Entendendo Krishna

Entendendo KrishnaA.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada
(Da obra Veda, o Sagrado e a Existência Humana)

Entender Krishna é tanto fácil como difícil: Fácil pela abordagem certa, difícil pela abordagem errada.

sri-bhagavan uvaca
bahuni me vyatitani
janmani tava carjuna
tany aham veda sarvani
na tvam vettha parantapa

O bem-aventurado Senhor disse: “Muitos e muitos nascimentos Eu e tu já tivemos. Posso Me lembrar de todos eles, mas tu não podes, ó subjugador do inimigo.” (Bhagavad-gita 4.5)

Aqui se diz: sri bhagavan uvaca. Bhaga significa opulência e, quando o afixo sânscrito é adicionado, vat-pratyaya, “aquele que possui”, temos a palavra bhagavan. Parashara Muni, então, diz:

aisvaryasya samagrasya
viryasya yasasah sriyah
jnana-vairagyayos caiva
shannam iti bhagam gana
(Vishnu Purana 6.5.47)

O verso diz que bhagavan é aquele que possui seis opulências em plenitude: toda riqueza, toda força, toda influência, toda sabedoria, toda beleza, toda renúncia. Então, analisou-se como possuímos todas essas opulências, e os sábios constataram que Krishna é o possuidor de todas as opulências. Isvarah paramah krishnah (Brahma-samhita 5.1): o proprietário supremo é Krishna.

Então, Bhagavan é um indivíduo, e nós também somos indivíduos, por sermos partes integrantes dEle. Assim como filhos são indivíduos porque o pai é um indivíduo, nós somos indivíduos por sermos filhos de Deus, um indivíduo. No capítulo 2 da Bhagavad-gita, Krishna disse: “Todos nós – tu, Eu e todos estes soldados e reis aqui reunidos – existíamos antes como indivíduos, existimos agora como indivíduos e, no futuro, existiremos como indivíduos.” Então, isso está sendo explicado mais uma vez.

Krishna é um indivíduo; nós somos indivíduos. A diferença é que Ele é isvarah paramah, o controlador supremo, ao passo que nós, embora também sejamos controladores, somos controladores muito diminutos. Portanto, Krishna disse: “Eu, assim como tu, também nasço, mas há uma diferença: Eu Me lembro das muitas vezes que nasci, mas tu, embora tenhas nascido muitas vezes também, te esqueceste disso.”

De fato temos a experiência de não lembrarmos. Desconheço o que fui em minha última vida. A morte traz o esquecimento de tudo. É como o dia e a noite. Durante a noite, quando dormimos, nos esquecemos de tudo que fizemos ao longo do dia. Todos os dias experimentamos isto: somos uma pessoa diferente à noite. Sonhamos com algo, com uma visita a uma terra de fantasias, e esqueço que tenho um corpo deitado sobre a cama, que sou pai de tais e tais filhos, que sou esposo de determinada mulher… E, então, quando chega o dia, você se esquece do que sonhou. Essa é a nossa experiência prática.

Similarmente, tivemos uma vida antes da atual, mas nos esquecemos. Krishna, porém, não Se esquece. Essa é a diferença entre Krishna e a entidade viva. Krishna não Se esquece porque possui conhecimento perfeito, ao passo que nós, por sermos imperfeitos, sofremos com o esquecimento. Uma vez que sejamos perfeitos, também lembraremos, mas, para isso, é preciso adotarmos a vida espiritual, para não termos mais corpos materiais. Isso é possível. É dito na Bhagavad-gita (4.9):

janma karma ca me divyam
evam yo vetti tattvatah
tyaktv
a deham punar janma
naiti m
am eti so rjuna

“Aquele que conhece a natureza transcendental do Meu aparecimento e de Minhas atividades, ao deixar o corpo não volta a nascer neste mundo material, senão que alcança Minha morada eterna, ó Arjuna.”

Então, quando formos para Krishna, obteremos um corpo similar ao dEle, e Krishna está buscando pela oportunidade em que a entidade viva voltará para Ele, porque somos todos Seus filhos. Se o filho se perde, sai de casa e fica vagando pela rua, o pai fica muito ansioso por trazê-lo de volta, ainda que o filho tenha se esquecido do pai. Assim é a paternidade. Portanto, como Paramatma, Ele está nos guiando. Sarvasya caham hridi sannivistah: “Estou sentado no coração de todos”, e é dEle que obtemos a lembrança, mattah smritir jnanam apohanam ca (Bhagavad-gita 15.15). Se eu quero desfrutar de algo, Krishna me dá toda oportunidade: “Agora, aqui está a oportunidade. Você pode fazer isso.” Anumanta: o permissor. Ele é muito amável. Desfrutar neste mundo material, porém, não é o nosso verdadeiro afazer. Nosso verdadeiro afazer é voltar ao lar, voltar ao Supremo. No entanto, como queremos fazer isso, Krishna nos dá todas as facilidades. Podemos nos tornar o ser mais grandioso, como Brahma, e podemos nos tornar uma formiga insignificante, de acordo com nosso karma.

