No Dentista

No Dentista

Purushatraya Swami

Cena: uma sala de espera de dentista. Do outro lado da porta, ouço o ruído característico de uma broca abrindo um canal. “Em poucos minutos será a minha vez”, minha mente comenta. Na mesinha em frente, algumas revistas com datas vencidas. À distância de meu braço, pego uma — “Capricho”. Abro aleatoriamente. Deparo-me com uma entrevista de um compositor e intelectual talentoso e renomado. CV. Passo os olhos sobre a matéria. Em certo ponto, uma afirmação do entrevistado chama minha atenção: “Não acredito em Deus nem na vida após a morte”. Coloco a revista de lado e um monte de pensamentos assaltam minha mente.

“Que declaração gratuita!… Quem pode ter tal certeza?… A mim tais palavras soam como uma prepotência inconsequente… Nenhuma margem a dúvida?… Um agnóstico teria certamente reações mais honestas… Dada a popularidade da personagem, quantos não tomariam tal afirmação como verdade definitiva e o seguiriam cegamente?…”. Esses foram alguns dos pensamentos que, como um turbilhão, imediatamente ocuparam minha mente.

Bem, logo a porta se abriu, e o dentista, após se despedir do paciente ainda anestesiado, abriu um sorriso, saudando-me. A partir de então, quarenta minutos de sofrimentos, que, pelo menos, tiveram o valor de reforçar minha compreensão sobre a vulnerabilidade de nosso corpo físico. Nos tempos védicos, um rei iluminado chamado Rishabhadeva qualificou o corpo físico como “klesha-da”, ou seja, “aquilo que produz sofrimento”. Confirmado.

Mais tarde, voltando a pensar sobre o assunto, eis que surge em minha mente outro personagem. Dessa vez, uma personalidade mundialmente conhecida e super respeitado. Alguém que penetrou e desbravou regiões inexploradas da consciência. Carl Jung.

Ao ser indagado se acreditava em Deus, o famoso psicólogo e pesquisador da natureza humana respondeu sem titubear: “Não. Não se trata de acreditar. Eu sei”. Essas duas palavras “eu sei”, em tal contexto, soam como a potência de mil argumentos. Palavras de um cientista iluminado. Que certeza! Que realização! Que lucidez! Que coragem! Justo na época em que Freud e Marx proclamavam que a religião seria “uma condição neurótica” e “ópio do povo”!

É um fato que a espiritualidade afetada por desarranjos psíquicos gera, em mentes débeis, fantasias, delírios, neuroses e até psicoses e que o fanatismo religioso entorpece as massas. Jung conseguiu ir além disso. Vislumbrou uma espiritualidade sã. Em um de seus livros, ele corajosamente afirmou: “Dogmas e rituais são válidos desde que elevem a consciência do indivíduo ao verdadeiro plano espiritual”. Não atendendo a esse propósito, práticas religiosas espúrias só alimentam ilusões, criando expectativas falsas e neuroses.

As ideias e certezas de Jung ficaram para a posteridade. Muitos as adotam. Gente séria e lúcida. Que os leitores e as leitoras de “Capricho” cheguem a esse nível…

 

Se gostou deste artigo, talvez também goste deste: Cultura do Desapego.

 

Este artigo é um capítulo da obra Sanidade Espiritual, de Purushatraya Swami. Adquira a obra:

02 I ([novo]Crônicas e Contos - [novo]Ateísmo) No Dentista (501)

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2 Respostas

  1. Muito legal este texto do Purushatraya Swami. Obrigado por dividir conosco!

    Fico pensando: qual seria este livro do Jung que ele cita?

    Hare Krishna

    3 de maio de 2013 às 12:03 AM

  2. Ananda Daiyni. Devi Dasi

    Queridos, li o livro , Sanidade Espiritual, dentro de um hospital, acompanhando os últimos dias de minha mãe aqui nesse plano. Quanta lucidez, como num momento desse tão delicado, pude realizar verdades implícitas em nossa existência.

    29 de agosto de 2016 às 10:32 AM

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