Quem Sou Eu e Por que Eu Sofro? As Indagações Atemporais de Sanatana Gosvami

23 SI (história - caitanya e associados) Quem Sou Eu e Por que Eu Sofro (bg) (2150)Krishna Dasa Kaviraja
(Excertos do capítulo 20 do nadhya-kandha do Chaitanya-charitamrita)

Todos nós já fizemos essas perguntas a nós mesmos, ou talvez as tenhamos dirigido a outrem. Sanatana Gosvami, no entanto, dirigiu-as simplesmente ao Senhor Supremo, Sri Chaitanya Mahaprabhu.

Em outra ocasião, Sri Chaitanya Mahaprabhu fez perguntas espiri­tuais a Ramananda Raya, e, pela misericórdia imotivada do Senhor, Ramananda Raya pôde respondê-las apropriadamente. Agora, pela misericórdia do Senhor, Sanatana Gosvami faria perguntas ao Senhor, e o próprio Sri Chaitanya Mahaprabhu revelaria a verdade.

Colocando uma palha em sua boca e prostrando-se, Sanatana Gosvami agarrou os pés de lótus de Sri Chaitanya Mahaprabhu e humildemente falou o seguinte: “Nasci em uma família baixa, e todos os meus associados são homens de classe baixa. Eu sou muito caído e me considero o mais baixo dos homens. Na verdade, passei toda a minha vida dentro do poço do materialismo pecaminoso. Não sei o que me é benéfico nem o que me é prejudicial. Não obs­tante, as pessoas, de um modo geral, têm-me como um acadêmico erudito, e eu também penso que o sou. Por Tua misericórdia imotivada, libertaste-me do caminho mate­rialista. Agora, recorrendo a essa mesma misericórdia, dize-me, por favor, qual o meu dever. Quem sou eu? Por que as três classes de misérias sempre me importunam? Se eu ignoro isto, como é que posso beneficiar-me? Na realidade, não sei como indagar sobre qual é a meta da vida e qual é o processo para se obtê-la. Sê misericordioso comigo e, por favor, explica todas essas verdades”.

Sri Chaitanya Mahaprabhu disse: “O Senhor Krishna concedeu-te Sua completa misericórdia, em consequência do que conheces tudo isso. Tenho certeza de que essas três classes de misérias são alheias à tua existência. Como possuis a potência do Senhor Krishna, decerto conheces essas coisas. Todavia, por natureza, o santo é um indagador. Embora saiba dessas coisas, o santo indaga por obrigação. ‘Aqueles que anseiam por despertar sua consciência espiritual, cuja inteligência é resoluta e que não se desviam, certamente alcançam a meta desejada’. [Naradiya Purana] És qualificado para propagar o culto do serviço devocional. Por­tanto, ouve-Me enquanto falo todas as verdades sobre ele. Revelar-te-ei as mesmas”.

Sri Chaitanya Mahaprabhu continuou: “Em sua posição constitucional, a entidade viva é serva eterna de Krishna, pois ela é a energia marginal de Krishna bem como uma manifestação igual ao Senhor e, ao mesmo tempo, diferente dEle, tal qual uma partícula molecular do fogo ou do brilho do sol. Krishna possui três variedades de energia. O Senhor Krishna tem naturalmente três transformações energéticas, a saber, a potência espiritual, a potência da entidade viva e a potência ilusória.

Citou, então, uma série de versos: “‘Originalmente, a energia de Krishna é espiritual, e a energia co­nhecida como entidade viva também é espiritual. Todavia, há outra energia, cha­mada ilusão, que consiste nas atividades fruitivas. Essa é a terceira potência do Senhor’. ‘Todas as energias criativas, inconcebíveis para o homem comum, existem na Suprema Verdade Absoluta. Essas energias inconcebíveis agem no processo de criação, manutenção e aniquilação. Ó principal entre os ascetas, assim como o fogo possui duas energias – a saber, calor e luz –, essas energias criativas inconcebíveis são as características naturais da Verdade Absoluta’. [Vishnu Purana] ‘Ó rei, a kshetra-jña-shakti é a entidade viva. Embora possa viver quer no mundo material, quer no mundo espiritual, ela padece as três espécies de misérias da existência material, pois se deixa influenciar pela potência avidya [ignorância], que lhe tolda a posição constitucional’. [Vishnu Purana] ’Esta entidade viva, coberta pela influência da ignorância, existe sob diferentes formas de condição material. Ó rei, ela fica então, em maior ou menor grau, livre da influência da energia material’. [Vishnu Purana] ‘Além desta natureza inferior, ó Arjuna de braços poderosos, há uma energia superior, que é Minha e consiste em todas as entidades vivas que se defrontam com a natureza material e mantêm o universo’[Bhagavad-gita]”.

