O Néctar da Instrução: Para Almas Velhas e para Todos

-@ 25 I (entrevista - teologia) O Néctar da Instrução Entrevista (2000) (bg) (pm) (ta)Entrevista com Maha Krishna Nama

Embora muito concisa, a obra Upadeshamrita, traduzida e comentada por Srila Prabhupada, delineia o processo de bhakti-yoga desde as atividades mais fundamentais até seu auge. Conheça mais desta obra de Rupa Gosvami com um dos maiores estudiosos da literatura de bhakti-yoga no Brasil.

Volta ao Supremo: Do que trata a obra Upadeshamrita? Quem é seu autor? A quem se destina?

Maha Krishna Nama: A obra gaudiya-vaishnava Upadeshamrita, datada do período shaka, correspondente ao período medieval ocidental, pode ter seu título traduzido literalmente do sânscrito para o português como “O Néctar da Instrução”. Tal obra é a síntese universal e sistematizada do método de se desenvolver amor por Deus, partindo do estágio primário, onde a alma se encontra aprisionada pelos ditames condicionantes da energia material, até chegar aos níveis mais íntimos e profundos de devoção e plena consciência pura da alma.

Rupa Gosvami, um dos Seis Gosvamis de Vrindavana, é discípulo do grande santo e místico Sri Chaitanya Mahaprabhu, o patrono do movimento de sankirtana que veio anunciar e propagar um dos métodos religiosos mais poderosos e efetivos para os dias atuais, o processo de cantar os santos nomes de Deus. A posição de Rupa Gosvami (1489–1564) dentro da tradição vaishnava da Bengala é ímpar. Além de ser considerado um dos associados do Senhor que residem eternamente no mundo espiritual, teve a incumbência de compilar a literatura canônica do movimento de sankirtana, extraindo a essência da literatura védica em obras como Bhakti-rasamrita-sindhu, Ujjvala-nilamani, Laghu-bhagavatamrita, Vidagdha-madhava e Stavamala, entre muitas outras obras e peças teatrais – além, é claro, do Upadeshamrita. A literatura de Rupa e dos outros Gosvamis revela-se a descrição mais íntima, profunda e científica das atividades de Deus e da maneira pela qual podemos conhecê-lO.

Por se destinar ao avanço do eu, à purificação da consciência e ao aperfeiçoamento espiritual, é uma obra universal. Independente de religião, raça, credo, cor, até mesmo empresários e astutos homens de negócios podem se beneficiar, mas especialmente aquelas almas “velhas”, que já têm um nível de consciência e percepção da realidade mais apurado e sutil, esses heróis que levantam e levam a sério, até as últimas consequências, a questão “o que é tudo isto?”. A obra vai se revelar como poderoso guia prático para essa jornada.

Volta ao Supremo: Cada adepto de uma religião dirá que as obras de sua respectiva religião têm “a descrição mais íntima, profunda e científica das atividades de Deus e da maneira pela qual podemos conhecê-lO”. Por que, objetivamente, deveríamos entender que a literatura dos Gosvamis é realmente especial?

MKN: Em relação ao fato de praticamente todas as grandes religiões mundiais se autoproclamarem como donas da verdade, está muito bem: afinal, a religião é o ultimo estágio de conhecimento para se chegar à Verdade.

Um bom método para tentar se estabelecer um consenso sobre o assunto seria o da comparação, ou seja, fazer uma análise rigorosa e profunda de cada escritura revelada. Outro ponto seria a visão de Srila Prabhupada em relação à matemática: assim como existe matemática elementar e matemática avançada, mas ambas trabalham com números e cálculos; da mesma forma, existem diferentes níveis de religiões. Isso ocorre devido ao nível de seu interlocutor, ou seja, para quem a mensagem vai ser revelada. Dependendo do momento histórico e da cultura em particular, Deus Se revela com diferentes nomes e posturas.

Outra questão: de acordo com o capítulo 17 do Bhagavad-gita (leia aqui), não somos nós que escolhemos de maneira livre e consciente uma religião, mas, antes, são determinadas estruturas e determinados processos que se coadunam com o nosso nível de consciência que fazem a escolha.

Em nosso momento histórico atual, gozamos de um mundo sem fronteiras, ao menos no aspecto econômico e informacional. Apesar de isso ter arrefecido a noção de indivíduo, podemos falar de uma escritura que responda às perguntas sobre Deus de maneira profunda, universal e plausível, trazendo uma ciência teológica perfeita. Nenhuma religião ou escritura fornece tanta informação e tantos detalhes sobre o objeto da religião, Deus, como o faz o Bhagavata Purana (também conhecido como Srimad-Bhagavatam). Nesse sentido, como disse certa vez Hanumat Preshak Swami, o Bhagavata Purana é absoluto: ou é a verdade absoluta ou é uma mentira absoluta, mas, de qualquer forma, é absoluto. Rupa Gosvami, em seus livros, vem expandir e aprofundar os significados desse Bhagavata Purana.

