Algumas Palavras “Pé no Chão” sobre a Relação Guru/Discípulo

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Hridayananda Dasa Gosvami

Expectativas erradas, fantasia emocional, corrupção, sentimentalismo, culto à personalidade – Hridayananda Dasa Gosvami problematiza a relação guru/discípulo, avaliando questões de ambos os lados.

Em todo relacionamento, as pessoas têm diferentes expectativas, e, se essas expectativas são razoáveis e são atendidas, há um bom relacionamento. Podemos ver claramente na vida de Srila Prabhupada, quando ele veio para o Ocidente pela primeira vez, que ele tinha certas expectativas quanto a como um discípulo deveria ser, mas, posteriormente, ele teve que mudar essas expectativas. Srila Prabhupada esperava que, quando alguém fizesse votos, os manteria, fossem votos de casamento, fossem votos de iniciação. Eu me lembro de que Srila Prabhupada ficou bastante espantando no começo do Movimento quando certas pessoas não apenas não mantiveram seus votos, mas mudaram drasticamente toda a sua atitude. Um exemplo de Srila Prabhupada ajustando suas expectativas como guru ou acharya-fundador foi em relação a casamentos. No começo, Srila Prabhupada pessoalmente fazia casamentos arranjados porque ele pensava: “Aqui está um rapaz que se diz rendido a mim, e ali está uma moça que se diz rendida a mim. Ambos dizem que tudo o que querem na vida é servir. Então, que sirvam um ao outro.”

Aconteceu, então, o que é previsto em termos sociológicos: quando pessoas têm experiências de conversão muito fortes, elas, por algum tempo, podem ser muito zelosas e idealistas, mas, em seguida, essa euforia e êxtase abrandam e seu lado humano sobe novamente à superfície, com o qual terão que lidar. Muitos, então, fizeram votos na euforia de sua nova experiência, o que não conseguiram manter – sejam votos de casamento, votos de iniciação ou simplesmente votos de fazer um serviço em particular. Então, do ponto de vista do guru, ele está aprendendo a ter expectativas mais razoáveis, com base no estágio em que as pessoas estão e em quem elas são.

Igualmente, quais são as expectativas razoáveis para um discípulo desejoso de ter um guru? O que um discípulo deve pensar acerca da posição do guru? A definição mais simples de guru é que ele é o representante de Krishna. Não apenas de Krishna, mas também representante dos grandes acharyas. No sexto capítulo de O Néctar da Devoção, Srila Prabhupada, traduzindo os ensinamentos de Srila Rupa Gosvami, diz que o dever de um discípulo é seguir os passos dos grandes acharyas sob a guia de um mestre espiritual fidedigno.

Um mestre espiritual fidedigno não cria uma nova maneira de se cultivar a consciência de Krishna – isso é feito pelos grandes acharyas. Existe Acharya, com o “a” maiúsculo, e acharya, com “a” minúsculo. Todos devemos ser acharyas, exemplares, mas os grandes Acharyas são aqueles que estão orientando todo o direcionamento da civilização védica. O Acharya é aquele que estabelece como se serve Krishna em uma época em particular, em circunstâncias particulares. Um guru fidedigno está ajudando os discípulos a fazerem o que ele mesmo está fazendo: seguir o Acharya. Então, todos estão seguindo os grandes Acharyas, e aqueles que são mais experientes ajudam os menos experientes.

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Ser guru não é ganhar uma coroa; é sacrificar um pouco de tempo para ajudar outras pessoas

Todos nós ajudamos outros devotos, que podem não ser tão experientes quanto nós em certas áreas, para entenderem melhor a consciência de Krishna. Então, todos estão agindo como gurus. Srila Prabhupada citou cerca de 200 vezes o verso yare dekha, tare kaha ‘krishna-upadesha’: “A quem quer que você encontre, fale sobre a instrução de Krishna e, por Minha ordem, torne-se guru.” (Chaitanya-charitamrita, Madhya 7.128)

Srila Prabhupada realmente insistiu que todo homem e toda mulher – e até mesmo crianças – fossem gurus. Qual tipo de guru siksha, diksha ou vartmapradarshana-guru – dependerá de sua situação e circunstâncias, mas todos devem se tornar gurus. Srila Prabhupada considera egoísta quem não aceita ser guru. Em outras palavras, ser guru não é ganhar uma coroa, não é um símbolo de status. A questão é desejar sacrificar um pouco do tempo que eu dedicaria a algo para mim e, em vez de ser egoísta, ajudar outras pessoas. Trata-se, portanto, de um ato de doação. Srila Prabhupada concluiu que, se você é uma pessoa boa, você deve ajudar os outros. E se você faz isso, você é guru.

