O Cantar de Hare Krishna

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Mukunda Gosvami: Muitas vezes você diz ser um devoto à paisana, um yogi disfarçado ou um “Hare Krishna disfarçado”, e milhões de pessoas em todo o mundo foram induzidas ao canto através de suas canções. Mas e você? Como foi seu primeiro contato com Krishna?

George Harrison: Meu primeiro contato se deu através de minhas visitas à Índia. Pela época em que o movimento Hare Krishna veio pela primeira vez à Inglaterra, em 1969, John e eu já tínhamos conseguido o primeiro disco de Prabhupada, o “Krishna Consciousness”. Nós o tocamos bastante e gostamos muito. Essa foi a primeira vez que ouvi o canto do maha-mantra.

Mukunda: George, em sua autobiografia – I, Me, Mine –, você diz que sua canção “Awaiting on You All” é sobre japa-yoga, ou cantar mantra em contas. Você explica que mantra é uma “energia mística contida em uma estrutura sonora”, e que “cada mantra contém determinado poder dentro de suas vibrações”. De todos os mantras, no entanto, você afirmou que o “maha-mantra, o mantra Hare Krishna, é prescrito como a maneira mais fácil e segura de, na atual era, compreendermos Deus”. Como praticante de japa-yoga, que experiências você tem tido ao cantar?

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George Harrison com os devotos de Krishna na cidade sagrada de Vrindavana. À sua direita, Mukunda Maharaja.

George: Prabhupada disse-me certa vez que devemos simplesmente nos manter cantando o tempo todo, ou tanto quanto possível. Ao fazer isso, você percebe o benefício. O fruto de se cantar é a bem-aventurança, ou a felicidade espiritual, que tem um sabor muito superior a qualquer outro encontrado aqui no mundo material. É por isso que digo que, quanto mais você canta, menos você quer parar, porque é uma sensação muito boa de paz.

Mukunda: Que há no mantra que provoca esse sentimento de paz e felicidade?

George: A palavra Hare é a palavra que invoca a energia que envolve o Senhor. Se você canta o mantra bastante, cria uma identificação com Deus. Deus é felicidade plena, bem-aventurança plena, e, cantando Seus nomes, nos unimos a Ele. Assim, este é um processo de realmente compreender Deus, processo este que torna tudo claro com o estado de consciência expandida que se desenvolve quando você canta. Como eu disse na introdução que há alguns anos escrevi para o livro Krishna, de Prabhupada: “Se Deus existe, quero vê-lO. É inútil crer em algo sem ter provas, e a consciência de Krishna e a meditação são métodos através dos quais realmente podemos perceber Deus”.

Mukunda: É um processo instantâneo ou gradual?

George: Não é algo de cinco minutos. É algo que demanda tempo, mas funciona, pois, sendo um processo direto para se alcançar Deus, nos ajudará a ter consciência pura e boa percepção, acima do estado normal e cotidiano de consciência.

Mukunda: Como você se sente após cantar por longo tempo?

George: Na vida que levo, às vezes observo que tenho oportunidades em que posso cantar verdadeiramente, e, quanto mais o faço, sinto que é mais difícil parar, e não quero perder a sensação que isso me traz.

Por exemplo, cantei o mantra Hare Krishna certa vez durante o percurso entre França e Portugal, sem parar. Dirigi cerca de vinte e três horas e cantei o tempo todo. É algo que faz você se sentir muito incrível. O engraçado é que eu nem mesmo sabia para onde estava indo. Ou seja: eu tinha comprado um mapa e sabia basicamente para onde eu me dirigia, mas não sabia falar francês, espanhol ou português. Se bem que nada disso parece importante. Você sabe, quando você começa a cantar, tudo passa a acontecer de maneira transcendental.

Mukunda: Os Vedas nos informam que, como Deus é absoluto, não há diferença entre a pessoa de Deus e Seu santo nome: o nome é Deus. Quando você começou a cantar, pôde perceber isso?

George: É necessário um pouco de tempo e fé para compreender que não há diferença entre Ele e Seu nome, para chegar ao ponto em que você não é mais mistificado sobre onde Ele está. É o tal negócio: “Será que Ele está aqui perto?”. Você compreende após algum tempo que “Ele está aqui, bem aqui!”. É uma questão de prática. Assim, quando digo que vejo Deus, não quero necessariamente dizer que, ao cantar, vejo Krishna em Sua forma original, com a qual Ele veio aqui cinco mil anos atrás, dançando em cima da água, tocando Sua flauta. Evidentemente, isso também seria ótimo, e é certamente possível também. Quando você, ao cantar, torna-se realmente puro, você pode ver Deus dessa maneira, ou seja, pessoalmente. Contudo, não há dúvida de que você pode sentir a presença dEle e saber que Ele está presente quando você canta.

