“Vai Malandra” e o Padrão de Beleza

Bhagavan Dasa

Novo clipe de Anitta reacende discussão sobre representatividade e padrões de beleza.

No dia 18 de abril, a cantora pop Anitta lançou seu clipe “Vai Malandra”. Além do talento da cantora, o clipe contou com todo tipo de assessoria e investimento do mercado fonográfico de massas. Nenhuma escolha ali é por acaso. A escolha de misturar pop, funk e rap, a temática de representatividade e participação especial internacional foram alguns dos elementos cuidadosamente colocados no clipe para repercussão nacional e internacional do mesmo. E deu certo! Em menos de 24 horas após o lançamento do clipe no Spotify, o mesmo estava entre as 50 faixas mais tocadas. No Youtube, fez história como o mais bem-sucedido lançamento brasileiro, atingindo quase 8 milhões de visualizações nas 10 primeiras horas.

O tema mais discutido a partir do clipe, como você já deve saber nesta altura, é o “traseiro” com celulite da cantora, que aparece logo ao começo do clipe, em um caminhar confiante. Isso não é um detalhe. A cena tem a celulite ali localizada como foco, e a música até mesmo parece se atrasar, com o corpo da cantora, livre de Photoshop, pedindo alguns instantes de exclusividade de quem assiste!

No mínimo inesperado isso, vindo de uma musa pop. Pensemos em Beyonce, em comparação. A celebridade norte-americana é bem conhecida por fortes edições em suas fotos no Facebook e por se irritar quando revistas ou blogs postam fotos suas em que não estava “no seu melhor ângulo”.

Anitta, então, em ato de coragem, ou talvez de mero oportunismo, ou talvez por impossibilidade de continuar escondendo suas celulites (que já eram assunto na internet há considerável tempo, digamos a verdade), traz o assunto dos padrões de beleza para os meios de comunicação. Outras mulheres fora de padrão beleza retratadas no clipe, com absoluta confiança em si mesmas, incluem mulheres negras com cabelos indomados, uma mulher obesa com seios muito avantajados, uma senhorinha de idade no baile de favela e uma travesti.

Gostarmos de Nosso Corpo É Importante

A representatividade de outras formas de beleza, ou de corpos normais, quer dizer, corpos variados por natureza e sujeitados aos efeitos transformadores do tempo, é algo importante para a saúde mental das pessoas. Incontáveis pessoas se tolhem de atividades importantes para si e para outros por desconforto com sua própria imagem.

Eu, por exemplo, em minha pré-adolescência, me privei de esportes e educação física na escola porque eu era “o magrelo”, “o faquir”, e tinha muita vergonha de tirar minha camisa, usar uma camiseta ou um short. Diante da minha determinação a não expor meu corpo nem o mínimo necessário para as atividades esportivas, o professor me deixou segurar o apito, a boia salva-vidas e outras coisas, inteiramente passivo e sedentário.

Uma amiga minha também falou sobre uma grande perda para si e para outros por questões sociais em torno de seu corpo obeso. Sofrendo bullying no hospital onde trabalhava como enfermeira, foi vitimada por depressão e afastada do trabalho que tanto amava – e que, por tanto amar, fazia bem, com profissionalismo e apreço pelas pessoas carentes de cuidado.

O clipe da cantora pop, usando o termo popular no feminismo, “empodera” vários tipos de mulheres a se amarem, permitindo que estejam nos ambientes em que outras pessoas que se amam se permitem estar, como no trabalho ou na educação física, nos exemplos que dei, ou no baile, como no exemplo do clipe da Anitta.

A Saúde É um Critério Objetivo

Como exposto, o empenho por não nos deprimirmos ou nos excluirmos de convívio social por causa de nosso corpo é algo importante. Ao mesmo tempo, devemos estar atentos que nem tudo é arbitrário nos padrões de beleza. Na Bhagavad-gita, Krishna diz que tudo pode ser analisado cientificamente com base no que é chamado de “os três modos da natureza”. Esses modos, apresentados muito brevemente, são o modo da bondade, que Krishna diz estar ligado, entre outras coisas, a hábitos que prolongam a duração de vida; o modo da paixão, ligado a atividades que dão prazer no começo, mas problemas em seguida; e o modo da ignorância, ligado a letargia e falta de conhecimento.

Assim, uma sociedade equilibrada, no modo da bondade, naturalmente incentivará como modelo corpos favoráveis ao bom funcionamento do coração e demais órgãos. Uma sociedade viciada em prazeres imediatistas, mas que trazem muitos problemas em seguida, como consumo de drogas seguido de dependência, e sexo desregrado seguido de aborto e filhos indesejados, cultuará aparências ligadas a isso, como pessoas hiper-sensualizadas ou usando roupas e adereços com referência a álcool e maconha. Por fim, uma sociedade baseada no modo da ignorância pode clamar completo subjetivismo para análise de diferentes corpos, sem identificar que neles podem estar mensagens como maus hábitos de sono, alimentação e postura ou falta de exercícios físicos.

