O Dever e o Caráter Ideal de um Político

02 I (artigo - política) O Dever e o Caráter Ideal de um Político (dia 5) (sankirtana) (7700)Sri Nandanandana

Textos como o Mahabharata têm grande abundância de informação sobre os deveres do governo e do governante. Pelo estudo das informações reunidas neste material, que é uma explicação concisa e resumida de como o governo e seus dirigentes devem atuar, segundo os textos védicos, compreenderemos como eles esperavam que as coisas fossem feitas no seu tempo e como nossos governos atuais são ineficientes sob vários aspectos.

Textos como o Mahabharata têm grande abundância de informação sobre os deveres do governo e do governante. Pelo estudo das seguintes informações, que é uma explicação concisa e resumida de como o governo e seus dirigentes devem atuar, segundo os textos védicos, compreenderemos como eles esperavam que as coisas fossem feitas no seu tempo e como nossos governos atuais são ineficientes sob vários aspectos. Também devemos ser capazes de perceber como nos aprimorar. Ademais, esses princípios védicos que são encontrados no antigo Mahabharata e em outros livros védicos são aplicáveis por parte de quaisquer líderes, quer locais, quer estaduais, quer nacionais.

O Objetivo do Governo

O objetivo do governo deve ser delineado antes de tudo a fim de estabelecer a direção que ele assumirá para os cidadãos do país. Essa é a razão para haver uma constituição. Explica-se que os principais objetivos da constituição do país têm que ser para a propagação da retidão entre os cidadãos. Os cidadãos têm que saber como viver em uma atmosfera de bondade, ou sattva.

Caos na Falta de um Governante Apropriado

Como se explica, quando não há um regente ou administrador apropriado para um país, haverá caos na região. No tocante a isso, o Ramayana (2.67.18) diz: “Em um Estado sem rei, a riqueza é insegura. Nem mesmo os fazendeiros e pastores podem dormir pacificamente com suas portas abertas”.

Assim, a descrição acima é um sinal claro de uma liderança inapropriada, ou uma descrição de quando um governante não tem habilidade para conduzir a situação do devido modo. Quando abundam roubos e outros crimes, a riqueza se torna especialmente vulnerável visto que aqueles com menos riquezas ou em necessidade olharão com inveja para os que a detêm. Evidentemente, os pobres são ainda mais vulneráveis porquanto têm poucos meios para se defenderem de saqueadores e vândalos. Assim, a propriedade dos fracos será forçosamente tirada de sua posse por aqueles que sejam mais poderosos ou mais astutos. Até mesmo o rapto de mulheres se tornará comum. Sem boa liderança, até mesmo a polícia não protegerá o povo de forma eficiente. Ademais, em um nível social, os princípios religiosos desaparecerão, relacionamentos como o casamento serão extintos, e crime e caos manifestar-se-ão até mesmo nas esferas de negócios, banco, agricultura, cuidados com a saúde ou farmácia. Mesmo uma vida simples e pacífica será cada vez mais difícil de se conseguir. Isso é melhor desenvolvido no Ramayana (2.67.17):

“Em um Estado onde não haja governo, um grupo de mulheres jovens embelezadas com ornamentos de ouro não pode sair no jardim à noite para recreação”.

Isso pode ter sido o sinal de ausência de governo nos tempos do Ramayana, mas onde vivo em Detroit, um grupo de mulheres simplesmente não pode sair à noite sem arriscar sua segurança, estejam adornadas com ouro ou não. E na África e em outras partes do mundo, a mesma situação acontece: se alguma mulher é vista, fica vulnerável a estupro, tortura e assassinato. Isso não é “terra de ninguém”? Então, de acordo com essas descrições dos textos védicos, um país com um governante perverso, onde a desordem prevalece, é um país tão bom quanto uma terra sem governo nenhum.

“Nenhuma alma é pacífica em um Estado sem um governante. Em tal Estado, os homens exploram uns aos outros assim como os peixes comem uns aos outros”. (Ramayana 2.67.31)

Então, um bom governo e um líder qualificado são essenciais para uma sociedade progressiva. No entanto, quem é um bom líder?

Quem Pode Governar o País?

No sistema védico, o rei é chamado de raja, que significa “aquele que brilha”. Contudo, também significa “aquele que remove os obstáculos de seus cidadãos”. Isso indica que somente quem considera primorosamente o bem-estar de seus cidadãos deve ser rei ou governante.

Alimentar os cidadãos, disponibilizar os meios para que obtenham felicidade e contentamento, proteger a retidão, dar ao povo recursos para a prosperidade e punir os infratores são os principais deveres de um rei segundo o Vishnu-smriti.

“O reino do monarca que não toma nenhuma atitude quando homens baixos estabelecem a lei afundar-se-á como uma vaca no brejo. O reino onde os homens baixos são muito numerosos logo perecerá por completo, vitimado por fome e doenças”. (Manu-samhita 8.21-22)

Reconhecendo o Caráter de um Líder Apropriado

O principal protetor dos cidadãos na língua sânscrita se chama kshatriya. Essa palavra significa “guerreiro”, mas primariamente como alguém que protege o povo contra kshat, “infelicidade”, ou que remove os problemas e as dificuldades.

É dito que um kshatriya exibe as qualidades de bravura, coragem, vigilância, caridade, proeza e firmeza no combate. (Mahabharata 6.42.43)

Um kshatriya verdadeiro tem o dever máximo de proteger todos os seres (Mahabharata 12.120.3) bem como de fomentar a integridade, destruir aqueles que sejam cruéis e não fugir do inimigo. (Mahabharata 12.14.16)

Kshatriyas devem empunhar suas armas apenas para proteger outros, sejam indivíduos, seja a comunidade como um todo. (Ramayana 3.10.3)

Entretanto, um kshatriya que não exibe sua força segundo sua capacidade devido ao medo de perder sua vida merece ser chamado de ladrão. (Mahabharata 5.134.2)

O kshatriya tem de exibir a conduta apropriada em relação a seus subordinados. Ele pode exercer controle sobre as demais classes na sociedade, daí ser chamado de “político”. Ele, destarte, tem que demonstrar imparcialidade na execução de seus deveres, sem favoritismo ou desdém em relação a alguém. Ele deve deliberar acerca do bem-estar de todos. Obviamente, ele tem que pessoalmente seguir as regras que estabelece para os demais. Deve ser capaz de punir os malfeitores apesar do status que possam ter na sociedade. Deve ter o desejo de aconselhar-se com outros que sejam competentes nisso.

