Parama-Purushah: A Pessoa Suprema

25. (artigo - Bhagavad-gita) Pessoa Suprema (Adequado)1

 

H.D. Goswami
(excerto da obra Guia Completo da
Bhagavad-gita com Tradução Literal)

Na Bhagavad-gita, vemos com clareza que Krishna é, simultaneamente, uno com todas as almas e diferente delas.

(Nota: Os números fornecidos entre colchetes se referem a versos da Bhagavad-gita. Por exemplo, 2.12 significa “capítulo 2, verso 12”. O texto reproduzido abaixo sem diacríticos consta no livro impresso com diacríticos)

Pensadores em todas as maiores religiões do mundo têm debatido por muito tempo se Deus é, em última análise, pessoal ou impessoal. Nosso próprio destino encontra-se numa posição incerta: se Deus, nosso criador ou emanador, é original e essencialmente impessoal, então é muito provável que também sejamos, em última análise, impessoais. Se, por outro lado, fluímos de um Deus pessoal e amoroso, então nossa natureza pessoal e amorosa, no seu melhor estado, é, na verdade, o que somos.

Aqueles que valorizam a vida pessoal livre e individual em relações amorosas com outras pessoas livres ficarão felizes em saber que a Bhagavad-gita firmemente ensina que tanto a alma como Deus são pessoas individuais eternas.

Krishna afirma no início que tanto Deus como as almas sempre existiram, e sempre existirão, como seres individuais [2.12]. E Ele chama regularmente a alma individual de pessoa (purusha). Muitos versos também falam de Krishna como um purusha, pessoa. Nesse sentido, as almas e Deus são unos. Contudo, também são diferentes.

Krishna é a Pessoa Última (uttama purusha) [8.1, 10.15, 11.3], a Pessoa Suprema (parah purushah) [8.22, 13.23], a Suprema Pessoa Divina (paramam, ou param, purusham divyam) [8.8, 8.10], a Pessoa Divina Perpétua (purusham shasvatam divyam) [10.12], a Pessoa Eterna (sanatanah purushah) [11.18], a Pessoa Ancestral (puranah purushah) [11.38] e a Pessoa Original (adyam purusham) [15.4]. Nós, almas, somos pessoas precisamente porque somos partes da Pessoa Suprema [15.7].

Da mesma forma, somos atma, eu ou alma, como declarado em toda parte na Gita, porque somos partes de Krishna, o Eu ou Alma Supremo (paramatma) [6.7, 13.23, 15.17]. Outra vez, Deus e a alma são unos e diferentes.

Alguns acreditam, no entanto, que Krishna seja um Ser impessoal amorfo que assume uma forma visível quando desce a este mundo como um avatara. Nessa visão, a pessoa Krishna meramente representa em nosso mundo o que é, em última análise, uma Verdade impessoal, amorfa e sem nome.

Krishna, entretanto, nega isso explicitamente: “Sem conhecer Minha natureza suprema, pessoas sem sabedoria pensam que um ser amorfo assume individualidade visível” [7.24].

E a fim de que não presumamos que Krishna ensina antropomorfismo primitivo, Ele afirma que Sua forma pessoal é acintya [8.9], inconcebível à razão humana destituída de ajuda. Ela é cognoscível somente através de devoção pura [11.54]. Mesmo seres celestiais, mediante suas próprias faculdades mentais, não compreendem a forma individual do Senhor [10.14].

De fato, é como uma Pessoa Suprema que Krishna permeia este mundo e está presente dentro de todos os seres [8.22, 13.23]. Essa Pessoa Divina Eterna é o Brahman Absoluto Supremo [10.12], a Pessoa Última, que faz com que as coisas existam [10.15].

Outra vez, é precisamente como a Pessoa Suprema que Krishna tanto permeia [6.29, 9.4, 11.38, 13.29] quanto contém [6.29, 9.6] tudo o que existe, pois Ele é nidhana, o receptáculo [9.18] – de fato, param nidhanam, o receptáculo supremo [11.18, 11.38].

