Mehandi, Arte para o Corpo e o Espírito

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Volta ao Supremo entrevista Rosana Araújo, tatuadora de mehandi, que fala sobre essa forma de arte ainda pouco popular no Brasil. 

Volta ao Supremo: O que é mehandi? Qual sua origem e propósito?

Rosana Araújo: O mehandi, ou mehndi, é como se chama na Índia a própria planta (Lawsonya Inermis) com a qual é feita a pasta, de mesmo nome, para a execução da arte de decoração corporal, que também se chama assim. Ou seja, a planta, a pasta e a arte possuem o mesmo nome. Henna é seu nome de origem persa.

Sua origem exata é muito difícil de afirmar, pois, sendo uma arte efêmera e mais relacionada ao universo feminino, não houve muitos registros, ou poucos deles restaram, para que possamos ter precisão histórica. No entanto, os artefatos históricos mais antigos que remetem ao mehandi datam de 6000 a.C. nas regiões onde são hoje a Turquia, Síria e Ilhas Gregas.

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Autotatuagem, de Rosana Araújo, feita em 2010.

Sabe-se que a henna foi o primeiro cosmético usado na humanidade, mas a origem de seu uso também está relacionada às suas propriedades medicinais, sendo usada como antisséptico natural e fortalecedor da pele, unha e cabelos, uma vez que estimula a produção de queratina nas células.
O propósito do uso da henna, na verdade, é bastante amplo, e varia muito de cultura para cultura e de época para época. Está relacionada ao mundo feminino, aos ciclos menstruais, à autoestima, à natureza passageira e cíclica da própria vida, a rituais de purificação, a ritos de passagem, à celebração da vida, à beleza, alegria e troca de afeto.

Volta ao Supremo: Como nasceu seu interesse por mehandi? Como se deram seus estudos e prática?

Rosana Araújo: Tenho alguma vaga lembrança de ter visto algo na televisão na infância e ter me apaixonado. Sabia que ia fazer isso um dia. No entanto, não planejei isso quando fui à Índia.

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A entrevistada aplicando mehandi em uma noiva da cidade de Curitiba, PB, Chitralekha Devi Dasi, em 2012. Foto de Draupadi Devi Dasi.

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As mãos e braços da mesma noiva com a arte concluída.

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Mehandi nos pés e canela de Chitralekha, também para a ocasião de seu casamento.

Foi por acaso que encontrei um lugar onde se ensinava, e fui a única aluna naquele período. A professora disse que raramente alguém completava, pois geralmente desistiam no percurso. Minha intenção foi criar uma situação que me forçasse a praticar aquela linguagem gráfica para que eu a incorporasse e pudesse utilizá-la com espontaneidade no meu trabalho artístico. Não imaginei naquele momento que eu viria usar a técnica como meio de trabalho. Pensei que poderia ser uma forma de contribuir nos festivais vaishnavas de modo a enriquecer as atrações.

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A entrevistada aplicando mehandi em um evento vaishnava em um hotel do interior de Minas Gerais, em 2013. Foto de Paulo Lafetá.

Volta ao Supremo: De que modo sua formação acadêmica em Belas Artes e sua personalidade influem em seu estilo de Mehandi?

Rosana Araújo: Minha formação me facilita muito na percepção das formas e como combiná-las, como recriá-las, na composição e no desenho em si. Devido ao costume, aprendo com o olho, e sei o quanto a prática é importante, e como funciona o processo de autoaperfeiçoamento na arte gráfica.

Não sei como minha personalidade pode influenciar, mas não considero, na verdade, que tenho um estilo ainda. Tenho com certeza um traço característico, como cada um tem, que também é definido pelo gosto pessoal. Ainda faço muitos experimentos e gosto de sempre fazer o que nunca fiz antes. Assim, não sei se chegarei a ter um “estilo” particular.

Volta ao Supremo: Que tipo de público no Brasil se interessa por ter essa arte em seu corpo?

Rosana Araújo: Principalmente mulheres, de todos os níveis. Há quem goste de algo pequeno e discreto, e outras que querem o corpo todo tatuado! As que aparentemente não gostam, muitas vezes é por que não conhecem, ou porque o tipo de trabalho que exercem ainda enxergam esse tipo de arte com preconceito. Sou especialmente bem-vinda em círculos de yoga.

Volta ao Supremo: Além de aplicar pessoalmente mehandi, você facilita cursos ensinando o mesmo. Qual o nível de dificuldade desse aprendizado? Quais são os tipos de desenhos que você mais gosta e pelos quais os aprendizes demonstram maior interesse?

Rosana Araújo: O mehandi é uma arte fácil para quem tem paciência e autoconfiança. A primeira maior dificuldade das alunas, ou alunos, é com a autocrítica, pois tendem a comparar seus desenhos uns com os outros, ou até com os meus. Explico que cada um tem um traço e um tempo de desenvolvimento. A segunda maior dificuldade está em entender que este desenvolvimento vem com a prática, e precisa de muita prática, exatamente como quando se aprende a tocar um instrumento musical. Na verdade, a turma tende a apreciar bastante o assunto sobre os símbolos e as tradições antigas ligadas ao casamento e gravidez. Eu gosto sempre dos desenhos e composições mais inusitados.

Volta ao Supremo: Você trabalhou com a equipe de caracterização da novela Caminho das Índias, da rede Globo? Como foi a experiência?