O progresso espiritual de um kshatriya é determinado por sua habilidade em proteger os santos e destruir os malfeitores.

Os filósofos declaram que um guerreiro que é valente o bastante para morrer no campo de batalha em um conflito que ele não iniciou tem a mesma grandeza de um asceta que se devotou à prática de yoga. Em outras palavras, alcança o céu depois desta vida terrestre.

Novamente é enfatizado que apenas os governantes que são capazes de sempre proteger a retidão e afastar os malfeitores devem ser instituídos como reis. O universo inteiro existe com base nisso. (Mahabharata 12.78.44) A força dos oprimidos e desolados está no rei. (Ramayana 7.59) Isso significa que aqueles que são pobres dependem do rei para seu bem-estar. Sem isso, estão eternamente condenados à pobreza e ao pesar.

Um Rei Qualificado Tem que Ser Possuidor de Autocontrole

Em uma edição resumida do Mahabharata, descreve-se: “Um homem sábio deve aprender boa conduta, boas palavras e boas ações em todo lugar, assim como um respigador reúne os grãos de milho abandonados pelos ceifeiros. A virtude é preservada pela veracidade; o aprendizado, pela prática; a beleza, pela higiene corporal, e a linhagem nobre, pelo bom caráter. A mera linhagem, no caso de alguém cuja conduta não é boa, não pode inspirar respeito. Um rei ou homem que inveja a riqueza, a beleza, o poder, a linhagem nobre, a felicidade, a boa fortuna e a honra de outrem sofre de uma doença incurável. Boa conduta é algo essencial em um homem. A intoxicação decorrente da riqueza é muito mais censurável do que a intoxicação decorrente do vinho, pois um homem embriagado com a prosperidade jamais retorna à sobriedade, a menos que caia”.

O Mahabharata prossegue: “Como na Lua durante a quinzena brilhante, calamidades crescem para quem é escravo de seus sentidos. O rei que deseja controlar seus conselheiros antes de controlar seu próprio eu, ou o rei que deseja subjugar seus adversários antes de controlar seus conselheiros, peleja em uma batalha já perdida, perdendo sua força. O rei deve primeiramente subjugar seu próprio eu, tendo-o como seu inimigo. Ele, então, jamais fracassará no empenho de subjugar seus conselheiros e, em seguida, seus inimigos. Grande fortuna aguarda aquele que subjugou seus sentidos ou controlou seu eu ou é capaz de punir todos os ofensores ou age com discernimento ou tem a bênção da paciência”.

“O corpo é a quadriga: a alma em seu interior é o cocheiro, ao passo que os sentidos são os cavalos. Puxado por esses excelentes cavalos quando bem treinados, o sábio percorre com prazer e em paz a jornada da vida. Os cavalos, no entanto, se não domados e incapazes de serem controlados, conduzem o cocheiro inábil para a destruição no curso da viagem. Muitos reis de mentalidade maligna se arruínam em razão de seus próprios atos em razão da falta de domínio sobre os próprios sentidos. A ganância de conquistarem maior reinado é a causa de seu pecado”.1

Os Poderes e as Características que os Governantes Devem Ter

“É dito que os reis têm cinco tipos diferentes de poderes. Desses, o poder militar é considerado como o mais baixo. Considera-se a obtenção de bons conselheiros como o segundo tipo de poder. A obtenção de riquezas é o terceiro tipo, ao passo que o poder de nascimento, o qual o sujeito naturalmente obtém de seus pais, avós e outros antepassados, é o quarto tipo de poder. Aquilo, no entanto, através do qual tudo isso é conseguido e é o maior de todos os poderes chama-se ‘o poder do intelecto’”.

“Reis ilustres e poderosos regeram esta poderosa Terra tão cheia de riquezas e glórias e alegrias. Todos eles, no entanto, foram vitimados pelo Destruidor Universal. Partiram deixando para trás seus reinos e seus imensos prazeres. O filho, criado com muito zelo, quando morto, é levado embora e conduzido por homens para o crematório. Com o cabelo em desalinho e envoltos em choros comoventes, atiram o corpo na pira funerária como se fosse mera lenha. Outros desfrutam das riquezas do homem que morreu, enquanto os pássaros e o fogo banqueteiam-se com os elementos do corpo que jaz sem vida. Apenas duas coisas vão com ele para o outro mundo: seus méritos e seus pecados. Depois de jogarem o corpo, os parentes, amigos e filhos fazem o caminho inverso que fizeram até o crematório, como pássaros que abandonam uma árvore sem flores e frutas. Sim: o homem atirado à pira funerária tem por companhia apenas seus próprios atos. Portanto, todo homem deve, cuidadosa e gradualmente, estabelecer-se na retidão”.2

Yudhisthira perguntou ainda: “Como um rei deve se comportar?”.

Bhisma respondeu: “Retidão é o lema de um rei. Nada é superior a isso neste mundo. Seus conselheiros devem ser todos puros de coração e igualmente puros em mente. Malícia é algo que jamais deve encontrar espaço no coração de um rei. Seus sentidos devem estar perfeitamente sob seu controle. Caso use sua inteligência, será glorioso: expandindo-se em grandeza como o oceano que é alimentado pelas águas de mil rios”.3

