Buddhi-yoga: O Poder e Valor da Razão nos Ensinamentos da Bhagavad-gita

16 (artig- Bhagavad-gita) Buddhi-yoga (ta)

H.D. Goswami

(excerto da obra Guia Completo da

Bhagavad-gita com Tradução Literal)

Acima da mente instável que gosta e desgosta, aceita e rejeita, com capricho subjetivo, existe buddhi tranquila, calma e objetiva – a voz da razão.

(Nota: Os números fornecidos entre colchetes se referem a versos da Bhagavad-gita. Por exemplo, 3.9 significa “capítulo 3, verso 9”. O texto reproduzido abaixo sem diacríticos consta no livro impresso com diacríticos)

A palavra buddhi indica inteligência, razão ou julgamento. É o poder de discernir onde entrar e onde sair, o que fazer e o que não fazer, na busca de nosso autointeresse racional. Buddhi nos diz o que é benigno e o que é maligno, o que liberta e o que escraviza. Buddhi faz essas distinções cruciais [18.30].

Acima da mente instável, que gosta e desgosta, aceita e rejeita, com capricho subjetivo, existe buddhi tranquila, calma e objetiva – a voz da razão. Situada ao lado da alma na escala de poderes [3.42], buddhi é razão que racionaliza o que está além de si mesma: a alma eterna [3.43].

De fato, quando somos atraídos à espiritualidade nesta vida, reconectamo-nos com buddhi, a compreensão espiritual, de nossa vida passada. Assim, esforçamo-nos outra vez pela perfeição final [6.43]. E com buddhi pura, qualificamo-nos para a existência espiritual [18.51-53].

Algumas pessoas alegam, em nome das escrituras, que não existe nada mais na vida exceto trocar piedade por recompensas materiais [2.42-43]. O yoga como vida espiritual disciplinada, no entanto, só é possível quando buddhi fica indiferente a apegos materiais e a textos religiosos que promovem materialismo piedoso [2.52-53]. Desse modo, na luta contra apego e ilusão, nossa última linha de defesa é buddhi. Se perdemos a razão, decerto a alma fica perdida em ignorância [2.63]. Contudo, numa vida de graça jubilosa (prasada), vencemos nossos problemas, e buddhi permanece firme [2.65]. Isso resulta de uma prática espiritual séria [2.66].

Neste mundo difícil, Krishna nos diz para “buscar abrigo em buddhi”: razão clara que nos diz para não cobiçarmos egoistamente frutos da ação [2.49]. De fato, descobertas científicas indicam que pessoas obtêm mais prazer em gastar dinheiro com os outros do que consigo mesmas. Renunciar ao egocentrismo não é renunciar ao prazer, mas, sim, encontrar prazer genuíno na vida devotada. Felicidade virtuosa advém quando buddhi encontra serenidade no verdadeiro eu [18.37]. Buddhi abrange a felicidade máxima da autorrealização, além dos sentidos mundanos [6.21]. Desse modo, com buddhi determinada, o indivíduo deveria, pouco a pouco, retirar a mente de objetos ilusórios e fixá-la no verdadeiro eu [6.25]. Com buddhi pura, vemos como agir sem incorrer em karma [4.18]; com buddhi estável, conhecemos e atingimos o Absoluto [5.20]; e com buddhi equânime, vemos todos os seres igualmente como almas eternas, a despeito de seu tipo de corpo ou condição material [6.9]. Essa buddhi equânime ajuda-nos a alcançar Krishna [12.4].

Mas luxúria pode infectar nossa razão e encobrir a consciência [3.39]. Os modos da paixão e da escuridão corrompem buddhi [18.31-32]. Em paixão, buddhi mensura imprecisamente o que é e não é moral, o que é e não é dever. Em escuridão, buddhi entende tudo ao contrário, considerando o imoral como sendo moral [18.32].

Porém, quando buddhi desprende-se de todas as coisas materiais, o indivíduo abandona a vida mundana e alcança perfeição acima de karma [18.49]. Precisamos de buddhi para livrarmo-nos das amarras de karma [2.39, 2.50], quer trilhemos o caminho de yoga do conhecimento (jnana-yoga), quer o de yoga da ação (karma-yoga).

Razão resoluta guia-nos com foco preciso, mas, quando a determinação enfraquece, a razão se dispersa em intermináveis direções [2.41]. Aqueles que se aferram a prazer e poder mundanos não conseguem focar buddhi no caminho espiritual [2.44]; preocupam-se com inumeráveis problemas em vez de buscarem um estado espiritual que solucione todos eles.

