Barriga, Mamãe e Bebê: Entrevista com uma Doula

06 I (entrevista - Sexo e Matrimônio) Barriga, Mamãe e Bebê (2411)Entrevista com Chitralekha Devi Dasi

Em conversa com a Volta ao Supremo, Chitralekha fala sobre o papel da doula na sociedade, a influência do bem-estar ou estresse da mãe sobre o feto, a importância de a mulher conhecer seu corpo como capaz de parir, os diferentes estados emocionais que visitam uma futura mãe e outros tópicos importantes que em geral não chegam às mães, pais e outros interessados através das consultas médicas e da mídia popular.

Volta ao Supremo: O que muda na vida de um casal no exato momento em que descobrem que serão pais? O que devem fazer para lidar bem com as mudanças inevitáveis?

Chitralekha: Acho que o ser humano ao mesmo tempo em que é encantado pela maternidade e paternidade possui grande dificuldade de lidar com mudanças. E um filho é uma grande mudança! Por um lado, existe uma série de expectativas sobre o que esse filho vai trazer, e, por outro, uma sensação de insegurança sobre como lidar com o processo de cuidar de outro ser humano. Se o casal não buscar introspecção, orientação espiritual, amigos e benquerentes experientes e sensíveis sobre o assunto, a tendência mais “normal” é se deixar levar pelas mil e uma novidades externas que um novo bebê traz – roupinhas, brinquedos, decoração do quarto, chá de bebê, adaptações da casa etc. Acredito que a leitura de livros direcionados ao assunto e conversas francas e abertas entre o casal já é um passo relevante para se prepararem para as mudanças que virão em alguns meses.

Volta ao Supremo: Em seu perfil no Facebook, você comentou em uma postagem que é comum a gestante assumir certos personagens, atuando, por exemplo, a expectativa em torno dela de que ela tem que estar extremamente feliz por estar grávida. Contudo, o sentimento de felicidade pode ser apenas um em meio a vários. O que visita a mente de uma mulher durante a gravidez?

Chitralekha: Acho que é muito comum a quebra de paradigmas. Por exemplo, muitas mulheres antes da gravidez são atentas, dinâmicas, independentes e cheias de iniciativa. De repente, na ebulição dos hormônios, veem-se frágeis, desamparadas, carentes e choronas. E, ainda que entendam que esse processo é natural, a reação mais comum é tentar manter a imagem de alegria e felicidade na gravidez, como dito. Mas é como se esse novo estado mental da gravidez as fizesse questionar suas escolhas de vida e seu modo de ser que estava funcionando perfeitamente para a rotina da sociedade.

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Grupos de apoio a gestantes e a mães são de grande valor.

Mesmo que as pessoas tentem ajudar e amparar essa mulher, é comum observar uma reação defensiva, de não aceitar ajuda ou não querer dar trabalho. Esse conflito se estende muito no pós-parto, e isso não significa quarenta dias – como tratado pelos médicos. Os sintomas de um puerpério podem durar meses ou anos! Por isso, acho vitais os grupos de apoio a gestantes e a mães. Num espaço desses, elas encontram um meio de falar, desabafar e encontrar empatia sobre seus sentimentos e confusões. O uso de terapias e atividades físicas durante a gravidez também ajuda muito a mulher a responder melhor aos seus dilemas internos.

Volta ao Supremo: No Brasil, sente que ainda existe o preconceito de que “terapia é para doido”, como dizem popularmente?

Chitralekha: Sim, mas agora, devido a algumas experiências ruins com a medicina tradicional e a medicação alopática, as pessoas estão cogitando as terapias como uma opção viável. E tendo a assistência de bons profissionais, essas podem trazer grandes resultados. Porém, um profissional inadequado pode tornar a pessoa dependente de terapias. É importante utilizá-las como aliadas no processo de cada um se entender, se conhecer e se curar.

