Cientificamente Avançados, Espiritualmente Primitivos

Entrevista com Indradyumna Swami

Um guru de destaque da ISKCON discute as aventuras e a empolgação
de compartilhar a consciência de Krishna com pessoas ao redor do mundo.

Sua Santidade Indradyumna Swami Maharaja é um dos líderes mais proeminentes da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, que, além de sua atuação global, é o pioneiro do mais bem-sucedido programa viageiro da ISKCON, o “Festival da Índia”, iniciado na Polônia e atualmente realizado em diferentes países, inclusive o Brasil (festivaldaindia.com.br). Um swami americano estar liderando um festival da cultura indiana e de bhakti no ocidente reflete tanto o apelo intrinsecamente universal de bhakti quanto sua notável difusão global nos tempos modernos. 

Volta ao Supremo: Como o senhor conheceu a consciência de Krishna?

Indradyumna Swami: Nasci em 20 de maio de 1949, com o nome Brian Tibbitts, em Palo Alto, Califórnia. Após sobreviver a uma meningite espinhal aos quatro anos e após a morte do cachorro de um vizinho aos seis anos, comecei a refletir sobre questões existenciais referentes à natureza da vida e da morte, felicidade e aflição, amor verdadeiro e o propósito do universo. Incapaz de encontrar as respostas dentro de casa, deixei meu lar, com a idade de dezesseis anos, para encontrar o segredo de uma “vida realmente satisfatória”. Idealista, terminei por me juntar aos fuzileiros navais dos Estados Unidos de modo a deter a difusão do comunismo no Vietnã. Um ano depois, recebi honrosa baixa por objeção de consciência.

Pouco tempo depois, em 1970, conheci os membros da ISKCON em Detroit, Michigan, e me tornei membro, mudando-me para o templo na East Jefferson, 8311. Após uma semana de adesão, eu liderava cantos congregacionais (kirtanas) e distribuía livros espirituais, como o Bhagavad-gita e o Srimad-Bhagavatam. Em dezembro de 1971, recebi iniciação de meu mestre espiritual, A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, e recebi o nome Indradyumna, em referência a um rei santo descrito nas tradições antigas da Índia.

Volta ao Supremo: Por que o senhor escolheu a Polônia como seu foco de pregação? Em seu programa, o senhor exibe a cultura indiana através de um festival dinâmico e integrado como meio para introduzir as pessoas à consciência de Krishna. Como esta abordagem inovadora começou e se expandiu? Quais são suas características salientes? Como é a resposta do público?

Indradyumna Swami: A Polônia se tornou meu foco por arranjo do guru e de Krishna; não por algum arranjo meu. Seguindo a ordem que Srila Prabhupada me deu de que eu deveria “pregar ousadamente e ter fé no santo nome”, deixei os EUA em 1972 e viajei pela Europa, onde ajudei a abrir novos centros na França, na Itália, na Suíça e na Bélgica. Em 1979, aos 29 anos, fiz o voto de dedicar toda a minha vida às atividades missionárias como um monge celibatário e entrei na ordem renunciada de sannyasa. No mesmo ano, fundei um grupo de festival itinerante que excursionou por toda a França compartilhando os ensinamentos espirituais da Índia bem como tradições culturais de música, dança e gastronomia.

A turnê polonesa do Festival da Índia começou bastante espontaneamente quando visitei a Polônia no verão de 1990. Eu estava começando uma turnê pelos países então comunistas do Bloco do Leste e também pela Rússia. Os devotos poloneses organizaram alguns programas públicos de sucesso que não apenas inspiraram imensamente os devotos e os visitantes, mas também a mim. Os devotos poloneses se ofereceram para organizar mais festivais caso eu concordasse em me demorar mais na Polônia. Eu, então, cancelei meus planos de viagem para a Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia. Por um mês, um grupo de dez ou doze de nós viajou por todos os cantos do país fazendo harinama-sankirtana e organizando encontros públicos.

Até o verão de 1996, todos os festivais haviam se tornado ao ar livre. Caminhões-trailers alugados foram decorados como palcos, e os programas incluíam dança indiana, um teatro de máscaras do Ramayana em uma versão reformulada e um show de Reggae, bem como nosso programa padrão de palestra e kirtana. Um espaço com tendas comportando exibições sobre reencarnação, vegetarianismo, ciência védica e arte devocional foi adicionado ao conjunto do festival. Lojas maiores, vendendo uma maior seleção de artefatos indianos, foram adicionadas juntamente com um restaurante vegetariano com uma grande variedade de preparações saborosas. À medida que o Festival da Índia se tornava mais profissional, sua fama cresceu e mais pessoas – entre 2.000 e 10.000 – passaram a frequentar cada evento. Em 1997, não somente já tínhamos festivais maiores como também havíamos aprendido como fazer mais festivais. Investimos na compra de um caminhão semi-trailer da Mercedes com um palco profissional recolhível.