“Venenos matam apenas apenas um homem, e o mesmo se dá com armas”, Bhisma continuou. “Em contraste, conselheiros perversos destroem um reino inteiro, junto dos reis e cidadãos. O bem maior é a retidão, e a paz suprema é o perdão. Contentamento supremo é o saber, ao passo que a felicidade suprema é a benevolência. Um rei pode facilmente tornar-se grandioso mediante duas atitudes: não se permitir falar palavras ásperas e desprezar aqueles que são perversos. Três crimes são considerados terríveis: roubo, abuso de mulheres e rompimento de relações amistosas. Três coisas destroem a alma: luxúria, ira e cobiça. Três coisas são essenciais: um seguidor, alguém que busca por proteção e alguém que veio ao seu reino ou residência. Esses devem ser protegidos. Um rei, malgrado poderoso, jamais deve consultar alguma destas quatro classes de homens: os poucos sábios, os procrastinadores, os insensíveis, os lisonjeadores. Cinco devem ser adorados: a mãe, o pai, o fogo, o preceptor e a alma. Seis faltas devem ser evitadas por um rei que deseja ser grandioso: sono excessivo, preguiça, medo, ira, insensibilidade e procrastinação. Estes seis não devem ser renunciados: veracidade, caridade, diligência, benevolência, perdão e paciência. O rei deve renunciar os sete vícios, a saber, mulheres, jogos de dados, caçada, fala ríspida, consumo de bebidas alcoólicas, severidade excessiva nas punições e desperdício de riquezas. Oito elementos glorificam um rei: sabedoria, nascimento nobre, autodomínio, aprendizado, bravura, moderação na fala, caridade apropriada e gratidão. Este corpo humano é uma casa com nove portas, três pilares e cinco testemunhas. É presidido pela alma. O rei que conhece isso é sábio. Estes dez indivíduos desconhecem o que é virtude: os intoxicados, os desatentos, os loucos, os fatigados, os irados, os famintos, os infelizes, os cobiçosos, os assustados e os luxuriosos”.4

Mais Descrições acerca do Caráter e dos Deveres de um Rei

Bhisma disse: “A veracidade é um importante atributo de um rei. Se desejas inspirar confiança na mente de seus subordinados, deves sempre ser veraz. Toda perfeição encontra seu lar em um rei. Sua conduta deve estar acima de qualquer reprovação. Autodomínio, humildade e retidão são qualidades que têm de estar presentes em um rei que será exitoso. Ele deve ter suas paixões sob completo controle”.

Bhisma disse ainda: “A conduta de um rei deve ser franca e direta. Outro perigo para um rei é a brandura. Ele não deve ser excessivamente brando, ou será desconsiderado. Os cidadãos não terão respeito o bastante por ele e suas palavras. Ele, ao mesmo tempo, deve evitar o extremo oposto, ou seja, ele não deve ser excessivamente severo, ou os cidadãos o temerão, o que não é agradável ou positivo”.

Em conclusão ao assunto, Bhisma disse: “Um rei tem de conhecer a arte de selecionar assistentes. Ele deve ter a compaixão como parte de sua composição mental, mas deve se esquivar de uma postura excessivamente perdoadora. Estar alerta é de grande necessidade para um rei. Ele deve estudar seus inimigos e também seus amigos, incessantemente. Destreza, inteligência e veracidade são três atributos necessários em um rei. Residências e edificações em geral que estejam velhas ou em ruínas devem ser renovadas caso queira uma opinião pública positiva de seus cidadãos. Deve saber utilizar seus poderes para infligir punições corporais e multas aos perversos”.5

O Rei Tem de Proteger Seus Cidadãos

Por diversas vezes, o Mahabharata e outros textos enfatizam que um governante tem que ser capaz de proteger e cuidar de seus cidadãos. Isso acontece de diversas formas, o que é explicado brevemente nas muitas citações a seguir. Contudo, se um governante não pode cuidar de seus subordinados com zelo e firmeza, é evidente que tal pessoa é inapta a continuar em qualquer posição de liderança.

“Tendo assim organizado todos os assuntos (de) seu (governo), ele deve zelosa e cuidadosamente proteger seus cidadãos. Aquele (monarca) cujos cidadãos são levados por ladrões (dasyu) para fora de seu reino enquanto gritam (por socorro) e ele e seus servos apenas olham sem nada fazer é um (rei) morto, e não vivente. O dever mais elevado de um kshatriya é proteger seus cidadãos, haja vista que o rei que desfruta das recompensas tem a obrigação de cumprir esse dever”. (Manu-samhita 8.142-144)

“O rei deve proteger seus cidadãos assim como uma mulher grávida nutre o feto em seu ventre”. (Mahabharata 12.56.44) Em outras palavras, assim como uma mulher grávida sacrifica seus interesses pessoais pela causa da criança em seu ventre, o rei deve ser capaz de renunciar seus próprios interesses a fim de atender às necessidades dos cidadãos.

“Da mesma maneira que um pai ajuda seu filho a superar uma crise, o rei deve livrar das dificuldades os seus cidadãos”. (Bhagavata Purana 11.17.45)

“Se um rei é excessivamente gentil, o povo o desobedece. E se ele é autoritário, o povo o teme. Por conseguinte, de acordo com a situação, ele deve ser autoritário ou gentil”. (Mahabharata 12.140.65)

“Manter felizes os cidadãos nesta Terra é o código de retidão de um rei”. (Mahabharata 12.57.11)

“Os fracos e oprimidos, os cegos, os surdos, os aleijados, os órfãos, os idosos, as viúvas, os doentes e os aflitos devem receber alimento, vestes, medicamentos, abrigo e demais necessidades”. (Mahabharata 12.86.24)

“O rei tem que considerar que seu principal dever é servir seus cidadãos. Ele deve protegê-los assim como uma mãe protege a criança em seu ventre. Alguma mãe pensará em gratificar-se enquanto seu filho está em seu ventre? Todos os pensamentos dela estarão voltados para a criança e para o bem-estar da mesma. Da mesma forma, o rei deve subordinar todos os seus desejos e vontades e buscar atender aqueles de seus cidadãos. O bem-estar deles deve ser seu único interesse”.

