O Bhagavad-gita Além da Especulação

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Bhagavan Dasa

Mesmo em um tempo em que a subjetividade, a relatividade e a pluralidade de opiniões são conceitos em voga, ainda é possível aplicar a orientação contida no próprio Bhagavad-gita para lermos o Bhagavad-gita como ele é, e não como nos projetamos nele. 

Certa feita, no Sul da Índia, na cidade de Tiruchirapalli, o santo Chaitanya Mahaprabhu visitou um importante templo, onde dançou em êxtase diante das figuras no altar. Pessoas de diferentes partes da Índia estavam no Sul do país a fim de poderem ver aquela personalidade afamada e ouvirem-nO cantar o hino de louvor pelo qual ficara famoso: Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.

Todos os dias, um devoto de Krishna visitava aquele templo e, segundo a orientação de seu mestre espiritual, recitava todos os dezoito capítulos do Bhagavad-gita. Devido a ser iletrado, porém, pronunciava os versos ora corretamente ora com muitos erros, em virtude do que era frequentemente objeto de piadas. Contudo, tamanho era seu enlevo naquela prática rotineira, que era alheio aos comentários pejorativos à sua pessoa.

Quando Chaitanya Mahaprabhu viu aquele devoto, que se arrepiava e vertia lágrimas à medida que lia aquela tão querida obra, ficou contente e Se aproximou dele. “Peço-te licença”, disse o santo, “permite-Me perguntar-te: De onde surge tão grande amor extático? Qual é a parte do Bhagavad-gita que te confere semelhante prazer transcendental?”. “Não possuo estudos da língua sânscrita”, ele respondeu, “razão pela qual desconheço o significado das palavras. Na verdade, tudo o que faço é ver o Senhor Krishna sentado em uma quadriga como o quadrigário de Arjuna. Enquanto segura as rédeas em Suas mãos, Ele parece muito belo em Sua tez enegrecida”.

Embora houvesse muitos teólogos eruditos na Índia contemporânea à chegada dos portugueses no Brasil, Chaitanya julgava que a maioria deles não compreendia o verdadeiro significado do Bhagavad-gita. Seu juízo em relação àquele devoto semianalfabeto, entretanto, foi outro. A ele, dirigiu estas palavras: “Com efeito, és uma autoridade na leitura do Bhagavad-gita. O que quer que saibas constitui o verdadeiro propósito do Bhagavad-gita”.

Esta instrutiva história está registrada em uma das mais importantes biografias de Chaitanya Mahaprabhu, de nome Chaitanya-charitamrita. Esse encontro entre o famoso devoto que redespertou a prática ióguica do serviço devocional a Krishna e um humilde e desconhecido devoto recitando o Bhagavad-gita por fé em seu mestre espiritual e devoção ao Supremo nos revela o cerne do Bhagavad-gita: a devoção a Deus.

Por nossa tendência a especular, isto é, a fazermos do livro um espelho (speculum), o Bhagavad-gita, antes de nos falar sobre a devoção a Deus, nos diz que nós mesmos devemos ter devoção, a fim de que quando não estejamos ouvindo a obra, que fala de devoção a Deus, mas nos projetando no texto, vejamos novamente devoção, por essa já estar em nossos olhos, em nosso coração e em nossa mente. Assim é que Krishna, no verso três do capítulo quatro do Bhagavad-gita, diz a Arjuna que somente quem é devoto e amigo dEle pode compreender o Bhagavad-gita, e, no último capítulo do mesmo, no verso sessenta e sete, reitera que este conhecimento jamais pode ser explicado àqueles que não são devotados a Ele.

Assim, a devoção é o meio pelo qual se pode compreender o Bhagavad-gita. Afinal, o Bhagavad-gita é a canção (gita) do Ilimitado (bhagavan), a canção de Deus, explicando sobretudo a Si mesmo. Como é possível que nós, tão limitados, possamos compreender o Ilimitado? Isso somente é possível caso o Ilimitado lance mão de Sua onipotência e, dentro de nossos corações, como diz no capítulo dez, remova pessoalmente toda a escuridão com a luz brilhante de Sua sabedoria e nos ilumine. Destarte, o conhecimento do Bhagavad-gita é-nos acessível somente caso consigamos invocar a misericórdia de Deus, que, então, permitirá que O conheçamos. Essa invocação de misericórdia divina, ensina-nos esse diálogo sagrado, dá-se através da prestação de serviço devocional amoroso a Deus, associado à constante observação do próprio caráter de forma a moldá-lo ao agrado de Deus: equanimidade para com todos os seres vivos, ausência de inveja, autocontrole, destemor, clemência, caridade.

O serviço devocional a Deus, por conseguinte, é o meio pelo qual se pode compreender o Bhagavad-gita. E qual é o objeto da compreensão? O que o devoto compreenderá? Compreenderá que o meio que adotou é a própria meta: a perfeição da vida é servir a Deus eternamente, quer neste mundo, quer no próximo. Quando a alma, pelo bom uso de seu livre-arbítrio, decide se render a Krishna, a Deus, ela experimenta a autorrealização: conhece a si mesma. Uma vez em sua posição constitucional, uma vez que se conheça como Brahman, como espírito puro, completamente distinta da matéria, a vida não acaba, senão que de fato começa, com todas as possibilidades de relacionamento com a Pessoa Suprema. Arjuna, antes de ouvir o Bhagavad-gita, era um guerreiro e, depois de ouvi-lo, continuou um guerreiro. O Bhagavad-gita, portanto, não tem por objetivo privar-nos de nossa individualidade, senão que quer adicionar algo a ela a fim de que seja plena: a postura de servo de Deus e, consequentemente, de todas as entidades vivas. Essa é a consumação do ensinamento do Bhagavad-gita.

Assim, fica o convite a quem se dispõe à leitura do Bhagavad-gita, uma obra poética, filosófica e religiosa, que o faça como a própria obra convida: com o coração aberto, em postura de servo e como alguém constitucionalmente devoto de Deus.

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