Critérios Objetivos

Outro ponto na relação guru/discípulo é que o guru deve ser alguém que segue os princípios de bhakti-yoga. Se ele ou ela está fazendo isso, então essa pessoa é aceita como liberada, como também explicado no Bhakti-rasamrita-sindhu, mas mesmo almas liberadas podem ainda estar em aprimoramento. Srila Prabhupada escreveu ao professor Staal, em 1970, dizendo: “Todos os meus discípulos são devotos puros”. O que ele quis dizer com isso era que estavam dando sua vida e seguindo todos os princípios. Nesse sentido, portanto, todas as atividades de um sujeito são puras.

Existe uma tendência entre certas pessoas, que não são as mais sensatas – especialmente fora da ISKCON – de tentar estabelecer qualificações espirituais com base em critérios esotéricos e não verificáveis. Em outras palavras, “meu guru é o único devoto puro”. No momento presente, acho que há cerca de 38 “únicos” devotos puros no planeta. Entretanto, Srila Prabhupada nos deu uma ciência espiritual, e sempre dizemos: “Somos uma religião não-sectária, trata-se de uma ciência espiritual”. Se você, contudo, quer utilizar essa linguagem, você tem que estar pronto para aceitar suas implicações. Em qualquer ciência, você só pode fazer alegações que possam ser publicamente verificadas. Se eu digo: “Na noite passada, eu dancei com Krishna”, meu ponto tem que ser: “Prove que eu não estava dançando com Krishna ou deixe que eu tente provar que eu estava.” Como você não pode provar sua dança e eu não posso desprová-la, isso não serve de critério científico. Ainda assim, não é difícil encontrar pessoas que bajulam um guru em uma espécie de culto.

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Em uma ciência espiritual, os critérios para determinar alguém como um guru qualificado devem ser verificáveis.

“Se eu digo que sou um devoto puro e digo que estou vendo Krishna ou que Krishna me abraçou, prove que não!” – não há absolutamente nada de científico nisso. Srila Prabhupada, em seus livros, diz que um guru de primeira classe possui três qualidades. Elas são verificáveis, não subjetivas. Essas qualidades, portanto, podem ser parte de uma ciência espiritual. São elas: (1) o guru deve conhecer meticulosamente as escrituras, realmente compreender; (2) deve seguir as escrituras e (3) deve ensinar. Então, do ponto de vista de Srila Prabhupada, se um discípulo está dedicado à missão, compreendeu de forma madura os livros de Srila Prabhupada e está praticando, isso basta. O que mais você poderia exigir de alguém? Srila Prabhupada pediu mais do que isso?

Personalidades Compatíveis

Entre aqueles que possuem essas qualificações, você obviamente tem que encontrar alguém que combine com você no sentido de “acontecer uma química”. Um fator é que trazemos muita bagagem de nossos relacionamentos. Eu me dedico ao serviço de guru já há metade da minha vida, e muitas pessoas se relacionam comigo nessa função. Se tinham uma relação ruim com o pai, de repente seu guru se torna seu pai, e todo tipo de lixo é colocado para fora. Algumas pessoas são muito carentes. As pessoas têm todo tipo de condições psicológicas. Algumas pessoas ficam melhores quando distantes, pois não caem na armadilha do “intimidade gera negligência”, e porque precisam de mais independência e espaço. Esses indivíduos florescem em uma situação em que podem simplesmente sair pelo mundo em aventuras em nome do guru e voltar com troféus. Outras pessoas precisam de muito cuidado terno e amoroso, algumas pessoas precisam receber muitos conselhos, algumas precisam de atenção.