“O melhor rei é aquele cujos cidadãos vivem em liberdade e alegria como se estivessem na casa do próprio pai. A paz estará com eles, bem como a satisfação. Assim, não haverá qualquer perversidade, ambição, desonestidade ou inveja. O âmago do dever de um rei é a proteção de seus cidadãos e a felicidade deles. Não se trata de algo fácil. Para garantir a felicidade de seu povo, ele deve recorrer a diversos métodos”.6

Impostos

Uma das funções primárias de um governante é supervisionar e planejar o desenvolvimento das terras em seu domínio, e um dos meios que ele usa para isso é a cobrança de impostos. Contudo, tem que arrecadar impostos de maneira sistemática e com a devida consideração por seus cidadãos. Descreve-se: “Assim como uma abelha suga o néctar das flores sem machucá-las, o rei deve obter o dinheiro de seus cidadãos sem afligi-los”. (Mahabharata 5.34.17)

“Assim como uma abelha suga o néctar das flores delicadamente, sem danificar a planta, o rei deve obter dinheiro através de impostos cobrados de seus cidadãos sem fazer-lhes mal. Quem ordenha uma vaca não o faz até que as tetas fiquem vazias, senão que tem o cuidado de garantir de que sobre leite para o bezerro. Similarmente, o rei deve arrecadar impostos do povo depois de considerar cuidadosamente se terão o suficiente para se manterem”. (Mahabharata 12.88.4)

“Como um sanguessuga, o rei deve obter dinheiro da nação gentilmente através da cobrança de impostos. Uma tigresa ergue seus filhotes com seus dentes, porém não os machuca. Similarmente, um rei deve cobrar impostos de seus cidadãos sem causar-lhes aflição”. (Mahabharata 12.88.5)

“Ó rei, é deveras insensato o governante que, apesar de cobrar um sexto da renda de seus cidadãos, não cuida deles assim como cuida de seus filhos”. (Ramayana 3.6.11)

“É dito que o rei que, sem proteger seus cidadãos, recolhe um sexto da renda deles [na forma de impostos] toma para si os pecados do povo”. (Mahabharata 1.213.9)

“O rei deve se tornar um jardineiro, e não um fabricador de carvão. O jardineiro cuida das plantas a fim de receber delas flores e frutas. Similarmente, o rei deve conduzir seus cidadãos à prosperidade e, então, obter um quarto da renda deles na forma de impostos. Quem comercia carvão, no entanto, desarraiga a árvore e carboniza a mesma por completo. O rei não deve desarraigar seus cidadãos, roubando-lhes por completo suas riquezas”. (Mahabharata)

“Assim como alguém que corta os úberes de uma vaca com a esperança de obter leite jamais o consegue, um Estado em que os impostos são cobrados inapropriadamente, assim atormentando os cidadãos, não prospera”. (Mahabharata 12.71.16)

“A maioria dos autores dos Smritis declaram que não se devem cobrar impostos dos brahmanas que dominam os Vedas. Isso porque o rei obtém um sexto dos méritos obtidos por um brahmana que segue o caminho da retidão”. (Vishnu Dharmasutra 3.26-27)

O ponto é que é dever do rei apoiar e cuidar das necessidades mundanas e espirituais dos brahmanas eruditos, ascetas e estudiosos e das instituições de ensino. Isso amplia o prestígio do rei. O rei deve tratá-los com absoluto respeito uma vez que se destinam a auxiliar na preservação do dharma e do equilíbrio social, através do que toda a sociedade pode operar em harmonia e continuar com o desenvolvimento espiritual que permite que todos fiquem contentes e sejam felizes.

Portanto, o rei tem que adotar a atitude de que ele é servo dos cidadãos. Um governo desonesto deve temer que os cidadãos cedo ou tarde se revoltem contra seu líder. Que valor há para os cidadãos pagar altos impostos para um líder perverso que não os está governando devidamente e não é capaz de protegê-los quer na esfera militar, quer econômica, quer educacional etc.? O líder recebe um salário a partir dos impostos cobrados apenas quando pode desempenhar seu papel da maneira devida. De outro modo, os impostos cobrados para determinados propósitos são desperdiçados.

Uso do Tesouro

A principal utilização do tesouro por parte do rei também é explicada: “O tesouro de um rei tem por fim a proteção do exército, de seus cidadãos e da retidão. Se é usado para esses fins, revelar-se-á benéfico. Por outro lado, se o tesouro é desperdiçado, isso se revelará desastroso. Se o rei utilizar o tesouro real para sua esposa e para seus filhos e para satisfazer seus próprios desejos sensuais, o mesmo lhe trará infelicidade e tal monarca será conduzido para o inferno”. (Shukraniti 4.2.3-5)

O governante tem que usar sua renda pessoal para todos os seus interesses pessoais, sem jamais divergir alguma conta ou finança de sua administração para fins inapropriados. Não apenas ele acumulará o mau karma que o levará para o inferno, mas é frequente que sua própria vida – privada e política, junto do futuro de seus cidadãos e de seu país – seja condenada no devido tempo.

“O rei deve se lembrar de que seu tesouro deve estar sempre cheio. A supervisão do trabalho de todos os seus oficiais deve ser feita pelo próprio rei. Ele jamais deve confiar cegamente nos guardiões da cidade ou do forte”.7

Defender o País – Estar Ciente do Inimigo

Na proteção dos cidadãos contra obstáculos, superintender a segurança do país é certamente uma preocupação primária que deve ser tida em conta pelo governante. Aconselha-se, portanto:

“Ó rei, obviamente não encontrarás escrito no rosto de alguém se ele é um inimigo ou um aliado. Aquele que nos faz experienciar tormentos é quem entendemos como inimigo”. (Mahabharata 2.55.10)

“Ainda que fracos, aqueles que são cautelosos não são derrotados pelo inimigo. Em contraste, alguém poderoso que não é vigilante em relação ao inimigo é aniquilado até mesmo por um inimigo fraco”. (Mahabharata 12.138.198)

“Mesmo se um inimigo é fraco, quando sua força cresce, nem mesmo um homem poderoso é capaz de ignorá-lo”. (Mahabharata 5.9.22)

“Mesmo se alguém é poderoso, não deve considerar inferior um inimigo que seja fraco, pois mesmo uma chama pequena é suficiente para queimar, e mesmo uma minúscula quantidade de veneno é o bastante para ceifar a vida”. (Mahabharata 12.58.17)

“Neste mundo, não há nada mais perigoso do que estar inadvertido. Toda riqueza abandona tal indivíduo descuidado, em consequência do que tem de experienciar grandes catástrofes”. (Mahabharata 10.10.19)

