O que Você Fará Depois de Ver Krishna?

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Govinda Dasa

Será que aquele tão esperado encontro com o Senhor se revelará, por fim, deveras tedioso?

Muitos anos atrás, quando eu era muito novato no serviço devocional, um intelectual bem vestido, de barba grisalha e grandes óculos, chegou ao nosso templo e levantou uma questão: “Todo o seu esforço, toda a sua prática, tem a finalidade de poder de fato ver Deus. Você O vê, e Ele vê você, e então… E aí? Por quanto tempo vocês ficarão olhando um para o outro? Deve ser, provavelmente, muito tedioso”. Empalideci. Senti um pouco de medo. O que realmente farei depois de ver Deus?

Em nossa experiência comum, consideramos, inicialmente, que o casamento é algo prazeroso. Porém, conforme o tempo passa, ele perde seu frescor e torna-se monótono. Quando duas pessoas se encontram, especialmente um garoto e uma garota, seu encontro é empolgante no início. Eles estão sempre esquematizando: “Como posso estar com ele/ela?”. Estão sempre buscando oportunidades de estar na companhia um do outro. Há luzes, faíscas e fogo abrasante.

O tempo passa, os relacionamentos terminam e o fogo se apaga. Agora eles esquematizam: “Como posso ficar sem ele/ela?”. Palavras similares, porém atitudes diferentes. Agora, estar juntos é sufocante, e eles fazem planos para se evitarem. O casamento traz tédio e expõe o lado ruim de ambos.

Essa é a história de um encontro. Agora vejamos o que acontece com quem passa por uma longa separação. Um exemplo de separação na plataforma mundana pode ser visto em uma rodoviária quando parentes vão ver seus amados. Para uma única pessoa, há mais de dez, e todos choram.

Para um entendimento ainda maior desse fenômeno, visite um crematório. Lá, os parentes não apenas choram; eles gritam devido à saudade.

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O tempo passa, os relacionamentos terminam e o fogo se apaga.

Tic tac – o tempo passa. Esquecemo-nos do relacionamento que um dia tivemos. Se essa pessoa retorna muitos anos depois, demoramos para reconhecê-la. O que falar, então, se um morto retornasse? As pessoas correriam gritando: “Fantasma! Fantasma!”. Não haveria qualquer alegria nesse encontro. Essa é a história. O encontro, por fim, traz o tédio, e a separação, o esquecimento.

Presumir que o mesmo acontecerá na plataforma espiritual, quando nos encontremos com o Senhor, é sinal de completa tolice. Encontrar o Senhor e Seu devoto é o começo de tudo. Toda a nossa prática para encontrar o Senhor não é o fim em si, mas o começo do suposto fim: o encontro. Na relação com o Senhor e Seus devotos, tanto a separação quanto a união simplesmente alimentam o sentimento de pertença, de encontro. Como isso acontece é o principal assunto a ser discutido, além do entendimento que vem das escrituras sobre o caminho para a atitude correta.

A Postura Demoníaca

Ver o Senhor sem a intenção certa é o resultado de uma consciência mundana. Hiranyakashipu queria ver Krishna, mas qual era sua intenção? Está muito belamente explicado no sétimo canto do Srimad-Bhagavatam o quão minuciosamente ele viu Krishna como o Senhor Nrisimhadeva, mas qual era a sua intenção? Matar Krishna! No Ramayana, um acharya vaishnava do sul da Índia explica que, quando os macacos estavam lutando e derrotando o exército de Ravana, eles desenvolveram um tipo de orgulho: “Oh! O Senhor Rama precisa de nossa ajuda. É por causa de nós que Ele está sendo vitorioso”. Um devoto sempre passa por esse tipo de obstáculo no caminho espiritual. Então, no dia seguinte, Ravana veio e trouxe seu vasto exército. Esse exército era tão grande quanto o oceano. Ilimitado, os macacos não conseguiam ver o fim do exército, que era formado por demônios gigantes e muito poderosos. Quando os macacos viram tal vasto exército de Ravana, compreenderam sua própria posição e começaram a fugir. Enquanto tentavam escapar, chamavam pelos nomes de Rama.