Na gravidez, especialmente, é comum o retorno às lembranças do passado, e a necessidade de retomar cheiros, gostos e conexões amorosas com as pessoas que estiveram em nossa primeira infância. É como se a mente, ao se preparar para receber o bebê, recriasse os sentimentos do passado. Não é exagero dizer que uma grávida é um grande bebê! Assim, os terapeutas podem auxiliar as grávidas amplamente nesse retorno mental/sensorial. E as doulas, com seu conhecimento e sua sensibilidade, também podem auxiliar nessas questões.

Volta ao Supremo: Em seu programa na rede Globo, Fátima Bernardes disse em uma edição do programa sobre o assunto “doulas” que o papel das doulas poderia muito bem ser feito pelo pai da criança. Muitos consideram que foi uma colocação infeliz. Poderia falar melhor sobre o que faz uma doula?

Chitralekha: Realmente foi uma colocação mal formulada da Fátima Bernardes… Bom, estive pensando esses dias como explicar o papel de uma doula e descobri que ela existe porque, infelizmente, estamos distantes da cultura do parto. O que seria isso? Cultura do parto significa entender a fisiologia da mulher, seus mecanismos hormonais, suas conexões emocionais e como contribuir no processo único e intenso de cada mulher. Acompanhar uma mulher em trabalho de parto poderia ser o papel do esposo, ou da mãe, ou da tia ou da avó, mas será que essas pessoas estariam prontas para viver o parto? Devido a uma série de questões, o parto normal é visto como perigoso, sinônimo de dor, desespero, medo e tragédia. Para muitos, mulher em trabalho de parto é simplesmente uma mulher gritando. Mas por que ela grita, geme, se expressa, vocaliza na hora da contração?

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A entrevistada com seu filho no colo, Kabir, hoje com 8 meses.

A doula, com empenho e amor, estuda esse fato e muitos outros relacionados a gravidez, parto e pós-parto e, com essas ferramentas, tenta cuidar e amparar aquela mulher. A doula pode segurar na mão, mas também pode ser o silêncio que a parturiente precisa. A doula pode fazer massagens, mas pode também amparar o pai confuso e com medo na hora do parto. A doula pode não estar no parto, mas pode ter feito parte de todo o processo emocional da gravidez que fortaleceu a mulher de tal forma a viver seu parto com plenitude e entrega.

Volta ao Supremo: Qual o melhor auxílio que você acredita ter prestado como doula em sua carreira?

Chitralekha: Acho que uma das coisas mais legais que fiz até então é quando um texto que eu publico, uma pequena conversa que tenho – presencial ou virtual – ou um livro que empresto transforma o destino de uma mãe e um bebê. Já tive alguns casos de mães que morriam de medo de parto normal e que, com um “empurrãozinho” dado por mim, são mulheres/mães conscientes de seu corpo e da capacidade de parir. Ver essa mudança acontecendo diante de meus olhos é muito gratificante!

Volta ao Supremo: Qual a explicação para o número tão alto de cesáreas no Brasil? É uma consequência natural da artificialização da vida em várias esferas? Ignorância promovida por interesses econômicos? Qual a resposta?

Chitralekha: É por tudo isso e muito mais! Ainda há estudos sobre o assunto e existem aspectos até dentro da esfera cultural. Ou seja, tem gente que faz cesárea porque culturalmente só compreende o parto dessa maneira. Bom, o que posso apontar de antemão, até para esclarecer muitas pessoas que consideram uma cirurgia como a cesárea mais segura do que um parto normal, é que, para nossa grande surpresa, a prática obstétrica foi desenvolvida com pouca ou quase nenhuma evidência científica. Quando os partos foram deslocados para os hospitais, uma série de intervenções médicas foi criada para auxiliar o processo – ou pelo menos era essa a intenção primordial. Incluso nisso está a cesárea, uma intervenção cirúrgica. Assim, durante muitos anos, milhões de mulheres pelo mundo foram cobaias dessas práticas, até que, nos anos 80, a Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolveu um trabalho global de coleta de pesquisas científicas na área da obstetrícia.

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Nas universidades brasileiras, poucos estudantes têm acesso às informações mais recentes sobre gestação e parto.

