Ateísmo na Atualidade

Ateísmo na AtualidadeEntrevista com Chandramukha Swami

Chandramukha Swami fala sobre como o ateísmo pode ser um estágio à frente do teísmo superficial ou equivocado e sobre como os devotos de Krishna devem estar prontos para entenderem e apresentarem o processo de bhakti-yoga como algo diferente das religiões sectárias.

Esta entrevista foi conduzida pelos alunos Mateus Moreira, Radesh Dasa e Silvio Pinto, da primeira turma do Curso de Estudos e Práticas Monásticas de Bhakti-yoga, promovido pelo IBEV, em parceria com a Volta ao Supremo.

IBEV: Gostaríamos que o senhor falasse sobre o ateísmo na atualidade e sua relação com a carência de conhecimento espiritual no ocidente.

Chandramukha Swami: Eu não vejo que este é um problema tão grave quanto a gente pode pensar, porque o que a Bhagavad-gita fala é que existem os modos da natureza material e o ideal é que a pessoa se situe no modo da bondade, e isso vai aproximá-la de Krishna.

Às vezes, você vê uma pessoa assim chamada teísta e, ao mesmo tempo, fanática, demonizando pessoas que não são teístas, que não fazem parte da religião dela… Ou seja, uma pessoa no modo da ignorância ou no modo da paixão, o que também não é muito interessante, porque é até difícil ter um diálogo com essa pessoa. Em contrapartida, você conversa com uma pessoa que se diz ateísta, mas que é inteligente, que é ética, que é honesta, que é uma pessoa madura e que dá para você ter conversas muito interessantes com ela porque está mais no modo da bondade.

Então, grande parte do assim chamado ateísmo está ligado a uma visão muito negativa das religiões, sobretudo as ocidentais, que demonstraram desconhecimento total sobre a natureza absoluta de Deus. Existe este tipo de ideia: “O meu Deus é assim…” Algo completamente sectário, separatista e que uma pessoa inteligente não vai apreciar. Em nome de religião, em nome de Deus, coisas loucas aconteceram nos últimos anos – na verdade, não só nos últimos anos.

Agora, escrevendo sobre Jaipur (Índia), onde estive, eu me debrucei sobre o tema de que, há cerca de quinhentos anos, um imperador mongol destruiu vários templos de Vrindavana. Isso foi feito com uma postura religiosa, em nome de Deus, mas é algo completamente demoníaco. Você vai encontrar no Srimad-Bhagavatam pessoas como Hiranyakashipu que era completamente teísta, mas era demoníaco.

Alunos do IBEV entrevistam Chandramukha Swami.Alunos do IBEV entrevistam Chandramukha Swami.

Então, você ter fé em Deus e acreditar na existência dEle não significa tanto, porque o que vai salvar uma pessoa não vai ser sua fé em Deus, mas, sim, o seu comportamento. E você vê que há pessoas que mesmo sem fé em Deus têm um bom comportamento e estão situadas no modo da bondade. Por conta disso, estão pelo menos mais perto de Deus, não é verdade?

Nos Vedas, quando uma pessoa sai de karma-kanda, que é o primeiro estágio no qual ela quer satisfazer os seus desejos materiais através da religião, ela se liga no segundo estágio, que é jnana-kanda. Nesse momento, ela entra nos estudos das Upanishads e no estudo do Vedanta-sutra. O conhecimento das Upanishads desconstrói a ideia de um Deus físico, pessoa, com atividades, para depois, lá na frente, quando falar em bhakti, reconstruir a visão de Deus absoluta.

Então, há muitas pessoas inteligentes que hoje são ateístas porque estão desconstruindo uma ideia completamente equivocada de Deus e, talvez, se aproximando e se preparando para receber o conhecimento do Srimad-Bhagavatam sobre o aspecto absoluto e perfeito de Deus.

Então, eu não vejo de um modo geral o ateísmo como um regresso. Eu vejo como algo que faz parte de um arranjo de Krishna para desconstruir uma religiosidade completamente mundana, com a qual especialmente o ocidente tem convivido há muito tempo.

IBEV: O senhor tem alguma publicação ou livro que trata a respeito desse tema, o ateísmo, ou pretende publicar futuramente?

Chandramukha Swami: Não tenho essa pretensão, mas sempre que uma pessoa apresenta a consciência de Krishna, em paralelo a isso, também ela apresenta o que não é a consciência de Krishna.

