1º Colóquio de Estudos sobre Hinduísmo e Vaishnavismo: Entrevista com Dr. Ricardo Silvestre

-@ 02 I (entrevista - pregação) Colóquio de Campina Grande (bg) (ta) (2)

Dr. Ricardo Silvestre, professor da Universidade Federal de Campina Grande e organizador do 1º Colóquio de Estudos sobre Hinduísmo e Vaishnavismo, conversa conosco sobre esse evento muito importante e sem paralelo em nosso país. Volta ao Supremo lhe perguntou sobre a tensão entre a religião como ensinada dentro de sua tradição e como percebida pela investigação acadêmica, detalhes do evento e há quanto tempo o Ocidente dialoga com a sabedoria espiritual da Índia.

Volta ao Supremo: O que é o 1º Colóquio de Estudos sobre Hinduísmo e Vaishnavismo? Como surgiu a ideia de sua organização? Qual sua importância para o público brasileiro e mundial?

Ricardo: O colóquio é uma iniciativa da Universidade Federal de Campina Grande, juntamente com o Instituto Jaladuta, de criar um espaço onde desenvolvimentos acadêmicos relacionados ao hinduísmo e ao vaishnavismo possam ser discutidos. Ele terá palestras, minicursos e lançamento de livros.

A ideia surgiu a partir da constatação de que os vários professores e pesquisadores que estudam esse tema infelizmente não dispõem de um veículo onde suas ideias e desenvolvimentos sejam disponibilizados para outros pesquisadores da mesma área. Se a área de estudos orientais é algo incipiente no Brasil, muito mais é a área de estudos vaishnavas. A ideia, então, é tentar aglutinar no Brasil pessoas que, de alguma forma, desenvolvem trabalho sobre o tema.

A importância do evento naturalmente advém de sua unicidade. Ainda é, na verdade, um evento pequeno. Mas tentamos fazer com que a área de estudos sobre vaishnavismo fosse bem representada. Para isso, teremos alguns dos mais renomados pesquisadores da área no Brasil, como Dilip Loundo, da Universidade Federal de Juiz de Fora, e Marcos da Silveira, da Universidade Federal do Paraná, bem como no exterior, caso de Kenneth Valpey (Krishna Kshetra Dasa), do Oxford Centre for Hindu Studies, da Inglaterra.

-@ 02 I (entrevista - pregação) Colóquio de Campina Grande (bg) (ta) (2)

Kenneth Valpey, uma das participações internacionais no colóquio.

Além disso, o evento terá relevância para os vários praticantes do hinduísmo e vaishnavismo, como é o caso dos membros da ISKCON (acrônimo para Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna), na medida em que proporcionará exemplos de como a reflexão crítico acadêmica sobre o vaishnavismo, por exemplo, pode ajudar a esclarecer – sob vários pontos de vista: histórico, filosófico, sociológico etc. – pontos-chave dessa tradição.

Volta ao Supremo: Sobre quais assuntos, mais especificamente, o público ouvirá? Há algum momento dentro do evento que poderíamos destacar como “o ponto alto” do colóquio?

Ricardo: As palestras são bem heterogêneas. Naturalmente, o tema central do colóquio é hinduísmo e vaishnavismo. No entanto, teremos, dentre as palestras, abordagens filosóficas, históricas, sociológicas, linguísticas e científicas desse tema. Bom, o ponto alto de qualquer evento sempre são as falas dos palestrantes convidados, que, em geral, são pessoas de renome na área em questão. Mas, no caso específico do nosso evento, há palestrantes contribuintes (que são aqueles que submeteram suas palestras à apreciação do comitê do evento e foram aceitos) que apresentarão trabalhos de alta qualidade acadêmica. Assim, eu diria que todo o evento pode ser considerado como sendo o seu o “ponto alto”.

Volta ao Supremo: Falando especificamente do público praticante de hinduísmo, é comum terem alguma resistência com a investigação acadêmica pelo mesmo motivo de outros religiosos: o conhecimento acadêmico por vezes – e muitas vezes – atrita com o que a própria tradição diz de si. Como acredita que será a recepção dos hinduístas e vaishnavas não-acadêmicos? Isso é uma preocupação?