O que, então, inspira e outorga poder à razão resoluta (buddhi) para abandonar infindáveis preocupações e focar com exclusividade no caminho espiritual? Não é nada senão Krishna, que repetidas vezes assegura que cuidará pessoalmente de nós se levarmos Suas instruções a sério.

Krishna vem a este mundo para resgatar os virtuosos de seus problemas [4.8]. Se pudermos compreender que Ele é o amigo bondoso de todos os seres, encontraremos a paz que nos escapa [5.29]. Ele pessoalmente traz prosperidade e segurança àqueles que Lhe são devotados [9.22]. Ele é nosso refúgio (sharanm) e verdadeiro amigo [9.18], impelindo-nos a refugiarmo-nos (sharanam) de todos os problemas apenas em Sua pessoa, garantindo-nos que encontraremos, assim, a paz mais elevada e a morada perpétua, e que Ele nos livrará de todas as transgressões [18.62, 18.66].

Outra vez utilizando a mesma palavra para “refúgio”, Krishna diz à alma: “Busca refúgio (sharanam) em buddhi” [2.49]. Assim, buscar refúgio em buddhi é acolher a razão pura que nos guia para devotarmo-nos a Deus.

Por compreender essa lógica espiritual, nossa inteligência para de agonizar por causa dos problemas inevitáveis deste mundo, sejam eles financeiros, sociais, psicológicos, políticos, históricos ou quaisquer outros, e aceita avidamente a oferta de Krishna de refúgio, sustento e morada eterna. De fato, Krishna afirma próximo ao final da Gita que o indivíduo deveria valer-se de buddhi e, desse modo, dedicar todas as suas ações a Ele, tendo-O como supremo e sempre dedicando o pensamento a Ele [18.57]. Mais uma vez, a buddhi específica de que o indivíduo vale-se aqui é a razão pura absorta em Deus. Afinal, aquele que enfim alcança conhecimento após muitos nascimentos compreende que Krishna é tudo [7.19].

Assim, a Gita apresenta devoção plena a Krishna como um ato supremamente racional, o fruto da razão pura, buddhi. Almas não chegam a Krishna por rejeitarem a razão. Pelo contrário, Krishna afirma que Ele em pessoa dá buddhi-yoga àqueles constantemente devotados, que, então, vão a Ele mediante essa prática de razão pura [10.10]. De fato, a prova de buddhi pura é que o indivíduo vê Krishna como a Pessoa Suprema acima de todas as outras pessoas, ciente de que não há compreensão nem verdade escritural superior [15.20].

De modo inverso, aqueles que carecem de buddhi pensam que Krishna é originalmente e em última análise impessoal, e que assume uma forma pessoal para algum propósito. Por carecerem de buddhi (razão espiritual), eles não compreendem a natureza pessoal superior de Krishna [7.24].

Ainda pior, os irracionais, aqueles com buddhi insignificante, acreditam que não existe Deus no Universo, nem Verdade ou fundamento [16.8-9]. Da mesma forma, aqueles com “buddhi não formada” acreditam ser eles mesmos os únicos autores de suas ações, sem levar em consideração fatores circundantes e providenciais [18.16].

Alcançamos razão pura, buddhi, por devotarmos nosso raciocínio a Krishna. Fazemos isso ao levar a Bhagavad-gita a sério. Krishna nos diz que ofereçamos nossa buddhi a Ele [8.7, 12.14]55 e que fixemos nossa buddhi em Sua pessoa [12.8].

Além disso, o próprio Krishna é a buddhi daqueles que a possuem [7.10], uma vez que vive em nosso coração e nos dá conhecimento [15.15] se o desejarmos.

A Bhagavad-gita apresenta sua noção mais clara e mais sucinta de uma ciência espiritual no termo buddhi-yoga. A webpage Oxford Dictionaries define ciência como “atividade intelectual e prática que abrange o estudo sistemático do (…) mundo físico e natural através de observação e experimento.”56 Deixando de lado a suposição da petição de princípio de que o indivíduo pode estudar sistematicamente “o mundo físico e natural”, focamos aqui nas dimensões “intelectual e prática” de semelhante estudo. Buddhi indica inteligência ou razão, e yoga indica prática. É o termo buddhi-yoga que aponta para uma ciência espiritual.

Assim, Krishna alega dar uma compreensão racional (buddhi) da alma tanto na teoria quanto na prática [2.39]. Esse buddhi-yoga é de longe superior à ação ordinária [2.50]; Krishna a concede àqueles que Lhe são sempre devotados [10.10]. Por depender de buddhi-yoga, o indivíduo é capaz de sempre fixar a mente em Krishna [18.57].

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