Nem todo guru é perfeito para todos. É uma relação. Simplesmente alguém ser um bom devoto não significa que ele seja o marido ideal para você, por exemplo. Você realmente tem que encontrar alguém com quem você “se dê”. Lembro que, em Los Angeles, um devoto me buscou para falar sobre como ele era aspirante a discípulo de um guru com um perfil peculiar. O devoto tinha inclinação intelectual e queria estudar, e o guru tinha uma ideia antiga de que faculdades são matadouros da alma – as faculdades de fato são, mas Srila Prabhupada mesmo tinha ensino superior e constantemente usava o que aprendera na faculdade em suas pregações, e ele pediu que eu continuasse na faculdade. Essa foi a primeira instrução que ele me deu.

E os gurus também têm diferentes expectativas. Alguns gurus insistem em alguns padrões e querem receber uma adoração bastante formal, enquanto outros esperam outras coisas. Portanto, trata-se de um relacionamento que tem que funcionar para ambos os lados.

O Perigo das Descrições Idealizadas

Espera-se que sejamos shastra-chakshu, ou seja, que enxerguemos pelas escrituras. Contudo, há descrições nas escrituras que são – eu não quero usar a palavra hiperbólicas… Há versos que descrevem resultados, como “quem quer que leia esta história jamais será derrotado em uma batalha.” E o que acontece se dois reis lerem a mesma história antes de se enfrentarem? Há histórias de que, se alguém jejua em certa data, por acidente, um aeroplano de flores leva essa pessoa para Vaikuntha, porque era uma data especial. Os acharyas ensinam que isso não é verdade para todos, mas pode ser verdade para alguns.

Então, nas escrituras há certas descrições idealizadas de guru e de discípulo, e há descrições idealizadas de marido e mulher. E, como sabemos, no mundo real, não há muitas mulheres e maridos perfeitos, mas, ainda assim, há bons casamentos, porque as pessoas estão pelo menos buscando esses ideais e tendo-os como referência para autoanálise. Assim, é possível ter relacionamentos conscientes de Krishna bem-sucedidos.

Um problema dessas descrições do guru ideal pode vir à tona caso o guru se veja através das escrituras em termos dessas descrições elevadas: “Sim… Isso sou eu, e mesmo caso eu não experimente todos esses sintomas o tempo todo.”

Outro caminho muito interessante pelo qual esse problema pode surgir é quando o guru decide que os discípulos mais bajuladores e reverentes são os verdadeiros discípulos, aqueles que têm fé. E eu, como guru, posso começar a me ver através dos olhos dessas pessoas que são “mais rendidas”, e filtro outras visões, independente de quão exatas possam ser.

Então, o cenário completo é que me rodeio dos discípulos bajuladores, leio descrições das escrituras sobre o guru e tomo isso como elogios a mim – e é assim que eu me identifico. E tudo que faço que não seja consistente com essas descrições elevadas é apenas algum tipo de acontecimento transcendental. Como você é um sujeito infalível, nenhum erro é realmente um erro.

Sociedades religiosas oferecem as possibilidades mais extraordinárias para hipocrisia porque quanto mais altos os ideais, mais é provável que você não os alcançará, apesar do que você pode se apegar aos ideais como autodescrições, já que são muito bajuladores. Uma vez que você tenha experimentado o gosto nectáreo de ser adorado e enaltecido, é difícil abandonar tal coisa.

O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Em nenhum outro lugar, o poder absoluto está tão prontamente disponível como em sociedades religiosas, pois dizemos que somos representantes de Deus, e Deus é a autoridade suprema.

Conhecimento e Ignorância

Uma das qualidades de um guru, de um vaishnava, é ser daksha, perito. A partir da palavra daksha, obtemos a palavra “destro”. E uma grande parte de ser perito, ou destro, é saber o que você não sabe. Há um famoso diálogo escrito por Platão, chamado Apologia de Sócrates, o qual descreve o julgamento de Sócrates, quando Sócrates estava fazendo seu discurso de defesa. Ele sabe que foi dito que ele era o homem mais sábio de Atenas. Então, Sócrates disse em seu julgamento: “Talvez o motivo de terem dito que sou o mais sábio tenha sido o fato de que pelo menos eu sei o que eu não sei, ao passo que a maioria das pessoas com quem me encontro pensam pretensiosamente que sabem o que não sabem.”

Gostaria de compartilhar um pouco de minhas realizações. Na minha vida pessoal, tenho a confiança de que, basicamente, estou cumprindo corretamente o meu dever. Estou apenas exercendo a função de guru na ISKCON. Isso não significa, necessariamente, que sou perito em todos os campos materiais. Isso não significa que posso aconselhar peritamente em assuntos psicológicos e financeiros, ou em termos de treinamento vocacional, ou dizer que você deve se casar com certa pessoa. Se faço isso e, no fim, tudo acaba mal, o que será de mim?