Lidando com um Inimigo

Uma vez que um inimigo tenha sido reconhecido, há maneiras específicas de lidar com ele, segundo a sua posição. “É apropriado amigar-se com um inimigo reconciliando-se com ele com um falso ar de amizade, mas se deve temê-lo constantemente, assim como se teme uma cobra dentro de casa”. (Mahabharata 12.140.15)

“Deve-se falar [com um inimigo] brandamente, mas, interiormente, deve-se ter uma postura insensível. Deve-se falar com um sorriso, e a verdadeira natureza jamais deve ser revelada através de um ato rude”. (Mahabharata 1.140.66)

“Alguém tolo o bastante para menosprezar um inimigo em ascensão será completamente aniquilado por ele, assim como faz uma doença em seu estágio terminal”. (Mahabharata 2.55.16)

“O indivíduo não deve deixar que o inimigo se dê conta de suas fraquezas. Em contrapartida, deve certamente buscar as fraquezas do inimigo. Assim como uma tartaruga mantém todas as partes de seu corpo escondidas sob o casco, o rei deve manter todas as estratégias da nação em segredo e deve ser cuidadoso quanto às suas fraquezas”. (Mahabharata 12.140.24)

“Quem confia em um inimigo e dorme pacificamente após estabelecer trégua com o mesmo é como um homem que dorme no topo de uma árvore e acorda apenas após sua queda”. (Mahabharata 12.140.37)

“Assim como uma dívida continua crescendo mesmo se apenas uma fração dela não foi paga, se a vida de seus inimigos forem poupadas, então, porque foram insultados, eles, no futuro, gerarão grande terror, tal qual uma doença negligenciada que mais tarde se torna formidável”. (Mahabharata 12.140.59)

“O rei deve primeiramente conquistar sua própria mente, após o que se torna mais fácil conquistar seu inimigo. Como alguém que não domina a própria mente poderá aniquilar seus inimigos?”. (Mahabharata 12.69.4)

Espera-se que o rei tenha autocontrole sobre sua mente e sobre seus sentidos se ele pretende controlar seus inimigos e cidadãos. Ele tem que se elevar acima da influência dos seis defeitos, a saber, desejo, ira, cobiça, orgulho e avidez por fama e felicidade. De outro modo, tanto o rei quanto seu reino estarão condenados. Vemos com frequência governantes que exibem fraquezas voltadas a mulheres, bebidas, jogos ou caçadas e outros vícios provenientes de desejos, bem como outros desequilíbrios baseados em crítica, apropriação indevida de dinheiro, crueldade excessiva nas punições etc., tudo o que se origina de ira e orgulho em excesso e conduz a uma queda ou desastre. Assim, tem que evitar essas questões e fraquezas a fim de reinar prazerosamente sobre seus cidadãos.

Nesta era de Kali-yuga, os governantes em qualquer parte do mundo não conseguem liderar apropriadamente em razão de que estão cheios de fraquezas pessoais e não são capazes de controlar a própria mente e os sentidos. Foco é fundamental ao líder, que não deve se distrair com os sentidos ou ter a tendência a conferir privilégios a grupos políticos devido a estar atraído pelo dinheiro que oferecem. Quando os sentidos de um governante estão controlados, o Estado pode prosperar sob todos os aspectos e, como resultado, enriquecer. Quando o governante não é capaz de controlar seus sentidos, os cidadãos sofrem as consequências de ter um líder muito facilmente influenciável e propenso à distração – o resultado disso é falta de justiça e falta de liderança imparcial. Assim, o próprio governo se torna uma casa de corruptos e ladrões. Quando o líder se torna ladrão, os cidadãos se tornam mendigos.

O que segue também explica que qualquer resposta de um rei a um inimigo ou a alguém no mundo que deve ser detido tem que ser dada após um plano perfeitamente elaborado, e não por uma reação meramente baseada em emoções, o que frequentemente tem por motivação a impulsividade e o orgulho em vez de sabedoria e objetividade.

Bhisma disse a Yudhisthira: “Homens grandiosos não expressam hostilidade de imediato contra aqueles que os insultam. Não obstante, exibem sua bravura gradualmente, no devido tempo”. (Mahabharata 12.157.10) Em outras palavras, fazem um plano para lidar com isso posteriormente de uma maneira mais eficaz.

O Exército

O exército, é claro, é o principal agente pelo qual o rei lida com os inimigos. Aqui estão algumas declarações pertinentes a como o exército deve ser guiado, não necessariamente pelo próprio rei, mas por líderes militares sagazes.

“Uma organização militar funciona melhor se é bem guiada. O exército é cego e ignorante. Diante disso, líderes sagazes devem guiá-lo apropriadamente”. (Mahabharata 2.20.16)

“Soldados cheios de entusiasmo para a batalha é o primeiro sinal de vitória”. (Mahabharata 6.3.75)

Muito embora houvesse conflitos entre tribos e reinos, princípios estritos eram seguidos nos tempos védicos, como os princípios de que a guerra era travada apenas em áreas específicas, os guerreiros paravam de batalhas à noite e retomavam apenas na manhã seguinte depois que um búzio houvesse sido tocado por ambos os lados. Nenhum civil era incentivado a batalhar, e mulheres e crianças jamais eram atacadas. Pessoas ocupadas em atividades de fazenda e comércio, artesãos, manufatureiros e outros em profissões similares não eram forçados a se dedicar a campanhas militares. Não-combatentes jamais eram mortos, e habitações diferentes de fortes jamais eram atacadas. Os civis jamais eram saqueados, tampouco se violava a castidade das mulheres ou se tocava nos brahmanas, sacerdotes, templos e vacas.

Muitas dessas regras ainda são utilizadas por organizações internacionais e pela Cruz Vermelha. Infelizmente, nestes dias de terrorismo, e quando crianças são forçadas por tiranos a prestar serviços militares brutais e mulheres e moças são estupradas rotineiramente, podemos ver o quanto a sociedade se afastou dessas disciplinas e desse código de honra e se perdeu em uma mentalidade genuinamente demoníaca.