Ricardo: Essa resistência que você menciona deve ser qualificada. Devido a fatores históricos, entre os quais se encontra a motivação ideológica por trás do trabalho de muitos dos primeiros indólogos europeus, há de fato certa tensão entre muito do trabalho acadêmico desenvolvido sobre as religiões indianas e a visão da tradição. Contudo, isso não é de forma alguma inerente à reflexão acadêmica vs. fenômeno religioso, tampouco a regra do ponto de vista histórico. Primeiro, não se encontra na reflexão acadêmica contemporânea essa tendência ideológica e consequente tensão; digno de nota nesse contexto é que muitos daqueles que desenvolvem trabalhos acadêmicos sobre as várias tradições religiosas são eles próprios membros dessas tradições.  Segundo e mais importante, temos que entender que o que chamamos de investigação acadêmica varia histórica e socialmente. Por exemplo, o que teólogos ocidentais como Anselmo e Tomás de Aquino fizeram foi, na época, o que hoje chamaríamos de investigação acadêmica; havia, inclusive, um idioma exclusivo a esse tipo de discurso: o latim. O mesmo pode ser dito em relação a muito do desenvolvimento filosófico indiano, incluindo o intenso debate ocorrido dentro da tradição vedanta: tratava-se de uma reflexão profunda e rigorosa acessível apenas a uma classe restrita da sociedade, e escrita também em um idioma próprio: o sânscrito. Nesses exemplos, no entanto, não falamos em conflito com a tradição, posto que tais investigações ajudaram a definir muitas das tradições que sobreviveram o bastante para chegarem a nós.

-@ 02 I (entrevista - pregação) Colóquio de Campina Grande (bg) (ta) (3)

“Religião sem filosofia é sentimentalismo e, às vezes, fanatismo.”

As tradições religiosas são entidades mutáveis, e muito desse aspecto dinâmico é, e isso é um fato histórico, diretamente influenciado pelo que podemos chamar de “reflexão acadêmica”. Por outro lado, a ausência de reflexão crítica é um perigo tanto para aqueles que estão dentro como para os que estão fora de uma tradição religiosa. Isso é reconhecido por muitos teólogos. Swami Bhaktivedanta, por exemplo, muito pertinentemente afirmou, em seu comentário ao verso 3.3 do Bhagavad-gita, que “religião sem filosofia é sentimentalismo e, às vezes, fanatismo”. Assim, eu vejo exatamente o oposto: que a reflexão crítica ou acadêmica pode ajudar os membros de uma tradição a entenderem melhor sua própria tradição e avançar na solução de muitos de seus eventuais conflitos teológicos e filosóficos.

Volta ao Supremo: Na página oficial do colóquio, somos informados de que Schopenhauer, Jung e até mesmo o brasileiro Augusto dos Anjos serão discutidos pelos palestrantes convidados. Brevemente, qual a relação deles com os saberes da Índia? Há quanto tempo o mundo ocidental conhece e, mais do que isso, dialoga com a terra dos Vedas?

Ricardo: É realmente impressionante o quanto a literatura indiana impactou diversos estudiosos e intelectuais ocidentais. Apesar de ter havido traduções de vários escritos indianos para o persa desde o século XI, é somente com as primeiras traduções para línguas ocidentais, a partir do século XVIII, que podemos ver esse diálogo ao qual você se refere nascer efetivamente. O Bhagavad-gita, por exemplo, seria traduzido (para o inglês) pela primeira vez em 1785, por Charles Wilkins, tradução esta que seria seguida de perto pela tradução em latim de August Schlegel, feita em 1823. Essa última foi provavelmente a edição à qual Schopenhauer teve acesso, que, diga-se de passagem, é um exemplo brilhante de quanto o pensamento indiano, notoriamente a filosofia das Upanishads, dialogou, para usar suas palavras, com a filosofia ocidental. Jung é outro exemplo notável. Há dezenas de outros nomes, e essa influência tem se intensificado de uma maneira marcante nas últimas décadas. Há vários periódicos científicos internacionais, como, por exemplo, o Philosophy East and West, editado pela University of Hawaii, dedicados exclusivamente a investigar a conexão com os pensamentos ocidental e oriental, notoriamente o pensamento indiano. Agora, sobre a questão de o quão forte ou profunda é a relação entre o hinduísmo e os pensadores mencionados por você, eu prefiro deixar que os pesquisadores experts no assunto que falarão no colóquio respondam-na.