O Guru Não É Onisciente

Jayadvaita Maharaja, um discípulo de Srila Prabhupada, estava caminhando com ele ao longo da praia e perguntou se o guru é onisciente. Srila Prabhupada ficou surpreso diante da pergunta e disse: “O quê? Claro que não! Apenas Krishna é onisciente!”

Quando no Srimad-Bhagavatam se diz que Srila Vyasadeva conhecia o futuro, o que se quer dizer é que Srila Vyasadeva sabia que Kali-yuga estava chegando.

Srila Prabhupada nunca alegou ser possuidor do dom material de conhecer o futuro. Seguidores de Srila Prabhupada podem pensar que quanto mais glorifiquemos Srila Prabhupada, melhor, mas nossa glorificação a ele pode se torna imprecisa. Srila Prabhupada tinha, sim, um potencial extraordinário para conhecer a mentalidade das pessoas, mas isso não é o mesmo que ter o poder de conhecer o futuro.

Um pai que está criando seu filho, por exemplo, é capaz de saber que, se o bebê seguir engatinhando em uma direção, ele acabará em determinado lugar. Podemos ver também, por exemplo, que os Estados Unidos se encaminha para um desastre econômico.

Como dissemos ao começo, é fácil vermos que Srila Prabhupada não tinha experiência quanto a como lidar com discípulos ocidentais – e ele foi se ajustando a essa nova realidade conforme a vivenciava. Isso é uma demonstração de que ele não era onisciente materialmente, além de ele ter dito com todas as palavras que um devoto puro não é materialmente onisciente.

Ele nos deu um caminho perfeito e salvou nossa alma – isso já é muitíssimo.

Acho que o que acontece muitas vezes é que devotos criam o Srila Prabhupada que eles precisam psicologicamente. E alguns devotos, ao que parece, para se fixarem em sua fé, precisam de um super-herói material, alguém que saiba tudo. Isso, porém, não está nas escrituras.

Srila Prabhupada foi alguém grandessíssimo, mas, em termos de sua personalidade, ele não foi alguma espécie de homem místico. Ele foi alguém muito “pé no chão”, uma pessoa sem pretensões, amável e inteligente.

Jesus: De Homem Santo a Deus

Eu estudei pessoalmente a história do cristianismo primitivo, a nível acadêmico, e é possível ver e processo dramático de Jesus sendo continuamente “promovido” nessa tradição.

Tudo começou com um Jesus que era uma pessoa santa, e as mudanças começaram com as mudanças demográficas do movimento de Jesus. Nas primeiras gerações, os seguidores de Jesus eram judeus. E essa geração de pessoas que viveu com ele jamais disse que ele era Deus.

Quando aconteceu uma grande mudança demográfica, ao se constatar que era muito difícil fazer seguidores de Jesus entre os judeus por diferentes razões políticas, Paulo fez uma revolução ao oferecer ao povo a oportunidade de se tornarem judeus sem terem que seguir certas regras. Como resultado, de repente, em vez de terem um movimento de Jesus liderado por judeus e constituído de judeus, ele se tornou um momento de ex-pagãos, que agora regiam e povoavam o cristianismo.

Então, algo típico para os pagãos era que se sentiam muito confortáveis com o politeísmo. E outra característica da religião pagã no tempo do império romano era que se assemelhava muito ao movimento que temos hoje e chamamos de “New Age”.

Foi assim que, muito repentinamente, fomos de um Deus para três Deuses, e Jesus já não era mais um profeta, mas um Deus.

Perto do fim do primeiro século, o movimento cristão se dividiu entre trinitários (que acreditavam que Jesus era Deus) e arianos (que acreditavam que Jesus era o filho de Deus). Houve uma guerra entre eles, e os trinitários saíram vitoriosos. Como resultado disso, no fim do século 4, tornou-se um grande crime explicar Jesus citando as palavras dele próprio registradas na Bíblia, onde Ele Se descreve como subordinado a Deus.

Relato isso para que nos preocupemos sobre possíveis compreensões errôneas sobre a posição de Srila Prabhupada.

