Podemos Ser Espirituais sem Sermos Religiosos?

17 I (artigo - Sadhana) Podemos ser Espirituais sem Sermos Religiosos (2601) (sankirtana) (ta)Chaitanya Charana Dasa

E perguntamos ainda: institucionalização é antiespiritual?

“Eu mantive certa distância de você porque eu pensei que os Hare Krishnas eram religiosos. Agora, no entanto, depois de conhecer você melhor, acho que vocês são espirituais”. Essa foi a observação de um velho amigo com quem me encontrei depois de muitos anos e que conheci antes de eu ser introduzido à consciência de Krishna.

“Intrigante”, eu respondi. “O que fez você nos considerar religiosos a princípio e o que fez você mudar de opinião?”.

“Bem, vocês são muito específicos em relação às suas práticas religiosas – um mantra específico, um Deus específico, uma roupa específica para usar, uma instituição específica a se seguir. Todas essas coisas marcam vocês como religiosos”, ele respondeu. “E pessoas religiosas tendem a ter a mente fechada e a serem fanáticas. É por isso que eu não gosto delas”.

“Contudo”, ele prosseguiu, “depois de conversar com você, vi que você tem a mente aberta. Você aceita outras religiões como caminhos válidos para Deus, o que é um sinal de que você é espiritual. Gosto de encontrar pessoas espirituais”.

Sua análise divisória me fez ponderar sobre como a ideia de ser “espiritual porém não religioso” é uma noção cada vez mais popular. É realmente possível ser espiritual sem ser religioso?

Após pensar sobre isso, esta foi minha conclusão: sim, se por “espiritual” nos referimos a ter a mente aberta e, por “religião”, referimo-nos a ter a mente fechada; não, se por “espiritual” nos referimos a um estado elevado de consciência e, por “religião”, referimo-nos a um processo para obter esse estado de consciência.

Deixe-me explicar. O desejo de ser “espiritual porém não religioso” (EPNR) pode ser louvável, mas suas implicações são frequentemente questionáveis. Em geral, a intenção é que devemos ter a mente aberta, e não uma visão estreita da realidade. Essa intenção é boa, mas a implicação subjacente é válida? É verdade que a espiritualidade nos faz ter a mente aberta, ao passo que a religião nos faz tacanhos?

Estes dois termos, “espiritual” e “religioso”, têm muitíssimas conotações que, sem especificarmos seu significado, não podemos dizer nada de útil sobre nenhum dos dois. Foquemos no que essas palavras normalmente conotam no contexto de ser EPNR: “espiritual” costuma dizer respeito à experiência dos aspectos mais elevados e profundos da vida, ao passo que “religião” refere-se à adesão a certas crenças e a certos rituais fornecidos em uma tradição específica. A implicação é que os espiritualistas têm a mente aberta porque estão abertos a experiências superiores, independente de como cheguem a essa experiência, enquanto religiosos têm a mente fechada visto que se atêm somente ao que é dado em sua própria tradição e ridicularizam ou rejeitam outras religiões.

A tradição e a sabedoria védicas apontam para um relacionamento intrigante entre espiritualidade e religião. Essa relação explica que a espiritualidade tem por fim ajudar-nos a desenvolver amor por Deus. Isso é feito através de uma harmoniosa combinação de filosofia e religião, que constitui os dois trilhos sobre os quais corre a espiritualidade. O aspecto filosófico da espiritualidade envolve estudo com o desejo de compreender a matéria, o espírito e o controlador de ambos, Deus. O aspecto religioso, por sua vez, envolve seguir certas regras e regulações que nos ajudam a conhecer as verdades espirituais superiores e experienciá-las diretamente.

Esses dois aspectos da espiritualidade são surpreendentemente similares aos dois aspectos da ciência moderna: o aspecto teórico e o aspecto experimental. O aspecto teórico da ciência envolve formular hipóteses para explicar os fenômenos observáveis dentro do universo; é similar ao aspecto filosófico da espiritualidade. O aspecto experimental da ciência envolve seguir certas regras para regular o ambiente laboratorial a fim de verificar uma dada hipótese; é similar ao aspecto religioso da espiritualidade. Assim, a espiritualidade pode ser considerada uma ciência de dimensões superiores – “de dimensões superiores” porque lida com uma realidade superior àquela na esfera da ciência material.

Vejamos como esse entendimento de espiritualidade como uma combinação de filosofia e religião esclarece a questão de EPNR.