Então, quando o Senhor Rama viu aquele exército demoníaco, Ele, através de Seu poder de maya, fez cada demônio soldado assumir Sua própria aparência. Apenas imagine: para um devoto, o conceito de ver Rama é a quintessência espiritual. Nós podemos ver o Senhor Rama apenas no altar; não podemos ter a graça de vê-lO em todos os lugares.

Naquele evento, porém, o Senhor Rama, pelo Seu desejo, apareceu diante dos soldados opositores. Embora os demônios vissem o Senhor Rama em todos os lugares, qual era a intenção deles? “Ah! Agora Ele está mais facilmente acessível para que O matemos”. Eles, destarte, pegaram suas armas e começaram a dilacerar seus soldados aliados, que tinham a aparência do Senhor Rama. Em pouco tempo, todo o exército foi morto.

Assim, conquanto os rakshasas tenham visto o Senhor Rama e tenham, assim, recebido completa facilidade para buscarem Seu abrigo, foram incapazes de fazer isso. Por quê? Porque eles viam o Senhor Rama com intenções materiais. Alguém talvez pense: “Essa foi a visão de demônios. Eu, em contraste, sou devoto. Posso ver Deus”. Às vezes, praticamos a vida espiritual por alguns anos e ficamos ávidos e desejosos de estar na presença do Senhor à força. Porém, isso não é possível, pois, mesmo se nos encontremos com a Suprema Personalidade de Deus pela barganha, encontrá-lO não nos dará felicidade a menos que Ele fique empolgado ao nos ver.

Como lemos no Mahabharata, Krishna encontrou algumas pessoas para criar fraqueza em seus corações, para torná-las menos confiantes e causar desapontamento, e não empolgação. Por exemplo, após encontrar todo o asatsabha e castigar os Kauravas, Krishna encontrou Karna. Karna estava muito confiante de sua vitória sobre os Pandavas, especialmente Arjuna. Ele tinha todas as armas, porém, quando Krishna o encontrou, ele perdeu toda a sua confiança.

Portanto, vemos que encontrar Krishna não é tão importante. Esse era o ponto de Srila Bhaktisiddhanta Sarasvati Thakura quando ele disse: “Não tente ver Krishna, mas sirva Krishna de tal maneira que Ele queira ver você”.

E quando Krishna quer nos ver, o que Ele faz? Simplesmente amplia o nosso serviço devocional. Ganhamos grandes oportunidades de render serviço a Krishna, de maneiras ilimitadas.

Encontrando o Senhor

Vemos no Srimad-bhagavatam como alguns devotos tiveram a chance de conhecer Krishna. No primeiro canto, lemos sobre Parikshit Maharaja. Seu encontro com o Senhor foi algo único. Não lemos acerca de ninguém que se encontrou com a Suprema Personalidade de Deus da mesma maneira que Parikshit Maharaja. Quando Krishna decidiu propiciar Seu darshana a Parikshit Maharaja, este já estava morto. Parikshit Maharaja fora morto no ventre de sua mãe, Uttara, pela arma brahmastra de Asvatthama. Krishna, porém, reviveu Parikshit Maharaja e Se revelou para o embrião. Mais tarde, por toda a sua vida, Parikshit Maharaja buscou pela pessoa que ele vira no ventre de sua mãe, e também serviu Krishna, como seus antepassados, os Pandavas.

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Parikshit é protegido pelo Senhor Supremo ainda no ventre.

O quarto canto descreve outro encontro único com o Senhor – o encontro de Dhruva Maharaja. Dhruva Maharaja, certa vez, desejou se sentar no colo de seu pai, mas não recebeu a autorização de sua madrasta para isso. Era de se esperar que um garotinho de cinco anos de idade, nessa situação, ferido por sua madrasta, choraria, mas, se lhe fosse dado algum doce mais tarde, ele se esqueceria de tudo. No caso de Dhruva Maharaja, no entanto, ele não se esqueceu, e tornou-se muito determinado – daí ele ser chamado de Dhruva, que significa “determinado”. Ele foi até sua mãe Suniti, cujo nome significa “aquela que dá instruções auspiciosas”. Ele disse: “Veja como fui tratado por minha madrasta”. Suniti suspirou: “O que eu posso fazer? Não tenho nenhuma relação com o seu pai. Ele tem maior apego por sua madrasta do que por mim. Você adorar Krishna é a única possibilidade para que você consiga alcançar o colo de seu pai”.