Hoje, mais de 20 anos depois, os festivais continuam em frente, buscando apresentar as tradições culturais da antiga Índia através de um festival de entretenimento e educação envolvendo apresentações de dança indiana clássica; peças de teatro de bonecos gigantes sobre obras indianas clássicas, como o Bhagavad-gita; apresentações musicais; exibições audiovisuais, e tendas com livros, artigos em geral e culinária indiana. Os eventos têm frequência de 5.000 a 10.000 pessoas de uma vez. Mais de 200 voluntários do mundo todo participam na montagem do equipamento, no atendimento nas tendas, nas performances no palco e na divulgação. Cerca de 750.000 pessoas comparecem aos eventos todo verão.

Também levei o Festival da Índia para a Austrália, para o Brasil e para os EUA. Os eventos em teatros e auditórios centram-se em um dinâmico programa de duas horas de entretenimento espiritual e cultural, incluindo yoga, apresentação de acrobacias, pantomima e palestra do Bhagavad-gita e kirtana.

Volta ao Supremo: O maior evento na Polônia é o festival de Woodstock. Como começou sua participação nesse festival? Quais foram os melhores momentos dessa participação?

Indradyumna Swami: Desde 1996, nossa equipe do Festival da Índia polonês participa do festival de música Przystanek Woodstock, que é organizado no primeiro final de semana de agosto todo ano por Jurek Owsak, da Great Orchestra of Christmas Charity. Apelidado de o maior evento a céu aberto da Europa, o Przystanek Woodstock recebe mais de 300.000 pessoas todos os anos. Dentro do caos desse festival, nossa equipe do Festival da Índia, de mais de 500 voluntários, estabelece um santuário espiritual chamado “A Vila da Paz de Krishna”. Na vila, os aficionados pelo festival podem participar de discussões espirituais e apresentações culturais, ou entrar na fila da tenda Alimentos para a Paz de modo a receberem um dos 90.000 pratos de alimento vegetariano que são distribuídos lá todos os anos. O melhor momento desta participação é ver centenas de milhares de pessoas ocupadas em atividades conscientes de Krishna ao mesmo tempo. Por exemplo, quando nossos devotos vão para o palco principal, 300.000 pessoas cantam os santos nomes de Krishna e dançam juntas. E, de nossa vila, ao longo de um período de três dias, distribuímos 150.000 pratos de prasada quente a um público muito apreciador.

Volta ao Supremo: O seu Diário de um Monge ao Redor do Mundo (compre aqui) descreve de maneira empolgante e emocionante suas aventuras em várias partes do mundo. Para o senhor, qual foi a experiência mais inspiradora em suas atividades ao redor do mundo?

Indradyumna Swami: A mais profunda lição que aprendi como monge viageiro é que, em todo lugar, por todo o globo, as pessoas estão tentando ser felizes. Contudo, a maioria das pessoas está experimentando sofrimento. Isso aconteceu porque estão buscando pela felicidade no lugar errado. As pessoas estão em ilusão no que diz respeito à sua identidade, pensando que são o corpo em vez de compreenderem que são almas espirituais. A natureza da alma é eternidade, conhecimento e bem-aventurança. Porém, como as pessoas não estão cientes de sua natureza espiritual, elas buscam por felicidade em seus corpos e nos corpos alheios de carne e ossos em vez de buscarem em seu relacionamento espiritual eterno com Krishna e com outras almas. Em consequência disso, as pessoas sentem-se cada vez mais desconectadas e vazias, com distúrbios mentais como estresse, ansiedade e depressão. Essa é a grande tragédia da dita civilização atual. Embora sejamos avançados em ciência e tecnologia, somos primitivos no que diz respeito a experimentarmos espiritualidade, relacionamentos amorosos e genuína felicidade.

Volta ao Supremo: De onde veio a ideia de escrever o diário? Que resposta ele recebeu e recebe da comunidade dos devotos e das pessoas em geral?