Assim como a ciência precisa de algum tipo de experimento para ser completa, a espiritualidade precisa de algum tipo de religião para ser completa, ou seja, os espiritualistas que querem experiências superiores necessitam de algum processo para obterem consistentemente essas experiências. E esse processo pode ser identificado como uma religião. Assim, para ser espiritual, o sujeito teria de ser religioso de uma maneira ou outra.

Isso significa que não é possível ser espiritual porém não religioso?

Literalmente, sim; essencialmente, não. Em essência, o desejo de ser “espiritual porém não religioso” é o desejo de ser mente aberta, e não mente fechada. A tradição e o conhecimento védicos reconhecem que há várias maneiras de se lograrem experiências espirituais, que culminam na experiência de amor a Deus. O aspecto filosófico da tradição nos ajuda a ver as várias grandes religiões como caminhos autorizados de progresso rumo ao amor a Deus. Assim, conquanto se exija dos buscadores que sejam religiosos se querem ser verdadeiramente espirituais, isso não implica ser mente fechada. Com efeito, encoraja ser mente aberta.

A Analogia da Saúde

Para entendermos isso, expandamos a comparação acima de espiritualidade com ciência usando a ciência médica como exemplo. Nela, a teoria nos diz o que é o estado saudável e o que é o estado doente. Os experimentos, por sua vez, providenciam os meios, o tratamento, para passarmos da doença à saúde.

A tradição e a sabedoria védicas nos falam que nosso estado materialista atual de consciência é uma “doença”, referindo-se a isso como bhava-roga. Recomendam, então, vários processos, como o cantar dos nomes de Deus, para que voltemos ao nosso estado espiritual saudável de consciência, referindo-se a esses processos como chikitsa, “tratamento”. A tradição é clara em afirmar que o estado espiritual saudável não é alguma experiência de um vago sentimento; trata-se de um estado de ser estável em que a pessoa ama Deus sem distrações. O estado doente é o estado em que se ama alguma outra coisa diferente de Deus. Significativamente, o amor a Deus é também a meta universalmente aceita pelas grandes religiões teístas do mundo. Agostinho, o santo cristão, coloca isso bem em uma de suas orações: “Tu nos criaste para Ti, e o coração jamais se tranquiliza até que encontre repouso em Tua pessoa”.

Nessa analogia da saúde, o aspecto filosófico da espiritualidade explica o que é o nível espiritual saudável e o que é o nível material doente, enquanto o aspecto religioso provê os meios de elevação do nível material doente para o nível espiritual saudável. Srila Prabhupada caracteriza o interrelacionamento desses dois aspectos: “Religião sem filosofia é sentimento, ou às vezes fanatismo, ao passo que filosofia sem religião é especulação mental”.

Analisemos as três partes dessa declaração:

(1) Religião sem filosofia é sentimento. Quando há religião sem filosofia, os indivíduos não têm a estrutura intelectual necessária para saber o que é o verdadeiro nível espiritual de consciência e para checar se estão realmente chegando a essa plataforma. Então, talvez fiquem sentimentalmente satisfeitos com quaisquer práticas que tenham recebido de sua cultura atual ou de tradição passada mesmo se essas práticas não os tornem de fato espirituais. Um resultado comum de tal sentimentalismo é a aceitação ingênua de que todos os caminhos são mais ou menos iguais: “Você tem o seu caminho e eu tenho o meu. Os caminhos são tantos quanto são as pessoas”.

(2) Religião sem filosofia às vezes é fanatismo. Assim como pessoas podem ser curadas através de diferentes tratamentos, as pessoas podem amar Deus pela prática de diferentes religiões: cristianismo, islamismo ou hinduísmo, por exemplo. O teste decisivo para uma religião é se habilita seus seguidores a se tornarem espiritualmente saudáveis, se os habilita a amarem Deus. À luz disso, fanáticos religiosos são como proponentes de mente fechada de terapias médicas específicas que estão dispostos a acabar com a atuação de todos os outros terapeutas, estando dispostos até mesmo a matar aqueles que tratam ou são tratados com terapias diferentes da sua. O fanatismo religioso é um equivoco titânico e trágico que surge da falta de um entendimento filosófico apropriado.