“Esquecendo-se de Krishna, a entidade viva tem, desde tempos ime­moriais, deixado-se atrair pelo aspecto externo”, prosseguiu o Senhor Chaitanya. “Portanto, a energia ilusória, maya, causa-lhe todas as espécies de misérias ao longo de sua existência material. Na condição material, a entidade viva ora se eleva a sistemas pla­netários superiores, onde goza de prosperidade material, ora se afunda em uma situa­ção infernal. Assim, sua posição equivale àquela de um criminoso que, ao ser punido pelo rei, é forçado a ficar submerso na água, da qual emerge em seguida. ‘Ao se deixar seduzir pela energia material, que se encontra à parte de Krishna, a entidade viva fica dominada pelo medo. Porque a energia material afasta-a da Suprema Personalidade de Deus, seu conceito de vida é antagônico. Em outras palavras, ao invés de agir como serva eterna de Krishna, ela passa a competir com Krishna. Isso se chama viparyayo ’smritih. A fim de anular esse erro, quem é realmente erudito e avançado adora a Suprema Personalidade de Deus como seu mestre espiritual, sua Deidade adorável e a fonte de sua vida. Deste modo, é através do processo de serviço devocional imaculado que ele adora o Senhor’.[Srimad-Bhagavatam]”.

Disse em seguida: “Se a alma condicionada torna-se consciente de Krishna ao receber a misericórdia de pessoas santas que pregam voluntariamente os preceitos das escrituras e que a ajudam a tornar-se consciente de Krishna, ela, sendo abando­nada por maya, livra-se de suas garras. ‘Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natu­reza material, é difícil de ser vencida. Mas aqueles que se rendem a Mim podem transpô-la facilmente’. [Bhagavad-gita] Não é por intermédio de seu próprio esforço que a alma condicio­nada poderá reviver sua consciência de Krishna. Contudo, por misericórdia imotivada, o Senhor Krishna compilou a literatura védica e seus suplementos, os Puranas. É através dos textos védicos, do mestre espiritual consumado e da Superalma que Krishna educa a alma condicionada esquecida. Por meio desses, ela pode compreender a Suprema Personalidade de Deus como Ele é e pode compreender que o Senhor Krishna é seu amo eterno e quem a liberta das garras de maya. Dessa maneira, todos podem realmente conhecer sua vida condicionada e entender como lograr a libertação”.

“Os textos védicos”, prosseguiu Chaitanya Mahaprabhu em resposta a Sanatana Gosvai, “informam sobre a relação eterna entre a entidade viva e Krishna, a qual se chama sambandha. O fato de a entidade viva compreender essa relação e proceder de uma maneira que evidencie isso chama-se abhidheya. Voltar ao lar, voltar ao Supremo, é a meta última da vida e chama-se prayojana. Serviço devocional, ou atividade sensorial para a satisfação do Senhor, chama-se abhidheya, pois pode desenvolver nosso amor original por Deus, que é a meta da vida. Essa meta é o interesse máximo e a maior riqueza da entidade viva. Dessa maneira, ela alcança a plataforma de transcendental ser­viço amoroso ao Senhor. Quem alcança a bem-aventurança transcendental de se relacionar intimamente com Krishna presta-Lhe serviço e saboreia as doçuras da consciência de Krishna”.

O Senhor Chaitanya disse, então: “Um astrólogo indagou: ‘Por que estás triste? Teu pai era muito rico, mas ele não te revelou sua riqueza porque morreu em outro lugar’. Assim como as palavras do astrólogo Sarvajna revelaram o tesouro do homem pobre, os textos védicos aconselham-nos sobre a consciência de Krishna quando, inquisitivos, queremos saber por que estamos em uma condição material aflitiva. Apesar de ficar sabendo da existência do tesouro de seu pai, essa mera informação não é o bastante para adquirir o tesouro. Portanto, o astrólogo viu a necessidade de informar ao pobre os meios pelos quais ele poderia realmente encontrar o tesouro. O astrólogo disse: ‘O tesouro encontra-se neste local; porém, se cavares em direção ao sul, as vespas e zangões surgirão e não conseguirás teu tesouro. Se cavares no lado ocidental, deparar-te-ás com um fantasma criador de tanto distúrbio que tuas mãos nem mesmo tocarão o tesouro. Se cavares no lado norte, defrontar-te-ás com uma grande serpente negra que te devorará caso tentes aproximar-te do tesouro. No entanto, se cavares uma pequena quantidade de terra no lado oriental, tuas mãos imediatamente tocarão na arca do tesouro’. As escrituras reveladas concluem que devemos abandonar as ati­vidades fruitivas, o conhecimento especulativo e o sistema de yoga místico, e, em vez deles, adotar o serviço devocional, através do qual podemos satisfazer Krishna completamente. ‘Meu querido Uddhava, nem através do astanga-yoga, nem através do monismo impessoal ou do estudo analítico da Ver­dade Absoluta, nem por meio dos estudos dos Vedas, nem através da prática de austeridades, nem através da caridade, nem através do aceitar de sannyasa pode alguém satisfazer-Me tanto quanto aquele que desenvolve imaculado serviço devocional a Mim’. [Srimad-Bhagavatam] ‘Por ser muito querido aos devotos e santos, sou alcançado por meio da fé inabalável e do serviço devocional. Este sistema de bhakti-yoga, que aos poucos aumenta o apego a Mim, purifica inclusive um ser humano nascido dentro de uma família de comedores de cães. Isso quer dizer que, através do processo de bhakti-yoga, todos podem elevar-se à plataforma espiritual’. [Srimad-Bhagavatam]

