A Prática do Celibato

28 01

Bhakti-tirtha Swami 

Embora a sexualidade, expressa de maneira regulada e orientada espiritualmente, seja apropriada para a maioria das pessoas, há exceções importantes. Todas as culturas têm práticas espirituais especiais que fornecem poderes incomuns. Uma dessas práticas é o celibato, que pode ajudar uma pessoa a desenvolver um amor forte, focalizado, para com todos os seres vivos. Os celibatários, em vez de ficarem limitados a um relacionamento, são capazes de oferecer amor profundo e preocupação por qualquer pessoa que entre em seu ambiente.

O princípio do celibato repousa no cerne de muitas religiões. O Novo Testamento, I Coríntios 7, ensina-nos que é melhor permanecer em celibato. Porém, esse mesmo capítulo nos diz que é preferível casar a arder de desejo. A ideia geral por trás do celibato é que temos que sentir um chamado específico para essa forma de vida, a tal ponto que podemos aprender a partir do conhecimento espiritual esotérico acerca de seu significado e prática.

Muitas técnicas estão disponíveis para nos permitir conservar a energia sexual para promover nosso avanço espiritual e serviço. Por exemplo, se a pessoa preserva muita energia vital contida mesmo em uma gota de sêmen e canaliza isso para cima, essa energia pode elevar a consciência dessa pessoa. Porém, uma palavra de prudência: homens e mulheres devem receber um “chamado” específico para uma forma de vida celibatária antes de se ocuparem em tais práticas. Além disso, eles devem ser cuidadosos para não praticar o celibato isolados, sem associações amorosas. Se eles forem viver sem um parceiro imediato, devem aprender a ver a todos como sua família e a cercarem-se de relações amorosas.

Na verdade, o celibato é muito raro e não o recomendamos à maioria das pessoas. Como regra geral, a sociedade requer famílias fortes, conscientes de Deus, e é por isso que a maioria das pessoas deve casar e criar filhos saudáveis, em vez de praticar o celibato. Mas todos devem entender que certos indivíduos escolhem um estilo de vida celibatário visando desenvolver poderes sobre-humanos para servirem os outros de maneira ainda mais dedicada e amorosa.

Ao mesmo tempo, nós temos que lembrar que nossa cultura superenfatiza o papel da sexualidade e que o amor não começa ou termina necessariamente com intercurso sexual. Isso não quer dizer que o sexo não possa ser parte de um relacionamento amoroso entre homem e mulher. É uma questão de manter um equilíbrio saudável entre a expressão sexual e os outros aspectos da vida. O ponto importante é que as pessoas não devem deixar escapar a experiência do amor mais elevado por estarem focalizando apenas o corpo físico.

Na presença de celibatário, geralmente experimentamos níveis intensos de vitalidade e amor. As pessoas genuinamente celibatárias têm uma áurea ao seu redor, porque possuem as poderosas energias da compaixão abnegada que elas compartilham livremente com os outros. Os sacerdotes no antigo Egito e outras civilizações antigas conheciam bem esse fato, e muitos praticantes na Índia moderna ainda o conhecem. O celibato permite que eles executem muitas proezas surpreendentes. Mahatma Gandhi foi um exemplo desse fenômeno; muito de sua força advinha do celibato.

Paradoxalmente, muitos celibatários são muito atraentes para os membros do sexo oposto. Isso é devido ao poderoso amor que eles podem irradiar. Não há nada de errado nisso; a atração é natural entre os sexos. Mas a responsabilidade do celibatário é ser completamente abnegado e totalmente preocupado com os outros. O verdadeiro celibatário tem uma união com os outros a partir do coração, e não a partir dos órgãos genitais.

Celibato Não É Negação

Quando devidamente compreendido e praticado, o celibato não é uma questão de sacrifício. É uma questão de amor. Os indivíduos que se tornam celibatários a fim de dedicar sua energia no serviço a Deus não experimentam o celibato como um sacrifício. A energia sexual deles se transforma em compaixão desprendida e devoção, que eles distribuem amplamente para todos com que se encontram. Eles primeiramente veem a si mesmos como servos de Deus e da sociedade, sempre procurando funcionar como canais de energias divinas para curar, orientar e encorajar os outros.

O celibato é adequado somente se o escolhemos livremente. Se tentamos suprir nosso desejo sexual sem tê-lo focalizado em uma direção diferente, podemos descobrir dentro de nós mesmos um grande falso ego, uma ira intensa ou tendências para sermos surpreendentemente destrutivos. Temos que aprender a redirecionar nossa energia sexual, em vez de negar sua existência ou esperar que ela desapareça. O falso celibato apenas se transforma em outra distorção anormal em nossa sexualidade, destruindo a nossa sociedade ainda mais. O celibato nunca deve ser uma questão de escapar de uma situação que não podemos enfrentar. Por exemplo, algumas pessoas se privam do contato com as pessoas do sexo oposto porque não são capazes de lidar com sua própria sexualidade. O remédio para essa situação é um autoconhecimento maior, não um escape. Tampouco deve o celibato ser ditado de fora. Quando isso acontece, podemos desenvolver comportamentos estranhos ou artificiais. A partir de uma perspectiva prática é fácil entender por que certas instituições religiosas impõem a prática do celibato a seus sacerdotes. Aqueles em posições de liderança podem facilmente explorar o sexo oposto. Sem alguma forma de restrição, um sacerdote em contato frequente com mulheres para tratar de assuntos confidenciais poderia facilmente sucumbir à tentação sexual. Mas, infelizmente, quando o celibato é imposto externamente, muitos sacerdotes geralmente anseiam pelo contato sexual e descobrem formas ilícitas de satisfazer seus desejos.

