O Canto dos Santos Nomes de Srimati Radharani: Fundamentos da Resolução do GBC

-04 (artigo - Mantra) O Canto dos Santos Nomes de Srimati Radharani (1855) (ta)Pragosha Dasa

A polêmica resolução do corpo administrativo máximo da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna melhor analisada.

Lembro-me da primeira vez que li o Bhagavad-gita e, mais especificamente, de quando Arjuna fala pela primeira vez no capítulo 1 do verso 21 e, ainda mais especificamente, do verso 28 até quando Krishna profere Suas palavras imortais no verso 11 do capítulo 2. Até o momento em que Krishna toma a palavra, eu havia me tornado um verdadeiro fã de Arjuna. Eu julgava que Arjuna falara tanto bela quanto compassivamente, e eu pensava em quão maravilhoso pai, irmão ou tio uma pessoa assim poderia ser.

Então, no entanto, Krishna arruinou tudo, ou, digamos, esmagou minha ilusão.

Krishna disse a Arjuna: “Enquanto falas palavras eruditas, estás te lamentando por algo indigno de pesar. Aqueles que são sábios não se lamentam nem pelos vivos nem pelos mortos”.

Na época de minha primeira leitura, como eu dizia, o Arjuna do começo do Bhagavad-gita era meu herói porque ele era tanto um grande guerreiro como, sem contradição, um homem possuidor de um coração incrivelmente sensível e cheio de compaixão. No que dizia respeito a Krishna, eu pensei: “Uau! Ele supostamente é Deus, mas aqui está encorajando essa personalidade de magnífica razão a simplesmente ir em frente e matar, quase à vontade, como se Ele não houvesse ouvido todos os argumentos humanos que Arjuna acabou de apresentar?”.

Felizmente, também li os comentários de Prabhupada, e graças a Deus que eles existem! Como todos sabemos, eles explicam o contexto do que estava acontecendo e as gloriosas instruções de Arjuna a Krishna.

Os eventos acima se aplicam de alguma forma à recente resolução do GBC, o corpo administrativo máximo da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, concernente ao canto do nome de Srimad Radharani. (disponível ao final) Nossa primeira reação é: Como poderia haver, em algum momento, algo além de benefício transcendental no cantar do nome de Sri Radha e, consequentemente, como poderia não haver ilimitado encorajamento para esse cantar?

Embora a resposta à pergunta seja essencialmente “sim, não há nada mais benéfico e incentivável”, dependendo de nossa intenção e postura, pode haver aspectos adversos.

Prabhupada disse: “Bem, isso não é feito pelos acharyas. Contudo, não há malefício em entoar ‘Radhe’. Porém, algumas vezes, isso se degrada e se inventa algo novo – invenção. Portanto, melhor nos atermos a ‘Hare Krishna’ e ‘Sri Krishna Chaitanya Prabhu Nityananda’. De outro modo… É como os sahajiyas, que inventaram: ‘Nitai-Gaura Radhe Shyama, Hare Krishna Hare Rama’. Essas coisas virão gradualmente. No entanto, não são aprovadas. Chamam-se chara kirtana (?), que significa ‘kirtana inventado’. Mas não há malefício em entoar ‘Radhe, Nitai-Gaura’. Então, melhor nos atermos a este Panca-tattva e maha-mantra. Assim como ‘Nitai Gaura Radhe Shyama, Hare Krishna Hare Rama’. Existe ‘Nitai-Gaura, Radhe Shyama’, mas não é aprovado. Mahajano yena gatah sa panthah (Cc. Madhya 17.186): temos que seguir o mahajana. No Chaitanya-charitamrita, vocês encontrarão: ‘Sri Krishna Chaitanya Prabhu Nityananda, Sri-Advaita Gadadhara’, mas nunca ‘Nitai Gaura, Radhe Shyama’. Então, por que deveríamos fazer isso?”. (Srila Prabhupada, Hyderabad, 7 de abril de 1975)

Aqui, Prabhupada está claramente incitando cautela e aconselha: “Melhor nos atermos a ‘Hare Krishna’”.