Indradyumna Swami: Vejo um materialismo desenfreado e um colossal sofrimento por todo o mundo, o que enche meu coração de compaixão. Viajo e compartilho minhas experiências como um monge viageiro para mostrar às pessoas a alternativa à existência materialista sem sentido: os ensinamentos do Bhagavad-gita e o estilo de vida consciente de Krishna. Todos os dias faço isso e todos os dias deparo-me com o milagre de ver pessoas repentinamente se despertando para sua natureza espiritual. São momentos transformacionais profundos, que sempre ampliam minha fé pessoal no poder da consciência de Krishna. Sinto-me espiritualmente despertado e inspirado por essas experiências, daí eu escrever para compartilhar com outros, os leitores do Diário de um Monge ao Redor do Mundo. Meus leitores frequentemente reportam que também se sentem espiritualmente inspirados e, consequentemente, têm mais desejo de ler os relatos, o que me encoraja em meu serviço.

Volta ao Supremo: Lendo o diário do senhor, alguns devotos sentem que, diferentemente da vida aventureira do senhor, suas vidas são bastante monótonas. O que os devotos podem fazer para tornar suas vidas conscientes de Krishna mais dinâmicas?

Indradyumna Swami: Tornar-se consciente de Krishna é a aventura suprema. O caminho é repleto de desafios e obstáculos, mas a recompensa é o maior de todos os tesouros: liberdade do ciclo de nascimentos e mortes e, o mais importante, ingresso na morada pessoal de Krishna para servirmos em Seus passatempos eternos. Como em qualquer aventura, se ficarmos descuidados e displicentes, seremos vitimados pela natureza material e consideraremos nossa vida como tediosa e monótona. Se estivermos no fogo da consciência de Krishna, experimentaremos todos os dias como grandes festivais. Essa percepção se torna particularmente tangível quando nos concentramos em compartilhar a consciência de Krishna com outros. Nós, então, não mais nos concentramos em nós mesmos, mas em Krishna e nos outros, e Krishna nos dotará com poderes especiais para O representarmos. Isso nos entusiasmará e tornará mais forte a nossa fé. Não existe uma aventura maior do que compartilhar Krishna com as pessoas que se esqueceram dEle.

Volta ao Supremo: A mesma cultura indiana que está sendo cada vez mais aceita no Ocidente está sendo, da mesma forma, cada vez mais deixada de lado na Índia. O que o senhor pensa disso?

Indradyumna Swami: A falta de apreciação da Índia por sua própria sabedoria e cultura espiritual é a pior das tragédias e um sintoma do avanço da era de Kali, e é um dos temas frequentes em meu Diário de um Monge ao Redor do Mundo. A Índia abandonar seu próprio tesouro cultural em favor das alternativas ocidentais é como um tolo que rejeita um pote de ouro por um pedaço de ferro. Não sou contra a ciência e a tecnologia ocidentais, mas estas não devem ser adotadas a custo da herança legitimamente espiritual da Índia. Em vez disso, a ciência e a tecnologia ocidentais devem ser adotadas em adição à profunda sabedoria espiritual da Índia. Se temos tecnologia sem a sabedoria de como utilizá-la, isso nos conduzirá à destruição.

A civilização ocidental não apenas pariu a tecnologia, mas também a maior destruição que o mundo já viu. Isso inclui a destruição do meio ambiente, o colapso dos valores sociais, a extinção de culturas antigas e a morte do amor, da felicidade e da compaixão, com um grande aumento do individualismo egoísta. Portanto, tecnologia não é algo suficiente para uma sociedade pacífica e harmoniosa. Precisamos de valores espirituais e sabedoria para nos guiarem no uso da tecnologia de modo que esta seja benéfica, e não destrutiva.

Preocupa-me particularmente ver a Índia negligenciar Vrndavana, a terra sagrada dos passatempos de Krishna, no norte da Índia. Há mineração nas colinas sagradas de Vrndavana, o rio Yamuna está terrivelmente poluído, e os locais sagrados estão sendo sobrecarregados por projetos de desenvolvimento comercial. Esses tesouros da grande herança da Índia não devem ser destruídos. Eles são patrimônio do mundo, não apenas da Índia. Os locais sagrados, templos, histórias e sadhus de Vrndavana têm todos de ser preservados para o benefício das gerações futuras.

Entrevista conduzida por Caitanya Carana Dasa, tradução de Bhagavan Dasa

6 Respostas

  1. Bhakta Carlos

    Gostei muito da entrevista. Apesar do que o Maharaji falou, eu sinto mesmm que minha vida espiritual é um pouco enfadonha perto da dele. :/ Espero um dia ter disponibilidade para participar de um serviço desse tipo.