O Rei Deve Buscar Aconselhamento

O poder do governo deve ser supervisionado e monitorado por diferentes pessoas ou organizações uma vez que, se apenas uma pessoa ou classe o controla, será criado um monopólio que gera medo e suspeita no povo em geral. Além disso, um governante jamais se destina a tomar decisões unilaterais sem conselho, haja vista que isso conduz à tirania e à ditadura.

Rama perguntou a Bharata: “Tomas decisões por ti mesmo ou consultas o conselho de muitos outros? Tua política é publicada muito antes de ser implementada?”. (Ramayana 2.100.18)

Um governante, independente de quão arguto ou inteligente possa ser, jamais deve tomar decisões sozinho, sem consultar seus ministros. A História nos mostra repetidamente que qualquer líder que projeta seus planos sem consultar seus conselheiros logo se dá com a ruína.

Comenta-se sobre a escolha de um ministro: “O rei deve ser proficiente na arte de escolher homens honestos para a ocupação de ofícios importantes”.8

“Aquele que julga a força do inimigo em comparação com a de sua própria nação, que contempla com inteligência o estado atual, crescimento e destruição de seu exército e do exército do inimigo e sugere as medidas necessárias para o bem-estar de seu mestre pode ser verdadeiramente chamado de ministro”. (Ramayana 6.14.22)

O Caráter dos Legisladores

Yudhisthira perguntou: “Quais devem ser as características dos legisladores, dos ministros de guerra, dos cortesãos e dos conselheiros de um rei?”.

Bhisma respondeu: “Os legisladores devem ser homens que são modestos, autocontrolados, verazes e sinceros. Devem também ter a coragem de falar o que é apropriado. Os ministros de guerra devem ser aqueles que estão sempre ao lado do rei e devem ser muito corajosos. Devem ser eruditos e afáveis no tocante a defeitos do rei. Um cortesão deve sempre ser honrado pelo rei. Deve ser um homem que tem sempre no coração os interesses do rei. Jamais deve abandonar o rei, independente de quais sejam as circunstâncias. Os oficiais do exército devem ser conterrâneos do rei, possuidores de sabedoria, grande aprendizado e beleza física e de caráter. Devem ser de excelente comportamento e devem ser devotados ao rei”.9

A Necessidade de Sigilo

“Venenos e armas matam apenas uma pessoa por vez, mas alguma discrepância nos planos de um rei torna-se a causa da destruição de todos os cidadãos junto do rei”. (Mahabharata 5.33.45)

“Assim como os pavões mantêm-se em silêncio no outono, o rei deve sempre manter em segredo suas políticas”. (Mahabharata 12.120.7)

O sábio Narada explica a Yudhisthira: “O principal caminho para a vitória de um rei é o aconselhamento sigiloso”. (Mahabharata 2.5.27)

Espiões

Um governante deve ouvir as intenções das pessoas e saber de seus atos, tanto dentro quanto fora de seu reino e tanto de pessoas honestas quanto desonestas. Com isso não se intenta a violação dos direitos do povo, mas se trata apenas de uma medida para que o rei compreenda como as coisas estão funcionando entre seus dependentes. Compreendendo as intenções dos cidadãos, o rei pode propor planos apropriados para que seus legisladores levem ao conselho.

“O rei observa seus cidadãos através de seus espiões”. (Mahabharata 5.34.34)

“É dito que os espiões são o suporte de um Estado, e que o conselho secreto é sua força”. (Mahabharata 12.83.51)

O Rei Deve Compreender as Características de um Sábio e de um Tolo

O Mahabharata também explica como o rei deve compreender as características tanto de um homem sábio quanto de um homem tolo. Isso também tem um efeito sobre o caráter do rei. Isso se encontra na seção vidura-niti do Mahabharata, na qual Vidura dirige a palavra ao rei Dhritarastra.

Vidura disse: “Falar-te-ei como deve ser um homem sábio. Deve aspirar às coisas e ideais superiores na vida. Os atributos de semelhante sujeito são o autoconhecimento, a aplicação, a paciência e a constância na virtude. Eis o sábio. Nem ira nem júbilo nem orgulho nem falsa modéstia ou vaidade pode distraí-lo de seu propósito. Suas ações são feitas sempre com o pensamento de que deve servir a ambos os mundos. O desejo não macula suas ações. Atos honestos deleitam-no, e ele ama o que é bom. Ele não é afetado nem por honrarias nem por menosprezo. Como um lago no curso do rio Ganges, é ele calmo, tranquilo e livre de agitações”.

“Em contraste”, disse ainda Vidura, “as qualidades de um tolo são igualmente fáceis de serem enumeradas. A escritura é um livro fechado para ele. É vaidoso e convencido e, quando quer algo, jamais hesitará em recorrer a meios injustos. É propenso a desejar o que não é de seu direito desejar. Aqueles que são poderosos despertam-lhe inveja”.10

Lidando com Criminosos

Definitivamente é necessário haver um rei ou governante para, em qualquer posição, assumir uma postura severa contra os criminosos. Criminosos e malfeitores são uma fonte primária de medo e perturbação para a vida de cidadãos honestos. Assim, é preciso lidar com eles firmemente. Entretanto, o rei também precisa ter um caráter sólido, ou não terá a disposição mental em que será capaz de afrontar tais criminosos com o rigor exigido. Eis porque, desde o começo, deve-se escolher um rei apropriado para o trono, e não alguém incompetente.