Na referência a seguir, Prabhupada delineia ainda que, ao cantarmos o maha-mantra Hare Krishna, também estamos cantando o nome de Radharani. Ele explica esse importante ponto no próprio Radhastami:

“Então, o nosso pedido a todos que estão presentes aqui… Hoje é Radhastami. Então, orem a Radharani. E Ela é Hare, Hara. Esta palavra Hare é Radharani. Hara, Radharani. Radha ou Hara é o mesmo. Então, Hare Krishna. Assim, estamos orando a Radharani: ‘Minha mãe, Radharani, e Krishna’. Hare Krishna. ‘Ó Krishna, ó Senhor’. Hare Krishna Hare Krishna, o mesmo, repetição. ‘Ó Radharani, ó Krishna’. ‘Ó Radha-Krishna’. ‘Radhe-Krishna’ ou ‘Hare Krishna’ – o mesmo. Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare. Novamente se dirigindo a Eles: ‘Ó Krishna, ó Krishna, ó Radharani’. Hare Rama. O mesmo novamente. Hare Rama. Rama também é Krishna. Rama é Rama, Rama é Balarama. São todos Krishna. Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare. Assim, essa repetição está se dirigindo a Radha e Krishna, ou Hare Krishna. É orar: ‘Meu caro Senhor, e a energia, a energia espiritual do Senhor, por favor, ocupai-me a Vosso serviço’. Isso é tudo. ‘Agora estou confuso com o serviço material. Por favor, ocupai-me a Vosso serviço’”.

Também temos o exemplo de Srila Prabhupada de que, sempre que era saudado em Vrindavana com “Jaya Radhe”, respondia com “Hare Krishna”.

Recentemente, uma prática que se desenvolveu na ISKCON, Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, e se tornou bastante difundida é a prática em que as mulheres em um kirtana cantam “Radhe Radhe” e, em seguida, os homens respondem com “Shyam Shyam”. Há várias preocupações em relação a essa prática, as quais veem sendo levantadas pelos devotos seniores. Embora tenha surgido de maneira espontânea e inocente, isso não significa que seja livre de inebriamentos materiais. A menos que todos os presentes sejam devotos puros na plataforma de raga-bhava, a introdução de novos estilos de cantar certamente maculará a prática com gratificação sensorial material.

Além disso, não é mais algo que apenas acontece espontaneamente, senão que agora é uma prática “orquestrada” em que o líder do kirtana encoraja a audiência a cantar dessa maneira. Muitos devotos destacados consideram esse estilo de cantar como fora do humor e do exemplo estabelecidos por Srila Prabhupada e se sentem desconfortáveis presenciando ou participando de tal cantar. Assim, tende a ser divisor em vez de unificante. O fato de o nome de Radharani ser cantado por mulheres e o nome de Krishna ser cantado por homens é algo que confere uma conotação mundana. Ocupa os aspirantes a devotos efetivamente em identificação corpórea durante o cantar dos nomes de Krishna e encoraja a divisão entre os devotos em termos de gênero. Não temos exemplo da parte de Srila Prabhupada dividindo o canto de mantras em algum tipo de grupo – jovens e idosos, ocidentais e orientais ou homens e mulheres. O exemplo dado por Prabhupada e pelos acharyas anteriores é de um líder de kirtana cantando para que todos os devotos reunidos respondam.

Mesmo se um devoto ou grupo de devotos sinta que está em um nível de devoção mais íntimo, não deve expressar seus sentimentos mais profundos em público. Um devoto avançado age como se estivesse no estágio de sadhana-bhakti para o benefício de estabelecer o exemplo para o público geral e para os devotos neófitos. Yad yad acharati sresthas: o exemplo que um líder estabelece conduz todos os demais. Se neófitos forem ocupados em práticas além de sua capacidade de compreensão, é provável que sua trepadeira da devoção seja colocada em perigo.

