Volta ao Supremo: Sua História e Seu Valor

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Publicada desde 1944, conheça a história da Volta ao Supremo, a revista oficial do Movimento Hare Krishna.

A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada começou a publicação da revista Volta ao Supremo na Índia. Foi com um grande esforço, graças a seu negócio farmacêutico, que conseguiu fazer arranjos para reunir as quatrocentas rúpias mensais necessárias para a publicação. E ele sozinho escreveu, corrigiu, projetou, financiou e distribuiu cada número. Naqueles tempos, Volta ao Supremo foi a principal obra literária e tarefa de pregação de Bhaktivedanta Swami, que havia imaginado uma ampla distribuição da revista e feito planos para difundir a mensagem de Sri Chaitanya pelo mundo inteiro. Inclusive tinha elaborado uma lista de países principais, assim como o número de cópias da Volta ao Supremo que queria enviar a cada um deles.

Desde os anos trinta, ele começou a escrever artigos. Srila Prabhupada estava convencido de que os cidadãos do mundo todo precisavam dos ensinamentos da consciência de Krishna. Convicto de que tinha uma mensagem urgente, pensou em começar uma publicação que apresentasse as crises mundiais a partir da visão das Escrituras, com o mesmo estilo direto do seu mestre espiritual. Não havia escassez de ideias, e tinha guardado algum dinheiro de seu próprio negócio com esta intenção. Em 1944, na sala de estar de seu apartamento em Calcutá, ele concebeu, escreveu, corrigiu, projetou e datilografou o manuscrito da sua revista. Ele lhe deu o nome Back to Godhead (Volta ao Supremo, em português), e adicionou os dizeres: “Editada e fundada por Abhay Charan De, sob a ordem direta de Sua Divina Graça Sri Srimad Bhaktisiddhanta Sarasvati Goswami Prabhupada”.

Embora tivesse escrito artigos desde os anos trinta, foi em 1944, em Calcutá, que ele começou sozinho a revista, respondendo assim ao requerimento do seu mestre espiritual de que pregasse em inglês a consciência de Krishna.

Os anos cinquenta, porém, foram muito difíceis para Srila Prabhupada. Após residir em um mosteiro em Delhi, ficou sozinho e desamparado, e ficava de semana em semana em diferentes templos, ou na casa de qualquer pessoa rica e piedosa que quisesse hospedá-lo como um renunciante. No que se refere a alimentos, roupas e hospedagens, aqueles tempos foram os mais difíceis que conheceria. Desde sua infância, sempre tivera comida adequada e boa roupa, e nunca tinha faltado onde morar. Tinha sido o filho predileto de seu pai, e tinha recebido especial direção e afeto de seu guru, Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati. Porém, durante os anos cinquenta, Srila Prabhupada estava sozinho.

Ele ocupava-se em escrever e pedir doações de pessoas a quem pregava a Bhagavad-gita. Sua maior aspiração não era achar uma residência permanente, mas, sim, publicar sua literatura transcendental e fundar um movimento poderoso para difundir a consciência de Krishna, e para isso precisava de dinheiro. Ele visitava pessoas ricas, em seus escritórios e lares, apresentando os seus manuscritos e explicando sua missão. Mas poucos respondiam; e quando o faziam, o donativo era somente 5 ou 10 rúpias. Por fim, todavia, reuniu o suficiente para imprimir novamente a Volta ao Supremo.

Sem dinheiro para comprar sequer roupas simples, Srila Prabhupada passou o frio inverno em Delhi sem agasalho. Ainda assim, regularmente caminhava até a gráfica para pegar as últimas provas da Volta ao Supremo. Quando o impressor lhe perguntou por que ele queria publicar seu periódico apesar de tantas dificuldades, ele apenas respondeu: “É minha missão”.

Ele fez um arranjo para pagar a gráfica em pequenas prestações. Após pegar as cópias na gráfica, Srila Prabhupada caminhava pela cidade vendendo-as. Ele se sentava numa casa de chá e, quando alguém se aproximava, ele pedia que, por favor, levasse um exemplar da Volta ao Supremo.

Com seus artigos e editoriais, Srila Prabhupada criticava as tendências materialistas e ateístas da civilização moderna. Também utilizava suas próprias experiências. Como resposta à resistência que encontrava ao vender a revista, escreveu um artigo intitulado: “Falta de Tempo: A Doença Crônica do Homem Médio”. Seus artigos nunca eram estridentes ou fanáticos, apesar de sua desesperada pobreza e a urgência de sua mensagem. Escrevia esperando achar um leitor preparado para escutar uma sólida filosofia e desejoso de aceitar a verdade, especialmente por esta se apresentar com lógica, de forma apropriada, e com autoridade.

Além de vender a Volta ao Supremo nas casas de chá e entregar cópias aos que davam donativos, Srila Prabhupada também enviava exemplares gratuitos pelo correio a pessoas tanto na Índia quanto no estrangeiro. Durante anos, a grandíssima quantidade de leitores de língua inglesa fora da Índia tinha lhe preocupado, e queria chegar até eles. Tinha reunido endereços de diretores de bibliotecas, universidades e delegações culturais e governamentais, todos eles fora da Índia, e enviava tantos exemplares da Volta ao Supremo quanto podia. Preparou uma carta para seus leitores ocidentais, sugerindo que deviam ser ainda mais receptivos do que os compatriotas dele.