Rosana Araújo: Eu dei aulas para a chefe de caracterização, Marlene Moura, e uma aula para a equipe. Foi uma aula como outra qualquer, porém me senti especialmente valorizada pela grande profissional que a Marlene Moura é, pelo respeito com o qual me tratou e o incentivo que me deu.

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Carolina Oliveira, na festa de abertura da novela Caminho das Índias, posa do lado de Rosana Araújo expondo o mehandi feito por ela.

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Cacau Mello, no mesmo evento ligado à novela da rede Globo.

Volta ao Supremo: Depois de concluído esse curso de instrução, os alunos têm facilidade em conseguir todo material de que precisam? Como é o fornecimento disso no Brasil?

Rosana Araújo: A maior dificuldade em se trabalhar com henna no Brasil é pelo fato de a henna natural perder sua potência de coloração muito rapidamente. Ela já não pode ser produzida e comercializada no Brasil, pois é patenteada pela Índia, e não adianta comprar em quantidade, pois ainda há pouca procura, e ela perde logo suas propriedades. O jeito é comprar em pouca quantidade o que se sabe que vai usar. No curso, eu ensino todas as técnicas de conservação, algo que se vai entendendo melhor com a prática, pois, por ser um produto natural, cada planta funciona de um jeito.

Há vários fornecedores internacionais de confiança na internet, e eu dou o contato de todos eles para os alunos. Muitas vezes, eles próprios em suas pesquisas acabam contribuindo com algo novo para o nosso trabalho. Também dou toda informação de como conseguir comprar uma henna de boa qualidade, caso viajem para a Índia ou Oriente Médio e tenham oportunidade de comprar a henna em seu local de origem.

Volta ao Supremo: O material e as técnicas utilizados têm alguma ligação com o que vemos popularmente na rua divulgado como “tatuagem de henna”?

Rosana Araújo: Não! Somente o nome é igual. Esse produto, bem como a maioria dos produtos usados para tingir sobrancelhas, não têm henna verdadeira nenhuma em sua composição. Sua fórmula é puramente química e, na maior parte dos casos, altamente tóxica e cancerígena, inclusive. Nos cursos, também ensino tudo sobre isso, e como diferenciar um produto do outro.

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Urticária decorrente da aplicação da composição química por vezes chamada erroneamente de “henna”.

Volta ao Supremo: Junto do grafite urbano, esculturas em areia, tapetes de flores e outras artes, o mehandi é, como você colocou, uma arte efêmera, durando menos de um mês no corpo da pessoa. Como artista, é difícil ter de lidar com o desapego de saber que sua arte se perderá? Ou esse sentimento não existe?

Rosana Araújo: É justamente aí que mora a beleza! Só fico com pena quando o trabalho não é fotografado, pois, geralmente, não repito nenhuma composição, e o registro fotográfico, além me ajudar na inspiração de novos trabalhos, também ajuda na divulgação.

Volta ao Supremo: Você tem algum sonho ligado a mehandi, como produzir dançarinas em alguma apresentação importante na Índia ou algo similar?

Rosana Araújo: Meu sonho é que a arte do mehandi se torne uma arte popular no Brasil, e talvez um dia ter uma marca de produtos voltada para esse universo.

Volta ao Supremo: Por fim, como praticante de bhakti-yoga, o yoga do serviço devocional, como é possível conectar mehandi à espiritualidade?

Rosana Araújo: Conecto meu trabalho de mehandi à espiritualidade e ao serviço devocional de várias maneiras. Vou citar somente algumas mais fortes pra mim atualmente.

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Rosana ao lado da amiga muçulmana Zahra Budakian, que mostra com alegria o mehandi aplicado nas mãos.

Realmente, ainda não entendo completamente o porquê, mas parece que muitas das pessoas que procuram este trabalho já o fazem com uma intenção espiritual. Elas acreditam que isso as pode ajudar a se reconectarem com Deus (ou com o sagrado, divino, como quer que chamem). Mais tarde, aprendi com doisdevotos de Krishna especialistas em ayurvedaprabhu Krishna Kishora e prabhu Keli Parayana – que a henna possui a propriedade aromaterápica de estimular a glândula pineal, que é a região da espiritualidade e mediunidade no cérebro. Ou seja, o aroma da henna ajuda as pessoas a se tornarem mais perceptivas espiritualmente. Junto com o fato de a henna estar envolta em tradições antigas conectadas a rituais de passagem que facilitem a vida espiritual, sempre surge muito assunto para se falar de Krishna, ou simplesmente falar de Deus, ou espiritualidade, de uma forma que possa ser bem absorvida por todos. Isso estimula todo o grupo. Cada um encontra seu propósito pessoal em estar ali, seja aprendendo, seja recebendo a henna. Eu, particularmente, vejo a própria beleza, a arte, como uma forte maneira de perceber a presença de Deus entre nós e em nós.

O trabalho com mehandi me propicia estar inserida em diferentes grupos, conhecer e até conversar intimamente com muitas pessoas. Com isso, aprendo muito e exercito minha capacidade de doar amor mais abundantemente nos contatos pessoais, muitas vezes inusitados, que este trabalho oferece.

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Para informações sobre os próximos cursos de mehandi e outros contatos: https://www.facebook.com/RosanaAraujoMehandi.

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