Mukunda: Você pode se lembrar de algum incidente em que, através do canto, sentiu muito fortemente a presença de Deus?

George: Certa vez eu estava em um avião que passava por uma tempestade cheia de relâmpagos. Ele foi atingido por raios três vezes, e um Boeing 707 passou bem em cima de nós, faltando muito pouco para colidir com nosso avião. Pensei que a calda do avião havia explodido. Eu estava viajando de Los Angeles para Nova Iorque a fim de organizar o concerto para Bangladesh. Logo que o avião começou a sacudir, comecei a cantar Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Aquilo continuou por cerca de uma hora e meia ou duas horas, o avião baixando centenas de metros e sacudindo em meio à tempestade, todas as luzes apagadas e todas aquelas explosões. Todos estavam aterrorizados. Acabei com meus pés prensados contra o assento da frente, meu cinto de segurança o mais apertado possível, e eu cantando Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare ao máximo de meus pulmões. Sei que saí vivo daquilo porque cantei o mantra. Peter Sellers também jura que se salvou certa vez de um desastre aéreo por ter cantado Hare Krishna.

Mukunda: Qual é a diferença entre cantar Hare Krishna e meditação?

George: Na verdade, cantar é o mesmo que meditar, mas creio que tem efeito mais rápido. Mesmo que você deixe as contas de lado, você ainda pode entoar o mantra ou cantá-lo sem precisar se valer das contas. Uma das principais diferenças entre meditação silenciosa e cantar Hare Krishna é que a meditação silenciosa depende mais de concentração, mas, quando você canta, trata-se de uma ligação mais direta com Deus.

Mukunda: O maha-mantra foi prescrito para os tempos modernos devido à natureza agitada da modernidade. Mesmo quando as pessoas encontram um local sereno, é muito difícil acalmar a mente por muito tempo.

George: Isso é verdade. Cantar Hare Krishna é uma espécie de meditação que se pode praticar mesmo quando a mente está turbulenta. Você pode inclusive estar cantando e fazendo outras coisas ao mesmo tempo. Isto é muito bom. Em minha vida, muitas vezes o mantra organizou tudo para mim. Ele me mantém em harmonia com a realidade, e, quanto mais você se senta em um lugar e canta, quanto mais incenso você oferece a Krishna no mesmo quarto, quanto mais você purifica a vibração, tanto mais você pode alcançar aquilo que está tentando fazer, que se resume em tentar lembrar-se de Deus, Deus, Deus, Deus, o mais frequentemente possível. E se você fala com Ele através do mantra, decerto isso ajuda.

Mukunda: Você canta frequentemente?

George: Sempre que tenho a oportunidade.

Mukunda: Uma vez você fez uma pergunta a Srila Prabhupada sobre um verso védico em particular, no qual se afirma que, quando cantamos o santo nome de Krishna, Krishna dança em nossa língua e desejamos ter milhares de ouvidos e milhares de bocas com os quais possamos apreciar melhor os santos nomes de Deus.

George: Sim. Creio que ele estava falando sobre a compreensão de que não há diferença entre Ele estar diante de você e estar presente em Seu nome. Esta é a verdadeira beleza do canto: você se liga diretamente a Deus. Não tenho dúvidas de que, dizendo “Krishna” repetidamente, Ele pode vir e dançar em minha língua. O ponto principal, contudo, é manter-se em contato com Deus.

Mukunda: Então, seu hábito é usar as contas enquanto você canta?

George: Ah! Sim. Tenho minhas contas. Lembro-me de que, quando as consegui, elas eram apenas esferas de madeira ásperas, mas agora me alegra dizer que, de tanto cantar, elas se tornaram polidas.

Mukunda: Em geral, você as mantém dentro do saquinho quando canta?

George: Sim, acho muito bom ficar tocando-as. Isso mantém outro dos sentidos fixo em Deus. As contas realmente ajudam neste aspecto. O que me frustrava um pouco no começo era as pessoas perguntarem: “Você machucou a mão, quebrou-a ou algo assim?”, só porque eu estava com muita vontade de cantar e mantinha minha mão no saquinho de contas o tempo todo. Usar as contas também me ajuda a descarregar grande quantidade de energia nervosa.

Mukunda: Algumas pessoas dizem que, se todos do planeta contassem Hare Krishna, não seriam capazes de manter suas mentes naquilo que estivessem fazendo. Em outras palavras, algumas pessoas perguntam se o mundo inteiro não iria parar caso todos adotassem o canto. Elas imaginam que as pessoas parariam de trabalhar em fábricas, por exemplo.