    31 de agosto de 2012 às 11:16 AM

  2. Hugo Karam

    Analisando a entrevista com Indradyumna Swami vejo uma contradição na sua estratégia de pregação em dois momentos:
    1) quando diz que serviu como fuzileiro naval dos Estados Unidos e participou da invasão do Vietnã com a missão de combater o avanço do comunismo;
    2) quando denuncia que existe empresa de mineração nas colinas sagradas de Vrndayana, poluindo os rios, e de empresas de tecnologia ocidentais destruindo os valores sociais do mundo………… Omite o responsável e “Job Leader” desse processo do avanço da causa de todos os males da humanidade que é a política predatória dos Estados Unidos.

    Quando o mestre espiritual, A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada saiu da India para pregar no USA os ensinamentos do Bhagavad-gita e o estilo de vida consciente de Krishna sabia que era um povo expansionista, beligerante e carente de amor fraterno.
    Acredito que mais do que nunca o trabalho de resgate de valores morais, éticos, humanitários e espirituais dos americanos ainda não terminou.
    Com relação aos povos explorados pelo poder financeiro centralizado nos USA, ainda continuam acreditando no modelo “american life”, se iludindo através do consumismo e do pagamento com as perdas dos seus recursos naturais e da identidade da sua cultura.

    Abs
    Hugo Karam
    Tel.: 21 9474 0097

    2 de setembro de 2012 às 12:04 AM

    • Advaita das

      Olá Hugo Karam. Como está? Espero que esteja bem.

      Pessoalmente discordo por completo do primeiro ponto que chama de contradição na estratégia de pregação e discordo parcialmente do segundo ponto.

      Antes de tudo, pergunto-me até mesmo se havia uma estratégia de pregação quando Indradyumna começou sua entrevista. Talvez apenas tenha sido sincero em contar sua vida, sem diplomacia. Contou o que foi, fuzileiro naval em missão de combater o avanço do comunismo, e, com efeito, disse que pediu baixa por objeção de consciência. Se o senhor acha que ele procedeu mal em ter sido fuzileiro, ele agrada por ter saído à época, já mostrando ter consciência à época do equívoco. Mesmo se não houvesse saído à época, mas apenas depois de ter conhecimento o Movimento da Consciência de Krsna, não deveria ter nenhum motivo para omitir ou mentir sua história – com “estratégia”, diplomacia, interesse em passar uma imagem santa etc. –, pois nossa história ruim antes de conhecer uma religião apenas sublinha o poder reformador dessa religião e assim a glorifica.

      Em relação ao segundo ponto, concordo que ele não foi à causa primária da exploração, o que poderia ter feito – possivelmente não o fez para não se alongar em um tópico digressivo. Contudo, também não é um erro lidar com as causas finais. Colocaria ainda, com a permissão do senhor, que a causa da exploração do mundo não é a mentalidade dos Estados Unidos, mas a mentalidade de todas as nações que se baseiam no gozo dos sentidos. Os Estados Unidos é apenas mais uma nação que se baseia no gozo dos sentidos como a meta da vida, com o diferencial de ter poder para isso.

      Encerro elogiando-o por expor sua opinião de maneira madura e, mesmo em discordância, de maneira respeitosa. O senhor disse que “analisou” a entrevista, pelo que também agradeço, pois são poucos os que estão dispostos a analisar nossos líderes e seus dizeres para assim se beneficiarem, preferindo apenas leituras rápidas e sem senso crítico. Espero que analise a fundo os livros de Prabhupada e de outros acharyas e assim faça bom sua de sua inteligência.
      Indradyumna Swami ki jay!

      Seu servo,
      Advaita das

      3 de setembro de 2012 às 9:00 AM

  3. Sim, eu adorei a entrevista. Sou astróloga indiana e fiz o mapa dele. Tem marte com rahu em aries, um signo belicoso, de modo que era carma dele entrar nas forças armadas. Ele trascende o carma ao deixá-la.

    O que me pergunto é por que Deus deixa Vrindavana ser destruída? Qual o propósito? Será que houve tantas ofensas a Vrindavana que Ele está deixando-a ser destruída?

    4 de setembro de 2012 às 12:05 PM

  4. Wando Azevedo

    Parebéns ao blog Volta ao Supremo por esta excelente materia, pregação, feita com Sua Santidade Indradyumna Swami Maharaja. Fiquei impressionado e admirado pelos trabalho que Maharaja está fazendo ao redor do mundo. Vou adquirir seu livro e vou ler com muita humildade, atenção e admiração… quem sabe eu possa prestar algum serviço relevante à ISKCON de Srila Prabhupada. Querendo servir sempre… Vrindavana das. (Ibiá-MG)

    7 de setembro de 2012 às 11:43 AM

  5. luciane abreu

    Srila Prabhupada ki jay!
    Indradyumna Swami Maharaja ki jay!

    9 de outubro de 2012 às 7:43 AM

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