Volta ao Supremo: No Instituto Jaladuta, antigo Seminário de Filosofia e Teologia Hare Krishna de Campina Grande, onde o senhor leciona, é utilizada no estudo do Bhagavad-gita a metodologia de Bhurijana Dasa de dividir a obra em diferentes seções temáticas, isto é, grupos de versos que compartilham de um tema em comum. É possível identificar também no Upadeshamrita seções temáticas entre seus onze versos?

MKN: Sim! Penso que os textos védicos são extremamente didáticos e sistemáticos, compostos de forma ordenada. São realmente muito claros, mas, para acessarmos isso, é uma necessidade imprescindível a orientação de um mestre espiritual fidedigno. Aceitando sua proposta, posso tentar identificar algumas divisões em O Néctar da instrução com o intuito de facilitar seu estudo. Por exemplo, utilizando o método que Bhaktivinoda Thakura gostava de utilizar, os três primeiros versos poderiam falar de sambandha-jnana por tratarem do conhecimento da identidade e das características de um devoto; dos versos de quatro a oito, encontramos a sessão de abhideya, por explicar como esse devoto se relaciona com outras pessoas, o processo de interação com outras pessoas e devotos a fim de ele se elevar e o cantar dos santos nomes; e, dos versos nove a onze, temos a parte de prayojana, que é a meta a ser alcançada, o objetivo derradeiro, explicando através de uma analogia que o processo de bhakti-yoga é o mais elevado, e alcançar o Radha-kunda, o maior de todos os sucessos.

Volta ao Supremo: Dentro da primeira seção, sambandha, as características de um devoto, Rupa Gosvami diz que um devoto é alguém autocontrolado e atento a evitar o que é desfavorável para sua vida espiritual e cuidadoso em buscar o que é favorável. Você tem alguma vivência dentro desses ensinamentos que poderia compartilhar conosco?

MKN: Por misericórdia de Krishna e de Prabhupada, através do Movimento para a Consciência de Krishna, podemos entrar em contato com pessoas muito avançadas, pessoas realmente santas e rendidas completamente a Srila Prabhupada. Pude viver junto de Dhanvantari Maharaja por quase oito anos em Campina Grande e observar o seu nível elevado de moral e coerência com as coisas. Também pude me encontrar várias vezes com meu mestre espiritual, Srila Jayapataka Swami, e com devotos como Radhanatha Swami, Bhakti-charu Swami, Jahnanivas Prabhu, Jayadvaita Swami, Hanumat Preshak Swami, Bhakti Svarupa Damodara e outros. Realmente, esses devotos, essas grandes almas, são a experiência viva do conteúdo dos livros de Srila Prabhupada, os grandes seguidores de Rupa e Sanatana.

Volta ao Supremo: Você mencionou que o Upadeshamrita foi escrito no século XV. Esse período foi marcado na Índia por uma forte presença do culto tântrico, da filosofia monista de Shankaracharya, do sistema de castas e do domínio muçulmano. Respostas às proposições dessas personalidades e desses valores aparecem na Upadeshamrita?

MKN: Eu aparentemente mencionei isso, mas, na verdade, o Upadeshamrita, por estar conectado com Krishna, é eterno (SB 2.9.34). Essas instruções não perecem como um período histórico ou um aspecto cultural proveniente dos três modos da natureza material. Assim como Bhaktisiddhanta explicou para Prabhupada, a consciência de Krishna não depende de nenhum fator material, senão que é totalmente independente e transcendental. Aqueles que estão saudáveis espiritualmente, pela misericórdia de Krishna e do guru, veem nessa perspectiva essencial. Aqueles que estão debilitados espiritualmente, com sua consciência parcial, veem apenas os aspectos parciais e particulares do mundo material. Bhaktisiddhanta diz: “Nunca houve nem haverá benfeitores mais beneméritos que Chaitanya Mahaprabhu e Seus devotos. A oferta de outros benefícios não passa de mera enganação; é, antes, um grande mal, ao passo que o benefício trazido por Ele e Seus seguidores é o maior e mais verdadeiro benefício eterno… Esse benefício não é para um país em particular, causando mal para outro; é benefício para todo o universo… A bondade que Sri Chaitanya Mahaprabhu mostra para com as almas condicionadas liberta-as eternamente de todas as necessidades, de todas as inconveniências e de todas as aflições… Essa bondade não produz nenhum mal, e as almas condicionadas que a possuam não são vítimas dos males do mundo”.

