O Fogo Divino do Santo Nome

agnideva dasaEntrevista com Agnideva Dasa –

Agnideva Dasa, destacado músico internacional, conta como deu início a seu envolvimento com o canto de mantras.

Este material foi produzido em entrevista feita pela primeira turma do Curso de Estudos e Práticas Monásticas de Bhakti-yoga, promovido pelo IBEV, em parceria com a Volta ao Supremo.

Eu migrei de Trinidad para Nova Iorque em 1970. Naquele momento, eu tinha 21 anos. Nessa época, não havia devotos em Trinidad, de modo que eu não sabia de nada, não conhecia ninguém. Foi em 1971 a primeira vez que encontrei os devotos, em Nova Iorque. Eles estavam cantando na cidade, e eu fiquei muito atraído por aquela vibração sonora, embora eu não soubesse o que era aquilo que eles estavam falando. Eles tocavam tambores e karatalas e pareciam estar muito felizes.

Eles, em um momento, me abordaram, e aproveitei para perguntar o que era aquilo que eles estavam fazendo. Então, me convidaram para ir ao templo naquele mesmo dia e me serviram prasada [alimento santificado] e me ocuparam em serviço. Conforme anoitecia, eu disse: “Tenho que ir agora”, mas eles responderam rindo: “Não, você não tem!” A persistência deles me fez passar a noite ali. De alguma forma, mesmo eu não conhecendo ninguém, eu confiava que tudo ficaria bem.

Havia algo nos devotos que me fazia pensar que não havia com o que me preocupar. Desde esse dia, eu comecei a ir todo domingo ao templo. Então, passei a noite no templo e eles me acordaram para o programa matinal. No café da manhã, eu sabia que já era a hora de partir, e, dessa vez, eles não iriam me impedir! Eu vi o jeito que eles viviam e era muito austero, de modo que, assim que saí de lá, eu pensei: “Eu não conseguiria viver dessa forma.” Eu respeitava as convicções deles, mas eu não me via vivendo daquele jeito.

Agnideva em entrevista ao IBEV.Agnideva em entrevista ao IBEV.

Eu chegava mais cedo para poder fazer perguntas e poder entender como eles pensavam. Fiz isso continuamente por 6 meses. Certa vez, em 1972, eu fui ao festival de domingo. Pensei em chegar cedo para poder conversar com os devotos, pois esse era o jeito que eu aprendia, era como eu me sentia confortável para fazer minhas perguntas. No festival de domingo, o devoto perguntava se alguém tinha alguma pergunta, e eu tinha muitas, mas era tímido para perguntar em meio à multidão.

Os devotos, certa vez, disseram que Prabhupada estava no aeroporto, que estava chegando para dar a palestra de domingo. No dia de sua palestra, eu me sentei bem perto dele para poder conseguir ouvir tudo o que ele tinha a dizer. Ao fim do encontro, eu me sentia muito cativado e, pela primeira vez, pensei em me juntar a eles.

Levei alguns meses para conseguir me desvencilhar de tudo que eu tinha que fazer para, finalmente, ir morar no templo. Eu morei no templo de Nova Iorque por 2 anos. O serviço que eles me deram foi participar do harinama [canto de mantras em procissão pelas ruas] todos os dias das 9 da manhã até as 6 da noite, de segunda a quinta, e sexta e sábado até as 10 da noite, cantando o tempo todo.

Um dia, quando eu cheguei do harinama, o presidente do templo sentou-se comigo e perguntou se havia algo na consciência de Krishna que eu não gostava. Eu disse que não: eu gostava de tudo. Ele, então, perguntou de novo: “Tem algum serviço que você preferiria não fazer?” Eu disse: “Bem, existe um serviço que eu preferiria não fazer. É somente um serviço. Eu posso fazer todos os outros.” Ele perguntou: “Qual é esse serviço?” E eu disse: “Eu preferiria não sair à rua cantando.”

Eu acho que eu era muito vaidoso. Eu não queria que ninguém me visse de cabeça raspada. Antes, eu tinha um cabelão, como era comum entre as pessoas nos anos 70. As pessoas tinham o cabelo grande, como do Jimi Hendrix, e eu gostava desse tipo de cabelo. Com a cabeça raspada, eu sentia como se estivesse nu. Porém, o presidente do templo foi muito esperto e me enganou. Ele disse que, diante disso, o serviço perfeito para ele seria ele sair e cantar pelas ruas. Sendo assim, eu tive que me render.

Um mês depois, o líder de harinama foi atrás de mim no banheiro, me entregou um tambor mridanga e disse: “Agora é a sua vez.” Ele disse: “Eu ouvi você cantando atrás de mim e você canta bem; daqui em diante, você vai liderar o canto.” Eu fiz os toques básicos e cantei para ele ouvir. Quando ele saiu do banheiro, eu fiquei esperando ele vir buscar a mridanga de volta, mas ele ficou apenas me olhando e disse: “Vá lá! Siga em frente.” Eu acabei cantando o dia inteiro.

No dia seguinte, durante o mangala-arati, quando cheguei ao templo, o presidente do templo disse que queria me ouvir cantar. Eu lhe disse: “Mas eu nem sei tocar mridanga.” Ele respondeu: “Eu toco para você.” Então, eu disse: “Mas eu não sei a letra da canção”, ao que ele respondeu: “Alguém segura o papel com a letra para você.” Dali em diante, eu comecei a cantar.

Certa vez, Srila Prabhupada veio a Nova Iorque mais uma vez, e o presidente do templo disse que nós iríamos receber Srila Prabhupada no aeroporto e que eu iria cantar para recebê-lo. Naquela época, a segurança era mais tranquila. Tudo mudou depois dos atentados de 11 de setembro. Quando o avião chegava, podíamos cantar bem perto do avião e jogar flores para Prabhupada por todo o caminho. Era como um pequeno festival.

Era evidente que Krishna fazia os arranjos para Prabhupada chegar e haver uma boa recepção, e assim era em todas as partes do mundo quando ele chegava. Aqueles que não eram devotos ficavam olhando, vendo como Prabhupada era glorificado, e a multidão naturalmente se perguntava quem era aquele homem. Todos os seus seguidores eram jovens, e ele era um senhor indiano, e as pessoas não conseguiam entender isso. Eles certamente se perguntavam: “O que eles veem nesse senhor?”

Quando Prabhupada estava chegando, eu pensava em como agradá-lo – era o que eu queria. Eu me perguntava qual das 6 melodias que conhecíamos eu deveria tocar, imaginando se Prabhupada tinha alguma melodia favorita. Eu ouvira dizer que uma das melodias que eu conhecia era a favorita de Srila Bhaktisiddhanta, o guru de Srila Pabhupada, de modo que eu pensei que Prabhupada iria gostar dessa. Então, ele saiu do avião e eu comecei a cantar o Prabhupada-pranama, em seguida Pancha-tattva e, depois, essa melodia com o mantra Hare Krishna. Quando Prabhupada ouviu a melodia, ele passou por mim, parou, olhou para trás, diretamente para mim, e, com um grande sorriso, disse: “Vamos lá!” Isso mudou a minha vida. Nesse dia, eu me dei conta de que só satisfazendo o mestre espiritual avançamos espiritualmente – yasya prasadad bhagavat-prasadah. Se não satisfazemos o guru, não há sucesso – na gatih kuto ‘pi. E toda vez que canto, eu penso nisso. Eu não canto para ficar famoso; a fama veio como subproduto. Eu canto para agradar Srila Prabhupada.

Transcrição: Laura Passos Peixoto. Revisão e edição: Bhagavan Dasa

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