Então, isso está acontecendo, daí Sri Chaitanya Mahaprabhu dizer: ei rupe brahmanda bhramite kona bhagyavan jiva. (Sri Caitanya-caritamrita, Madhya 19.151) Estamos vagando por todo o universo como alguém – ora como ser humano, ora como semideus, ora como gato, ora como cão, ora como árvore, ora como planta, ora como inseto, ora como Brahma, ora como formiga, ora como porco. Há 8.400.000 espécies de vida. Então, é assim que estamos circulando. E Krishna diz: “Como Paramatma, estou sempre com você, e você está mudando por vários corpos.”

Que Krishna também tem muitos nascimentos é declarado na Brahma-samhita. Tentemos entender a posição de Krishna. Como Paramatma, Ele está no coração de todos, dando direcionamento a todos. E existem inumeráveis entidades vivas, de modo que é preciso dar instruções de diferentes maneiras para muitíssimas entidades vivas. Tentemos imaginar o quanto Ele é ocupado! Independente disso, a posição dEle é a mesma: goloka eva nivasaty akhilatma-bhutah (Brahma-samhita 5.37). Goloka eva nivasati significa que Krishna continua em Seu lugar particular, Goloka Vrindavana, onde está desfrutando da companhia de Srimati Radharani. Não concordamos com a filosofia mayavadi que afirma que, como Ele Se expandiu nos muitíssimos corações das entidades vivas, Ele está acabado, não está mais em Sua morada. Não. Ele continua lá. Assim é Krishna. A literatura védica nos traz esta informação, purnasya purnam adaya purnam evavashishyate: “Porque Ele é o Todo Completo, Ele, muito embora emane muitas unidades completas, permanece o equilíbrio completo.”

Esse Krishna não pode ser entendido pelo mero estudo da literatura védica, apesar de os Vedas, de o Vedanta, terem por objetivo compreender Krishna. Vedais ca sarvair aham eva vedyah: “Através do estudo dos Vedas, é a Mim que se deve conhecer.” (Bhagavad-gita 15.15) Porém, porque nós infelizmente não nos refugiamos em Krishna ou em Seu devoto, não podemos entender qual é o propósito dos Vedas. Asamshayam samagram mam yatha jnasyasi tac chrinu: “Se queres entender Krishna sem quaisquer dúvidas e por completo, tens que praticar este sistema de yoga.” (Bhagavad-gita 7.1)

O que é esse yoga? Man-mana bhava mad-bhakto mad-yaji mam namaskuru. (Bhagavad-gita 18.65) Esta palavra mad-asrayah é muito significativa; indica que você pode se refugiar em Krishna diretamente, o que não é muito fácil, ou pode se refugiar na sucessão discipular. É como uma central e uma tomada. A tomada está conectada à central elétrica, e se você colocar seu aparelho na tomada, você obterá eletricidade. Similarmente, se você se refugiar em uma pessoa que está vindo pelo sistema parampara, receberá a mensagem de Krishna.

Então, é difícil conhecer Krishna pelo mero estudo das escrituras, mas adurlabham atma-bhaktau (Brahma-samhita 5.33): não é difícil para quem se refugiou em um devoto puro de Krishna.

anyabhilashitashunyam
jnana-karmady-anavritam
anukulyena krishnanu-
shilanam bhaktir uttama
(Bhakti-rasamrita-sindhu 1.1.11)

Devoto puro significa que ele não tem nenhum desejo material. Ele não está encoberto nem por processos especulativos nem envolvido em atividades fruitivas. Esse devoto puro pode lhe dar Krishna: “Pegue Krishna. Aqui está Krishna.”

O devoto puro ocupará você em serviço devocional e, nesse momento, compreender Krishna será fácil. Existem nove processos de serviço devocional, assim explicados:

sravanam kirtanam vishnoh
smaranam pada-sevanam
archanam vandanam dasyam
sakhyam atma-nivedanam

“Ouvir e cantar sobre o santo nome, a forma, as qualidades, a parafernália e os passatempos do Senhor Vishnu, que são todos transcendentais; lembrar-se deles; servir os pés de lótus do Senhor; oferecer ao Senhor adoração respeitosa com dezesseis tipos de parafernália; ofertar orações ao Senhor; tornar-se Seu servo; considerar o Senhor como o melhor amigo, e render tudo a Ele (em outras palavras, servi-lO com corpo, mente e palavras).” (Srimad-Bhagavatam 7.5.23)

Quer você siga todos esses processos, ou mesmo apenas um deles, você será bem-sucedido em desenvolver sua dormente consciência de Krishna, momento no qual sua vida terá sido exitosa.

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