Guru-shastra-sadhu

Em movimentos religiosos por todo o mundo, vemos que seguidores reivindicam autoridade absoluta exclusiva para o seu líder. Todavia, como um líder espiritual iluminado, Prabhupada nunca fez isso, senão que sempre ensinou fielmente o sistema tradicional de autoridade tripartite – guru, shastra e sadhu, isto é: o próprio guru do indivíduo, textos revelados e autoridades espirituais anteriores em nossa tradição. Ele insistiu que era precisamente nosso sistema equilibrado de guru, shastra e sadhu que nos distinguia de outros movimentos.

É claro que, em alguns movimentos religiosos, os supostos líderes abertamente reivindicam e exigem autoridade independente e exclusiva, uma reivindicação que Prabhupada rejeitou. Em todo caso, como Prabhupada bem sabia, a autoridade absoluta é tão poderosa quanto precária, pois, se uma pessoa ou comunidade duvida da autoridade desse líder, pode rejeitar todos os seus ensinamentos mais fácil e rapidamente do que uma sociedade rejeitará uma longa tradição ou a lei estabelecida.

Culto à Personalidade

É comum as pessoas perguntarem se a adoração que fazemos a Srila Prabhupada, mesmo quando nas devidas proporções, é culto à personalidade.

O que explico é que, antes de mais nada, a palavra puja não significa exatamente “adoração”, como usado no sentido bíblico ou ocidental. Vemos que Srila Prabhupada frequentemente traduziu puja como “honrar”. Na Índia, por exemplo, se você quer dizer “honrar pai e mãe”, você usará a palavra puja.

Se olharmos para a história da tradição judaico-cristã, é fácil vermos que eles lutam muito arduamente por isolar o divino. No judaísmo, dizer que algo é divino é dizer que é tão bom quanto Deus, o que é inaceitável para a ontologia muitíssimo dualista que eles defendem. Para eles, Deus é um tipo de ser muito diferente. Em algumas tradições judaicas, você nem mesmo pode pronunciar o nome de Deus, pois é considerado ofensivo que nós pronunciemos algo tão sagrado.

Contudo, no Movimento da Consciência de Krishna, temos a compreensão de que a alma é qualitativamente não diferente de Deus. Isso é a ontologia indo-europeia.

Quando estudamos a cultura indo-europeia (a Índia e a Europa pré-cristã), vemos que, na verdade, foi essa cultura que desenvolveu a filosofia. O problema aqui, segundo entendo, é que a cultura do oriente médio nunca desenvolveu uma tradição independente, sistemática e ampla de filosofia. O oriente médio não foi uma parte filosófica do mundo. O cristianismo se tornou filosófico e teológico na Europa, e não na Palestina, com os cobradores de impostos e os pescadores.

Mesmo Agostinho, que foi uma figura tão importante da Antiguidade Tardia à Idade Média, nasceu cristão (ele nasceu no Cinturão Bíblico do império romano, no norte da África) e rejeitou o cristianismo porque, no norte da África, era simplesmente uma religião fanática, enquanto ele, pessoalmente, tinha uma postura filosófica. Ele retornou ao cristianismo quando foi para a Itália e se encontrou com platonistas cristãos (cristãos seguidores de Platão). É interessante como, hoje, temos novamente o reavivamento desta questão de “somente a Bíblia!”, mas, naquele tempo, os líderes da Igreja na Itália eram seguidores de Platão. E, mais tarde, na Alta Idade Média, temos Tomás de Aquino “batizando” Aristóteles. E toda a doutrina na igreja cristã, depois disso, veio de um Aristóteles cristianizado. Então, em termos práticos, eles reconheceram a filosofia de Platão e Aristóteles como sabedoria espiritual e a adotaram.

Então, o Renascimento foi um renascimento da civilização greco-romana, pois as pessoas passaram a acreditar que os gregos tinham uma grande civilização. E, então, houve uma reação antagônica ao Renascimento por parte da Europa Setentrional (a reforma protestante) – a típica animosidade entre o Norte e o Sul. Um dos valores protestantes foi: “Não queremos Platão! Não queremos Aristóteles! Não queremos nada de lógica! Queremos somente a Bíblia!”

Então, a cultura indo-europeia foi a cultura que criou uma filosofia sistemática. A atitude que eles têm no cristianismo contra a adoração à Deidade veio da Europa Setentrional, como uma reação ao Renascimento no século 16.

