Haridasa e a Prostituta do Rei

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Krishna Dasa Kaviraja

Movido por inveja, o rei Ramachandra Khan envia uma prostituta para seduzir o grande devoto Haridasa Thakura. A vida da prostituta e a vida do rei mudariam para sempre.

Após deixar seu lar, Haridasa Thakura ficou algum tempo na floresta de Benapola. Haridasa Thakura construiu uma cabana numa floresta solitária. Ali, cultivou uma planta de tulasi e, perante ela, cantava 300.000 vezes por dia o santo nome do Senhor. Ele cantava dia e noite adentro. Para a manutenção de seu corpo, ele ia até a casa de um brahmana e lhe pedia alimento. Ele tinha tamanha influência espiritual que todas as pessoas da vizinhança o adoravam.

Um latifundiário chamado Ramachandra Khan era o zamindar (governante) daquele distrito. Invejando os vaishnavas, ele era um grande ateísta. Incapaz de tolerar que se oferecesse tanto respeito a Haridasa Thakura, Ramachandra Khan planejou diversas maneiras de desonrá-lo. Como não havia jeito de ele encontrar alguma falha no caráter de Haridasa Thakura, convocou as prostitutas da região e começou um plano para descreditá-lo.

Ramachandra Khan disse às prostitutas: “Há um mendicante chamado Haridasa Thakura. Todas deveis arquitetar a maneira de desviá-lo de seus votos de austeridade.” Dentre as prostitutas, foi escolhida uma jovem muito atraente, que disse: “Em três dias, cativarei a mente de Haridasa Thakura.”

Ramachandra Khan disse à prostituta: “Um de meus guardas irá contigo, para que, assim que ele te flagrar com Haridasa Thakura, ele o prenda e traga os dois até mim.” A prostituta respondeu: “Primeiro, deixa-me fazer sexo com ele uma vez; então, da segunda vez, levarei teu guarda comigo para capturá-lo.”

À noite, após se vestir de modo muito provocativo, a prostituta, cheia de alegria, foi à cabana de Haridasa Thakura. Após prestar reverências à planta de tulasi, ela se dirigiu até a porta de Haridasa Thakura, a quem prestou suas reverências, e ali ficou de pé. Expondo parte de seu corpo à visão dele, ela se sentou na soleira da porta e falou-lhe com palavras muito doces: “Meu querido Thakura, ó grande pregador, grande devoto, tua constituição física é muito bela, e tua juventude começa a desabrochar. Que mulher poderia controlar a mente após te ver? Estou desejosa de unir-me a ti. Minha mente anseia por isso. Se eu não conseguir tua pessoa para mim, não serei capaz de me manter viva.”

Haridasa Thakura respondeu: “Não restam dúvidas de que te aceitarei, mas deverás aguardar até que eu termine de cantar em minhas contas as voltas regulares que canto. Até então, por favor, senta-te e escuta o cantar do santo nome. Tão logo eu termine, satisfarei teu desejo.”

Ouvindo isso, a prostituta permaneceu sentada ali enquanto Haridasa Thakura cantava em suas contas. A luz da manhã, então, se fez presente. Ao ver que já era manhã, a prostituta se levantou e partiu. Chegando perante Ramachandra Khan, ela lhe informou tudo o que se passara. “Hoje, Haridasa Thakura prometeu desfrutar comigo. Com certeza, amanhã me unirei a ele.”