“Um devoto que é de fato avançado em consciência de Krishna, que está constantemente ocupado em serviço devocional, não deve se manifestar, mesmo caso tenha atingido a perfeição. A ideia é que ele deve sempre continuar agindo como um devoto neófito enquanto tenha seu corpo material. As atividades em serviço devocional sob os princípios reguladores devem ser seguidas até mesmo pelo devoto puro”. (Néctar da Devoção, capítulo 16)

Um último ponto, porém importante a se enfatizar, é que devemos evitar estabelecer precedentes para as futuras gerações de devotos da ISKCON que digam que está tudo bem em relação a inventar mantras, mudar mantras existentes, modificar o formato dos kirtanas etc. Se fizermos isso, as futuras gerações provavelmente continuariam o que iniciamos e, dentro de pouco tempo, a ISKCON, no tocante a kirtanas, poderia se tornar irreconhecível em relação ao que Prabhupada nos deu há apenas poucas décadas.

Apêndice: Resoluções Discutidas

Cantar dos Santos Nomes de Srimati Radharani

[Diretriz]

Uma vez que muitos devotos expressaram preocupação quanto ao padrão mantido durante a presença de Srila Prabhupada a respeito do cantar dos santos nomes de Srimati Radharani e mantras relacionados parecer estar diminuindo;

Uma vez que têm ocorrido conflitos entre nossos devotos surgidos como resultado de não haver uma política definitiva sobre este tópico;

Uma vez que, embora não seja mandatório nem necessário assim o fazer porque todas as personalidades estão automaticamente glorificadas dentro do maha-mantra, é entendível que alguns devotos possam querer enfatizar o nome de Srimati Radharani em Radhastami;

Uma vez que é bem sabido que ninguém pode vir à frente de Srila Prabhupada e cantar “Radhe Radhe” repetitivamente já que ele não o permitia, uma vez que ele sempre nos disse para cantar o mantra Hare Krishna, uma vez que nunca se ouviu o próprio Srila Prabhupada cantando “Radhe Radhe”, uma vez que não há evidência que mostre que Srila Prabhupada cantou ou encorajou outros a cantar os nomes de Srimati Radharani isolados em qualquer momento, incluindo Radhastami, uma vez que toda vez que Srila Prabhupada foi cumprimentado com “Jaya Radhe” ele respondeu dizendo “Hare Krishna”, mesmo em Vrindavana;

Uma vez que há um risco de desvios se não seguirmos Srila Prabhupada e os acharyas, uma vez que Srila Prabhupada desaprovou a introdução de mantras que não foram dados por acharyas anteriores ou não se encontram nos shastras;

Fica resolvido:

O seguinte deve ser evitado em todos os programas de templo e públicos, bem como em mídia gravada: (1) cantar o santo nome de Srimati Radharani sem o santo nome de Sri Krishna, i.e. Radhe, Radhe, Radhe, Radhe, Radhe… (2) Cantar o santo nome de Srimati Radharani dentro de mantras que não foram introduzidos por Srila Prabhupada, acharyas gaudiya-vaishnavas anteriores, ou em shastra, incluso, mas, não limitado a: (a) Jaya Radhe, Jaya Radhe. Jaya Radhe Jaya Radhe; (b) Radhe Radhe, Radhe Radhe; (c) Jaya Radhe Jaya Radhe Radhe, Jaya Radhe Jaya Sri Radhe; (d) Radhe Radhe Radhe Radhe Radhe Govinda; (e) Radharani ki jai, Maharani ki jai; (f) Radhe Shyam, Radhe Shyam, Shyam Shyam, Radhe Radhe.

Em Radhastami, os devotos podem cantar o santo nome de Srimati Radharani isolado do nome de Sri Krishna até um grau limitado, não mais do que dois ou três minutos. Se os devotos da ISKCON quiserem dar alguma ênfase ou atenção especial à glorificação de Srimati Radharani, além do cantar do maha-mantra, eles o devem fazer cantando mantras ou bhajans que são autorizados por Srila Prabhupada e nossa linha discipular. Um exemplo disso é o cantar do Sri Radhika-stava do Stava-mala de Srila Rupa Goswami.