Analisando essas pesquisas, descobriu-se que grande parte desses procedimentos, inclusive alguns motivos para fazer cesárea, era quase completamente desnecessária! Por exemplo, um grande motivo de cesárea no Brasil é a tal “circular de cordão”, que equivale ao cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê. Durante as ecografias, se isso é encontrado, muitos médicos consideram um perigo e marcam antecipadamente uma cesárea. E o que as pesquisas apontam? Elas apontam que bebês nascem normais e saudáveis com uma, duas, três ou até cinco circulares de cordão! O cordão umbilical é gelatinoso e constantemente se “enrosca” no pescoço do bebê e se “desenrosca”. Além disso, no processo final de nascimento, o cordão, que está ligado à placenta, que está ligada à parede do útero, ainda que seja curto, não é capaz de enforcar o bebê porque o topo do útero desce na medida em que o bebê sai pelo canal vaginal da mãe. Hoje, os grupos de apoio ao parto humanizado têm apresentado estudos consistentes que quebram esses e mais uma série de mitos. Porém, infelizmente, nas universidades brasileiras, poucos estudantes têm acesso a essas atualizações.

Volta ao Supremo: Foi muito interessante o que disse no começo da entrevista sobre os pais buscarem por “introspecção” e “orientação espiritual” em vez de se aterem aos aspectos externos da chegada dos filhos, como os brinquedos e a mobília. Como se daria essa busca?

Chitralekha: A gestação traz de volta muitas lembranças da infância dos pais, como eu disse, fazendo com que sejam encarados medos, situações difíceis e traumas. Ao mesmo tempo, o casal sente que uma força maior deve existir para permitir que uma vida seja gerada tão perfeitamente. Essas duas questões remetem a uma busca espiritual, às vezes em nome do equilíbrio emocional, às vezes pela curiosidade de entender os mecanismos da Natureza. Se o casal se permite fluir nessas novas sensações, a introspecção espiritual será inevitável. Porém, se estiver distraído em meio às “novidades” do bebê, isso será pouco aprofundado ou até tratado como mero sentimento passageiro. Acho que o que faz muita diferença entre uma situação e outra é quem está em volta e em que tipo de ambiente se está transitando.

Volta ao Supremo: No Srimad-Bhagavatam, uma das obras religiosas mais importantes da Índia, encontramos a história de Prahlada Maharaja. Na obra, narra-se que seu caráter nobre foi formado pelo contato que sua mãe teve com um grande santo quando Prahlada ainda estava em seu ventre. O que dizem as pesquisas atuais sobre a influência do “mundo externo” e do estado mental da futura mãe sobre o feto?

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Prahlada Maharaja, ainda no ventre de sua mãe, ouve o grande santo Narada Muni falar sobre o Senhor Supremo e as glórias Suas e de Seus devotos.

Chitralekha: As pesquisas estão cada vez mais validando a possibilidade de que os seres humanos começam seu processo de aprendizagem desde o útero. Uma pesquisadora que tem se destacado nisso é Annie Murphy Paul. De acordo com ela, está surgindo um campo de pesquisa dedicado exclusivamente a compreender o quanto aprendemos dentro do útero. Ela destaca a influência do ambiente, das emoções da mãe, da alimentação e até do sotaque. Ela destaca que a mãe envia, através de seus hábitos e pensamentos, “cartões postais biológicos” para o bebê, indicando a ele como se preparar para enfrentar o mundo. Se ela manda um cartão postal negativo, de fome, tristeza e escassez, o bebê pode mudar até a fisiologia dos seus órgãos, privilegiando, por exemplo, o coração e o cérebro e enfraquecendo os outros órgãos, a fim de que consiga sobreviver à situação aparentemente deplorável.

Volta ao Supremo: Srila Prabhupada, o fundador da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, disse que o amor materno é o amor que mais se aproxima do amor de Deus. O que justifica essa comparação?

