandramukha Swami para a canção “Knocking on Heaven’s Door”, o maha-mantra – perfeita combinação das três palavras transcendentais Hare, Krishna e Rama: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare – discorre no tema melódico repetitivo da canção de Bob Dylan num humor agradável de solicitude e entrega, numa total adequação do título com o propósito da meditação mântrica. O mesmo se pode dizer do restante das variações melódicas e rítmicas das demais faixas, mesmo as mais dinâmicas, que dão suporte para o cantar do maha-mantra, algumas conhecidas da tradição vaishnava, outras inovadoras, todas tratadas num clima que inspira saudade de Krishna e apelo na ânsia de lograr estar com o Supremo Objeto de Adoração. E assim, todas as faixas justificam o título do CD.

A escolha do título do CD, que sucedeu à feliz ideia de krishnaizar a canção de Bob Dylan – “por uma dessas magias incidentais”, no dizer de Chandramukha Swami –, bem como a performance do idealizador e dos demais músicos participantes, são notadamente de inspiração divina. O coro sempre muito bem pontuado merece destaque numa parte apresentando trecho do maha-mantra em contraponto. Os samplers fazem milagres. Os temas melódicos vão se sucedendo sem interrupção, concatenados pela harmonia, cujos acordes preparam e entregam docemente um novo encadeamento melódico e rítmico.

O melhor de tudo é que tudo isso serve de leito para o fluir do canto do “grande mantra”. Todas as escrituras confirmam que não existe processo mais potente de elevação espiritual do que o canto ou meditação desse mantra. Como é dito no Padma Purana: abhinnatvan nama-naminoh — “existe identidade (não-diferença: abhinnatva) entre o nome e aquilo que está sendo nomeado”.

O CD? Você pode encontrar nas boas livrarias.

“Knocking on Heaven’s Door: 60 Minutos de Puro Maha-mantra Hare Krsna”

Concepção e Produção Executiva: Chandramukha Swami
Produção Musical & Arranjos: Chandramukha Swami e Marcio Pombo
Gravação, Mixagem e Masterização: Márcio Pombo
Voz, Mrdanga e Karatalas: Chandramukha Swami
Piano, Samplers e Vocais: Márcio Pombo
Violão de Nylon, Violão de Aço e Guitarra: Guinho Tavares
Bateria: Felipe Marques
Baixo: Dênis Lopes
Sitar: Sandro Shankara
Vocais: Ivan Bruno, Lilaraja, Márcio Pombo, Raquel, Krenzinger e Val França
Foto da capa: Alexandre Régis
Local da foto: Templo de Govindaji, Jaipur, Índia
Arte da capa: Flávio Pará e Vraja Produções
Estúdio: Pombo Produções, Teresópolis, RJ

3 Respostas

  1. Cada vez que leio uma matéria não é diferente, uma emoção me assola porque vejo tudo ser feito com tanto amor, conhecimento, tudo tão especial que me somem as palavras. Hoje em especial essa matéria linda, mais uma que meu Guru Maharaj apronta. Surpresas maravilhosas que só me fazem sorrir. Seus cds são verdadeiros amigos de kryshna que nos trazem Sua companhia, e, assim, sempre estamos a cantar hare kryshna, hare kryshna, kryshna kryshna, hare hare/ hare rama, hare rama, rama rama, hare hare.

    Todas as glórias a Srila Prabhupada!

    26 de outubro de 2012 às 4:59 PM

  2. Obrigada também pela excelente matéria.

    26 de outubro de 2012 às 5:10 PM

  3. Maria Tereza Ottoni Cardoso de Menezes

    Sou uma eterna admiradora!!!! E é o que o meu coraçao deseja!!!! Obrigada…!!! Haribol!!!

    13 de dezembro de 2012 às 9:22 PM

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