No entanto, mesmo o fato de Krishna conter toda a existência não é impessoal, pois Ele é nivasa, a morada ou lar de todos [11.25, 11.37]. Arjuna chama Krishna de jagan-nivasa, a morada do Universo [11.37, 11.45]. A ideia é clara: mesmo que ignoremos ou neguemos Krishna, nosso verdadeiro lar permanece com Krishna e dentro de Krishna. Krishna é “o magnífico senhor de todos os mundos” [5.29].

Arjuna pergunta diretamente a Krishna qual dos dois grupos melhor entende o yoga: aqueles devotados a Krishna como uma pessoa ou aqueles devotados a uma verdade imperceptível [12.1], indescritível e inconcebível [12.3].

O Senhor responde que aqueles que O adoram em vez de adorarem o imperceptível são mais avançados em yoga [12.2-4]. Na verdade, o impersonalista, em última análise, vem a Krishna, mas por um caminho muito mais problemático [12.5].

Prática espiritual avançada não oblitera o eu pessoal, senão que restabelece seu verdadeiro estado divino. Dentro da Gita, não há projeto, plano ou ideia para aniquilar o eu pessoal – para fundi-lo no resplendor incorporado divino. Liberação significa elevar, não destruir, o próprio eu.

Krishna não Se revela a todos [7.25]. Ele reciproca imparcialmente com todos [4.11] e só aqueles que O amam puramente podem vê-Lo [11.54]. Assim, aqueles sem entendimento espiritual não O reconhecem como o não-nascido imperecível [7.25]. Sem conhecer Sua natureza suprema, acreditam que Deus seja impessoal e invisível, mas que assumiu (ou adentrou) um vyakti, uma forma pessoal visível [7.24].

Arjuna afirma: “Ó Senhor, nem os deuses nem os ímpios entendem Tua personalidade manifesta” [10.14].

Krishna esclarece que Deus, a Pessoa Divina, existe com forma: um corpo que é inconcebível, da cor do Sol e menor que um átomo [8.9], ainda que infinito [11.16, 11.38, 11.47], cósmico [11.16], majestoso [11.3, 11.9], surpreendente [11.20], feito de esplendor, original, revelado pelo próprio poder místico do Senhor [11.47] e semelhante ao de um ser humano [11.51]. Só aqueles com devoção pura são capazes de conhecer o Senhor, aproximar-se Dele e realmente vê-Lo como Arjuna o fez [11.53-54].

Talvez alguém suspeite que haja uma verdade ainda superior a um Deus pessoal, mas Krishna elimina essa dúvida: “[Aqueles] que Me conhecem como a Pessoa Última, conhecem tudo e devotam-se a Mim com todo o seu ser” [15.19].

Esse entendimento é a escritura mais avançada, e compreender isso é realmente compreender [15.20]. Assim, somos pessoas eternas porque emanamos [10.8] e fazemos parte de [15.7] uma Pessoa infinita e eterna.

Nós, almas eternas, somos brahman (espírito) e podemos recuperar nossa existência brahman, mas Krishna é a base de brahman [14.27], o Brahman Supremo [10.12]. O ponto é claro.

Termos sânscritos como brahman, purusha e atman são usados tanto para Deus quanto para alma, sendo Deus o superlativo em cada categoria.

 

Se gostou deste material, também gostará destes: Bhagavad-gita e Reencarnação, O Gita Condensado, O Bhagavad-gita Como Ele É, Gītādhyānam: Meditação no Bhagavad-gītā, Guerra, Paz e Rendição a Deus no Bhagavad-gita.

Se gostou deste material, também gostará do conteúdo destas obras:

25. (artigo - Bhagavad-gita) Pessoa Suprema (Adequado)2 25. (artigo - Bhagavad-gita) Pessoa Suprema (Adequado)3