“Depois de punido ou perdoado, o ladrão fica livre do [karma do] roubo. Se o rei, porém, não o pune, toma para si a culpa do roubo”. (Manu-samhita 8.316)

“Os homens que cometeram crimes e foram punidos pelo rei, vão para o céu, estando purificados como aqueles que executaram feitos piedosos”. (Manu-samhita 8.318)

“Se alguém que agiu de maneira iníqua é morto, seu ato inapropriado não é contabilizado”. (Ramayana 2.96.24)

“Não há nenhum pecado em matar um inimigo aterrorizante”. (Mahabharata 5.3.21)

“Aquele que tem que proteger seus cidadãos não deve hesitar se, algumas vezes, veja-se compelido a ser um pouco cruel ou a realizar ações ligeiramente erradas a fim de protegê-los”. (Ramayana 1.25.18)

O Propósito da Punição

“Sem punição no universo, os cidadãos teriam se extinguido. Assim como um grande peixe na água engole os pequenos, homens poderosos teriam destruído os fracos”. (Mahabharata 12 15.30)

“É somente a punição que disciplina todos os cidadãos e protege a todos. A lei permanece vigilante até mesmo quando todos estão dormindo. Eis porque os eruditos opinam que são as punições o que mantém o dharma”. (Mahabharata 12.15.2)

“Todos se mantêm sob controle por temor à punição. Um indivíduo basicamente puro é muito raramente encontrado. É o medo de ser punido que faz alguém agir apropriadamente e cumprir as obrigações que lhe são atribuídas”. (Mahabharata 12.15.34)

“As punições a que são submetidos os ofensores devem ser proporcionais à ofensa”.11

Consequências para o Rei

“O rei arrogante em cujo reino pessoas inocentes são atormentadas por malfeitores perde sua fama, sua longevidade, sua fortuna e um local meritório após a morte”. (Bhagavata Purana 1.17.10)

“Indubitavelmente, o rei que não cumpre seus deveres para com seus cidadãos regularmente tem o inferno por destino, um local destituído de ar”. (Ramayana 7.53.6)

“O rei que protege recebe de todo cidadão um sexto de seus méritos espirituais. Caso não os proteja, um sexto de seus deméritos também [recebe]. Quaisquer [méritos decorrentes de] leitura dos Vedas, prática espiritual, presentes caridosos e adoração a Deus que aconteçam em seu reino beneficiam o rei em um sexto em consequência do reino estar sob sua devida proteção”. (Manu-samhita 8.304-5)

“Um rei que protege os seres criados de acordo com a lei sagrada e golpeia aqueles merecedores de punições corporais é como se oferecesse diariamente sacrifícios em que são dadas cem mil joias”. (Manu-samhita 8.306)

“O rei que não confere proteção, apesar de receber sua cota de afeição, impostos, taxas, reverências, presentes diários e multas, logo cairá no inferno. Declara-se que um rei que não confere proteção, apesar de receber um sexto da produção, toma para si toda impureza de todo o seu povo. Tem por certo que semelhante rei deslizará lentamente [para o inferno]”. (Manu-samhita 8.307-9)

“Os cidadãos rejeitam um rei cuja administração seja defeituosa”. (Yogavasistha 6.84.27)

“Ninguém, nem mesmo seus amigos e parentes, resgatam um rei que procede com crueldade, que paga pouco a seus ministros e outros homens, comporta-se arrogantemente, é presunçoso e que prejudica pessoas em segredo em tempos de calamidade”. (Ramayana 3.33.15)

“Mesmo se alguém que atormenta seres vivos e é deveras cruel e pecador se torna mestre de todas as três regiões, ele não permanece no poder por muito tempo”. (Ramayana 3.29.3)

“O rei que não organiza uma rede de espiões [para ter notícias do reino] ou que não propicia aos cidadãos oportunidades de expressarem a ele suas queixas e que é controlado por outros é rejeitado pelo povo assim como elefantes abandonam um rio ao verem lama na água”. (Ramayana 3.33.5)

A Manu-samhita (7.46-52) também explica: “Um rei apegado aos vícios decorrentes do amor ao prazer perde sua riqueza e sua virtude, ao passo que aquele dado aos vícios nascidos da ira perde até mesmo sua vida. Caçar, jogar, dormir de dia, censurar excessivamente, apego excessivo a mulheres ou apego em qualquer grau a sexo ilícito, bebedeira, afeição desordenada por dança, canto e música, e viagens inúteis são os dez vícios nascidos do amor ao prazer. Contar histórias exageradas, violência, traição, inveja, caluniar, difamação, injusta confiscação de bens, insultos e ataque são os oito vícios produzidos pela ira. A ganância, a qual todos os sábios dizem ser a raiz de ambos os conjuntos de vícios, conquista cuidadosamente. Bebedeira, jogar dados, conexões ilícitas com mulheres e caçada – estes quatro devem ser entendidos como os mais perniciosos no conjunto de vícios que surgem do amor ao prazer. Causar ferimentos corpóreos, insultar e privar dos bens – estes quatro devem ser entendidos como os mais perniciosos no conjunto de vícios produzidos pela ira”.

Conclusão: Política e Liderança no Caminho Védico

Na aplicação dos princípios védicos em nossa vida, também mudará como vemos a política e o sistema de liderança que escolhemos. Haverá certos padrões, no entanto, que quereremos manter.

Muitas civilizações no planeta que se orgulham de serem avançadas não são civilizações genuínas. Isso significa que não são tão civilizadas quanto pensam. Uma sociedade verdadeiramente civilizada terá como sua base e fundação o amor, a compaixão, a cooperação, a sabedoria e a liberdade, e não mera superioridade tecnológica, econômica ou militar para dominar os fracos.

A sociedade tem que selecionar um líder de verdade, e não meramente eleger “o menos ruim” entre os candidatos. Contudo, é preciso saber o que é um verdadeiro líder. Um líder de verdade tem também que ser conhecedor das verdades espirituais universais. Semelhante líder, então, poderá fazer programas que têm como fundação o que é universalmente aplicável a todos. Deste modo, o líder deve se valer de uma filosofia completa para suas convicções políticas. De outro modo, um líder imperfeito não será capaz de criar uma ideologia que seja aceitável a todos, senão que continuará especulando sobre o que talvez funcione e continuará sugerindo ideias não experimentadas, falsas e que seguem desorientando. Isso se dá enquanto os verdadeiros objetivos são ocultados, os quais, em geral, consistem em enganar as pessoas de modo que trabalhem duro para pagar impostos elevados que não serão utilizados para beneficiar verdadeiramente as pessoas e o planeta. Se o líder é tolo, o governo é o paraíso de um tolo. Se o líder é ladrão, os cidadãos se tornam indigentes.