A minha amiga enfermeira, referida um pouco atrás, decidiu fazer uma cirurgia de redução de estômago quando problemas de coração e de joelho começaram a se agravar nela. Em suas redes sociais, escreveu à época: “Eu sei que sempre preguei contra os padrões de beleza, mas a obesidade tem outra questão: ela mata. Eu estar em um sério esforço por emagrecer agora, não é uma contradição com minha luta anterior de combater preconceito contra variados tipos de corpos”.

Assim, estar bem com o próprio corpo em questões meramente subjetivas (como a cor da pele) ou insuperáveis (como as mudanças corpóreas na velhice) é importante, mas também importante é identificar se o corpo está dizendo algo que peça uma mudança nele, como reeducação alimentar ou práticas de exercícios físicos.

Subjetivismo Moral

A questão da relatividade da beleza tem um pensamento concomitante curioso. As mesmas pessoas que reportam padrões de beleza físicos como meras convenções de um grupo de pessoas de uma determinada época, frequentemente falam de condutas que antes eram analisadas objetivamente como boas e ruins dentro do mesmo rótulo de subjetivas. Um exemplo? “Você ser vegetariano não faz você melhor do que ninguém”, ou “Eu ser vagabundo não me faz pior do que ninguém”.

“Como não?”, me atrevo a perguntar. Um vegetariano abre mão de coisas que ele gosta de comer (Nem todo vegetariano tem nojo do que comia. Eu ainda lembro com prazer do gosto da geleia de mocotó deslizando pela minha língua.) pensando no bem-estar de criaturas com as quais ele não tem nenhuma proximidade. Um homem não vagabundo adia as demandas sexuais por compromissos elevados, como gerar filhos em um lar harmônico, não correr o risco de engravidar uma mulher que ele não irá amparar em todas as suas necessidades, entre outras questões. Embora o vegetarianismo e a castidade tenham benefícios objetivos para a sociedade e exijam do sujeito uma superação do egoísmo e da busca imediata de prazeres, vegetarianismo e castidade são coisas muitas vezes tidas como critérios que não dão níveis diferentes às pessoas que os praticam e a pessoas que fazem o oposto e trazem consequências opostas para o bem-estar de outros, como animais serem torturados ou mulheres que terão que “se virar” em um aborto (porque a gestação não estava combinada em nosso sexo sem compromisso) ou criando um filho com alienação paterna.

Assim, embora a superação de julgamentos subjetivos para os corpos tenha valor, a transposição disso para o âmbito moral é muito nociva, e essa mensagem nociva está, infelizmente, no clipe de Anitta, onde a malandragem é o objeto de culto. O mero título da música, “Vai Malandra”, epitoma a imoralidade, visto que malandro é, na definição dicionarística, “aquele que não trabalha, que lança mão de recursos engenhosos, frequentemente condenáveis, para viver, dado a diversões e prazeres”, em outras palavras, alguém imprestável, com escolhas egoístas, centrado em si, indiferente a consequências reais.

Beleza Espiritual

Toda a discussão anterior, envolvendo autoestima instrumental e outras questões, é importante e contemporânea. Mas, é claro, temos que finalizar com o chavão: “O importante é a beleza interior”. É exatamente isso que Krishna diz. Na obra Uddhava-gita, Krishna diz estas palavras, sri gunah nairapeksya adyah: beleza (sri) é ter qualidades (gunas) como o desapego de coisas materiais (nairapeksya) e assim por diante (adyah).

Enquanto os debates de beleza giram em torno de corpos feios e bonitos, aceitos e não aceitos, Krishna leva a discussão de beleza para outro nível: beleza é ter qualidades. E não é menos do que curioso que a única qualidade que Krishna exemplifique como qualidades belas seja o desapego, algo que é muitíssimas vezes centrado no corpo, seja no âmbito imediato da aparência, seja nos grupos que se formam no tocante a aceitar os iguais e rebaixar os diferentes.

Buscarmos a aceitação de nosso corpo com representatividade em um clipe e discursos politizados é um bom paliativo, mas, convenhamos, mesmo que convençamos a todos que nosso corpo deve ser aceito, e convençamos a nós mesmos, uma hora a doença e a morte o tomarão, e não haverá apelo: um corpo coberto de feridas e pus, o mal cheiro dos movimentos intestinas após sessões de quimioterapia, ou um corpo em decomposição repleto de vermes jamais poderão ser atrativos. Parece mesmo que temos que dar o braço a torcer aos ensinamentos de Krishna: a única solução para o assunto da beleza é cultivarmos algo além do corpo, como boas qualidades, como o desapego do corpo.

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