E a razão pela qual honramos Srila Prabhupada no altar é porque temos, como eu disse, o entendimento filosófico de que a alma é qualitativamente não diferente de Deus. E aqueles que não têm esse entendimento filosófico ficam muito assombrados com essa adoração, ou oferta de honras.

Quero dizer: pense bem no que é o guru-puja. Temos um incenso, uma lamparina, um pouquinho de água, um lencinho… Pelo amor de Deus! É só um incenso! O que há de assombroso nisso?

O que vivemos hoje é o resultado da reforma protestante na Europa Setentrional. Eles tiveram isso que se chamou de beeldenstorm, ou “fúria iconoclasta”. Eles entravam em igrejas belíssimas e quebravam as janelas, as estátuas de Jesus e Maria e queimavam vivas as pessoas que discordassem disso. Foi algo que fugiu completamente de controle. Era simplesmente insanidade. O que você acha que Deus diria sobre isso? Você acha que Deus queimaria pessoas simplesmente por terem cometido um erro filosófico?

No que diz respeito a Srila Prabhupada, nós não o adoramos como adoramos Deus. Nós o honramos. No Srimad-Bhagavatam, se diz que devemos honrar todos os seres vivos. Srila Prabhupada ilustrava a questão de ele ser honrado como Deus através da imagem do policial. Se um policial para você, você não dirá: “Quem é você? Você não é o governador ou o presidente!” Muito embora ele seja apenas um policial, o peso e o poder de todo o governo está por trás dele, e, se você não cooperar com ele, o poder do governo será empregado contra você, apesar de o policial ser apenas um homem comum, com um salário médio.

O que Srila Prabhupada queria dizer é que, se alguém é um representante legítimo de uma autoridade, você tem que se submeter quando solicitado a isso. Mesmo minha mãe me ensinou isso. Quando fui para a escola, ela disse que eu deveria escutar a professora. Naquele tempo, não era como hoje, quando os pais censuram um professor que discipline o seu filho. Se eu chegasse em casa me queixando do professor, sem que o professor tivesse saído dos limites razoáveis, minha mãe não me daria ouvidos.

Isto é tudo o que Srila Prabhupada fez: tentou nos ensinar um pouco de etiqueta. Ele não disse que ele era Deus. O fato de que ele era um devoto puro não significa que ele falava inglês com perfeição. Quando ele falava sobre as escrituras reveladas, ele era uma autoridade absoluta. Porém, quando ele falava sobre algum tópico mundano, como linguística, ele não estava atuando como uma autoridade absoluta.

Acho que simplesmente temos que ter a maturidade de aceitar que Srila Prabhupada é um devoto puro que ensinou com perfeição a ciência de Krishna, que nos salvou e que devemos servir, mas que, algumas vezes, agia como um ser humano. Acho que Deus nos conferiu o direito de chegarmos a um entendimento racional das coisas.

Sadhana, Inspiração, Missão

Para concluirmos, consideremos as relações guru-discípulo nas escrituras. Narada Muni, por exemplo, inspirava alguém, tornava-se seu guru e lhe dava um programa geral. Há muitos casos em que o guru fornece um determinado sadhana e, então, fornece ao discípulo uma missão na vida. Pensemos na relação de Srila Prabhupada com Bhaktisiddhanta Sarasvati. Quando Srila Prabhupada o aceitou, adotou o sadhana dos vaishnavas seguidores do Senhor Chaitanya, e Bhaktisiddhanta Sarasvati o inspirou e lhe deu uma missão e uma visão: “Você deve pregar em inglês, no Ocidente.” Isso inspirou muito Srila Prabhupada, e ele fez disso a missão de sua vida, e foi muito bem-sucedido.

Na primeira carta que escrevi a Srila Prabhupada em 1969, quando me juntei ao templo de Berkely, perguntei a ele se eu deveria permanecer na faculdade ou sair, e Srila Prabhupada disse que eu deveria ficar. Ele disse: “Quero que você seja alguém de boa instrução para que possa pregar para pessoas de instrução similar.” Isso, então, se tornou minha missão de vida. O que há de bonito é que há muitos de nós seguindo as instruções de Srila Prabhupada, e todo membro da ISKCON carrega consigo uma compreensão única da consciência de Krishna, e serve Krishna dessa maneira.

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