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Dhruva, ofendido por sua madastra, busca por sua mãe.

“Onde encontrarei Krishna?”, ele perguntou. De forma espontânea, sem considerar, ela disse: “Na floresta”.

Dhruva Maharaja imediatamente se dirigiu para a floresta. Lá, ele conheceu seu mestre espiritual, Narada Muni, que o orientou ainda mais em relação aos aspectos do serviço devocional, através do que ele poderia finalmente ver o Senhor. Ele, então, conseguiu seu reino e o governou como um serviço a Deus.

Outra história interessante, esta no sexto canto, é a de Chitraketu Maharaja. Chitraketu Maharaja desejou um filho e realizou todos os tipos de esforços materiais com a finalidade de conseguir tal coisa. Ao final, Angira Muni foi até ele e deu-lhe um filho. Seu filho, porém, foi morto. Naquela época, Chitraketu Maharaja agiu como qualquer alma condicionada, lamentando-se miseravelmente.

Então, Narada Muni veio e reviveu a criança, que falou o conhecimento transcendental e pacificou sua família. Angira Muni disse: “Eu poderia ter falado esse conhecimento para você mais cedo, mas você não estava pronto e, portanto, eu queria que experimentasse a dor e o prazer de ter um filho. Você teve o prazer de ter um filho, agora está experimentando a dor de perdê-lo, em virtude do que está pronto para ouvir o conhecimento espiritual”.

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Narada Muni revive o filho de Chitraketu.

Então, Narada Muni e Angira Muni muito sistematicamente prepararam Chitraketu Maharaja para ver Krishna, fazendo-o ultrapassar todos os obstáculos, dando-lhe instruções adequadas e um processo protegido, prometendo: “No prazo de sete dias, você verá o Senhor Anantadeva”.

E quando Chitraketu Maharaja se encontrou com o Senhor, Ele deu-lhe uma bênção ímpar: “Você poderá ter ilimitada gratificação dos sentidos, mas, nessa gratificação ilimitada, também haverá constante lembrança da Suprema Personalidade de Deus”.

Ele recebeu essa bênção do Senhor Ananta, mas, de repente, mãe Parvati o amaldiçoou, aparentemente sem motivo, a se tornar um demônio. Ela condenou-o, dizendo: “Você não é um devoto adequado do Senhor, torne-se um asura”.

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Mãe Parvati amaldiçoa Chitraketu.

Imagine ser um associado eterno do Senhor, um devoto puro, e, então, ser amaldiçoado a tornar-se um demônio. Perder o seu filho foi doloroso, mas ser amaldiçoado daquela forma causou-lhe uma dor ainda maior.

Assim, embora Chitraketu Maharaja tenha se tornado um demônio, como o seu encontro com o Senhor teve um significado espiritual, houve uma transformação em seu coração. Portanto, quando se tornou um demônio, sua consciência não se alterou. Ele estava simplesmente à espera de sua partida de volta para o mundo espiritual, na esperança de ver Krishna, na esperança de ver os devotos de Krishna e, ao mesmo tempo, querendo servir a Suprema Personalidade de Deus. Eis a perfeição do encontro com a Suprema Personalidade de Deus.

O primeiro canto descreve outro encontro de Narada Muni. Em sua vida anterior, ele viu Krishna, mas o Senhor disse: “Você Me vê, mas você não vai atingir-Me nesta vida, senão que você vai ter que voltar em outro nascimento para alcançar-Me”. Ainda assim, Narada Muni continuou seu serviço devocional.

Lições do Srimad-Bhagavatam

Quando lemos essas histórias nos shastras, fazemo-lo para nos inspirarmos nelas, e não para imitá-las. Com essa inspiração, quando praticamos o processo correto da consciência de Krishna, como dado por nossos mentores, sob a orientação dos devotos, então, de uma forma muito original, bhakti se torna muito natural – não é sufocante, nem tediosa. Em sadhana-bhakti, há facilidades para todos os devotos praticarem em seu próprio estilo, à sua maneira única, de acordo com sua experiência, seu karma, atitude e aptidão. Cada devoto tem uma relação especial com o Senhor, e Krishna a retribui de acordo, capacitando-nos para realmente vê-lO.