George: Não. Cantar não o impede de ser criativo e produtivo. Ao contrário, ajuda a concentrar-se mais. Acho que este seria um bom tema para a televisão: imagine todos os trabalhadores na linha de montagem da Ford em Detroit cantando “Hare Krishna, Hare Krishna” enquanto parafusam rodas. Seria algo maravilhoso. Poderia inclusive ajudar a indústria automobilística, e provavelmente fabricariam carros mais decentes.

Mukunda: Falamos bastante sobre japa, ou o canto personalizado que a maioria dos cantores pratica. No entanto, há outra categoria chamada kirtana, ou seja, o canto congregacional no templo ou nas ruas, com um grupo de devotos. O kirtana geralmente produz um efeito mais sobrecarregado, como se recarregasse nossas baterias espirituais, e dá aos outros a oportunidade de ouvir os santos nomes e se purificar.

Na verdade, eu estava com Srila Prabhupada quando ele começou o canto em grupo no parque Tompkins Square, no Lower East Side de Nova Iorque, em 1966. O poeta Allen Ginsberg costumava ir cantar muito conosco, tocando seu harmônio. Muitas pessoas vinham ouvir o canto, e depois Prabhupada dava aulas do Bhagavad-gita quando voltávamos ao templo.

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George Harrison cantando Hare Krishna com os devotos na modalidade kirtana.

George: Sim, no templo, ou cantando com um grupo de pessoas, a vibração torna-se muito mais forte. Claro que, para certas pessoas, é difícil cantar em suas contas em meio a multidões, enquanto outras se sentem mais à vontade cantando no templo. Faz parte da consciência de Krishna tentar ocupar todos os sentidos de todas as pessoas. É preciso experimentar Deus a todo instante e através de todos os sentidos, e não apenas aos domingos, ajoelhando-se em algum banco duro de igreja. Porém, se você visita um templo, pode ver retratos de Deus, pode ver a forma da Deidade do Senhor e pode simplesmente ouvi-lO, ouvindo a si mesmo e os demais pronunciando o mantra. Isto é apenas um modo de compreender Deus, o que torna o processo muito mais convidativo e atrativo: ver quadros, ouvir o mantra, cheirar incenso, flores e assim por diante. Isto é o que há de bom em seu movimento. Ele incorpora tudo: o canto, a dança, a filosofia e a prasada. A música e a dança também ocupam posições importantes no processo. Não se trata apenas de algo para queimar o excesso de energia.

Mukunda: Sempre observamos que, ao cantarmos na rua, as pessoas tendem a aglomerar-se em volta e ouvir. Muitas delas batem os pés e dançam conosco.

George: É incrível o som dos címbalos. Quando os ouço a alguns quarteirões de distância, é como se algo mágico se despertasse em mim. Sem ter verdadeira consciência do que está acontecendo, as pessoas estão sendo despertadas espiritualmente. É óbvio que, em um sentido superior, o kirtana sempre continua, quer ouçamos, quer não.

Agora, na maioria das cidades ocidentais, o grupo de sankirtana é algo que se vê comumente. Adoro ver esses grupos de sankirtana, porque adoro a ideia de os devotos se misturarem com todos, dando a todos a oportunidade de se lembrarem. Escrevi na introdução do livro Krishna: “Todos procuram Krishna. Alguns não compreendem que estão procurando por Ele, mas estão. Krishna é Deus. Cantando Seus santos nomes, os devotos rapidamente desenvolvem a consciência de Deus”.

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6 Respostas

  1. Anônimo

    Inspiradora reportagem! Parabéns.

    22 de agosto de 2013 às 10:33 AM

  2. Lea Fabres

    Muito lindooooooo!

    22 de agosto de 2013 às 11:02 PM

  3. olavo

    Muito legal! Ele tinha muita fé.

    23 de agosto de 2013 às 2:55 PM

  4. Anônimo

    Muito divino. É isso que o mundo precisa. O homem ocupar sua mente em Krishna. Haribole!

    1 de setembro de 2016 às 6:55 PM

  5. Resido na cidade de Cajazeiras no Estado da Paraiba e aqui infelizmente nao tem o movimento Hare Krishna aqui onde resido no alto sertao da paraiba e cajzeiras tornou – se polo educacional e ha muitas religioes nesta cidade mas necessita de Krishna. Abs!

    23 de janeiro de 2017 às 10:19 PM

  6. Anônimo

    Legal, Haribol

    25 de março de 2017 às 1:00 PM

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