Um líder tem que ser ético e forte a fim de subjugar apropriadamente as perturbações. Antes que um líder possa afetar o mundo, tem que cuidar dos assuntos locais, em seu próprio domínio. Tem primeiramente que refrear quaisquer sofrimentos experimentados por seus próprios cidadãos. Eles o estão apoiando, são os impostos deles que ele está administrando. Diante disso, devem ser os primeiros a receber as recompensas da liderança apropriada e dos fundos governamentais. A primeira medida, portanto, é que todos os ladrões, estupradores, sequestradores, assassinos e violadores da lei em geral sejam detidos e presos. Isso ajudará a criar uma situação de paz para todos os cidadãos honestos. Além disso, os programas que beneficiam as pessoas, como garantir oportunidades de emprego e proteger os recursos naturais e o meio ambiente, devem ser estabelecidos a fim de que as pessoas não percam as esperanças em relação ao futuro.

Criminosos e sujeitos desonestos na sociedade abundam em virtude de líderes covardes e impotentes. Se tais líderes não sabem exercer sua posição devidamente, os criminosos se valem da situação para aterrorizar os cidadãos de bem. Entretanto, quando os líderes são poderosos o bastante para deter toda sorte de infratores em qualquer parte da nação, não serão capazes de crescer tais ameaças. Quando os indivíduos perversos são punidos de maneira exemplar e imediata, a boa sorte reina. Os crimes decaem, os custos para imposição da lei decrescem. Ademais, os cidadãos em geral não precisam viver com medo. Isso afetará a confiança que têm no governo e a maneira como contribuem com o país. Em contraste, quando as leis protegem os criminosos e tornam os cidadãos honestos incapazes de se defender, ou quando a imposição da lei é lenta e ineficaz, os ladrões se tornam proeminentes na sociedade em virtude de um governo inapto. Semelhante governo logo se torna um local perigoso para se viver. Infortúnios, destarte, certamente decorrerão.

Assim, a prioridade de um líder é sua terra e os cidadãos da mesma. Apenas depois que sua própria área está segura e nela tenham sido estabelecidos firmemente programas de bem-estar deve haver algum arranjo para grandes gastos ou expedições militares fora da defesa da própria jurisdição, além das próprias fronteiras, e somente se tais ações militares não comprometam desnecessariamente a economia. Uma vez que os problemas locais tenham sido solucionados e corrigidos, os líderes e o povo terão uma base mais forte para tentar ajudar em desafios e dificuldades em outras partes do mundo.

Se um governante ou governo é efetivo em refrear a criminalidade em seu país, manter os cidadãos livres das perturbações de homens de negócios enganadores, políticos corruptos, terroristas, ladrões etc., ele poderá, por revelar-se como tão forte líder, cobrar impostos mais facilmente, pois mais cidadãos serão honestos e dispostos a pagar. Todavia, se um líder ou governo não é capaz de proteger os cidadãos de ladrões em público ou de abusos no governo, tal líder ineficaz não deve pensar que tem o direito de continuar cobrando pesados impostos de seus cidadãos, ou mesmo o direito de continuar em sua posição. Se o líder é ineficiente e permite que criminosos ocupem sua jurisdição, recairá sobre ele parte das reações pelos atos malfazejos que são conduzidos dentro de seu regime, e seu futuro será muito trevoso. Assim, um governante ruim perpetua a degradação de toda a nação.

Ainda pior é a situação em que os próprios ladrões são eleitos para o governo. Tais enganadores, então, tirando proveito de sua situação ou posição, desfrutam da vida assenhoreando-se dos elevados impostos pagos pelos cidadãos. Ou, então, dedicam-se a intrigas políticas ou financeiras que resultarão em grande lucro em seus bolsos a custo dos contribuintes. A consequência disso é que as pessoas se tornam mais desonestas ao tentarem esconder sua renda, sabendo que os cobradores de impostos servem políticos corruptos. Então, conforme essa mentalidade criminosa se difunde, partindo dos políticos, todo o país se torna cada mais corrupto.

As hierarquias e os regimes que operam de acordo com métodos egoístas que são, em verdade, viciosos e injustos, especialmente em relação às pessoas honestas, não podem ir adiante. A força última da Verdade no mundo os verá cair cedo ou tarde. Temos que trazer à tona o poder da transformação, não pela força ou pela manipulação, mas por nos opormos ao que não é certo através de preocupação genuína e amor espiritual.

Todavia, não é o bastante que líderes tentem propiciar a paz por meio de dominação militar e força. É preciso que haja fundos que apoiarão projetos educacionais que difundirão o conhecimento espiritual genuíno. Tal conhecimento pode invocar uma verdadeira mudança de consciência na humanidade em grande escala. Isso não significa simplesmente propagar uma religião em particular, mas propagar a informação espiritual que possa ser aplicada por todos e em todo lugar independente de afiliações religiosas. Providenciando os meios para uma mudança genuína de consciência, e um crescimento em percepção de nossa unidade espiritual, pode haver paz através de escolha deliberada da sociedade em vez de mero temor da força militar. Pode haver harmonia através de crescimento intelectual e espiritual. De outra maneira, paz verdadeira não será possível, senão que haverá apenas paz forçada, haja vista que a causa por trás da desunião e dos problemas persiste, aguardando por uma oportunidade para os conflitos recomeçarem.

Naturalmente, pode haver momentos em que a força militar seja insubstituível para colocar fim a um conflito desnecessário ou para subjugar os criminosos, mas jamais será um meio para a paz duradoura.

Um governante deve ser o representante da moralidade perfeita. Deve exibir uma conduta exemplar em suas ações, ordens e fala. Assim como é absolutamente benéfico para a sociedade em geral trabalhar para o avanço espiritual, também é benefício para um governante trabalhar de maneiras que aprimorem seu próprio desenvolvimento espiritual. Ele deve buscar soluções para que todos tenham as mesmas oportunidades para fazer isso. Isso é verdadeira liderança.

Referências

1. Mahabharata, traduzido por Kamala Subramaniam, publicado por Bharatiya Vidya Bhavan, Bombaim, 1982, p. 354-355; 2. Ibid., p. 357; 3. Ibid., p. 714; 4. Ibid., p. 354; 5. Ibid., p. 708-70; 6. Ibid., p. 709; 7. Ibid., p. 709; 8. Ibid., p. 709; 9. Ibid., p. 714; 10. Ibid., p. 353; 11. Ibid., p. 714.

 

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