Toda ação está ligada ao nosso desejo de prazer, e o nosso desejo de prazer tem origem na energia sexual. Quando não estamos altamente sintonizados, buscamos satisfação na forma de exploração e satisfação egoísta. Assim, se carecemos do desejo genuíno de sermos celibatários – o que pode ser o caso, por exemplo, se outras pessoas nos impõem o celibato, se somos impotente, ou se tememos expressar nossa sexualidade –a prática do celibato pode ser prejudicial. Somente experimentaremos frustração e ira, porque estamos nos privando de prazeres pelos quais ansiamos longamente. Forçando-nos a sermos celibatários nessas condições, podemos estar nos violentando e, em última instância, violentando as outras pessoas. Não estamos experimentando “gosto superior”, mas somente trazendo mais sofrimento para o mundo.

A Renúncia Assume Várias Formas

O verdadeiro celibato, então, é uma forma de renúncia em nome de um bem mais elevado. Em vez de ser uma questão de negação ou fuga, a renúncia é uma questão do quanto nos fazemos disponíveis para o serviço a Deus. Para cada pessoa, a renúncia assume uma forma diferente, condizente com o desenvolvimento particular do indivíduo. Por exemplo, aqueles que estão acostumados com o alvoroço da vida comum podem achar difícil que a renúncia solicite que eles se retirem e se tranquilizem.

Mas para aqueles apegados a ficar sozinhos, a renúncia pode significar adotar mais envolvimentos, atividades e relacionamentos externos. O amor da solidão pode ser uma forma de satisfação dos sentidos – o que é uma fraqueza. As interações com os outros podem revelar que eles não estão tão desapegados do mundo quanto gostariam, porque o estilo de vida asceta tornou-se um “para-choque” para protegê-los de um comprometimento genuíno na vida.

Muitos yogis que se ocupam em meditação sob uma árvore, em uma caverna ou nas montanhas se despedaçariam caso tivessem que manter um contato diário com outras pessoas. Além disso, todos já ouvimos falar de swamis ou gurus que, após passarem anos nos Himalaias, começaram a fazer excursões de pregação pela Europa ou pelos Estados Unidos, onde, por fim, caíram de sua posição elevada e sucumbiram à tentação.

O teste verdadeiro da renúncia vem à medida em que nos deparamos com várias situações na vida cotidiana. Renúncia significa um comprometimento autêntico em servir o Senhor em vez de servimos a nós mesmos, sob todas as circunstâncias. Temos que proteger em nome do Senhor e, não nos vermos como proprietários de alguém ou alguma coisa. Contudo, a renúncia não quer dizer ser impessoal ou indiferente aos relacionamentos. Ao contrário, de fato, significa ser mais afetuoso, atencioso, compartilhar mais, ser mais consciente e protetor – não porque estejamos apegados à nossa própria satisfação, mas porque estamos fazendo uma oferenda ao Senhor. O que estamos renunciando é a ascendência do falso ego, que nos mantém aprisionados neste mundo material.

Colocando a Vida Material em Perspectiva

Em última análise, cada um de nós tem que aprender a ser livre, controlando os nossos sentidos e desejos dentro do confinamento imposto por este corpo físico neste mundo material. Quer sejamos celibatários, quer sexualmente ativos, devemos sempre nos conectar com algo mais elevado que irá nos orientar, proteger, animar e nos dar um sentimento de segurança. Os antigos ensinamentos védicos nos recordam, assim como muitas outras tradições, de que todos os mundos, materiais e espirituais, têm a sua origem em Deus. Assim, se tentamos satisfazê-lO, estamos automaticamente em contato com o núcleo de tudo. Desta forma, o que quer que precisemos virá naturalmente para nós.

Infelizmente, a maioria de nós ignora esse fato e ruma na direção errada. Em vez de melhorarmos nosso relacionamento com Deus, passamos a maior parte de nosso tempo tentando satisfazer os nossos desejos inferiores. A sexualidade, se mal compreendida, pode ser uma armadilha para que sejamos mantidos presos ao mundo material. Certamente temos que prestar atenção ao corpo para que funcione de maneira eficaz. Mas se nossa prioridade é a satisfação dos sentidos e a satisfação própria, acima de tudo, teremos de ficar retornando a este mundo físico para participar dos jogos sensuais e materiais inúmeras vezes. Por outro lado, se a vida espiritual é o nosso compromisso, então as nossas experiências neste mundo não serão um fim em si mesmas, mas indicações mostrando o caminho de volta à morada de Deus.

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2 Respostas

  1. adriano rio de janeiro

    O texto tem umas falácias, mas até que é bonzinho. O problema é quando o celibato é muito glorificado, cercado de uma aura mística, de super poderes como o autor fala, pois aí os que não são celibatários vão ficar deslumbrados e tentar ser sem ter vocação. Na verdade o celibato não é vocação, é uma escolha. Deve ser natural, pois assim como o sexo irresponsável traz muito sofrimento, já vimos os problemas que muitos celibatários têm trazido ao mundo, pedofilia, etc. A pornografia, o culto ao sexo na sociedade moderna, em parte é culpa das religiões que sempre negaram e reprimiram o sexo. Um extremo é o celibato forçado e a repulsa ao sexo; o outro extremo é o que vemos hoje em dia.

    4 de novembro de 2013 às 9:28 PM

  2. Sérgio ferrari

    A vida toda tive atividade sexual intensa, casei e geri três filhas lindas, me divorciou e aí Sim a sexualidade ficou mais intensa. Provei de todas as formas de sexo, mas chegando aos 58 de idade foi aparecendo um certo desinteresse sexual e por fim um celibato amoroso com todas pessoas e hoje me sinto completo. Uma sensação maravilhosa.

    12 de abril de 2016 às 3:18 PM

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