Sentimentos de Saudade

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Indradyumna Swami
(da obra Diário de um Monge ao Redor do Mundo)

No dia da partida de Srila Prabhupada deste mundo, Indradyumna compartilha em texto suas reflexões e meditação.

Querido Srila Prabhupada,

Aceite, por favor, minhas mais humildes reverências à poeira de seus pés de lótus. Meu querido senhor e mestre, hoje é o dia de sua partida deste mundo e de nossa visão externa. Enquanto olho pelo espaço ao redor de seu amado Mayapur Candrodaya Mandir, vejo que muitas preparações estão sendo feitas a fim de honrar este mais sagrado dos dias. Grinaldas e bandeiras tremulam com o vento, o altar central está suntuosamente decorado, e os cozinheiros, todos ocupados preparando um opulento banquete. Há um sentimento de empolgação no ar enquanto os devotos se reúnem para lhe oferecer seus mais sinceros sentimentos de gratidão e amor.

Eu às vezes tento imaginar como os residentes do mundo espiritual devem ter celebrado o dia em que você se juntou novamente a eles. Que festividades eles realizaram para dar as boas-vindas a você, o filho escolhido do Senhor, de volta à morada transcendental? Nos olhos de minha mente, vejo os vaqueiros sobre seus carros de boi com toda a família ansiosos por chegar ao ponto de encontro e recebê-lo de volta de sua vitoriosa missão de libertar centenas e milhares de almas condicionadas deste miserável mundo de nascimentos e mortes.

O peito dos vaqueirinhos deve ter-se enchido de orgulho enquanto os gopas mais velhos descreviam como você havia cumprido com sucesso o pedido do Senhor Krishna de aliviar o fardo deste mundo distribuindo conhecimento transcendental na forma de seus gloriosos livros. E quem pode imaginar como as vaqueirinhas, vestidas em seus melhores, alegremente o receberam de volta em seu grupo e como com você compartilharam em segredo os passatempos desfrutados por Shyamasundara em sua ausência? Certamente elas não deixaram de mencionar as lágrimas que Ele pessoalmente derramou com saudades de você durante os muitos longos anos que você passou no mundo material entregando a mensagem do Supremo.

Alguém tomou conhecimento de seus discípulos que partiram deste mundo nos primeiros anos de seu movimento e que, unicamente por sua graça, retornaram para o mundo espiritual a tempo de também recebê-lo? Oh, Srila Prabhupada, deve de ter sido o mais glorioso evento este no qual os residentes de Goloka o receberam de volta ao lar.

Assim, hoje, seguindo os passos dessas ilustres personalidades, também celebramos seu retorno aos braços de seu amado Senhor no bosque de Sri Vrindavana Dhama.

Mas meu muitíssimo querido senhor e mestre, de alguma forma sinto-me distante de toda a celebração de hoje. Ao invés de feliz e jubilante, provo um sentimento de melancolia e desespero. Aplaudo os palestrantes que exaltam suas glórias, e canto e danço nos extáticos kirtanas que se dão, mas isso é mais uma exibição de convenções sociais do que qualquer outra coisa, pois minha ânsia é de me recolher para algum lugar isolado do dhama e lamentar-me por estar separado de você, meu amado mestre espiritual e guia eterno. Na vida material, quando um ente querido parte, o tempo cicatriza as feridas à medida que a memória se desapega e novos relacionamentos ganham destaque. Com a vida espiritual, no entanto, o oposto parece acontecer, pois minha saudade de você cresce mais e mais a cada ano que se passa.

Meu amabilíssimo mestre, nunca me esquecerei daquele dia fatídico, 14 de novembro de 1977, quando o Senhor o levou de volta ao mundo espiritual e efetivou a nós, seus amados discípulos, como órfãos espirituais. Ao que a nova de sua partida se espalhou aos quatro ventos, sentamo-nos descrentes nos preparando para sofrer por um tempo que nos parecia a eternidade. A profunda saudade que experimentávamos parecia maior do que o que qualquer um de nós poderia suportar, pois todos nós o amávamos mais do que alguém jamais sonhou ser amado. Como poderia ter sido diferente? Você foi nosso salvador. Convencidos da autenticidade do conhecimento atemporal das escrituras sobre as quais tão eloquentemente você falou, aderimos ao processo da consciência de Krishna com toda a seriedade, renunciando os assim chamados prazeres deste mundo no mesmo instante. Para a grande surpresa dos familiares e amigos, sinceramente aceitamos uma vida do que parecia ser penitências e austeridades, mas que, em mistura com a doçura do serviço a seus pés de lótus, rapidamente se tornou uma vida de felicidade e amor extático.