“Em conclusão”, disse o Senhor Chaitanya, “o serviço devocional é o único meio de nos apro­ximarmos da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, tal sistema chama-se abhidheya. Eis o veredito de todas as escrituras reveladas. Quem é rico de verdade naturalmente goza de todas as espécies de felicidade. Para quem está realmente alegre, todas as condições aflitivas de­saparecem por si mesmas. Não é necessário nenhum esforço extrínseco. De modo semelhante, como consequência de bhakti, ou serviço devocional amoroso a Krishna, despertamos nosso amor por Krishna, amor este que se encontra adormecido. Ao situarmo-nos de tal maneira que podemos saborear a associação com o Senhor Krishna, a exis­tência material, a repetição de nascimentos e mortes, chega ao final. O propósito de se amar a Deus não é enriquecer materialmente nem livrar-se do cativeiro material. A verdadeira meta é situar-se no serviço de­vocional ao Senhor e gozar de bem-aventurança transcendental. Nos textos védicos, Krishna é o ponto central de atração, e servi-lO é a nossa atividade. Alcançar a plataforma de amor a Krishna é a meta última da vida. Portanto, Krishna, o serviço a Krishna e o amor por Krishna são as três grandes riquezas da vida. Em todas as escrituras reveladas, começando pelos Vedas, o ponto central de atração é Krishna. Ao obter-se completo conhecimento dEle, o cativeiro de maya, a energia ilusória, automaticamente é desfeito. ‘Há muitas classes de textos védicos e Puranas suplementares. Em cada um deles, existem semideuses específicos, classificados como semideuses principais. Isso é somente para iludir as entidades vivas móveis e imóveis. Que elas se ocupem perpetuamente em tais imaginações. Contudo, quem faz o estudo analítico de toda essa coletânea de textos védicos chega à conclusão de que o Senhor Vishnu é a única e inigualável Suprema Personalidade de Deus’. [Padma Purana] Quem, por interpretação ou mesmo pela análise léxica, aceita a literatura védica, vê, direta ou indiretamente, que a declaração fundamental do conhecimento védico aponta para o Senhor Krishna”.

Chaitanya Mahaprabhu citou, então, os dois seguintes versos do Srimad-Bhagavatam: “Qual a orientação de todos os textos védicos? Em quem eles fo­calizam? Quem é a finalidade de toda a especulação? À exceção de Mim, ninguém sabe essas coisas. Agora, toma conhecimento de que todas essas atividades visam estabelecer tudo aquilo que tem relação coMigo. O propósito da literatura védica é conhecer-Me mediante diferentes especulações, quer por compreensão indi­reta, quer pela análise léxica. Todos especulam a Meu respeito. A essência de todos os textos védicos é fazer com que todos possam distinguir-Me de maya. Quem analisa a energia ilusória chega à plataforma de compreender-Me. Dessa maneira, deixando de especular sobre os Vedas, ele vê que Eu sou a conclusão final. Somente assim, ele fica satisfeito”.

Deu continuidade, então, à sua explicação: “A forma transcendental do Senhor Krishna é ilimitada e possui opulência também ilimitada. Ele possui a potência interna, a potência externa e a potência marginal. Tanto o mundo material quanto o mundo espiritual são transfor­mações das potências externa e interna de Krishna. Krishna, portanto, é a fonte origi­nal tanto da manifestação material quanto da manifestação espiritual. ‘O décimo canto do Srimad-Bhagavatam revela o décimo objeto, a Suprema Personalidade de Deus, que é o refúgio de todas as almas rendidas. Conhecido como Sri Krishna, Ele é a fonte última de todos os universos. Deixai-me oferecer-Lhe minhas reverências’. [Bhavartha-dipika] Ó Sanatana, por favor, ouve sobre a forma eterna do Senhor Krishna. Ele é a Verdade Absoluta, destituído de dualidades, mas presente em Vrindavana como o filho de Nanda Maharaja. Krishna é a fonte original de tudo e o somatório de tudo. Ele apa­rece como o jovem supremo, e todo o Seu corpo é constituído de bem-aventurança espiritual. Ele é o refúgio de tudo e o amo de todos. ‘Krishna, conhecido como Govinda, é o controlador supremo. Seu corpo é espiritual, eterno e bem-aventurado. Ele é a origem de tudo. Ele não tem nenhuma outra origem, pois é a causa primordial de todas as causas’. [Brahma-samhita] A Suprema Personalidade de Deus original é Krishna. Seu nome original é Govinda. Ele é pleno de todas as opulências, e Sua morada eterna é conhecida como Goloka Vrindavana. Somente mediante atividades devocionais é que logramos compreender a forma transcendental do Senhor, que, sob todos os aspectos, é perfeita”.

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