Na noite seguinte, quando a prostituta reapareceu, Haridasa Thakura deu-lhe muitas garantias. “Na noite passada, te frustraste. Por favor, perdoa minha ofensa. Com certeza, aceitar-te-ei. Por favor, senta-te e ouve o cantar do maha-mantra Hare Krishna até que eu termine meu canto regular. Então, com certeza teu desejo será satisfeito.” Após prestar suas reverências à planta de tulasi e a Haridasa Thakura, ela se sentou à porta. Ao ouvir Haridasa Thakura cantando o mantra Hare Krishna, ela também cantou: “Ó meu Senhor Hari, ó meu Senhor Hari.” Quando a noite chegou ao fim, a prostituta estava inquieta. Ao ver isso, Haridasa Thakura lhe falou o seguinte. “Fiz o voto de cantar dez milhões de nomes por mês. Fiz essa promessa, mas agora está perto de ela se acabar. Achava que hoje terminaria minha realização de yajna, meu cantar do mantra Hare Krishna. Fiz tudo o que pude para cantar o santo nome ao longo de toda a noite, mas, mesmo assim, não terminei. Amanhã com certeza terminarei, e meu voto cumprir-se-á. Então, ser-me-á possível desfrutar contigo com toda a liberdade.”

A prostituta voltou a Ramachandra Khan e o inteirou dos acontecidos. No dia seguinte, ela chegou mais cedo, no lusco-fusco, e ficou junto de Haridasa Thakura. Após prestar reverências à planta de tulasi e a Haridasa Thakura, ela se sentou na entrada da cabana. Então, ela começou a ouvir o cantar de Haridasa Thakura, após o que ela também passou a cantar: “Hari, Hari”, o santo nome do Senhor. “Hoje, ser-me-á possível terminar meu canto”, informou-lhe Haridasa Thakura. “Então, satisfarei todos os teus desejos.”

A noite terminou e Haridasa Thakura continuou cantando, mas, devido à sua companhia, a mente da prostituta havia se transformado. A prostituta, agora purificada, caiu aos pés de lótus de Haridasa Thakura, a quem confessou que Ramachandra Khan lhe dera a incumbência de comprometê-lo. “Porque aceitei a profissão de prostituta”, disse ela, “cometi infinitos atos pecaminosos. Meu senhor, tem misericórdia de mim. Liberta minha alma caída.”

Haridasa Thakura respondeu: “Conheço tudo sobre a conspiração de Ramachandra Khan. Ele não é nada além de um tolo ignorante. Por isso, suas atividades não me fazem sentir tristeza. No mesmo dia em que Ramachandra Khan planejou essa traição contra mim, eu me preparei para deixar este lugar, mas, como vieste ter comigo, fiquei aqui por três dias somente para te libertar.”

A prostituta disse: “Peço-te a gentileza de ser meu mestre espiritual. Instrui-me sobre o que devo fazer para livrar-me da existência material.” Haridasa Thakura respondeu: “Vai para casa imediatamente e distribui aos brahmanas tudo o que tens em tua posse. Então, volta para este aposento e para sempre permanece neste lugar em consciência de Krishna. Canta o mantra Hare Krishna continuamente e presta serviço à planta de tulasi, regando-a e oferecendo-lhe orações. Dessa maneira, obterás, muito em breve, a oportunidade de refugiar-te aos pés de lótus de Krishna.”

Após dar à prostituta essas instruções sobre o processo de cantar o mantra Hare Krishna, Haridasa Thakura se levantou e partiu, cantando continuamente: “Hari, Hari!” Logo depois, seguindo a ordem de seu mestre espiritual, a prostituta distribuiu aos brahmanas todas as suas posses domésticas. Conforme os princípios vaishnavas, a prostituta raspou impecavelmente sua cabeça e permaneceu naquele aposento com apenas uma peça de roupa. Seguindo os passos de seu mestre espiritual, passou a cantar o maha-mantra Hare Krishna 300.000 vezes por dia. Ela cantava ao longo do dia e ao longo da noite. Seguindo os passos de seu mestre espiritual, ela adorava a planta de tulasi.

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A antiga prostituta canta os santos nomes junto à planta de tulasi.

Ao invés de comer regularmente, ela comia todo alimento que recebia como doação, e, se não lhe dessem nada, jejuava. Portanto, comendo frugalmente e jejuando, ela conquistou os sentidos, e, tão logo seus sentidos ficaram sob controle, apareceram nela os sintomas de amor a Deus. Dessa maneira, a prostituta tornou-se uma célebre devota. Avançou muito na vida espiritual, e muitos vaishnavas resolutos iam vê-la. Ao verem o caráter sublime da prostituta, todos, admirados, glorificavam a influência de Haridasa Thakura e prestavam-lhe reverências.