Olhando para trás e refletindo sobre sua partida, compreendo agora que nada poderia ter-nos preparado para o mais catastrófico evento da vida de qualquer discípulo, nem mesmo as incontáveis aulas e instruções que você pessoalmente apresentou sobre a natureza efêmera da vida material e sobre a inevitabilidade da morte cruel. Assim nos lamentamos, assim como você mesmo fez no dia da partida de seu mestre espiritual. Você escreveu:

“Naquele dia, ó meu Mestre, chorei aflição; eu não era capaz de suportar sua ausência, meu guru”. (Oferenda de Vyasa-puja de 1961, Vaisistyastakam, Primeiro Vaisistya, Número 1)

Mas você não deseja que permaneçamos perpetuamente nesse estado de lamentação, ó imensamente misericordioso mestre, pois você nos iniciou na vida eterna, onde não há conceito de nascimento e morte, mas somente serviço eterno a guru e Gauranga, neste mundo ou no próximo. Começamos, dessa maneira, a buscar por você de outras maneiras senão em sua presença física. Voltando-nos para seus livros, lembramo-nos de que servindo sua vani, ou instruções, continuaríamos a ter sua misericordiosa companhia. Isso você escreveu na dedicatória de sua tradução do Srimad-Bhagavatam:

“Ele vive eternamente por meio de suas divinas instruções, e o seguidor vive com ele”.

Ficou claro que, seguindo suas instruções, sempre teríamos sua companhia. Também compreendemos que, seguindo perfeitamente suas ordens, poderíamos um dia talvez obter o privilégio de termos sua companhia pessoal mais uma vez. Eu me sinto imensamente privilegiado por ter tido sua companhia pessoal durante seus passatempos terrestres. Eu sei que esse tesouro é raro e impagável. Às vezes eu me perguntava como nós almas condicionadas e caídas pudemos obter mesmo um instante de sua companhia; sua companhia, afinal, é buscada pelos maiores sábios e semideuses. Não há dúvida alguma quanto a até mesmo o próprio Senhor Supremo Se aprazer com sua companhia, pois você Lhe oferece o mais puro e imotivado serviço devocional. Assim, como muitos de meus irmãos e irmãs espirituais, decidi servir à instrução – ao serviço – que é mais querido a você: a ampla distribuição dos ensinamentos do Senhor Chaitanya, o yuga-avatara.

yare dekha tare kaha Krishna upadesa
amara ajnaya guru hana tara ei desa

“Instrua todos a seguirem as ordens do Senhor Sri Krishna como elas são apresentadas no Bhagavad-gita e no Srimad-Bhagavatam. Dessa forma, torne-se mestre espiritual e tente libertar todos nesta terra”. (Chaitanya-charitamritaMadhya-lila 7.128)

Como todo devoto sabe, tal pregação é um grande desafio no mundo material. As entidades vivas caem do Reino de Deus para o mundo material com o propósito expresso de se esquecerem de Deus e de desfrutarem de uma vida fútil de gratificação dos sentidos materiais. Não é uma tarefa fácil lembrá-las de sua identidade verdadeira no mundo espiritual. Mas é exatamente isso o que temos que fazer a fim de receber sua graça e, por fim, novamente sua companhia no céu espiritual. Na proporção em que cumprirmos sua ordem de libertar tantas almas condicionadas quanto possamos na duração de nossa vida, maior será a chance de termos sua companhia novamente. Se ficamos aquém da expectativa de compartilharmos com as almas condicionadas deste mundo a boa fortuna que você conferiu a nós, não podemos contar com sua companhia pessoal em um futuro muito próximo. O próprio Senhor diz a Narada Muni:

hantasmin janmani bhavan
ma mam drastum iharhati
avipakva kasayanam
durdarso ‘ham kuyoginam

“Ó Narada, lamento que durante esta vida você não poderá Me ver mais. Aqueles que são incompletos em serviço e que não são completamente livres de toda mácula material dificilmente podem Me ver”. (Srimad Bhagavatam 1.6.21)

Ó meu mestre, senhor de minha vida, abençoe-me, por favor, com a pureza, a força, a sabedoria e a determinação em continuar pregando sua mensagem até o fim de minha vida. Você me deu a vida verdadeira, esta vida de consciência de Krishna, dessa forma, para todos os fins, sou seu – faça comigo o que lhe apraza. Minha oração é que você continue usando meu corpo a envelhecer para a distribuição de sua mensagem às almas condicionadas, minha mente para sempre meditar em como executar tais atos nobres, e minhas palavras para levar centenas de milhares de almas perdidas a seus pés de lótus.

Srila Prabhupada, minha grande esperança, meu acalentado desejo, é que eu possa me qualificar através do serviço para estar novamente com você um dia em um futuro não muito distante. A possibilidade virá em breve, porque estou, afinal, nos últimos capítulos de minha vida. Oro que, chegado o momento final, eu possa estar puro em meu coração e qualificado para servir seus desejos no mundo espiritual, muito além deste mundo de nascimentos e mortes. Lá, nessa morada transcendental, jamais experimentarei novamente a angústia de estar separado de você, senão que o ajudarei eternamente em seu serviço ao Senhor, até o fim e na eternidade que segue.

Meu amado senhor e mestre, neste dia sagrado, sinto sua falta.

Seu servo,

Indradyumna Swami

.

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