Na Bhagavad-gita, por exemplo, Krishna fala sobre quais são os tipos de pessoas que não se rendem. Há o mayaya-pahrta-jnana, que é quem tem muito conhecimento, mas está encoberto pela ilusão, o conhecimento mundano. Há também o naradhama, há aqueles que são realmente demoníacos… Há quatro no total. Mas o que a gente tem que entender mesmo é que a parte nossa que não quer se render a Krishna está ligada a um desses quatro.

E a preocupação nossa é reconhecer dentro da gente o nosso ateísmo. Afinal, temos isso dentro da gente, certo? Não existe um ateísmo só que você verbaliza, mas existe o ateísmo psicológico, o ateísmo de comportamento, de relacionamento etc.

Então, é uma armadilha acharmos que nós somos os teístas e eles são os ateístas. Não. Nós temos muito dentro da gente de ateísmo para ser eliminado também.

Quando a gente está tentando conhecer a consciência de Krishna, paralelamente a gente está tentando entender isso também. Não só em nós, mas a influência de maya. Maya é isto: a base de todo o ateísmo.

Na nossa própria relação com Krishna, a gente sabe que passa por momentos em que falhamos, não é verdade? Exatamente porque o nosso conceito de Deus ainda é muito relativo. Não é ainda um conceito absoluto. A gente não está com realização plena, sentindo a presença de Krishna em tudo, em todas as coisas, e por isso a nossa visão ainda é muito material, muito limitada, muito sectária.

Então, eu acho que a preocupação nossa de pregar para os ateístas pode ser muito boa, mas acho que é o momento de a gente realmente se preocupar com a influência ateísta que temos.

Então, nesse sentido, acho que meu livros acabam falando disso.

IBEV: Vemos que, nas universidades e locais com pessoas de bom nível intelectual, muitas pessoas estão pensando no tema espiritual oriental e nessa filosofia. Então, o que o senhor diria a respeito dessa busca de conhecimento que essas pessoas estão querendo cada vez mais?

Chandramukha Swami: É isso. As pessoas não estão interessadas em religião, mas, paralelamente, estão interessadas em filosofia. E acho que o nosso movimento tem que entender isso muito bem e nós temos um conjunto de pensamentos e de propostas de estilo de vida muito atrativos que não estão ligados necessariamente a uma ideia sectária de religião, e isso a gente tem que apresentar.

Acho que o nosso produto mais atrativo é a nossa filosofia, e não o aspecto religioso sectário. “Ah! Você vai ter que se tornar um Hare Krishna”, ou “Você vai ter que usar um determinado tipo de roupa”, ou “Você vai seguir uma filosofia oriental ou não oriental”… Acho que o importante mesmo é transmitir esse tipo de pensamento que a Bhagavad-gita fala, de questões como karma, vegetarianismo, a questão de que nós não somos o corpo etc.

Chandramukha SwamiChandramukha Swami.

Vemos isto: Por que as pessoas querem yoga e não querem religião? Porque no yoga a pessoa faz o trabalho de purificação interna, a responsabilidade é dela, ela assume esse processo de autoconhecimento e autorrealização. Na religião, geralmente, você se entrega a um grupo e acha que eles vão salvar você. Isso não é uma coisa que atrai pessoas inteligentes de um bom nível. Por isso o yoga é muito mais interessante. Acho que os devotos têm que se tornar yogis não no sentido de imitarem os hatha-yogis, mas de ter uma vida mais verticalizada. É o que está faltando.

O problema da religiosidade material é que você se sente salvo, ou seja, é outro aspecto da ilusão. “Ah! Eu me tornei devoto, eu canto Hare Krishna e já estou salvo”, “Eu não preciso mais fazer nenhum processo interno”, “Eu estou meio cansado”, “Já fui iniciado”, etc. Existem essas questões. Muita gente pensa assim: “Ah! Já fui iniciado, já comi prasada, já tomei banho no Radha-Kunda, já estou liberado”. Isso é verdade, mas existem outras verdades! Se você ofender, você cai.

Então, essas coisas mais ligadas ao lado ritualístico, ao lado mais dogmático, algo que muitos devotos têm, essas coisas não adianta apresentar para um público inteligente, mais intelectual. Eles não querem. O mesmo em relação à adoração à Deidade. Isso tudo é para depois. No começo, é cantar o santo nome e a filosofia. Isso é muito importante e atrativo às pessoas.

A ideia do yoga, em termos práticos, é uma coisa que tem atraído muitas pessoas. Só que os devotos não estão se preparando para apresentar assim. Fica uma coisa ainda muito dogmática e muito parecida com outras religiões – “nós e eles”. Essa coisa fica meio separada demais e acho que não funciona.

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