Inclusive no calor do verão de Nova Delhi, época na qual a temperatura alcançava os 45 graus, Srila Prabhupada continuava saindo diariamente para vender sua publicação quinzenal. Certa vez, sofreu uma insolação e andou pela rua cambaleando, até que um amigo o pegou e o levou de carro até um médico. Outra vez, uma vaca o chifrou, e ele ficou estirado em um canto da rua por considerável tempo, desatendido. Em momentos como esse, às vezes ele se perguntava por que deixara sua casa e seu negócio, e por que tudo era tão difícil para ele se já tinha se rendido a Krishna. Porém, anos mais tarde, quando sua missão para a consciência de Krishna tinha se estabelecido em muitos países e tinha muitos discípulos, dizia: “Naquele momento, eu não podia compreender, mas agora vejo que todas aquelas dificuldades eram benéficas. Tudo foi misericórdia de Krishna”.

Enquanto se esforçava para imprimir e vender a Volta ao Supremo em Delhi, Srila Prabhupada decidiu ir morar em Vrindavana, a localidade mais sagrada para os adeptos da consciência de Krishna. A ideia dele era escrever seus ensaios na atmosfera espiritual e pacífica dali e voltar a Delhi para distribuir seus escritos e procurar doações de patrocinadores respeitáveis. Alugou um quarto simples e barato no templo de Vamsi-gopala, situado na beira do rio Yamuna, e ali se estabeleceu na vida especial de Vrindavana.

Levado pelo desejo de difundir as glórias de Krishna e Sua morada eterna, Srila Prabhupada trabalhava quase constantemente em Vrindavana para elaborar cada número da Volta ao Supremo.

Viajar, porém, tornou-se difícil. Tinha que pegar o trem da manhã para ir até Delhi, e como não tinha onde ficar, também tinha que voltar a Vrindavana na mesma noite. Isso não o deixava muito tempo na cidade, e era custoso. Às vezes, algum senhor piedoso lhe oferecia um lugar para ficar, mas mesmo com seus gastos pessoais mínimos, Srila Prabhupada dificilmente reunia doações suficientes para as viagens, a impressão e o correio.

Após publicar doze edições quinzenais consecutivas, Srila Prabhupada deu consigo sem qualquer dinheiro. A gráfica disse que não podia imprimir somente por amizade, e, de volta a Vrindavana, Srila Prabhupada continuou escrevendo, mas sem planos para publicar.

Ele tinha solicitado doações para financiar seu projeto, mas a ajuda foi escassa. Então, em 1959, concentrou suas energias em traduzir e comentar o Srimad-Bhagavatam, um dos livros mais importantes da tradição.

A Volta da Revista

Anos mais tarde, quando Srila Prabhupada chegou aos Estados Unidos e o Movimento Hare Krishna começou a se estabelecer, quis reviver a Volta ao Supremo, mas desta vez não a faria sozinho. Agora, entregaria a responsabilidade a seus discípulos.

Ele confiou a redação da Volta ao Supremo especificamente a dois de seus discípulos: Hayagriva e Raya Rama. Por anos, ele tinha conduzido a Volta ao Supremo como seu serviço devocional a seu mestre espiritual, mas agora permitia que jovens como Hayagriva, professor de inglês de uma faculdade, e Raya Rama, um escritor profissional, ficassem encarregados da revista como o serviço que eles prestariam ao seu mestre espiritual. Em pouco tempo, Hayagriva e Raya Rama tinham reunido todo o material para o primeiro número e estavam prontos para imprimir.

Outro discípulo, de nome Jagannatha, tinha desenhado a capa com um desenho de Radha e Krishna, parecido com uma pintura no templo. A primeira página começava com o mesmo lema que Prabhupada usou durante anos na sua Volta ao Supremo: “Deus é luz. Ignorância é escuridão. Onde está Deus, não há ignorância”.

A primeira e principal instrução que Srila Prabhupada deu a seus redatores foi que deveriam publicar a revista com regularidade, todos os meses. Inclusive se não soubessem como vender os números, inclusive se somente pudessem publicar duas páginas, tinham que continuar mantendo a norma.

Prabhupada queria que todos os seus discípulos participassem disso. “Não sejam preguiçosos”, disse, “escrevam alguma coisa”. Queria dar a seus discípulos a revista para a própria pregação deles.

Dois discípulos pegaram os primeiros exemplares, naquela mesma noite, e, de bicicleta, saíram por Nova Iorque até distribuírem cem exemplares. Isso era um aumento na pregação. Agora, todos os seus estudantes podiam participar no trabalho: datilografando, corrigindo, desenhando, escrevendo artigos, montando a revista e vendendo-a. Era a sua própria pregação, é claro, mas ele já não estava sozinho.

Até a atualidade, a publicação de Volta ao Supremo acontece sem interrupção em língua inglesa, e também em muitas outras dezenas de idiomas, tanto em publicações físicas como virtuais. E pela fidelidade e entusiasmo de seus leitores antigos e novos, seguirá se ampliando, levando cada vez mais pessoas de volta ao Supremo.

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