316: Kirtan de Gênero

[Diretriz]

Uma vez que uma nova prática surgiu no kirtana da ISKCON, consistindo em: líder do kirtana canta e apenas as mulheres respondem, líder do kirtana canta e a apenas os homens respondem, e líderes do kirtana canta e toda a congregação responde;

Uma vez que não há descrição de Srila Prabhupada ter alguma vez liderado o kirtana desse modo, nem de nenhum devoto liderando kirtana desse modo na presença de Srila Prabhupada;

Uma vez que essa nova prática enfatiza a concepção corpórea da vida e nossa falsa designação como homem e mulher;

Uma vez que, quando tal canto questionável ocorre, alguns devotos ficam desconfortáveis, alienados, incomodados ou podem ainda recusarem-se a participar de semelhante kirtana, e, assim, a unidade de nosso movimento, mesmo em sua atividade mais central – sankirtana – fica ameaçada;

Fica resolvido:

Os líderes de kirtana em todos os programas dos templos e públicos devem abster-se de separar a congregação em seções de responsório baseadas em considerações corpóreas de masculino, feminino, jovem, idoso etc.

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5 Respostas

  1. Hare Krishna.

    Continuo não gostando da postura tomada para esta resolução. Percebo duas vertentes de pensamento presentes aqui: a de preservar as vontades e intenções de nosso Acarya fundador, Srila Prabhupada, e a do medo de ofensas.

    O primeiro ponto – preservar as vontades, instruções e intenções de Srila Prabhupada – considero digno e enriquecedor, pois isto torna-se o fio da pipa das mudanças inevitáveis da energia material. Ou seja, haverão mudanças, mas, preservando os intentos de Srila Prabhupada, consegue-se manter um campo seguro nas sombras dos pés de lótus do acarya.

    O segundo ponto – medo de ofensas – é mais delicado, principalmente pela presença deste sentimento acorrentador: o MEDO. Srila Prabhupada apresenta que uma das qualidades do devoto é o destemor. Ao mesmo tempo ele apresenta uma certa importância em termos “medo de maya”. Como unificar estas duas coisas? Partir do ponto de “não mudar nada” ou mesmo não dar espaço para a mudança (baseando-se no medo), é engessar uma vida espiritual, tirando dela seu valor de adequação e interação direta com seus praticantes no seu dia-a-dia.

    Assim como Srila Prabhupada apresentou em sua vida, e na sua interação com os devotos no ocidente, é possível mudar, preservando a essência. Qual é a essência? Na minha opinião, é a intenção. É a intenção de Srila Prabhupada, é a intenção do devoto que teme maya, é a intenção do propagador do “Jay Radhe”.

    Esta intenção não é mensurável. O mais próximo que temos em nossas escrituras é que um uttama consegue enxergar outros devotos de outro nível de avanço inferiores, mas o oposto não acontece. Porém, mesmo assim encontramos muitos conflitos entre “devotos puros” durante a história da consciência de Krishna. Isto mostra como é complicado partir do ponto que “cantar “Jay Radhe” ou inventar um mantra pode `inflar` um devoto”, pois, como bem sabemos, o próprio Maha Mantra e a prática de serviço devocional também o faz (vide a importância de nos livrarmos dos anarthas obtidos EM consciência de Krishna).

    Aí o meu ponto: restringir este cantar para prevenir uma intenção inadequada é em si inadequado, pois as intenções deturpadas estarão presentes em todos os lugares, e esta resolução NÃO AJUDA para o refinamento de tal intenção. Pior, esta resolução – assim como o próprio cantar de “Jay Radhe” – além de causar MAIS separação, afirma o sentimento do medo a se alastrar em mais um campo da instituição.

    Sem mais. Esta é minha opinião.

    Hare Krishna.
    Jaya Srila Prabhupada.

    4 de julho de 2014 às 7:46 PM

    • André Luiz Rodrigues Neves

      Sempre cantei radhe radhe radhe enquanto se canta o MAHA MANTRA. É a minha forma de expressão devocional à minha particular ADORADA MÃE, e até que alguém me proíba, continuarei cantando, visto que se não puder cantar num kirtana, vou cantar sozinho entre as árvores e os pássaros em qualquer parte deste mundo material=ilusão. O ego é sutilmente uma expressão da mente racional que gosta de impor regras e regulações, impedindo a livre expressão.

      14 de julho de 2014 às 10:22 AM

  2. Anônimo

    Hare Krsna! Onde podemos ter acesso aos mantras autorizados?

    7 de julho de 2014 às 4:37 PM

  3. Hare Krsna!

    Cante Hare Krishna e seja feliz!!! Alguma dúvida?!

    25 de julho de 2014 às 10:12 PM

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