Volta ao Supremo: O Upadeshamrita foi traduzido e comentado por A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada na década de 1970. Quais as características de sua tradução e de seu comentário?

MKN: Além da tradução dos versos expressar todo o conteúdo de bhakti e sempre conduzir os leitores para tal conclusão, fato esse que se torna literal no Upadeshamrita, os comentários de Srila Prabhupada resumem toda a filosofia gaudiya-vaishnava e fornecem exemplos atuais e cotidianos, direcionados à compreensão do homem ocidental. Prabhupada é o grande acharya do vaishnavismo para o ocidente, e cumpre o papel de manter a mensagem eterna do parampara intacta, mas aplicá-la de forma compreensível para os homens de seu tempo, tornando fácil e aplicável a eterna mensagem dos Vedas. Um grande serviço a Krishna.

Volta ao Supremo: O livro tem sua culminação na descrição das glórias do Radha-kunda, como o senhor disse. Srila Prabhupada, no entanto, por vezes desestimulou que seus alunos fossem morar no Radha-kunda. Como entender essa contradição?

MKN: Eu admiro muito a humildade dos devotos que decidem não entrar no Radha-kunda – tenho muito respeito por eles. Mas o ponto é que, depois de Prabhupada ter publicado o Upadeshamrta, no ano de 1976, ele ficou sabendo que os devotos estavam ofendendo aquele local sagrado por nadarem, mergulharem saltarem e fazerem piruetas no lago, revelando muita irreverência e intimidade. Depois que ficou sabendo disso, Prabhupada proibiu os devotos de se banharem no Radha-kunda, mas o fato relevante é que foi uma instrução particular para um contexto específico. Os livros de Prabhupada, entretanto, contêm suas instruções gerais, não só para os membros de sua sociedade, mas para a humanidade em geral, ao menos para aqueles que querem desenvolver a consciência de Deus.

Volta ao Supremo: Se banhar-se no Radha-kunda é o suficiente para se conseguir a meta da vida, por que o autor se deu ao trabalho de apresentar outras instruções, como autocontrole, como relacionar-se com outros devotos, o que evitar para que a devoção não seja minada etc.?

MKN: Para conseguir alcançar o Radha-kunda, Prabhupada explica em seus significados que não é simples. Ele diz que mesmo grandes almas, como Narada e Sanaka Kumara, não têm oportunidade de se banharem ali – não é comprando uma passagem de trem que se vai a Vrindavana. O nível de consciência de Deus revelado no verso que fala do benefício de se banhar no Radha-kunda é o mais elevado, o top do top: prema. Mas mesmo um sadhaka, um devoto iniciante pode desenvolver fé inquebrantável por se tornar um servo de Srimati Radharani, essa é a glória.

Volta ao Supremo: Parece que o objeto de culto na Índia ao longo do tempo varia. Se no Rig Veda havia muitos hinos para Indra, nas Upanishads parece haver predileção por um absoluto impessoal. Esse culto a Radharani parece ser algo muito recente e particular dos Gosvamis. É isso mesmo?

MKN: Essa é a visão de muitos acadêmicos, de acordo com Satsvarupa Maharaja, de que o monoteísmo só teria começado por volta do ano 200 a.C. Mas será que existe uma conclusão última nas escrituras, uma espécie de siddhanta? Tanto os mestres espirituais quanto as próprias escrituras dizem que sim, que a conclusão dos Vedas se encontra no Bhagavad-gita, vedais ca sarvair aham eva vedyah, “a partir de todo conhecimento, é a Mim (Krishna) que se deve conhecer”. (Bhagavad-gita 15.15) Bhaktivinoda Thakura também explica em seu Jaiva Dharma que o vaishnavismo, ou monoteísmo, era a religião desde os primórdios da existência, sendo que reis tais como Dhruva, Svayambhuva Manu, Prahlada Maharaja, Prithu Maharaja eram todos grandes vaishnavas. Na verdade, o fenômeno de uma religião que não seja o bhagavata-dharma é um fenômeno recente. Outro ponto importante é o de que, em todos os textos e porções dos Vedas, você encontra citações de bhakti, pois, se elas não estivessem aí, como poderia ser a conclusão? No Rig Veda você já encontra bhakti, como no verso om tad vishnu paramam padam, e nas Upanishads também, e o que dizer nos Puranas.

Entrevista conduzida por Bhagavan Dasa em nome de Volta ao Supremo. Todo o conteúdo das publicações de Volta ao Supremo é de inteira responsabilidade de seus respectivos autores, tanto o conteúdo textual como de imagens.

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