Ao induzir que uma prostituta perturbasse Haridasa Thakura, Ramachandra Khan fez com que germinasse uma semente de ofensa aos pés de lótus de Haridasa Thakura. Mais tarde, essa semente transformou-se numa árvore, e, quando esta frutificou, Ramachandra Khan comeu-lhe os frutos. Essa ofensa aos pés de lótus de um devoto elevado deu origem a uma narração maravilhosa. Aproveitando-me da oportunidade oferecida por estes incidentes, explicarei o que aconteceu.

Por natureza, Ramachandra Khan era um não-devoto. Tendo, então, ofendido os pés de lótus de Haridasa Thakura, ele se transformou em um ateísta demoníaco. Por ter blasfemado o culto do vaishnavismo e ter insultado os devotos durante muito tempo, ele agora recebia os resultados de suas atividades ofensoras. Ao retornar à Bengala para pregar o culto de bhakti, ou seja, o amor a Deus, o Senhor Nityananda Se colocou a viajar por toda a região. O Senhor Nityananda, o mais dedicado devoto do Senhor, tinha dois propósitos ao percorrer toda aquela região — propagar o culto de bhakti e derrotar e subjugar os ateus. O Senhor Nityananda, que é a onisciente Suprema Personalidade de Deus, chegou à casa de Ramachandra Khan e sentou-Se no altar do durga-mandapa. Quando o durgamandapa e o pátio estavam apinhados com multidões de homens, Ramachandra Khan, que se encontrava dentro da casa, encaminhou seu servo até o Senhor Nityananda.

O servo informou ao Senhor Nityananda: “Meu caro senhor, Ramachandra Khan enviou-me para acomodar-Te na casa de algum homem comum. Poderias ir à casa de um leiteiro, pois o curral é espaçoso, ao passo que, aqui no durga-mandapa, o espaço é insuficiente, já que trouxeste muitos seguidores conTigo. Ao ouvir esta ordem do servo de Ramachandra Khan, Nityananda Prabhu, muito irado, retirou-Se. Rindo muito alto, Ele falou o seguinte: “Ramachandra Khan falou corretamente. Este lugar não serve para Mim. Ele é adequado para comedores de carne, matadores de vacas.” Tendo dito isso, o Senhor Nityananda levantou-Se e retirou-Se muito irado. Para castigar Ramachandra Khan, Ele nem mesmo ficou naquela vila.

Ramachandra Khan mandou que seu servo revolvesse a terra no local onde Nityananda Prabhu estivera sentado. Para purificar tanto o templo do durga-mandapa quanto o pátio, Ramachandra Khan borrifou e esfregou água misturada com estrume de vaca.

Os negócios de Ramachandra Khan eram suspeitos, pois sempre tentava sonegar o imposto governamental. Por isso, o ministro da fazenda, estando irritado com ele, foi até sua residência. O ministro muçulmano estabeleceu sua residência no durga-mandapa de Ramachandra Khan. Ele matou uma vaca e assou a carne ali mesmo. Ele prendeu Ramachandra Khan, juntamente com a esposa e os filhos deste, após o que, durante três dias, não parou de saquear a casa e a vila. Nesse mesmo cômodo, durante três dias seguidos, ele cozinhou carne de vaca. Então, no quarto dia, ele partiu, acompanhado de seus seguidores. O ministro muçulmano interditou a posição e a riqueza de Ramachandra Khan e lhe tirou os seguidores. Por muitos dias, a vila ficou deserta.

O que descrevi não é nada além de um fragmento das glórias de Haridasa Thakura. Ninguém pode descrever todas as qualidades de Haridasa Thakura. Alguém pode dizer algo sobre elas apenas para se purificar.

 

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