Chitralekha: Esse é um ponto interessante e vou deixar aqui uma reflexão da minha experiência. Depois de ter meu bebê, entendi porque as pessoas expressam tão amplamente a ideia de que o amor materno é infinito e completo. Realmente existe uma tendência a uma dedicação desmotivada e ampla pelo filho. Parece que o corpo e a mente se entregam todos os dias àquele ser, suportando fome, sono, cansaço e qualquer aspecto aflitivo que a mãe prefere vivenciar a ver seu filho sofrer. Acho que foram essas características em que Srila Prabhupada pensou quando comparou esse amor com o amor divino. Os grandes santos revelam a mesma postura e desejo. Porém, acho que entre uma mãe e um grande santo existe uma grande diferença: a energia que impele a devoção. A mãe é realmente impelida por uma energia material incrível. Acho que o parto é o ápice dessa energia, e, no cuidado ao bebê, a coisa se estende. Não considero isso ruim. Na verdade, considero fantástico e mágico! Porém, é material, é limitado, é cheio de apegos e é uma energia que move você de fora pra dentro. Se uma pessoa, sem cuidado e reflexão, se deixa levar por essa energia, pode continuamente criar conflitos desnecessários na sua vida. Já os santos movem-se por uma energia interna, a energia espiritual da alma pura, e com ela a tendência é agir, pensar e se conduzir sem criar conflitos, sem assumir apegos desnecessários e com total dependência na consciência divina e Sua sabedoria. Acho que se conseguimos assumir o ímpeto de uma mãe na nossa vida espiritual, podemos avançar muito mais rápido e termos realizações extremamente profundas!

Volta ao Supremo: Conte-nos mais de suas experiências pessoais. Você agora é mãe de um lindo garotinho de 8 meses. O que destacaria na sua gestação, no seu parto e nesse pouco tempo com seu filho já fora da barriga?

Chitralekha: Nossa! Acho que seria impossível ter espaço nesta entrevista para responder essa pergunta! (risos) Cada evento desse, para mim, foi de grande intensidade – tanto que ainda não consegui conectá-los. Eu sou uma pessoa para cada uma dessas fases, e, ainda hoje, me espanta a ideia de que o garoto que cuido estava em mim e viveu o parto comigo. Mas, como já citei alguns aspectos da gravidez e do parto, posso aproveitar este momento para destacar o processo de criação. Uma das grandes maravilhas desse momento é ter a leveza de se entregar a cada situação com meu bebê. Realmente, não há fórmulas do que é melhor para um bebê. O que existe é uma leitura constante desse ser, conectando-se as suas necessidades, e acrescentando sua energia e a energia do pai para a estrutura dessa consciência que renasce. Para mim, é um mundo mágico, cheio de mistérios e com maior presença do Divino. As conquistas do meu bebê me mostram como nosso corpo é perfeito, Seu choro me lembra o quanto preciso ansiar mais e mais por Deus na minha vida, gritando com todo o meu coração a importância de Sua presença. O corpinho de meu bebê sobre mim lembra-me da força da entrega, de sair do controle e se deixar ser amado sempre. Poderia listar mais um infinito de coisas que estou descobrindo… Recomendo que cada pai e mãe encare nesse momento a possibilidade de enxergar o mundo de outra maneira e vivenciar a força que está além da energia material.

Você mencionou também que leituras é algo bom para os pais. Para concluirmos, que blogs, revistas, livros ou outras fontes você indicaria?

Chitralekha: Ah, sim! Há muito bons materiais à disposição na internet. Listo abaixo alguns:

Blogs e sites: Cientista que Virou Mãe: www.cientistaqueviroumae.com.br; Vila Mamífera: http://vilamamifera.com; Parto Ativo Brasil: http://partoativobrasil.com.br; Ciência do Início da Vida: www.cienciadoiniciodavida.org; Eu Quero Parto Normal: www.euqueropartonormal.com.br.

Livros: A Maternidade e Encontro com a Própria Sombra, de Laura Gutman; O Livro da Maternagem, de Thelma de Oliveira (Dra. Relva); Mulher Visíveis, Mães Invisíveis, de Laura Gutman; Parto Ativo, de Janet Balaskas; Educar sem Violência, de Lígia Moreiras Sena e Andréia Mortensen.

Documentários: O Renascimento do Parto, O Primeiro Choro, Babies.

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