O encontro de cada devoto com a Suprema Personalidade de Deus é uma experiência singular. No entanto, pode-se perguntar: se é essa a experiência do devoto, como é para o próprio Senhor? Às vezes, as pessoas se encontram com os políticos. A pessoa, ao vê-lo pela primeira vez, pode demonstrar algum tipo de empolgação. Contudo, o líder talvez não sinta qualquer emoção, porque faz esse trabalho todos os dias.

Com Krishna, todavia, não é assim. Tanto quanto o devoto está animado para conhecer a Suprema Personalidade de Deus, assim também está Krishna. De fato, como Krishna é ilimitado, Sua emoção ao encontrar um novo devoto é muito maior do que a experimentada ao encontrar o devoto anterior. Krishna encontra-Se com cada devoto de maneira muito única, ainda mais emocionante do que antes, mantendo o frescor do encontro com o devoto anterior e aumentando para limites ainda maiores.

Face a Face

E quando virmos Krishna, o que faremos? O verdadeiro serviço devocional começa, como descrito no Srimad-Bhagavatam, depois que vemos a Suprema Personalidade de Deus. Ele não para. Não é monótono, nem chato – Krishna me vê, eu O vejo. Na verdade, Krishna Dasa Kaviraja Gosvami, autor do Chaitanya-charitamrita, explica que simplesmente ver um ao outro é algo muito dinâmico: o carinho do Senhor para com Seus devotos aumenta e a afeição de Seus devotos pelo Senhor aumenta. A beleza do Senhor aumenta, e a experiência da beleza do Senhor experimentada pelo devoto continua aumentando. O que falar, então, de quando um devoto começa a prestar serviço à Suprema Personalidade de Deus nessa condição? Assim, o prazer continua a aumentar ilimitadamente. É por isso que Goloka Vrindavana é a meta mais elevada, porque oferece a facilidade de serviço máximo na situação mais íntima.

E quanto a separação e união? Quando há uma separação de Krishna, essa intensifica a atitude de serviço; aumenta-se o serviço à Suprema Personalidade de Deus, de modo que possa haver a união. E quando essa acontece, ela também melhora o serviço. Assim, tanto a separação quanto a união, na verdade, nos unem ao serviço à Suprema Personalidade de Deus. Elas simplesmente aumentam a qualidade do serviço devocional.

E, pela graça de Sri Chaitanya Mahaprabhu, o que você fará depois de se encontrar com o Senhor já foi concedido antes de conhecê-lO. Portanto, quando alguém perguntou a Srila Prabhupada: “O que você ganha depois de cantar Hare Krishna?”. Sua resposta foi: “Mais cantar”. A perfeição de encontrar a Suprema Personalidade de Deus é vista quando as coisas se vão contra nós. Isso vai acontecer. Foi o que aconteceu com Parikshit Maharaja, com mãe Kunti, com Yudhisthira Maharaja, com Dhruva Maharaja, isso aconteceu com todos os devotos, isso aconteceu com todos os vrajavasis – estar com Krishna deu-lhes uma dor maior, que não foi experimentada por qualquer pessoa mundana. Mas qual foi a reação a isso? A reação deles foi aumentar o seu serviço à Suprema Personalidade de Deus. Essa é a essência de ver o Senhor.

Nosso objetivo não é ver Krishna, senão que nosso objetivo é servir Krishna. E se, pela graça de Krishna, pela graça do guru, vejamos Krishna, seremos julgados pela nossa atitude ao vê-lO. E isso significa serviço devocional contínuo, ininterrupto, como foi realizado por todos os grandes devotos no Srimad-Bhagavatam.

Govinda Dasa juntou-se à ISKCON em 1988 e atualmente é membro do conselho presidencial da ISKCON Chowpatty.

Tradução de Chitralekha Devi Dasi. Todo o conteúdo das publicações de Volta ao Supremo é de inteira responsabilidade de seus respectivos autores, tanto o conteúdo textual como de imagens.

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2 Respostas

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  2. KRISHINA SEU ROSTO REFLETE A LUZ AZUL
    DO DIA EM VOLTA DE SEU OLHAR ENFLAMADO DEUS O SOM DA VIDA ETERNA

    21 de setembro de 2016 às 10:47 AM

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