(3) Filosofia sem religião é especulação mental. O padrão objetivo de amor a Deus como a meta da religião permite que escolhemos entre várias religiões assim como escolheríamos entre vários tratamentos médicos. Contudo, isso não faz da religião em si opcional ou dispensável. Sem aceitar uma forma de tratamento, jamais ficaremos saudáveis. Similarmente, sem praticarmos uma religião, jamais desenvolveremos amor por Deus. O Bhagavad-gita (9.2) confirma que a religião (dharma) produz essa experiência pessoal (pratyakshavagamam dharmyam).

Muitas pessoas meramente leem vários livros sobre espiritualidade, seja como um hobby, como estudiosos não compromissados, profissionais do assunto ou como pesquisadores acadêmicos. Contudo, não praticam nenhuma religião. Consequentemente, raramente experimentam ou experienciam como uma realidade o assunto sobre o qual estão lendo. Por sua recusa a praticar qualquer religião, privam-se do que poderíamos chamar de “experiência pessoal e real”, “vivência” ou “insight profundo”. Diante disso, seus pensamentos e discursos sobre espiritualmente permanecem especulações mentais vaporosas, sem conexão tangível com a realidade espiritual.

Frequentemente, esse tipo de especulação termina no impersonalismo, a noção de que a Verdade Absoluta é destituída de qualquer personalidade, qualidade ou atividade. Por quê? Porque enquanto nossos esforços intelectuais para explorar a espiritualidade não sejam guiados pela escritura, não poderemos ter um entendimento claro do reino espiritual. Assim, através de nossa especulação, negamos basicamente o material e assumimos que, quando a negação esteja completa, o que reste é espiritual. Com pertinência, Srila Prabhupada aponta: “Os impersonalistas sempre pensam de trás para frente. Eles pensam que, porque há forma na matéria, o espírito tem que ser amorfo. Todos esses pensamentos são basicamente materiais. Pensar quer positiva, quer negativamente, ainda é pensar materialmente”. (Srimad-Bhagavatam 3.9.21, significado) Diz também: “Negação não é negação do positivo. Negação dos não essenciais não é negação do essencial. Similarmente, desapego das formas materiais não implica anular a forma positiva”. (Srimad-Bhagavatam 1.2.7, significado)

Somente quando nossos esforços intelectuais são guiados pela revelação escritural nós de fato nos conectamos com a realidade espiritual positiva do mundo de Krishna de amor eterno e cheio de atividade, personalidade, variedade, beleza e reciprocidade.

O que se aplica a “religião sem filosofia” também se aplica a EPNR. Se os defensores do EPNR deliberadamente evitam a religião não adotando nenhuma prática religiosa, permanecerão especuladores mentais. Eles podem ocasionalmente obter experiências que considerem espirituais, mas não terão nenhuma transformação duradoura do coração e se privarão fortemente de realizações permanentes na vida.

Não obstante, se querem evitar a mentalidade tacanha associada a “ser religioso”, podem adotar as práticas religiosas que permitem que tenham a mente aberta em relação a outras práticas religiosas. As práticas da consciência de Krishna certamente encorajam aqueles de mente aberta. Assim, de acordo com a intenção por trás do uso, de “ser mente aberta”, os devotos de Krishna podem, sim, ser espirituais não religiosos. Ao mesmo tempo, em termos do uso acima, um entendimento mais completo é que os devotos são tanto espirituais quanto religiosos.

Institucionalização é Antiespiritual?

Análises conceituais à parte, muitos proponentes de EPNR argumentam que qualquer coisa afiliada a uma instituição automaticamente se torna uma religião e não pode ser classificada como espiritual. Por quê? Porque, eles alegam, essa institucionalização sufoca a essência da espiritualidade. Embora isso definitivamente seja uma possibilidade, não é de modo algum uma necessidade absoluta. Com efeito, sem institucionalização, a espiritualidade não será capaz de compartilhar seu espírito com a sociedade e, em consequência disso, não poderá beneficiar as pessoas em grande escala.

Compreendamos isso por meio de uma analogia. O propósito da espiritualidade é o desenvolvimento do amor a Deus. Se compararmos o fluxo do amor em nosso coração para Deus ao fluxo de rio para o oceano, a instituição é como o leito do rio.

Se não há leito, apenas os rios que têm um fluxo excepcionalmente forte chegarão ao oceano. Os rios de fluxo fraco, quando confrontados por obstáculos, estagnam e secam. Similarmente, se não há suporte institucional, somente as pessoas que têm um ímpeto espiritual extraordinário obterão amor por Deus. Aqueles com ímpetos espirituais medianos, quando diante de obstáculos, estagnarão e secarão.