Volta ao Supremo: Como o senhor mencionou, parte da programação do colóquio é o lançamento de livros. Poderia falar sobre as duas obras que serão lançadas?

Ricardo: Claro. A primeira obra é o segundo número do periódico científico Cultura Oriental, publicado pela Universidade Federal da Paraíba. Trata-se do primeiro, e até agora único, periódico publicado no Brasil dedicado exclusivamente ao tema das filosofias e das religiões orientais.

O segundo é um livro organizado por mim e por Ithamar Theodor, da Universidade de Haifa (Israel), intitulado “Filosofia e Teologia da Bhagavad-gita: Hinduísmo e o Vaishnavismo de Caitanya; Homenagem a Howard Resnick”. Ele será publicado pela Juruá Editora (estará nas livrarias daqui a algumas poucas semanas). É, na verdade, uma coletânea de capítulos escritos por professores e pesquisadores do Brasil, Israel, Estados Unidos e Reino Unido. Seu objetivo é apresentar uma visão acadêmica e acessível do Bhagavad-gita centrada em dois aspectos principais: introdução e contextualização do Gita no que se refere à sua história, estrutura e conceitos-chave, de um lado, e análise detalhada de algumas das noções e temas mais relevantes do texto, de outro. Também proporciona visão geral de uma das tradições da Índia que mais sofreram influência da teologia e filosofia do Bhagavad-gita: o vaishnavismo gaudiya, de Caitanya. Um detalhe interessante desse volume, que inevitavelmente toca na sua penúltima pergunta, é que todos os seus autores são acadêmicos, mas também praticantes do vaishnavismo (com exceção, talvez, de apenas um autor). São eles: Howard Resnick (Institute for Vaishnava Studies, EUA), Ithamar Theodor (University of Haifa, Israel), Ricardo Silvestre (Universidade Federal de Campina Grande), Kenneth R. Valpey (Oxford Centre for Hindu Studies), Graham Schweig (Christopher Newport University, EUA), Steven Rosen (Journal of Vaishnava Studies, EUA), Ravi Gupta (Utah State University, EUA), Arilson de Oliveira (Universidade Federal de Campina Grande) e Dilip Loundo (Universidade Federal de Juiz de Fora).

Volta ao Supremo: A revista também estará disponível para venda posteriormente, ou para leitura online?

Ricardo: Sim. Ela é publicada tanto em papel como eletronicamente, no site de periódicos da UFPB.

Volta ao Supremo: Aqueles que quiserem mais informações, como podem obtê-las?

Ricardo: Temos um site muito bem organizado. Pedimos a gentileza de acessar: http://coloquiovaishnavismo.wix.com/coloquiovaishnavismo.

Todo o conteúdo das publicações de Volta ao Supremo é de inteira responsabilidade de seus respectivos autores, tanto o conteúdo textual como de imagens.

.

Se gostou deste material, também gostará destes: Críticas ao Bhagavad-gita Como Ele É, Sri Chaitanya-charitamrita: Apreciações Acadêmicas, Erigindo um Altar para Krishna  no Templo do Materialismo.

.

Se gostou deste material, também gostará do conteúdo destas obras:

13 I (artigo - Karma e Reencarnação) Insultos, Tecidos e Flores (1001) (ta) 13 I (artigo - Karma e Reencarnação) Insultos, Tecidos e Flores (1002) (ta) 13 I (artigo - Karma e Reencarnação) Insultos, Tecidos e Flores (1004) (ta) 13 I (artigo - Karma e Reencarnação) Insultos, Tecidos e Flores (1005) (ta)

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s