Assim como vários rios tributários de fluxo leve se unem para se tornar um rio de fluxo forte, várias pessoas com ímpeto espiritual médio se unem para gerar uma corrente espiritual acima da média que leva todos à frente com rapidez. Assim como um rio forte forma um leito para si conforme segue fluindo, essas pessoas organizam as necessidades e facilidades para seu progresso espiritual estável e desimpedido. Com o tempo, essa infraestrutura organizada assume a forma de uma instituição espiritual.

Assim como um rio pode ser arruinado por indivíduos com interesses egoístas, uma instituição espiritual pode ser arruinada por pessoas de mentalidade material que estão interessadas mais em se apropriar de suas instalações e outras formas de patrimônio do que em atualizar seu propósito. A fim de prevenir esse mau uso, as instituições espirituais precisam ter:

(1) Educação filosófica sistemática a fim de que seus membros se tornem instintivamente cientes por si mesmos de que seu destino não é a represa (engrandecimento material), mas o oceano (o enriquecimento não-material da devoção);

(2) Práticas religiosas regulares para que se gere uma correnteza espiritual poderosa que ou exponha o materialismo de pessoas autocentradas, assim empurrando-as para as margens, ou purificando-as de seu materialismo, assim puxando-as para a correnteza que segue em frente.

Algumas pessoas talvez presumam que não precisam de nenhuma instituição uma vez que sua avidez espiritual é forte o bastante para uma jornada a sós. Entretanto, frequentemente subestimam a forte contracorrente e superestimam seu próprio poder de resistência. Em decorrência disso, seu progresso espiritual tende a ser, na melhor das hipóteses, esporádico, estando à mercê de seus imprevisíveis humores internos e das incontroláveis circunstâncias externas. Se forem capazes de simplesmente invocar um pouco de humildade para reconhecer que sua viagem solo está se tornando mais um acampamento do que uma jornada, verão a sabedoria que há em se juntarem àqueles que estão em constante movimento.

E no caso de esses buscadores estarem entre os raros casos em que a pessoa é genuinamente automotivada, então, por juntar-se a uma instituição espiritual autêntica, poderão guiar e inspirar outros buscadores espirituais menos automotivados.

Portanto, a institucionalização vigilante é essencial para tornar a espiritualidade acessível e benéfica à sociedade como um todo.

Vigilância Interna em Meio à Institucionalização

Não obstante, muitas preocupações dos proponentes do EPNR são válidas até mesmo para nós devotos de Krishna. Temos que nos proteger da complacência na qual supomos que, simplesmente por termo-nos juntado a uma instituição, isso automaticamente faz de nós indivíduos espiritualmente avançados ou fortes. Cada um de nós tem que assumir a responsabilidade individual de nosso progresso espiritual. Assim como evitar os compromissos das práticas externas pode ser um tipo de irresponsabilidade espiritual para os EPNR, a mera adesão a práticas externas sem a devida atenção para o nosso desenvolvimento interno pode ser uma forma de irresponsabilidade para nós.

As escrituras nos acautelam sobre essa armadilha grifando que o propósito de todas as nossas atividades religiosas é nos lembrarmos de Krishna, o que é proclamado em um verso do Padma Purana frequentemente citado:

smartavyeh, satatam vishnur
vismartavyo na jatucit
sarve vidhi-nisedhah syur
etayor eva kinkarah 

“Lembra-te sempre de Vishnu e jamais te esqueças dEle. Todas as regras e proibições mencionadas nas escrituras são servas desses dois princípios”.

Por aderirmos a práticas internas e simultaneamente cultivarmos em nosso interior a lembrança de Krishna, podemos evitar os perigos de que nos alertam os defensores do EPNR e fazer autêntico, rápido e sustentável avanço espiritual em direção à meta última da vida: desenvolver amor por Krishna.

Em conclusão, a consciência de Krishna abraça o intento de ser “mente aberta” por trás da ideia de EPNR: reconhece a realidade e a validade de outros caminhos, e também se centra em uma transformação interior que culmina na realização suprema do amor a Deus. Ao mesmo tempo, a consciência de Krishna rejeita o conteúdo EPNR de exploração descompromissada e baseada em sentir-se bem: enfatiza que para se experimentar uma transformação real, tangível e duradoura, o sujeito necessita adotar um caminho específico e segui-lo com diligência.

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2 Respostas

  1. Pedro Alves Filgueira Junior

    Achei seu comentário muito objetivo e apropriado.

    1 de novembro de 2015 às 10:20 AM

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